Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



sábado, 30 de outubro de 2010

Taciturnidade dos dias

Por vezes sentimo-nos na contingência de abafar a vontade, uma quase indómita vontade de largar amarras e desatar em navegações por megalíticos oceanos. Mas remetemo-nos à clausura, enquanto aspiramos a zanga dos deuses, privações do astro, rei o dizem, a celeste abóbada tingida a limbo de negro, escuridão do dia, numa cabal demonstração de incontidas naturalidades atmosféricas. "Tchobe que Deus a dá", ou numa mais pitoresca versão apreendida de pretéritos tempos estudantis, até os cães bebem água de pé. E por aqui anda a gente, singulares formas de adesão a um ascetismo forçado. Mas sabe bem, de igual forma. Trás-os-Montes também aprendeu a ser mar, transgressões por vezes, regressões outras, sequências tais que culminam em três de inferno. Estamos nos outros nove, de Inverno os pintam, desgarradas cores ou talvez não, que esta fruste terra é pintada a nunca inventadas tonalidades. Talvez por isso a ame, a adore para lá de compreensíveis entendimentos, desmedidas paixões por uma terra de incontáveis partos, não os consequentes de nove, mas os da surrealidade de um chão capaz de parir pedras recheadas a batatas ou castanhas. E a suor de gente... Talvez esta sonoridade me afecte, cadências muitas de bátegas, "chlap-chlap", "ping-ping", fustigadas vidraças que parecem chorar, ou frutos à espera de repetidas maturações, molhados, suados, quem sabe, ou humedecidos por vontade divina. Mas sabe bem, repito... Como bem sabe o alegre cantar de um qualquer conjunto de aves que parecem festejar a tormenta, abrigadas nos pinheiros fronteiros. Ou como bem soube o almoço, saberes do tempo, "adôbo" ou vinha de alhos, costelas em repouso de encantado tostar, aromas ao vento, cálidas estrofes de um poema de lenha a crepitar. Ou, simplesmente, desencontradas poesias escritas a lápis de xisto... Frutos secos à espera de uma quase incineração, ou talvez não, outros há que desdenham "d'ua gabela de guiços", basta um seco figo para os aconchegar. Variedades muitas, sucos da alma, filhos do vento e da chuva, do calor também, o suor como pai, as rugas por mães. É a terra, o espírito das pedras, místico, druidas e fadas num bailado só. É isto, é pouco, é muito, é um raio de sol que obscurece o negro, é a chuva que insiste em cair, duradoura paz de uma raíz da terra. Sou eu, és tu, você também, o senhor, a senhora e vossemecê, quem sabe? É isto, dizia, é Trás-os-Montes... Entende? Afirmativo? Então é filho de xisto e granito...

Compensações por coisas simples e banais

Sair da Invicta a uma Sexta-feira ao final da tarde, através da A4, é um exercício próprio para transfigurar a salutar paciência em atroz demência. Sabedor de tal, passei a aproveitar o comodismo da VRI e primas A-Quarentas e qualquer coisa. Não perderam o epíteto de cómodas, mas ganharam o incómodo de, nuns míseros quilómetros, ver a minha carteira sequestrada por uns artefactos metálicos, obras de arte suburbana erigidas por desgorvernados artistas, não plásticos, mas cada vez mais de plástico, ao sabor de disparates cuja culpa é atribuída, invariavelmente, à mediática crise. Mas fui apanhado desprevenido pelo hábito... Quando dei por mim, mal refeito do equívoco de ter renegado a promessa de não circular pelas novas artérias cleptómanas, já as ditas me tinham surripiado três euros e meio, sem apelo nem agravo. Nada como passar por uma experiência traumática para não desejar repeti-la... Circunstancialmente, apeteceu-me cantar o fado, não o popular do trinta e um, mas o da A-Quarenta e um. «Aaaaiiiii.... Ó-la-ri-lo-lela, Como estes não há nenhum, Segue o roubo em Portugal, Até na A-Quarenta e um!»... Repentinamente, fui acossado por um inexplicável saudosismo da velhinha Nacional Quinze. As viagens eram tormentosas, curva e contracurva, intermináveis filas por vezes, um autocarro da extinta Cabanelas que parava a cada cem metros e servia de guia ao extenso formigueiro automóvel, pára, arranca, primeira, segunda e dali não saía até me afastar do perímetro distrital da Invicta. Mas não me sentia roubado! Cousas da Cleptocracia... Adiante, que a A4 está perto, ao virar da portagem. E Amarante, um pouco à frente, logo ali, onde se descortina um acumular de traseiras luzes encarnadas, prévio sinal da exaltação do espírito por pressentimentos de viagem demorada. Sorte danada! A paragem forçada ocorre antes da saída que anuncia o tortuoso itinerário para Marco de Canaveses. Conheço-lhe as entranhas de outras fugas, desvios de tormentos outros. «- Pode ser que resulte»... Resultou, felizmente, resultou, mas fez tardar a hora do repasto que sábias e ancestrais mãos iam preparando. Chegou tarde o desbravar dos sentidos, mas chegou, por entre um breve abraço mais, que a fome ia mutilando as paredes estomacais e multiplicando a ansiedade de degustar o sabor a terra. Cheira a frio, não um aterrador frio invernal, antes aquele frio que arrepia a espinha ao sair da amena temperatura do companheiro de jornada, um leve choque térmico apenas, doce, saboroso, distinto. E cheira, também, a lenha queimada, freixo talvez, oliveira quiçá, carvalho provavelmente, ou qualquer outra, que "mai fai", elimina uns arrepios, seduz com outros. A estranha agradabilidade de adornar os sentidos com os aromas a fumo que passam a decorar a roupa... Sentidos outros que absorvem o desenho de umas alcaparras (as de azeitona, não as outras), temperadas, numa simbiose dourada a azeite e vinagre, uma pitada de sal e um "cibo" de cebola picada, chamariz para a exaltação de gostos perdidos. Ou outros pitéus mais, só para entrada, só para compor o estômago dos «mous filhinhos, que bindes tchêinhos de fome!»... Venha de lá a satisfação do prévio pedido, mimo do inigualável frango caseiro, suculentas coxas que invalidam receios da gula. Reconfortado estômago, divina marmelada, só para adoçar, supremo queijo de cabra, para compensar o doce, nada de mais, delicioso anúnico de sobremesa apenas. Porque a aletria, aquela cremosa aletria aguardava, escondida de gulosos olhares, "grand finale", último aplauso antes da entrada em cena da "volta dos tristes". Só para descontrair, só para desgastar os excessos, só para matar saudades da "vila". E que saudades! Quase deserta, como quase deserta estará em cada noite de tardios repastos, exceptue-se o alarido de académicos festejos, aqui e acolá, lá longe, de passagem. Como de passagem aqui estou, instantes breves na brevidade do retrato de uma noite com coisas simples e banais. As últimas brasas, trémulas, moribundas, anunciam a morte de um dia que já aconteceu, num sempre ansiado retorno a este frio ar que me aquece. Inexplicáveis compensações... Velhinha fisga por testemunha...

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Consolos do desconsolo

Anualmente repete-se este misto de sentimentos. Estranha forma de vida esta! A proximidade de mais uma incursão às raízes faz balançar a alma. De um lado, a excitação pela adrenalina gerada pelo aproximar da partida para mais uma fusão com o Marão, calcorreando um mal parido IP4, num dia em que a chuva fustigou anormalmente a terra. E a deliciosa ansiedade pelo reencontro com o ar que regenera, com a família que aconchega, com as serras de Bornes e da Nogueira que amparam a "pátria-mãe", com o Azibo de mil e um encantos, com o xisto e as pedras que com ele se irmanam. Do outro, a saudade, ou a áspera forma como nos dedicamos a relembrar a saudade. E a triste constatação de que, num ano mais, se irão repetir abraços da virtualidade a imagens de gente de quem já sentimos o calor e hoje apenas sentimos o trinar da recordação. Este ano terei mais uns abraços virtuais, daqueles que desejaríamos fossem reais, e muitas vezes repetimos numa realidade passada, mas que ficam sempre por dar quando alguém que nos é próximo é atingido pelo natural ciclo da vida. Esta semana partiu mais um... Ficam as imagens do caçador sorridente, daquele sotaque único, da hospitalidade com que sempre recebia, dos longos jogos de damas com o patriarca, sentados num velho escano com a lareira por companhia... E fica uma singela homenagem... Nada mais... Agora, é hora de zarpar, Macedo espera-me! Não é hora de fado, é tempo de ouvir as castanhas a estourar, num bailado acompanhado por imaginárias gaitas-de-foles onde os paulitos são substituídos por uns "copetchos de girupiga"! "- Bota lá mais um, c'um catano!"...

domingo, 17 de outubro de 2010

O "silente dos inocêncios"...


... ou a degola dos ditos. Implacável, silenciosa, atormentadoramente silenciosa. Como uma neoplasia maligna, adenocarcinoma da alma, sente-se, uma lenta corrosão das entranhas, uma submersão forçada onde até as silvas servem de verdugo ao afogado, renegando o comum senso. As "Cousas" foram geradas através de inseminação natural, num coito pétreo que renega Darwin e adultera Lineu, onde o metamórfico xisto se fundiu com o ígneo granito, gestação de um corpo com pés de sobreiro, pernas de oliveira, tronco de castanheiro, braços de videira, cabeça de súbdito do Reino Maravilhoso, alma de descendente de Principado Macedense. Talvez a alimentação devesse resumir-se a batatas e centeio, castanhas e azeite, bísaro e mirandesa. Talvez a rega devesse limitar-se à proveniência do Azibo, do Tua ou do Sabor. Talvez, quiçá, provavelmente... Um dia, num anómalo dia equivalente à adição de múltiplas vinte e quatro horas, o céu tingiu-se de um negro mais negro que a atroz negritude de inimagináveis trevas. A escuridão foi vilmente consumindo os rasgos de ténue luz que irradiavam de um povo que brilha, um povo que manietado é, compulsivamente guiado à cegueira e à surdez, digerido num processo de autofagia em que da disfonia se passou à mudez. Uma melodia cantada em acordes de silêncio, lida numa partitura sem pentagramas e desprovida de claves, breves e colcheias, acompanhada de um orquestra de instrumentos afónicos. Mas com maestros... Inúmeros Calistos Elói, saídos de profundezas camilianas, anjos que queda não tiveram, antes elevação na ausência de escrúpulos, sublimação pelo engodo de corrupções muitas, desmedidas paixões pela renegação do Reino que Torga pintou. E a essência das "Cousas" sofreu um ligeiro desvio, apenas ligeiro, porque da terra se trata, esquecida, vilipendiada, calada, inundada, castrada... Num longínquo dia de permanências estudantis por terras banhadas pelo Tejo, terras de albergue a Calistos, uma qualquer Calista, professora a diziam, aculturada se fez por capitais ares, renegando a génese, de arrogantes humilhações se armou, dizendo ao Cavaleiro que Lisboa era Portugal e o resto era paisagem. Os transmontanos genes altercados ficaram, ripostando que o Norte é que era Portugal e o resto eram conquistas. A ousadia valeu-me uma injustiça mas adubou-me o orgulho. Anos passados, ousadias esquecidas, inverteu-se a posição de históricas batalhas. De conquistadores, resignámo-nos a meros conquistados, submersos em barragens de migalhas poucas, numa persistente tentativa de transformar Vila Real e Bragança em Sodoma e Gomorra. Mas os cananeus vêm de fora, paridos lá dentro... É-me indiferente quem me governa, mas já não me é indiferente esta permanente perversão em que me vejo na contingência de prostituir a minha essência porque uns "labregos" se associaram a uns "lapouços", Calistos de um lado, Elóis do outro, gente em quem depositei economias de esperança, mas me come as economias reais porque o monstro da cleptocracia tem um apetite voraz. Não me calo... Não me calo... Não me calo!!! É hora de passar o Rubicão... Não vou dar permissão a ser cobaia de uma "almastectomia"... "Alea jacta est"...

terça-feira, 5 de outubro de 2010

O calvário da rês pública

Instala-se a dúvida... Procuro, desenfreadamente, esquivar-me a esta quase indomável apetência para transfigurar os pensamentos, dando-lhes vida através de um monocórdico teclado. Contudo, o bombardeamento foi despoletado logo ao despertar, marcado a discursos de altas individualidades, com assistência de outras não tão altas, mas de semelhante dimensão, mantendo-se as incógnitas e baixas individualidades remetidas a uma reclusão para lá do perímetro de segurança... Como convém... Ao longo do dia, o troar persistiu através dos três canais informativos, numa panóplia de monotonia comemorativa... Decido remeter-me à leitura, enquanto o leitor de CDs debita uma qualquer selecção musical. Para temperar melhor a chuva que se abate sobre o arvoredo, dou vida àquela coisa que nos faculta uma ligação ao mundo exterior, auscultando através da virtualidade aquilo a que o tempo cinzento não convida. Para colmatar esta embriaguez de pouco mais que nada, vou partilhando saudades do Azibo, de Macedo, das gentes, do xisto. Partilhando, de igual forma, umas amostras daquilo que me vai adoçando os melómanos tímpanos. Sucedem-se as tentativas de me alhear deste estado de hipnose comemorativa a necessitar de uma catarse. Que me perdoem o Relvas, o Arriaga, o Buiça e os Carbonários, mas nada tenho para comemorar, num Centenário que rima com Calvário e onde, por não ser uma alta individualidade, me sinto tratado como uma Rês Pública da República. E não vou tratar esta cefaleia da alma com nenhuma decapitação... Mas o que tem isto a ver com Macedo ou com Trás-os-Montes, afinal, a génese da amálgama das "Cousas"? Nada ou quase nada... É, apenas, indesmentível que esse território encravado entre montes e rasgado a sul pelo Douro faz parte, oficialmente, desta República que hoje se comemora. Como inegável é que existe gente que carrega esse metamorfismo ígneo desenhado a xisto e granito. De um desses magníficos exemplares, ao que parece rês pública como eu, proveio um dos rastilhos para estar por aqui a efectuar esta transposição de ideias, quiçá polémicas, quiçá desconexas. «Um cidadão que não questione o regime não merece viver numa democracia»... O outro teve origem em semelhante proveniente... «Hoje, em Dia da República, devíamos DESPEDIR os politicos profissionais e colocar os profissionas na politica»... Silêncio, um inusitado e prolongado silêncio, lenta deglutição dos rastilhos, uma quase maratona de conexões neuronais, um agonizante torpor que quase possui o condão de desencravar este nó górdio... Apetece-me ripostar ao bombardeamento. Todavia, reprime-me a consciência alertando-me para o facto de eu não ser papel higiénico. É um facto que o não sou, mas não me livro de fazer parte dos comuns instigados a limpar a merda que os que discursam foram distribuindo(para os mais sensíveis, podem regredir uns vocábulos e trocar, figurativamente, o termo por "caca"). Tenho vivido na ilusão de morar num país onde impera, segundo as sábias palavras de Churchill, «a pior forma de governo, excepto todas as outras que têm sido tentadas de tempos em tempos». Uma tal a que os Gregos epitetaram de Democracia, aquela a quem o irreverente Shaw designou como algo que «é apenas a substituição de alguns corruptos por muitos incompetentes». Reflectindo bem na irreverência percebo, afinal, porque não me sinto motivado para comemorar o Centenário. Que República é esta que começou de tal forma anarquicamente, que só na I República, entre 1911 e 1926, teve oito mandatos presidenciais? E que atravessou uma famigerada II República em que vingou um tal de Estado Novo? Finado por um dia em que o cravo foi elevado a ícone, num nascimento da III República na qual o poder deveria provir do "demos", o povo, mas que esse mesmo povo foi entregando, paulatinamente, a "demos". Demónios que adulteraram o sistema democrático, metamorfoseando-o numa oligarquia que, nos dias de hoje, já chegou ao patamar da cleptocracia. Este malfadado sistema em que nos convidam para ir ao restaurante, constrangendo-nos à limitação ao prato do dia, enquanto assistimos, impavidamente, ao delapidar das parcas poupanças de rês pública, porque somos compulsivamente obrigados a pagar a factura da fausta refeição que o compincha se julga merecedor. Como digestivo, ainda temos que assistir com deleite às queixas do desgraçado... Esta não é a "minha" República, nem definitivamente é a "minha" Democracia. Talvez seja hora de substituir, mesmo, estes políticos profissionais por profissionais na política. Talvez seja hora de adornar a democracia com uns adereços de meritocracia. Talvez seja hora de colocar em prática um dos lemas que me acompanha: «Podem roubar-me a comida, mas jamais me roubarão a fome». Talvez seja hora de gritarmos bem alto o Artigo 1º da Constituição da República Portuguesa... Talvez seja hora...