Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



sábado, 17 de outubro de 2009

Um cibinho de saudades de Lamas


Poderá soar estranho aos lamacenses de nascimento, aos apaixonadamente lamacenses (como eu) ou aos simples conhecedores da encantadora terra da Senhora do Campo. Mas os registos que acompanham esta "declaração de saudades" nada mais são que exemplares da pureza que ainda mora nalguns recantos de Lamas. São "amontoados" de pedras, testemunhas do suor brotado das faces de todos os "bós" de chapéu e fato domingueiro, ou de todas as "bós" com a sua indumentária negra (que, por aqui, a genuinidade da pronúncia ainda não inventou os "bôs" - é "bó", independentemente do género e tenho pena só ter conhecido a minha "bó" e não ter feito o mesmo ao meu "bó"). São restos da Lamas cheia de lama, do ribeiro que dividia a aldeia em duas, do tempo das "cacadas" e das "madamas", das tabernas do "Sô Luís" e do "Sô Zé Pinto", da Missa do Galo e da reunião sacralizada em volta da fogueira de Natal. Restos cujo destino está traçado por lápis de tijolo e cimento, enquanto as silvas não devoram de vez o xisto e não se apagam, definitivamente, os sons melancólicos das rodas dos "carrus dus beis". São pedaços que resistem ao tempo mas que o tempo apagará. Calhaus empilhados por arquitectos que faziam nascer pedra do chão, entremeada por aberturas que mal permitiam ao sol abeirar-se das espartanas mesas para iluminar projectos de engenharia transmitida pela tradição. Ainda bem que a "nebe furaqueira" já não pode penetrar através de arestas não limadas e de junções amanhadas ao sabor do equilíbrio. Ainda bem que já não há fogueira de Inverno sem "tchupão", com uma abertura no tecto que se tapava quando "tchubia que Dous a daba". Já não seria capaz de trocar o conforto do sofá pelo "motcho" onde me sentava para "ciar", instalado à beira da lareira, apoiando o prato num armário que servia para "arrecadar o pão-centêo". «Ó mou filho, puruqué que num te sentas à mesa?», perguntava-me, inúmeras vezes, a "bó". Definitivamente, adorava comer rodeado dos aromas dos "guiços", do "capão" e da "gabela" que se iam queimando enquanto a noite caía, impune, sobre uma aldeia onde a electricidade não era um bem de primeira necessidade. E onde uma casa-de-banho mais não era que uma utopia substituída, quando a coisa apertava, por uma incursão ao monte ou, noite caída, por uma descida pelas "scaleiras" à "loje das burras". Até que um dia, o meu "velhote", mal habituado ao conforto proporcionado pela vivência na "vila", decidiu transformar um dos extremos da "casa dá'bó" numa moderna instalação sanitária. Acrescentando, já não me recordo se antes ou após, a, ao que julgo saber, primeira instalação eléctrica caseira na aldeia. Hoje, pouco mais de três décadas volvidas, fala-se em instalações de fibra óptica. Ainda bem... Todavia, ainda sinto as minhas narinas percorridas pelos aromas libertados pela fantástica sopa elaborada em potes de ferro ao lume, pelas torradas de pão centeio acompanhadas pelo café feito, também ao lume, e no qual era depositada uma brasa incandescente "pra le dar sabor e prá'ssentar". Estou a salivar... A sério que estou... Esta viagem ao passado está a trazer-me à memória imagens que julgava apagadas. Como o fascínio que me provocava olhar para a sequência de potes luzidios, empoleirados em cima do armário, questionando-me como era possível tal brilho depois de os terem obrigado a suportar as agruras das brasas. Ou os talheres que me eram reservados sempre que comia em casa da "bó", ornados a simplicidade, metade madeira, metade ferro, num arcaísmo artesanal de que já não encontro exemplares. Ou o púcaro de esmalte que era o meu objecto ritualizado e do qual não prescindia mesmo após as insistências "pra que bubesse nos de bidro". Era a minha Lamas... Felizmente, hoje ainda o é... Com outros contornos, com outra gente, com outras pinturas... Mas o "São Sabastião" ainda está lá, a Senhora do Campo também, e a Igreja, mesmo com muros renovados e já sem o coreto a fazer companhia ao adro por lá há-de continuar. E os "castinheiros" hã-de continuar a pintar a subida ao Facho e "ou hei-de ficar sempre contcho pur ser imberno"...

1 comentário:

deep disse...

Li deliciada estas suas memórias. A aldeia onde vivi dois anos e onde regressava - e ainda regresso - nas férias ou nos fins-de-semana não é Lamas, mas assemelha-se-lhe em muito do que referiu. Ainda recordo muito bem as casas sem "tchupão", de onde saíamos mais fumados chouriços, da comida feita em potes de ferro (a minha mãe ainda os usa de vez em quando), sobretudo a sopa de feijão vermelho e as casulas, do café feito em pote de barro e de nos sentarmos na "tropeça" ou no escano.
Obrigada pelas suas memórias. ´

Bom fim-de-semana. :)