Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



sábado, 27 de agosto de 2011

As partículas da impunidade

Ocasiões há que potenciam esta, pejorativa para uns, irreprimível vontade de imergir nas saudades do saudosismo, redundâncias da alma. Não é traje a nostalgia, trata-se apenas de uma desequilibrada balança de três pratos. Na incapacidade narrativa de desenhar o espécime, pelo esquisso da irrealidade me fico, flua o imaginário num esboço de regressão temporal. Tempos houve, idos tempos não muito recuados, de despertar a respeito, e a respeito adormecer. Era injectado à nascença, como se, independentemente do género, a prole tivesse o lóbulo auricular adornado a invisível pendente. Era uma inapagável marca dos dias, subtil sinalética, entre coisas outras, de humilde vénia ao que propriedade alheia era. As parcas viaturas que circulavam por, poierentas algumas, artérias da minha "vila", detentoras não eram de alarmes, supérfluos acessórios para a pacatez. Estacionava-se o veículo, de antemão sabendo que, arcaicas manivelas rodadas, os vidros abertos seriam apenas um convite à invasão de moscas, ou outros alados seres. Sairiam com o andamento... Invariavelmente, não havia o peso do porta-chaves a corroer a algibeira: a chave de casa incrustada ficava, em diurna permanência, à vista de todos, na respectiva fechadura. E raramente, mas muito raramente, os tímpanos eram obsequiados com novas de "amigos do alheio". Hoje, melancolia da inversão proporcional, "rest in peace" ao respeito, ou "sit tibi terra levis", louvores à impunidade ou, instância última, razão tinha Lavoisier. Omitiu o químico francês o parágrafo único ao seu princípio de conservação da matéria: aplicado a humana essência, sérios riscos corre de deturpação por envenenamento dos costumes. É a corrupção dos dias, importação de sabe-se lá o quê, ou saber-se-á, será a globalização, ou desmesurado incremento de egocêntricos umbigos? É o capitalismo! - vocifera uma ala! É a anarquia! - protesta outra. É a sociedade! - outra clamará... Entretanto, incriminem-se policiais forças... "- Atão o sacana do polícia infiou ua lostra no bandido"? PONHA-SE A FERROS O POLÍCIA!!! "- Bô, e o bandido o que fezu"? NADA, SEGURAMENTE, PARA LÁ DE SER VÍTIMA DA SOCIEDADE... "- Roubou-l'o ouro à Ti Maria Miquinhas, indrominou o Ti Tonho Mouco, racoseu-le a reforminha e inda le botou as manápulas às goelas, q'o home stá tchêo de maçaduras no p'zcoço. E pra mangar co a gente inda se pôsu a méjar no adro da igreja"... COISA POUCA... "- E já foi acaçado"? TALVEZ... "- Dixo-mo o mou q'era o Tchico Aldrúbias, queitado. Tamém, o que querium? O pai obrigabó a ir prá escola pra ber se se fazia home. Dás bezes inda le punha ua aixada nas mãos pra q'aprendesse a num andar à boa baiela. Munto sofreu o indêze. Era um bô rapaze, nunc'às minhas bistinhas o birum trabucar, morreu-l'o pai quando l'sbarou a carroça das burras pur'a ribanceira abaixo. Foi a sorte do Tchico! Depeis do enterro num boltou a alapar o sim-senhôre nos motchos da scola. A malbada da mãe ind'ó queria botar áprender ua arte... Queitadinho do Tchico, depeis d'ua bida álombar co d'zprezo da sociedade, ind'ó querim infiar nos Corrécios! Sim uas mines ou uas cigarradas, sequera! E aparecesse-me que nim têm trabisão, nim intrenet nos quartos"... Entretanto, nesta metamorfose dos dias, prostituição de costumes, os "Tchico Aldrúbias" têm consciência dos "queitadinhos" que são, vítimas da sociedade, despudor dos tempos que correm. Sabem que navegam em águas de impunidade. Por isso não espanta a sucessão de vandalismo que vai assolando o que um dia era terreno sagrado, inexpugnável, inatingível, respeitável. Desta vez foi o Santuário de Santo Ambrósio, profanado, vandalizado, assaltado. Amanhã será outro, o nosso próprio santuário, quem sabe... E num qualquer depois de amanhã, ou tarde será, ou "dixo-mo o mou bruxo q'inda boltemos ós tempos de cabeças abertas ó berde"...
(NOTA: Primeira foto, autoria de Paulo Patoleia (captada no recinto de Santo Ambrósio) ; Última foto, autoria de Vale da Porca Digital)

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Reticências de abafada grandeza

Pouco dado sou a públicas homenagens. Creio na voz dos actos, acredito na sonoridade das obras. Finjo, por vezes, alhear-me da proliferação de súbitos encantamentos emoldurados a momentânea falsidade. Mas quedo-me pelo limbo do fingimento, fragrâncias de névoa, cachimbo inerte, prolongamento de tabaco com aroma a carácter (não existe à venda em tabacarias - banido de comerciais circuitos)... De privadas manifestações a subtil exteriorização sem recurso a festival, decorativos efeitos ou musical banda em alvorada, retrocedo ao degredo de um prosélito pintalgado a anátema. Por vezes, porém, não me contenho e, de exaltação em exaltação, provimento dou a esta quase vulcânica forma de enaltecimento ao que parido é por terras que deverão, um dia, ter sido calcorreadas por desenfreados Zoelas, antepassados da essência elevados a relíquia do esquecimento... Cousas outras, o direi... Chamem-se-lhes os descendentes, ou seguidores de passos, lhes chamem, que de certezas não é o mundo feito. Ou será, conveniências de passagem na esquina dos proscritos, vingue a modéstia, drenagem de terrenos aparentemente desprovidos de humidade, ou secas gotas de um estranho composto liquefeito. Abençoada abominação ao desperdício da sublimação da diferença! Perdoem-me os destinatários desta afronta aos princípios de remetimento à sobriedade. Ventos da montanha, não me contenho! É o gosto pela diferença, controverso gosto talvez, o duvido porém, que a unanimidade vai decorando almas outras, e silenciar não faço a esta súbita vontade de publicidade dar às reticências de abafada grandeza. Tem nome, duplo nome, distintos seres emparelhados a arte, pura, divina, abençoada a terra, temperada a distinta agrestia, vales e montes assolados por aroma a Trás-os-Montes, genes enraizados em xísticos solos. Cousas de inimitável voz, Kamané se proclama, Carlos Baptista o é, tela de som, catálogo de infindável arrepio... E cousas de quadros pintados a pincel de dedicação, apontadas objectivas, cores da essência, Cavaleiro, andante também, mas de caminhos com trauteadas músicas com pegadas de Valter... A voz e a imagem... Únicas... "Made in Macedo de Cavaleiros city"... http://www.youtube.com/watch?v=HEVPaUjXwaE

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

"Bô era! Atão Macedo é ua merda?"...

Assemelha-se a um pesadelo da invariabilidade dos dias. Ou talvez tudo não passe de um contrapeso à eternidade de um sonho trajado a lirismo, ressuscite-se Freud, adrenalina se inocule em Jung, ou requisição civil se imponha aos Sigmund em parceria com os Carl. Não é trampa mas defecou-a o felino (sempre soa melhor que o mais vulgar "não é merda mas cagou-a o gato")... Será uma alucinação dos dias, derivações em pasta de papel numa amálgama de difusos eucaliptos sem raízes sequer. Definitivamente, algias da alma, se é que almas há, somos um povo triste, macambúzio o dizia Junqueiro, vergado às traulitadas de quem convencimento nos deu de que a imprecação é arma de arremesso da inutilidade. A minha "vila" tem vida, por vezes, vezes outras engalanada é a foguetório de insonoridade para lá dos bandos alados que se guerreiam pelas melhores vistas sobre a Maria da Fonte e o Jardim toponimicamente marcado a luta de classes, reclusões de tempos outros que preferência têm pela omissão dos seus heróis numa qualquer gaveta do olvido. Fantasmagórica ou pejada de vida, o meu apreço por Macedo não se dilui pela insistência na volatilização, pinturas de altaneiras vozes de profecias com tonalidades a desgraça. Sorrateiramente, deixo-me envolver pela atmosfera Macedense. Ouço daqui, ausculto dali, e não fosse esta incomensurável paixão pelas raízes de xisto, arriscar-me-ia a marcar-me com um sinete de desenraizado. Pondero seriamente na consulta a um qualquer discípulo do progenitor da psicanálise. Demente devo estar, seguramente, ou terá a demência sido epitetada a valores outros que inclusão não dão à insanidade. Começo a ofegar com esta constante peregrinação de apóstatas. A cada passo que dou, a cada cadeira onde me sento, a cada inspiração deste impoluto ar, deparo-me com uma incrementada classe constituída por gente colonizada pelos ares que vêm do litoral, ou doutro telúrico espaço qualquer, desde que a léguas do vetusto "Villar de Masaedo". Aprecio particularmente os risos adornados a sarcasmo sempre que regurgito este sublime conduto com sabor a orgulho trasmontano. Soa-me a altivez decorada a hastes bovídeas ou, frequente-se a diplomacia, a mais elaborados e presunçosos chifres cervídeos. Depurações do espírito, talvez sirvam para disfarçar a impotência ou, instância última, "ignis fatuus" de proclamado pedantismo em pedestal com epígrafe "Amicos pecuniae faciunt"... Não que verdade não seja, que os euros íman são para as amizades, para degraus outros, quiçá, folga o carácter enquanto transpira a hipocrisia. Amanhã substitui-se a palmada lombar por afiado gume, que "mai fai", entretanto agucem-se viperinas estocadas de ofídeos, descanse o ego pela exaltação de pretensa maldade alheia. Oculte-se a própria inépcia na simultaneidade da vociferação da imbecilidade dos ausentes, há-de chegar o dia de vassalagem prestar aos que presenteados são com desdém. Sintomas dos dias... Aprecio esta dissolução, perversão de costumes, critique-se apenas, que as soluções são apanágio dos inexpugnáveis. E amanhã, os que hoje me falam, retribuir-me-ão com a singeleza do silêncio, numa qualquer esplanada em que a falta de amor-próprio parece falar mais alto, ou seja o pretensiosismo de um sociedade adulterada pelo conceito de "nouveau-riche", unhas calcinadas pelo ardor de trabalhos muitos, subjugadas a verniz, limadas a escuridão do pretérito. Transcrevo algo que li na edição deste mês de um exemplar da imprensa local: «O que hoje pode ler-se, nitidamente, no tecido urbano de Macedo, sobre a história de amor à cidade pode resumir-se deste modo: até 1960 Macedo foi amada pelos seus habitantes; de 1960 a 1980 foi amada pelos visitantes; de 1980 para cá deixou de ser amada.» Não arriscaria tanto, porque de 1980 para cá, ou de 1990, ou desde a viragem de milénio, não prescindi do amor à minha "vila", cidade a dizem. Mas paulatinamente me apercebo do desprezo a que os Macedenses a vão votando, tratando-a como uma manta de retalhos que talvez seja, mirando-a com o lancinante olhar de filhos pródigos. Depois ainda há um outro colapso... Em renovado recurso ao mesmo exemplar jornalístico, subscrevo inteiramente nova passagem, de novo autor: «O exercício cultural, o saber considerar e apreciar um acto de cultura, é apanágio dos povos mais evoluídos e representa um cume civilizacional protagonizado pelo homem. Sem cultura não há sociedade que evolua, não há democracia que se aguente. Sem cultura há crise, de certeza.» Qual presságio da frontalidade, sinto-me contagiado, num estranho constrangimento pela ofuscação pela realidade. Somos detentores de muito, provando pouco. Remetemos o legado entulhando-o num poço sem fundo, destituimos as pedras da realeza colocando no trono "voitures et maisons", "haus und auto", "coches y casas"... Talvez o que venha de fora seja indubitavelmente bom... Mas o que vejo cá dentro é indubitavelmente óptimo. Daí a intragabilidade da compulsão de ouvir insistentemente que "Macedo é ua merda"... É uma permanente recusa na deglutição. Se Macedo é "ua merda", aconselho os dignos apologistas de tal a irem viver para "Vila Nova de Trás da Salada". Como é exterior a Macedo, será segura e inquestionavelmente melhor... Quanto a mim, permanecerei nesta demência de acreditar que os defeitos são o primeiro passo para enaltecer as qualidades. Talvez um dia esta compulsiva paixão tenha cura. Até lá, remeto-me à insignificância desta estranha adoração pela terra que me pariu, seja ela pintada a laranja, a rosa, ou a outra qualquer cor... Cousas... Ou distintas degustações...

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Lampejos de ansiedade por Trás-os-Montes

Há locais assim, entranham-se, provocam um permanente regurgitar de saudade. Por vezes fazemos deles lana-caprina, mas é só na aparência de um quotidiano emoldurado a afazeres outros, contingências de migrante, edições diárias de acumular de uma fome que ganha proporções de monstruosidade. "Stou tchêinho de saudades de Macedo e dus mous ares stransmuntanos, c'um caralhitchas"!!! Foi só um efémero desabafo em forma de gargarejo da alma... Alivia, por instantes, o quase insuportável peso da distância, mas acalmar não faz a ânsia. Permanece o verdugo, qual atroz cumprimento de pena, sentença contra esta pregada impunidade de ter "botado tchôros ó mundo no mêo dos calhaus". É ineficaz, sei-o, mas tenho um anormal apreço por este tormento do espírito sempre que se aproxima uma incursão mais ao Reino das Fragas, Principado do Nada, Condado do Tudo. Regenera os dias, rejuvenesce o xisto que carrego nos genes, talvez seja acossado por "algu'alma do outro mundo, fique mêo spritado e tanham puri que me fazer uas mezinhas. Se calha ind'é a Maria que se desalapou da Fonte. Cmu quera"... Num breve mas intenso cerrar de pálpebras, percorre-me este arrepiante estremecimento de ubiquidade, duplo corpo com a metade de mim sentada numa qualquer esplanada da Agostinho Valente, a gémea a penar, longe sentada, incontido desejo de olhar o ponteiro dos segundos em hipersónica velocidade. Valham-me as letras... E valha-me esta aversão ao crescimento, muralha contranatura, numa volúpia dos sentidos de eterno retorno a infância nunca perdida. "Já le sinto o tcheiro ó Azibo, já se m'arregalum nas bistas co a Serra de Montemé, já se me botum os pur dentros desinquietos co a merenda na baranda do Ti Inberno, peliqueira a postos pra mais um carólo e um cibo de tchithco, ua pinga pur as goelas, um tantinho de queijo queimão e uns intremóços, seladinha de tomatos e pupinos, e tchítcharos puri, ua talhada de melão pra desinfastiar"... São os sons da terra parideira, desafinações de encantos tantos, orquestra em sinfonia de jamais inventados acordes. "Depeis, dixo-mo a intrenete - ua maringância dos cuputadores - hai uas festas por Macedo e um passêo ó luar no Azibo. E im Bregança aparece-se-me q'uns homes e uas mulheres bão fazer um triatro qualquera da Idade Mediebal no castelo"... Aproveitarei a deixa para uma visita ao Museu Abade de Baçal, exposição da ancestralidade, Ordo Zoelarvm a dizem. Correrá o tempo, ao compasso das águas do Azibo, do Sabor, do Tuela ou do Macedo. Ou de uma ribeira qualquer... O céu nocturno cobrir-se-á de ímpar beleza, concertos de grilos e noctívagos seres, algures onde a pacatez é abraçada a Nogueira e Bornes, saciada a Azibo, regada a fornalha do estio, num distinto aconchego do âmago. Como se a ternura fosse provida de regaço, e nos sentássemos no amparo de braços amputados das pedras. Ser Macedense e Trasmontano... Não se entende, não se explica, julgo nem se sentir também. Porque é sentimento a aguardar invenção de nomenclatura... Ou talvez se resuma à grandeza de uma distinta pequenez... Amanhã darei voz aos arrepios da epiderme, assim fale o tecido...