Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



quarta-feira, 27 de abril de 2011

Folaradas - Injecções de distinto sentir


Ocasionalmente, uma sã insanidade apodera-se de ignóbil gente que, paradoxos de inventadas vanguardas, ao invés de apreciar o bulício de corredores atulhados de espécimes a paspalhar, pavlovianos reflexos atiçados por esfaimado monstro da criação do supérfluo, dedicação tem a artesanais formas de incremento dar ao assoberbamento residente nesta peculiar forma de ter orgulho em ter sido parido num mundo de pedras e calhaus. O Folar Transmontano parece ser um dos veículos da soberba... Porque não é um pecado mortal, nem moral o é, que moralidade é extasiar os sentidos com as riquezas que a criação nos facultou, e a gula, de pecaminosa, só quando satisfeita não é. Desvarios de um pretenso sandeu, fanáticos da modernidade o epitetarão, deliciosamente consumido até à medula por este incomensurável orgulho de fazer parte da prole da ignóbil gente. Porque a tradição já (só) não é o que era para os que idolatram o facilitismo de uma deslocação à pastelaria mais próxima em busca do produto acabado... "Inda há uns tchabascos que s'astrebim a indrominar uns folares e uas bolas à moda dos abós. Puri"... Haja vontade, ajuda, "tchitcha e óbos dos de berdade". E haja "quim os dêa, ou pitas poedeiras"... "Scatcha-se" o presunto, "amanhum-s'uns cibos" de salpicão e linguiça, "bota-se um tantinho de tchitcha gorda". Segue-se em alegre romaria para uma Lamas de encanto, torpor tamanho em genética espera, impagáveis sorrisos de compadres, afilhada também, abraço da alma de adoptiva irmã, a genialidade humilde de um calor único, impoluta chama que o espírito aquece. Nem o tormento meteorológico aplaca a ânsia do reencontro com a ancestralidade, retornos a uma velha infância em que o dia dos folares era oficial feriado do lar. Tempos outros, idos tempos, jamais esquecidos, sempre lembrados. Era a procissão "folaresca" aos fornos dos vizinhos, o dos Mascarenhas, saudosa D. Marquinhas, sempre sorridente, sempre diligente. Ou o da D. Deolinda, manhãs outras, em frente seguia o cortejo. Fina o passado, ressuscite-se o presente. Que a moda é a mesma, ingredientes o dizem, a vontade também, mudam apenas os actores e o cenário da peça, restituições de um pretérito nunca distante. Afinal, os aromas persistem em idêntico assombro dos sentidos, alternância às formas apenas, num repetido ocaso do ontem, deslumbramento do hoje que sobe. Amanhã será dia de repetições muitas, elenco outro, produções tais de substitutos realizadores de películas de intermináveis episódios da gente. É o Dia dos Folares, episódio infinito, oito prostrado, pessoais cunhos de intépretes que um dia passaram pela escola de dramática representação e noutro, "cousas" da inevitabilidade, cresceram. Profanação de um templo de costumes finados, moribundos talvez, sacrilégio dirão os adoradores de eléctricos artefactos. Ou uma inexpugnável resistência à herança de pais, avós e demais ancestrais, zelo da nostalgia, homenagens a oclusas vozes em registos da memória, articulados sons que um dia transmitiram o legado, vícios da alma, os direi, ou hedonismo dos sentidos. "Amassadeira" limpa, "amassadeira" pronta, alvo pó depositado em espera, há-de chegar a amornada preparação de amarela cor, casamento previamente combinado pela sapiência da tradição. Siga a boda que gente espera por tostado epílogo. Fecundações em forma de pasta em simbiose de branco com amarelo, envolvência paciente, braços que giram ao sabor de uma receita escrita nas paredes da memória. Lentamente, sem pressas, que longas são as festividades, vai-se sentindo o cheiro a inconfundíveis aromas, anestesiam-se nasais receptores, folga a mente de económicas convulsões, alivia-se a apreensão do futuro de um país adiado... Subitamente a estridente algazarra de umas mãos que à escola da vida foram resgatar inumanas forças para vergastar a disforme pasta que na "amassadeira" repousa. Surpreende a intensidade da flagelação, naquele incessante "chlap-chlap" que amansa a adormecida fera antes do despertar das leveduras. É o fascínio no feminino, como só um feminino ser é dotado para violentar a dureza tornando-a macia. Talvez a massa pressinta esse carinho em dóceis mãos que a chicoteiam num constante vaivém, numa paradoxal vexação que a amaciará a ternura. Impressiona a destreza, arregala-se o olhar para as formas previamente untadas, agora recheadas a pasta amarela, suavize-se o mortal pecado que o destino próximo está. E a "tchitcha", pedaços de antigo saber arrancados a porcinos seres, domados a fumo e sal como só uma transmontana cozinha pode adestrar. Apetece surripiar um pouco, mas inutiliza-se a pretensão com um "carólo de bola-subada com um cibeco de queijo curado", duro como extremidades bovídeas, saboroso como um divino manjar... Faz-se a cama aos folares, "mim amanhadinha", velhos cobertores de lã a servirem de abrigo, formas alinhadas e acomodadas ao sabor de antigos ensinamentos. Agora é esperar que "lebedem os bitchos"... "Abonda daí uas gestas pr'ácender o forno, se faxabôre!"... É hora de impregnar a atmosfera a distinto aroma de lenha resgatada ao monte. Força alucinogénica que asas faculta para viagens a remotos tempos, recorda-se a imponente figura da matriarca, a "Bó Maria", intensas viagens a outrora, motriz força para um sorriso mais. A curiosidade detendo se vai na evolução das chamas que fustigam o revestimento do forno, efémero regresso à mesa onde o garrafão repousa, um "copetcho" de permeio, retemperem-se forças para mais "ua gabela". Fomenta-se a combustão alimento dando à amostra de inferno, numa quase interminável espera pela chegada ao degrau da temperatura perfeita. Condimenta-se o tempo a histórias antigas, fecham-se as portas da amargura temperando o crepitar da lenha a reconfortantes piadas, "bô, dá-l'a risa àquela", "bota cá mais ua pinga atão", "num le qués tchiscar a mais um cibo de queijo?"... Discute-se a catástrofe do país, "homes" para um lado, "mulhés" para o outro, cruzam-se conversas em amálgamas de inentendíves vocábulos, por vezes, ambiente entrecortado por uma risada mais, calorosas formas de celebrar uniões de anos, cumplicidades paridas pela afinidade genética e pelo cimento da amizade. É a emoção ao rubro enquanto ruborizam as paredes do forno. Hão-de alvas ficar, diz a prioresa do forno. Destapam-se os acamados, "ulha que mim marelinhos stão!", acomoda-se o forno com o "ranhadouro", resgata-se a pá do seu esquecido canto e início se dá à invasão do côncavo cubículo que albergará enformados prazeres. Fita-se o incrível esboço que os círculos vão desenhando à medida que o infernal espaço é preenchido. Paradisíacas visões que excitam salivares glândulas... Seguem-se as bolas de azeite, "subadas" as dizem também, atulha-se o disponível espaço, fecha-se a porta a investidas outras. E espera-se, novamente se espera, num tamanho aguardar intercalado por mais uma pitada de sorrisos, conversa para aqui, discurso para lá, desconexa comunicação ali, ou silênio apenas. Anda rápido o tempo ou detém-se em oco momento, negligência aos ponteiros em emoções de familiar paródia, é assim o tempo na aldeia, num desfilar de apeadeiros e estações temporais que parecem ignorar o passar das horas. Como se um constante entretenimento da alma obstruísse a pressão da incontornabilidade dos dias. Destapa-se a boca do forno, pasmados olhares de surpresa, é chegada a hora do preenchimento da ânsia, finalizada está a cozedura. É a sublimação dos sentidos, rompem-se os laços que tempo deram ao tempo, numa luta por um estranho equilíbrio de tostado manjar em pá de forno sem mãos. Em breves instantes hordas aromáticas invadem o espaço, redondas formas exalam perfume a terra, a saber, a tradição, a memória, a emoção. Repetidos olhares atónitos, como se a visão fosse desvirginada por uma qualquer momentânea raridade. Mas não... É tão só um desmascarar de idas recordações, regressões ao futuro, inviolabilidades de recuadas épocas. "Incerta um dos que num têim thictcha a ber se stão bôs!"... Tudo se assemelha a um desmaio do tempo, num bloqueio da realidade, suga-se o tutano de amarelo petisco, como se primeva vez fosse. Surreal contágio... É a gula no auge, amparo na consciência, num frenesim repetido a cada ano e sempre renovado. São os tontos, gente que renegar não faz às origens, perseverança do querer, reminiscências de indígena fundo, louvores a memórias gravadas, renovar de laços, "tchalotice" talvez. É o degustar da tradição, num pétreo deglutir do sabor aos montes que nome deram a uma terra de encantos muitos.
São os folares, os nossos folares, alheamento de torres decoradas a asfalto e betão, fugas a corrupções muitas, cegueira dos tempos. É o orgulho sentido, este xistífero orgulho, nascido algures a nordeste, onde o sangue foi moldado a "tchítcharos" e "erbanços", a "butelo" e "butcheiras", a "pitas" e "parrecos", a "cotchino" e... A "uas carbalhadas, de bêze im quando, tamém"... "Bô era!"...

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Anatomia do abandono

Sexta-feira Santa, numa quase madrugada de almoço, invenção de desfasados horários. Alvorada em dia de abstinência, o diz a tradição, que a que carroça puxa jejua de árduos trabalhos de provimento de proteínas, deixem o peixe ter voz, sabe-se lá porque artimanhas de insatisfeito bulário... As pecaminosas mentes anuência dão à secular tradição, relegando a "tchitcha" para o baú da espera, voz dando à saborosa alternativa de um bacalhau assado na brasa. Mas isso são contas gastronómicas mais viradas para vespertinos períodos... Porque, entretanto, o chamariz do exterior superou a espera de satisfação do paladar. Não que a meteorologia estivesse disposta a dar tréguas, assim o anunciava o céu, pintalgado aqui e ali com umas pinceladas de tímido azul. Factor que impeditivo não foi a um périplo por circuitos de ciclismo de juvenis tempos. Fustigado o pára-brisas por tenebrosas bátegas de água, enfurecidas por um qualquer demónio escondido atrás de nuvens em tons de cinza, arrastadas num estranho bailado de aleatoriedade. Pecados que me penitenciam a observar o mundo meu através de monótonos movimentos de negras escovas... Cumprida a pena, em melancólico arrastar que conduziu, vagarosamente, por Vale de Prados, Pontão de Lamas, Gradíssimo, Amendoeira, até a um retorno a mergulhos de encanto, devaneios no estradão da Barragem da Carvalheira. Amainada a tempestade, retemperada a vontade, regresso pelo mesmo caminho, num apreciar de uma beleza única que afaga a saudade e alimenta a alma. Subitamente, Arrifana, iluminada pela fugacidade de uma revivescência do astro-rei. As hordas de gotículas que o passeio atormentando iam, deram uma breve folga à sua irrequietude, permissão dando a uma reconfortante, mas triste, incursão ao abandono. Imobiliza-se a viatura, olha-se em redor numa estonteante busca de vida, como se o desejo de estancar a frustração se sobrepusesse ao desespero que consome. Nem vivalma, fantasmas, apenas fantasmas, ou os ténues gemidos do xisto empilhado, onde resiste, que as agruras da passagem dos anos apagando vão o que em tempos serviu de abrigo à vida. Sobrevivem esqueléticos testemunhos de ancestral arquitectura, amparados, aqui e ali, por madeira corroída, suporte de telhas de meia cana que abatidas vão sendo por invisíveis projectéis do ostracismo. Percorrem-se as toscas artérias que um dia foram preenchidas a passos, imaginam-se pegadas carcomidas por vegetal vida, observa-se o vazio, penetrando-lhe nas entranhas em busca de algum sinal que estanque a angústia da premonição de definitivo encerramento. De súbito, um cachorro, cauda em alegre abanar, desenfreados pulos de encontro a duas "aves raras" com bípede postura. Afinal, ainda há vida! Deve o canídeo estranhar a presença de dois seres, alienígenas formas invasoras de um espaço onde pouco mais deve conhecer que a familiaridade da silhueta dos donos. Na probabilidade de incrementar a estranheza por ser bafejado por carícias de um par de seres desprovidos de rugas do tempo, faces queimadas pela agrestia, olhos marcados pela dureza dos dias. Entretanto, do nada vindo, familiares sonoridades do trote de um equídeo, mágico interromper do eco do chilreio. E um ser humano!!! Estranha visão... Estranha e breve visão... De um cavalo a saciar a sua sede no tanque do largo, olhar desconfiado dirigido a dois imóveis seres que se deliciam com a inusitada visão. Prossegue a jornada, um desvio mais, que poucos se hão-de fazer sem o retorno da monotonia eivada a pequenez. Uma paragem na frontaria da capela dedicada a Santo Estêvão, dizem-no na Europa padroeiro dos cavalos, coincidências de cavalar espécime a pavonear-se nas imediações. Dá-se permissão à regressão temporal, épocas outras, imaginação ornada a vida que por ali houve, saúda-se mentalmente a gente que passa, carregada de agrícolas alfaias, ou a anciã que transporta a sua "gabela de guiços" para atear a fogueira que inunda a tradicional cozinha a fumo, "bueiro" aberto para renovação da névoa. Talvez haja um forno comunitário, é dia de folares, sorrisos abertos, descalças crianças em frenética correria, gente à janela a saudar os visitantes. «Bôs dias nos dia Deus! Atão andum de besita? Us senhôs num são de cá, or não? Bá, ande di a comer um cibo de folar, sub'ás scaleiras q'ou já lo ponho. Mas olhe q'hoije num se come tchitcha, q'é pecado»... Do fundo da algibeira surge o aviso da modernidade, alerta para o bacalhau pronto a degustar. Retorno à realidade de Arrifanas muitas, vestígio toponímico árabe, o dizem os entendidos, "ar-raihân", terra de murtas, "ar-rihana", terra de hortas. "Bem m'ou finto, que bus-jiu digo ou! Atão os sarracenos nim tempo tiberum pra s'alibiarem nestas terras do catano, quanto mais pra botarem nomes às cousas!"... É verdade que uns notáveis frades eruditos se dedicaram a detectar "vestígios da língoa arábica" em terras portuguesas, mas Arrifana está longe de ser terra de murtas ou assemelhada às planícies da Vilariça. Olhe-se para o lugar semi-abandonado, do alto da antiga estrada a macadame, e perceber-se-á o conceito de arrife, vocábulo em desuso, ainda utilizado em pleno séc. XVI no "Livro do Tombo das demarcações dos lugares das comarcas de Tralosmontes", onde surge na designação de um lugar a expressão "arryfe de pedra"... E diz-nos José Pedro Machado, no seu Grande Dicionário da Língua Portuguesa, que Arrifana é uma "Série de arrifes". Arrifes? Coisa árabe, certo é, disseminada por todo o continental território, com extensão à freguesia de Arrifes em Ponta Delgada, dizem-no derivado de "ar-rif", flanco de montanha, zona pedregosa ou, simplesmente, rocha e pedregulho... Contam-no as lusas influências por insulares terras das Canárias, onde "arrifafe" significa terreno estéril, ou "arrife" tem como significado "terreno inculto ou pedregoso"... Coitada da Arrifana! Di-lo, também, certo geológico linguajar, onde ha arrifes em serras, como a de Aire, escarpados de falha os denominam... Seria mais poético vê-la como terra de D. Arriana, medievais nomenclaturas de descendência de D. Mumadona. Ou como bíblicas influências, Jarif o clama Neemias (7:24), Harife se pinta em hebraico, ou Arrife, alternativas formas o desenham... Ou cousas da mitologia, dizem-na irmã de Aretusa... Chega de seca, que se me espanta a saliva e se me enruga a cavidade bucal... Vou à Santa Catarina beber um pouco de água da fonte...

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Porque amanhã é dia de folares...

E porque hoje é dia de tolerância de ponto, ou de um ponto na tolerância... De interrogação, quem sabe? Sinto os neurónios anormalmente excitados, num prenúncio de gula, em mordaz afronta à abstinência. Vilipêndio da realidade... Afinal, já absorvo aromas cuja existência se resume a um próximo futuro. A ânsia do amanhã, ou do mais logo, assemelha-se a algo virulento. Cheira, apenas, a chuva litoral, e os nasais receptores já percepcionam aromas a terra, a pedras, a montes, a gente, a encantado mundo para lá da barreira de condensação. É a agradável angústia que se instala de mansinho nas penitentes horas que antecedem um zarpar à parideira terra. É "mai loguinho, ó princípio da neitinha", hora de geral debandada em busca das raízes, do "tcheiro a guiços", da atmosfera que inebria o espírito e lhe recobra os sentidos. São os rios que esperam, as penedias e profundas gargantas, é a inépcia que nos assola a cada instante de magia, como se o terceiro calhau a contar do sol se detivesse, de repente, numa oclusão da realidade exterior, inventando um novo Big-Bang que atordoa os sentidos. É a serra que aguarda, calma, ao fundo, dorso de fera domada pelo tempo, guardiã do povo, histórias muitas para contar, num assobio da brisa, eterno gemido da folhagem que lhe serve de abrigo. São os caminhos que as entranhas lhe rasgam, ancestrais chamamentos que impelem a um embrenhar pelos carreiros que pacificam a alma. É o esquisso de um tempo que pára, em esboços de desenho nunca acabado, paradoxos de aparente imutabilidade sempre renovada. E depois, serpenteado o IP4, Macedo está lá, ao descer da Corvaceira, recepção dos filhos em silencioso abraço, fraterno, plenitude de humano calor, mesmo que a frieza pareça pairar qual assembleia de fantasmagóricas cores. Mas Macedo está lá, à espera... E os filhos estão cá, à espera também... Distintas esperas, é certo, mas esperas são, factual indesmentibilidade. Já se tombou metade da tarde e a torrente de saliva já sensibiliza os estomacais ácidos para a ceia que há-de vir. O troar interior, estranhos roncos da fome, não de fome qualquer, mas de um atroz desejo de saciedade dos sentidos pelos incomparáveis temperos a terra. Expliquem lá os deuses esta clasura no arrepio que há-de vir. Porque de humana gestação ser, resigno-me a esta incapacidade de lavrar num monitor o que apenas se sente... Deficiências do arado, seguramente... E amanhã, azáfama dos dias, haverá farinha, fermento, ovos, azeite, e "muntos cibos de tchitcha pró recheio". As "amassadeiras" encher-se-ão daquela pasta amarela chicoteada por sapientes mãos, num arremesso ritmado, "chlap, chlap, chlap", enquanto se esquenta o forno que metamorfoseará a informe mistura em tostados tesouros enformados. Beber-se-á mais um copo, esperas de palavras trocadas no descanso da "folarada a lebedar". Encher-se-á o ambiente com a névoa que deixa o inconfundível aroma a fumo na roupagem. Renovar-se-á a atmosfera de janela aberta com baforadas de ar puro. E, finalmente, rasgados sorrisos ao mundo pela primeira fornada, "ó que mim bô stá"! Quentinho, acabado de sair do cubículo de aquecidas pedras... Só porque amanhã é dia de folares...

sábado, 16 de abril de 2011

As cousas do "feicebuque"...

O sossego de uma pacata tarde de Sábado... Interrompido pela voracidade de uma ligação ao mundo. De súbito, o chapéu se lhe tire, no mural de um dos muitos amigos "feicebuquianos", um incessante vómito de fotogramas. Não umas reproduções quaisquer, tingidas a digitais modernidades, antes um desfilar de marcas do tempo, de um pretérito tempo em que a minha "vila" ainda não se tinha prostituído à infâmia do betão. Largos sorrisos, numa estranha simbiose com nostálgicos espasmos, como se um paradoxo do tempo me tivesse amputado o presente, resgatando-me numa temporal regressão a tardes de encanto, manhãs também, onde o garoto de arregalado olhar abandonou o ventre da Escola do Toural para ingressar na balbúrdia do "Ciclo". O "Ciclo" é que era! Por lá circulavam os "grandes", impalpável conceito em cujas entranhas me incluiria, seria "grande" também! Numa amálgama de gritarias muitas, algazarras constantes, sonoras derivações de proveniências várias. Já não eram só as familiares vozes dos "putos do Toural", afinidades tamanhas nascidas no regaço da professora Maria Cândida. Era o choque do mundo real, como se o "Ciclo" fosse um lá fora qualquer, num corrupio de gente que vinha das Escolas da Praça, do Trinta, e de todas aquelas aldeias das quais, em relação à maioria, só lhes reconhecia a familiaridade dos nomes, imaginando-as povoados de outro reino. Hoje reconheço-lhes o abandono, o esqueleto de xisto, as fantasmagóricas escolas de peculiar arquitectura, um dia preenchidas de vida, hoje exalando putrefactos aromas a morte, da perfídia nascidos... Era o Solar dos Vasconcelos, pátria do Externato Trindade Coelho de idos tempos, Escola Preparatória Eng. Moura Pegado de revolucionários anos 70, ou a simplicidade do "Ciclo" para uma horda de "putos". Era o degrau para a "Escola Técnica", que Liceu ou Secundária não tinham ainda conquistado o direito a vocábulos correntes. Era a conquista de um mundo que soava a inacessível enquanto duraram os quatro anos de desconfortáveis carteiras de madeira, reguadas de quando em vez, castigos por não se saber na ponta da língua os nomes dos rios de Portugal, e o conforto gerado pela segurança da mesma sala, da mesma professora, das mesmas caras, do mesmo recreio. Hoje soa a incoerência do crescimento da infância. Afinal, imaginava-me "grande", "puto" sendo...
Mas permanecem irremediavelmente gravados os aromas da inglória "grandeza", as imagens desse ritual de dúbia penetração na adolescência. O fascínio da "escola grande", com um recreio "grande", com gente "grande". E com imensos professores, incomparavelmente mais que a singularidade da professora Maria Cândida! De repente, tenho as memórias tomadas de assalto por um rol de nomes que me marcaram os dias, a formação, a educação: a prof. Iria, o prof. Campos, a prof. Inês, o prof. Seabra, o padre Nélson e outros tantos de que recordo os traços faciais mas não os nomes. E o Sr. "Maxmino", sempre pronto a dar umas traulitadas aos mais traquinas... A D. Maria sempre disponível... Ou a inesquecível simpatia das senhoras do Bar... Aquele Bar, o inconfundível cheiro do Bar! E porque menção a aromas fiz... Indómita vontade de um efémero regresso, breve apenas, na fugacidade de sessenta segundos, às salas da insurreição da (in)segurança, onde o monóxido de carbono desenhava uma atmosfera manchada a névoa de cascas de amêndoa queimadas em improvisados fogareiros. Oh, se hoje fosse! Estariam, precocemente, finados os imberbes! Ressuscitaram, quem sabe, emergindo de um qualquer "carambelo", subtraindo-se ao gume de um qualquer "candiólo". Eram frios os tempos, geadas tamanhas, "sbaraba-se" numa mal amanhada calçada de lisas pedras, "scatchaba-se" a camada de gelo que cobria as poças com "uas lapadas" ou com "uas biqueiradas"... E aquele ar impregnado a fumo de invólucros de frutos secos, aquecidas as extremidades que luvas usam, temperadas hostis forças... «Meninos, todos sentados, que agora temos que começar a aula!»... Enregelados pés, olhares atentos... Era o "Ciclo"... Hoje é, tão só, um pedaço de recordação transfigurado em aborto arquitectónico... Como era linda a minha "bila"... "Bá, berdade, berdadinha, ind'ó é... Dizi-o o coração... Mas aparece-se mais´c'ua abantesma injaldrada por uns aldrúbias quaisqueras... Dixu-mu o Ti Tonho Manco, o da Ti Maria Birolha, que bibe ó cimo do pobo... Bô, cmu m'indromino co estas cousas im que crece o natcho... É que regas! Que mintiroso m'assaiste! Bem m'ou finto! E frias-te no crutcho"!...

terça-feira, 12 de abril de 2011

Novo amigo na rede social: "Turismo Macedo de Cavaleiros"

Vasculha-se uma qualquer rede social, no mural os suspeitos do costume, músicas partilhadas, partilhas outras, conivências ou polémicas, cumplicidades na leitura, demais beneplácitos ou censuras. Partilha-se, gosta-se, reconhece-se gente, desconhece-se, por vezes, ou faz-se simplesmente de conta que o planeta deixou de girar por instantes, e toda a cósmica energia se concentra num pedaço de teclas agrupadas que, por magia, transformam um monitor em corrente de vida. Virtual a dizem, a imensamente real se assemelha. Repousa o mundo num pedaço de processadores e memórias RAM... Mesmo que haja mundo lá fora, mundo de benfazejas irradiações de calor para lá do emanado pela digestão da máquina que processa informação. Humano calor... Mas esse não extirpa informação e a reduz ao mundo global. E, irrefutáveis verdades, há "amigos" na social rede que se resumem à impalpabilidade... Não se tocam, mas tocam. Tenho um novo "amigo" na rede social: "TURISMO MACEDO DE CAVALEIROS"! Em boa hora!!! Louvores ao imberbe!!! Talvez pouco minore o esquecimento de turísticas rotas, que entesourados areais repousam em meridionais terras, assim o ditam os interesses. Talvez seja um pequeno e inaudível espirro, mas é indubitavelmente melhor que espirro nenhum. E, mais não seja, "arrebunha-me os pur dentros e fico tchêo de proa"! Reduzindo a saudade que acumulando se vai nos intervalos de incursões à terra-mãe. Louvores ao imberbe, voz dando a repetitivos encómios!!! De repente, a infame gula dos olhos... Vêm-se e revêm-se as fotos publicadas pelo novo "amigo", num extasiante arrepio dos sentidos que dota o espírito de aliformes membros. E voa-se, ou deixa-se voar, supersónico voo de renovado Concorde, ou a concórdia com aladas formas de montes e vales. Estou lá, pressentindo-lhe o âmago, sugando-lhe a essência, provando-lhe o néctar. Lá, onde mora a ancestralidade, onde reside a alma, onde habitam as pedras de que sou feito. Lá, onde sou percorrido por incontidas emoções, geradas sabe-se lá por qual pedaço de xisto, como se o orgulho fizesse parte da prole de incógnito pai e desconhecida mãe. Sou filho da terra, pronto, do pó talvez, de uma fugaz magia do tempo, subtilezas de um esquecido fraguedo ou de uma abrupta escarpa, como se de uma qualquer poção de água do Azibo tivesse brotado. E arrepio-me com isso. Cada "tchotcho com a sua tchalotice"... Ainda que os receptores auditivos e oculares vão sendo fustigados pela informação de que Macedo está sem vida, persisto em sentir-lhe o pulsar, mesmo à distância. Parcialidades do coração, talvez... Ou imparcialidades brotadas de vivências muitas em terra que dizem moribunda ou prestes a finar. Cego serei de obstinada paixão, assim o dizem os sensatos, ou chatos direi, que se danem, que em intestinas lutas prefiro ser helvético... A neutralidade afaga-me as entranhas do gostar e gosto de gostar, pronto! Dizem os antigos (seja lá qual for o conceito de antiguidade) que quem a feio ama bonito lhe parece. Irrefutável argumento, não gosto de contrariar a sapiência dos anciãos (quando conveniente me é, confesso)... Fique a feia beleza, assim seja, amanhem-se os contestatários com a fealdade, contente-se o céptico com a ingenuidade, sublinhe-se a abstracção de uma qualquer irrealidade. Porque, afinal, Macedo de Cavaleiros não é um concelho qualquer: é o MEU! E o de tantos outros que "meu" o consideram, egoísta visão contrária que o faz, apenas, "deles" ou "teu". Porque meu há só um, estranha confusão, e o que é meu é assustadoramente belo! Lógica conclusão de pretenso ilogismo: Macedo é assustadoramente belo, então! Porque é MEU... Se dúvidas houver, fica o prévio agradecimento pelo tratamento da obstinação no terapeuta mais próximo. Sem garantias... Acrescido da garantia pela profusão de uma estranha volúpia que conduz ao ensandecimento dos sentidos a cada invasão ao mundo que assistiu ao meu primeiro lacrimejar. Basta olhar para a "vila" com outro periscópio da alma. Ou perscrutar-lhe as entranhas com lentes distintas. Pressente-se-lhe o sopro do passado, sente-se-lhe o fôlego do presente, adivinha-se-lhe a respiração do futuro...

NOTA: AS FOTOS (À EXCEPÇÃO DA PRIMEIRA) FORAM RETIRADAS DA PÁGINA DO "TURISMO MACEDO DE CAVALEIROS"...

Essência das cousas

Desconheço se o nada existe, mas é de lá vinda esta indomável saudade que, ao sabor de uma esquinada brisa de nordeste, limados os cantos, se acantona nas horas que passam. Mais intensa, de intensidade menor, ou de incomensurável dita, folga o costado enquanto o silvo do chicote amansa o ar impregnado a aromas de terra. Verdugo dos dias, noites também, e madrugadas outras, quiçá... É o prenúncio do fumo de "gabelas de guiços" que invadirá o cubículo, lacrimejantes olhos, hipnotismo dos sentidos, fixos olhares em chamas que aquecem o forno de todas as gulas. Será o folar, a bola de azeite, leveduras da alma, fermento da génese, um abraço na orgia que acometerá nasais receptores. Venha de lá o pecado, o de carnais prazeres, não o outro, virem-se as perversas mentes para as carnes que recheio dão à massa de ovos, azeite e farinha. E o invólucro de gordura que as separa do resto do amarelo manjar? Salivo, se salivo, como se as bucais enzimas sofressem um repentino esgotamento... "Atão, um home tamém tem dreito a uas pironguices"... Oh lentidão dos dias!... "Pacência", hão-de sucumbir ao inexorável rodopio da tríade de ponteiros. Tic-tac, tic-tac, o próximo sorriso de xisto é já ao virar da próxima descida... Ou subida, que "mai fai"...