Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Legislativas 2009 - Curiosidades macedenses - Freguesias Centro-Sul

Efectuada a análise (possível) às freguesias da zona norte concelhia, proceda-se a uma avaliação semelhante para outro terço das que compõem o concelho de Macedo, mais concretamente as 12 que podem considerar-se como fazendo parte do núcleo que envolve a freguesia onde se encontra a sede concelhia, ou seja, a região central, expandindo a análise até sul, onde a serra de Bornes se eleva no horizonte. Se as anteriores correspondiam, grosso modo, à parte setentrional englobada no conceito de Terra Fria, estas, por sua vez, encontram a sua localização numa zona de transição, marcada, em grande parte, pela portela ou depressão de Macedo: Sezulfe, Amendoeira, Vale de Prados, Santa Combinha, Cortiços, Carrapatas, Grijó, Vilar do Monte, Castelãos, Vale Benfeito, Bornes e Burga. Assumindo o risco de avançar com uma visão provisória, parece existir uma correlação entre a topografia, o perfil climático, particularmente no que às temperaturas e precipitação diz respeito, e as tendências de votação. É o que a análise aos números reflecte em primeira instância. Ainda que o partido laranja tenha a maioria de votos por uma margem considerável, nota-se uma clara diminuição dessa mesma vantagem, comparativamente com as freguesias mais a norte. Por outro lado, enquanto que na anterior região analisada, o partido da rosa apenas obteve a vitória numa das 13 freguesias, consegue aqui arrecadar o primeiro lugar do pódio em 4: Vale de Prados, Santa Combinha, Cortiços e Vilar do Monte. Ocorrendo, ainda um empate na freguesia da Burga. De uma forma geral, em termos percentuais, o PSD e o CDS-PP descem a sua votação, ocorrendo um fenómeno inverso relativamente ao PS. Fenómeno esse que se verifica de modo mais marcante nos partidos mais à esquerda, respectivamente, o BE e a CDU. O primeiro duplica a sua votação, quer em termos absolutos, quer percentuais, enquanto que o segundo, a triplica em ambos os critérios. O PSD obtém a sua votação mais elevada em Castelãos, com 53,75% dos votos e a mais baixa em Santa Combinha, com apenas 17,24%. Já os socialistas obtêm a sua melhor performance em Vilar do Monte, com uns inusitados 59,77%, redundando a freguesia de Carrapatas no seu maior desastre, com 17,22%. Desastre foram, de igual forma, os 1,92% conseguidos pelo CDS na Burga, em contraste com os 24,14% em Santa Combinha. Por sua vez, Carrapatas é, à semelhança do já ocorrido nas Europeias, o bastião do BE, com 15,89%, mesmo sendo aí a 4ª força política. Inversamente, em Vilar do Monte, os bloquistas ainda não conseguiram passar a mensagem a nenhum dos votantes. Sem surpresas, a CDU obtém a sua melhor votação nos Cortiços, com 9,2%, entrando aí no pódio, sendo “desconhecida” para os eleitores de Vale Benfeito e Burga. No campeonato dos pequeninos, os “trabalhadores portugueses” levam de novo vantagem, deixando a sua marca em 7 das 12 freguesias, conseguindo, inclusive, um trio de votos em Castelãos e Bornes. Seguem-se-lhe os “desertores centristas”, reconhecidos em 4 freguesias (Amendoeira, Vale de Prados, Cortiços e Vale Benfeito), com a sua marca mais profunda na Amendoeira, onde há 4 “dissidentes”. Nas 3 primeiras freguesias onde há PND, há também a marca do PNR (terá havido confusão de siglas?), sendo esta especialmente marcante em Vale de Prados, onde existem 4 “radicais”. Por seu lado, os “ecologistas” do MPT convencem um eleitor em cada uma das seguintes freguesias: Amendoeira, Carrapatas, Grijó, Vilar do Monte e Bornes. Um eleitor possui também o “movimento da esperança” na Amendoeira, em Vale de Prados, no Vilar do Monte e em Vale Benfeito. Já os homens das mensagens multimédia, obtêm mérito em Sezulfe e Cortiços, com um eleitor, e em Grijó, com um duo. Subsistem três resistentes que gostariam de ver D. Duarte a tomar as rédeas do “reino” e o mesmo número se aplica aos “pró-vida”. Novamente, mais a sério… O conjunto das freguesias representam 21,99% dos eleitores inscritos no concelho, tendo nestas eleições contribuído com 22,36% do total de votos registados. No que concerne aos 5 maiores partidos, a sua representatividade para o total de votos no concelho, por força política, aproxima-se da média, se exceptuarmos que esta região contribui com 30% do total de votos na CDU. Para o grupo constituído por PSD, PS, CDS e BE, a contribuição é em termos percentuais, respectivamente, 23.17, 21.24, 21.68 e 22.74. Faça-se um mero exercício teórico, dividindo os 5 maiores partidos na tradicional “direita” (PSD + CDS) e “esquerda” (PS + BE + CDU), e comparando o somatório obtido nas 13 freguesias consideradas como “Norte” com as 12 referenciadas como “Centro-Sul”. A “Norte”, a “direita” arrecada 63,18% dos votos, contra os 31,93% da “esquerda”. Por sua vez, o “Centro-Sul” tende a atenuar as diferenças, com 56,63% para a “direita” e 38,44% para a “esquerda”. Facilmente se detecta um fenómeno com paralelo na abrangência do país onde, a implantação dos partidos mais à esquerda ocorre mais a sul e nas imediações de centros urbanos, ao passo que as forças políticas mais identificadas à direita possuem a sua força nas regiões mais conservadoras do Norte. Para lá das já mencionadas condições topográficas e climatéricas, que conduzem, inevitavelmente, a um maior isolamento e às consequências daí advindas, não são de descartar explicações de âmbito cultural e histórico, com reminiscências, talvez, no contraste medieval entre os senhorios do norte e o poder concelhio a sul. Convém não esquecer, de igual forma, as justificações que podem provir de um maior laicismo a sul, em contraste com a superior implantação da religiosidade a norte, com a influência que daí adveio. Esta dicotomia norte-sul não é apenas aparente e possui eco na evolução histórica do país, a começar pela facilidade com que Romanos penetraram nas regiões meridionais, em contraste com os quase irredutíveis luso-galaico-astúres no setentrião. Passando pelo início da nacionalidade, com o nosso Conquistador a afastar-se de Guimarães para Coimbra, motivado por outras questões que não só a cruzada interna contra os muçulmanos. Ou ainda o fenómeno ocorrido na sequência da crise da sucessão fernandina, com o país a ficar dividido entre os que tomaram voz por Castela e os que apoiaram o Mestre de Avis. Será um risco transpor uma realidade nacional para a “micro-pátria” macedense. Contudo, a mesma não deixa de ser uma imagem do que se passa a um nível mais abrangente e eu não acredito, propriamente, em coincidências… E a verdade é que já possuo os dados referentes às restantes 13 freguesias… E as “coincidências” mantêm-se…

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Eleições Legislativas 2009 - Curiosidades macedenses - Freguesias Norte

Escolha-se, aproximadamente, 1/3 das freguesias do concelho: 13, mais concretamente. Não uma escolha aleatória, mas territorial, ainda que os critérios possam entrar na esfera do discutível. Recaiu a mesma nas 13 freguesias que abarcam o norte da “bota” concelhia, a partir de uma linha imaginária que une, na parte mais estreita do concelho, o Poente com o Nascente: Lamalonga, Vilarinho de Agrochão, Murçós, Soutelo Mourisco, Vilarinho do Monte, Arcas, Ferreira, Espadanedo, Edroso, Ala, Corujas, Lamas e Podence. Numa análise primária, constata-se que, com maior ou menor vantagem, a “laranjada” voltou a pintar o mapa em 11 delas, sendo as excepções Soutelo Mourisco, colorido a “rosa” e a já anteriormente mencionada Corujas, a propósito das Europeias, a relembrar, uma vez mais, ao “rapaz das feiras” que deveriam por lá realizar a festança de se terem alcandorado a 3ª força política da nação (mesmo que a digna Corujas tenha contribuído apenas com 0,011% para esse resultado). Por sua vez, a freguesia de Ferreira que, há 4 anos, ocupava o lugar de Corujas em termos “centristas”, passou, desta vez, a ser o bastião dos “laranjas” a norte, brindando-os com 61,54% dos votos (já houve um “Cavaquistão”, agora passa a existir um “Ferreiristão laranja” - será uma homenagem ao apelido da líder?). Já Soutelo Mourisco deve merecer a atenção do próximo “quase futuro ex-primeiro-ministro”, olhando para os 46% com que os eleitores deram a vitória aos “rosas”. A mesma freguesia deu, de igual forma, o maior score a outro partido, o da “estrelinha vermelha”, com 10% (dois dígitos que o auto-proclamado líder da esquerda não desdenharia). A já célebre Corujas deu o primeiro lugar do pódio aos das “duas setinhas com um bola ao centro” com uns magníficos 47,01%! Descaracterizando a tendência que se verifica por estas nortenhas bandas, Murçós é o bastião “da foice e do martelo”, com 5,83%. O campeonato dos pequeninos foi, neste quadrado territorial, ganho pelos outros “foice e martelo” e pelos dissidentes do já mencionado “rapaz das feiras”, tendo ambos conseguido 0,39% das intenções de voto. Quanto ao primeiro, a sua mensagem consegue atingir 5 freguesias, sendo que em três delas só convence 1 eleitor (Edroso, Vilarinho do Monte e Podence), em Espadanedo dá um duo e finalmente, em Lamas, existe um trio de “trabalhadores portugueses”. Já o segundo passa a mensagem a mais uma freguesia, ocorrendo, em quatro delas, o mesmo fenómeno de “ascetismo”: Arcas, Vilarinho do Monte, Corujas e Podence. As duas restantes, Lamalonga e Vilarinho de Agrochão, representam os duos. A “esperança” conseguiu tocar meia dezena de freguesias, sendo o fenómeno mais visível em Lamalonga, com um trio de “esperançosos”. Vilarinho de Agrochão, Espadanedo, Ala e Podence viram apenas um votante atingido pela “onda verde”. Ainda resistem 4 “monárquicos” a norte: 2 em Ala e 1, respectivamente, em Ferreira e Lamas (dados os números, podem os ditos passar a ser, na região em apreço, o “partido do táxi“). Caso a designação partidária fosse levada à letra, estaríamos com um grave problema concelhio: teríamos 2042 “nortenhos” numa postura “anti-vida”, já que só um trio é que é “pró-dita” (1 em Edroso, outro em Ala e outro mais em Podence). Novas tecnologias só chegam a Ala, Lamas e Podence, com três votantes a não receberem só as vulgares SMS. Estranho que só haja um ecologista-humanista em Espadanedo e outro em Podence. Os “radicais dextros” quase desapareceram do mapa, restando um feroz resistente em Vilarinho do Monte. E já não há “operários”… Como que num passe de mágica, esfumaram-se… Agora mais a sério… Dois partidos políticos apresentam, nesta região norte, uma percentagem superior de votação, relativamente aos valores concelhios. O PSD e o CDS-PP superam-nos em pontos percentuais, respectivamente, 5,74 e 1,85. Já os partidos da chamada “esquerda” mostram tendência contrária: PS, BE e CDU com menos, respectivamente, 3,50, 2,54 e 1,18. Numa leitura superficial, estes números reflectem o carácter mais conservador-tradicionalista na zona norte, numa analogia à imagem política do país. O mesmo fenómeno se verifica na contribuição desta região para os resultados totais concelhios. No que respeita a eleitores inscritos, os mesmos representam 21,65% do total concelhio. Já no referente aos votantes nestas eleições (equivalendo a uma taxa de abstenção de 50,98%, ligeiramente superior à concelhia), perfazem 21,05% do total de votantes concelhios nestas eleições. Este valor, numa situação de distribuição equitativa, deveria representar a contribuição do conjunto das 13 freguesias em questão para o total de votos verificado no concelho por cada organização partidária. Obviamente que, a tal se verificar, representaria uma anormal coincidência. Da análise à participação para o universo de votos macedenses, ressaltam alguns dados interessantes. O primeiro dos quais nada tem a ver com organizações partidárias. Ou antes, terá a ver, ainda que como manifestação em forma de protesto: os votos em branco. Atingem os mesmos a fasquia de 27,21% do total concelhio, o que supera o número que deveria ser a média, ou seja, os já referidos 21,05%. Sendo subjectivo o critério, este dado poderá apontar para um superior fenómeno de não identificação com o quadro partidário vigente. Em contrapartida, a contribuição dos votos nulos cifra-se nos 18,24%. Daqui se poderá inferir, alternativamente, ou um eventual maior grau de alfabetização, ou a menor utilização dos boletins de voto para protestos “alternativos”. No âmbito dos chamados partidos com assento parlamentar, mantém-se a tendência conservadora-tradicionalista já apontada. Os votos no PSD perfazem 23,99% do total concelhio e os do CDS-PP, 23,74%, valores acima do que deveria ser a média. Já no que concerne ao PS, 18,66% dos votantes socialistas encontram-se nesta faixa territorial. A acentuar a tendência de menor peso da esquerda nesta região, o peso percentual de votos no BE restringe-se a 12,37% da totalidade do concelho, ficando a CDU, por sua vez, com uma representatividade de apenas 9,52%. Deste quadro podem reter-se algumas tendências, passíveis do complemento de outras, eventualmente, mais aprofundadas. Sublinhe-se a que aponta para uma natural alternância entre os chamados partidos do centro, histórica e tendencialmente com supremacia para o PSD. Note-se a posição do CDS-PP como inequívoca terceira força política, alcançando este partido votações acima da média nacional e concelhia, nalguns casos, com uma posição que o coloca entre os dois lugares cimeiros. A soma dos dois partidos vulgarmente associados à direita ultrapassa, em média nesta região, votações bem acima dos 60%. Este facto é, sem dúvida, o reflexo de um carácter tendencialmente conservador no concelho de Macedo de Cavaleiros, particularmente mais evidenciado na sua região setentrional. No outro extremo, é possível constatar a evolução do BE, cuja votação quase triplicou, comparativamente às Legislativas anteriores, ainda que os valores não ultrapassem o valor “marginal” de 3,62%. Quanto à CDU, a mesma não atinge, sequer, o dígito neste território, quedando-se por 0,98%, espelho da pouca implantação que, historicamente, se reflectiu numa região marcada pela pouca penetração de valores que atentavam contra uma corrente marcada por algum dogmatismo. Por último, uma referência para a natural queda em valores absolutos e percentuais do PS, com a correspondente subida generalizada das outras forças políticas, incluindo, salvo raras excepções, as residuais forças partidárias de segunda linha. Os restantes 2/3 das freguesias que compõem o tecido concelhio serão objecto de “dissecação” noutro dia. Num qualquer próximo amanhã…

domingo, 27 de setembro de 2009

O primeiro dia do resto das nossas vidas

Há 52 anos não havia eleições. Mas existia algo a abalar o território nacional. A irupção dos Capelinhos não deixava margem para se pensar que, meio século após, seríamos detentores do vulcânico poder de decidir sobre a "morfologia territorial" que advirá destas Legislativas. Escrevo isto porque, a poucos momentos de me dirigir à Junta de Freguesia, ainda não descortinei a posição do PI (Partido dos Indecisos) no boletim de voto. Se há meio século havia fenómenos da tectónica, há 41 anos tinha renascido um pouco da chama da esperança, a partir do momento em que Marcelo Caetano tomou as rédeas do monolitismo que caracterizava a cena política portuguesa. Soou, segundo as crónicas, a ventos de mudança... A verdade é que (e peço desculpa pelo abuso linguístico), revelou-se um "não é merda, mas cagou-a o gato"... Essa é a sensação com a qual parto para a missão de colocar um cruz num papel. E não é por medo de ser atingido pelo H1N1 depositado em qualquer caneta pública... O estado a que vi chegar este país faz-me suspeitar que, com ou sem mudanças, haverá mais do mesmo. Particularmente no que à minha região diz respeito. Trás-os-Montes não sofrerá nenhuma metamorfose... Será, talvez, mais abandonado... Ou mais esquecido... Haja, ou não, A4, IP2 e IC5... Apanágio dos tempos e da história... Deve ser por isso que me sinto estranhamente deprimido. Porque, mais logo, seja qual for o resultado, não terei razões para festejar. Como dizem na minha terra adoptiva, um diz "mata!", outro "esfola!" e vem um terceiro a dizer "atirem-no ao mar!". Quanto a Trás-os-Montes, não se pode matar o que morto está... Mas pode ressuscitar-se! Assim queiram as gentes...

sábado, 26 de setembro de 2009

LAMAS e PODENCE- O Regresso dos Vocábulos Perdidos…


… percorra-se o outro meio caminho. As afinidades geográficas, históricas, linguísticas e, porque não, de “raça”, que possuímos com a vizinha Galiza constrangem-me a deter-me, inumeráveis vezes, na sua própria História. Afinal de contas, se territorialmente o seu fim é o nosso princípio, em termos lexicais acontece o inverso, sendo o nosso término (GAL) o seu início. Coisas de siameses separados por uma linha artificial… Um recente estudo toponímico galego chamou-me a atenção. No interior do território galego, o vocábulo “lameiro” possui significados distintos, consoante nos encontremos em zonas mais próximas do litoral, ou dele mais afastadas. Assim, nas zonas baixas ou de encosta e onde ocorre maior pluviosidade, particularmente no noroeste, um lameiro possui o significado de um lamaçal. Já no interior, mais a sudeste, em regiões onde a topografia é mais acidentada e de precipitações menores, um lameiro é considerado um prado, ou seja, tal como na nossa região transmontana, um local de pastagem. Curiosamente, as semelhanças com o lado de lá fronteiriço também encontram eco na fonética asturiana, onde “lamas” se transformou em “llamas”, algo que também ocorre nas “terras de Santa Maria”, onde alguns habitantes locais apelidam a sua terra de Santa Maria de Lhamas. Curiosidades… Apenas porque me chegou a gerar alguma confusão a imensidão de topónimos “Llamas” nas Astúrias, podendo esse facto levar-nos a incorrer no erro de o associar às “chamas” ou a uma das formas do verbo “chamar” do castelhano. E também porque um “lameiro” provém de “lama“... O tal “vocábulo perdido” que pode significar “prado enlameado”, “lodaçal”, “barros” e demais derivações de mistura de terra e água. Estando presente este segundo elemento, parece indubitável que “lama” seja um hidrónimo. Este facto parece incontestável, consubstanciado pelos diversos estudos em redor da “lama”. Termo que, sendo pré-latino, deu origem, em linguagem dialectal italiana a “lamature“, com o significado de pântano ou lamaçal. A evidência para a origem não latina do vocábulo poderá ser encontrada na ausência da utilização do mesmo pelos autores clássicos. Isto se exceptuarmos Quinto Horacio Flaco e Quinto Ennio, curiosamente oriundos da região meridional italiana. Uma das minhas referências em termos de Linguística, Mario Alinei, faz derivar “lamature” de “lama”, atribuindo-lhe uma origem greco-latina, proveniente do ser mitológico descrito por Diodoro Sículo, “LÀMIA”, o monstro-serpente feminino. À mitologia pode ainda ir beber-se a informação de Teucídides acerca das Dionísias, onde é referido que as primeiras ocorriam em honra de “Dionysius LIMNAIOS“, o “deus dos pântanos ou dos lameiros”. Recuando um pouco no tempo, podemos encontrar reminiscências em “LAMASHTU”, a equivalente da “Làmia” grega na mitologia acádia. Um ser mitológico cuja descrição e atributos são em tudo semelhantes, ocorrendo, em simultâneo a versão “LAMASSU”, divindade protectora, cuja origem se encontra na antepassada mitologia suméria, na existência de “LAMA“. Julgando como válidas as descrições que dão conta de rituais de fecundidade associadas a esta divindade, que incluíam a retirada de limo ou lodo (lama) das planícies alagadas da Mesopotâmia, dando-lhe, de seguida, o destino de materiais de construção das habitações, torna-se plausível a identificação desta ancestral divindade como originária de *lama e dos hidrónimos daí derivados. Todavia, outros autores, entre os quais se destacam Ménendez Pidal ou Antonio Tovar, defendem que *lama constitui um radical com substrato ilírio ou lígure. Sendo discutíveis estas posições, como qualquer outra hipótese aventada para a origem de “Lamas”, não será de descartar a possibilidade de o topónimo ter sido trazido pelas migrações, em tempos remotos, de povos com origem nas imediações do Mediterrâneo, entre os quais podem incluir-se os Lynkos, provavelmente os Luancos a que se refere Ptolomeu. Será este povo o adorador do “Deo Vestio Lonico” e que terá dado origem à dispersão do topónimo “longo” (de “Longos” ou “Liuncos”, com correspondência em Lynkos). É avançada a coincidência da sobreposição territorial da toponímia originária em “longo” com a de “lamas”. Terão sido os “Longos” os portadores do vocábulo “lama”? A ser verosímil, será a nossa conhecida Lamalonga (que em tempos era Lama Longa) fruto do relatado? Independentemente de todas as conjecturas em redor do exposto, parece incontestável que a origem etimológica de “Lamas” remonta a vocábulos estreitamente ligados com “água”, ainda que numa conexão, de certa forma, indirecta. A associação do hidrónimo a “Podence” resultará, seguramente, da posse das terras de Lamas de algum donatário com o nome Potentius, do qual derivará, em genitivo, Potentii (villa). A ocorrência deste nome latino, não sendo vulgar, ficou registada em alguns documentos ou na narração de alguns acontecimentos, como são exemplo a presença do bispo Potentius de Lugo no Concílio de Toledo em 693, convocado por Egica ou o envio do prelado Potentius, por parte do Papa Leão I, em missão junto dos bispos africanos. Será, eventualmente, este Potentius o bispo mencionado em Tipasa, na Mauritânia... A história da Batalha de Adrianópolis, em 378, regista a morte do filho de um magister equitum romano, Ursinicus, com o nome de Potentius. Contudo, a primeira situação em que Lamas surge, documentalmente, associada a “de Podence” acontece, como já referido anteriormente, apenas no séc. XV. Atendendo a que a aldeia vizinha já tinha uma longa existência, notando que não há qualquer anterior ligação e ressalvando que os detentores de Lamas eram, à altura das primeiras Inquirições, Nuno Martins de Chacim, o Mosteiro de Castro de Avelãs e o galego “Gonsalvo Petri”, parecer-me-á que a história sobre o cavaleiro francês companheiro de lides do conde D. Henrique não passará de um mito. Com toda a probabilidade, dada a proliferação de locais com a designação de Lamas, ter-se-á optado por afirmar que esta era a que ficava ao lado de Podence. Daí ao Lamas de Podence terá sido um pequeno passo… Provavelmente… Ou não… Finito...

LAMAS - Em Busca do Vocábulo Perdido…

«Lama, s.f. Terra mais ou menos molhada e mais ou menos suja; lodo…» Com maior ou menor variação, é unânime a aceitação do significado do vocábulo “lama” (excluindo daqui a vertente zoológica, religiosa e da gíria). Há muito que a filologia procura a origem etimológica desta “suja” palavra que entra na toponímia de perto de um milhar de locais (restrinjo-me aos que eu descobri), distribuídos, como se verá, por uma extensa área, ainda que limitada geograficamente. Seja na singularidade de “lama”, passando pelo seu plural “lamas” e pelas derivações daí advindas, tais como “lameiro”, “lamedo”, “lamarão”, “lameirinha” e outras mais que aqui não cabem. Reportando-nos ao distrito de Bragança e restringindo-nos apenas à nomenclatura de povoações, temos, para além das macedenses Lamas e Lamalonga, Vale de Lamas, freguesia de Baçal (Bragança), Lamas de Cavalo, freguesia de Alvites e Lamas de Orelhão (Mirandela) e Lamoso, freguesia de Bemposta (Mogadouro). Já no que respeita a Portugal, para lá da histórica e simbólica freguesia de Sta. Maria de Lamas (Sta. Maria da Feira), verifica-se uma prevalência do topónimo na Zona Norte, ainda que possa ser detectada uma Lamas no estremenho concelho do Cadaval. Esta constatação possui correspondência na proliferação de topónimos derivados de “lama” nas setentrionais Galiza e Astúrias, estendendo-se os mesmos, num menor grau, às também nortenhas Álava e Biscaia. Extravasando as fronteiras ibéricas, o país que oferece mais exemplares é a Itália, particularmente na sua área Centro-Oeste, onde podemos encontrar, entre outros, Castel di Lama, o antigo “Castrum Lamae”, na região de Marche ou Lama dei Peligni, na vizinha região de Abruzzo. Nas restantes regiões europeias verifica-se uma quase ausência, isto se exceptuarmos a “anormal” Lamas no condado inglês de Norfolk, Lama na francesa ilha da Córsega ou uma lexicalmente distante Laim, na Baviera alemã. Existe ainda, na Anatólia turca, o rio Limonlu Çayi, que também toma o alternativo nome de rio Lamas, derivação da sua nomenclatura nos tempos da existência da romana província da Cilícia, onde tomava o nome de Lamus ou Lamos. Efectuada esta breve viagem geográfica ao presente, e não sendo possível determinar a real antiguidade de Lamas (de Podence), para além das conjecturas advindas das anteriormente referidas Inquirições de 1258 e da presumível existência de um ancestral povoado, a partir do topónimo “Cristelos”, faça-se uma “extrapolativa” viagem ao passado longínquo, a partir da existência de memórias que nos hão-de remeter para a polémica existente à volta da génese do vocábulo “lama”. A começar por Ptolomeu e Estrabão, com paragem na já mencionada Cilícia e na região atravessada pelo rio Lamas. Ambos referem, nas suas “Geografias”, a existência da cidade Antiochia Lamotis, na desembocadura do referido rio, capital da anciã região de Lamotis. À posteriori, ficará aberta a possibilidade do atrevimento de associação desta remota referência… Saindo da região turca e regressando à Península Ibérica, o primeiro dos autores faz menção á existência da cidade de Lama no território dos Vetões, povo pré-romano, fronteiro dos nossos ancestrais Zoelas e com o qual “mantivemos” estreitas afinidades, nomeadamente no que, entre outras coisas, aos “verracos” e “petras fincatas” diz respeito. Descendo um pouco à quase vizinha região viseense, a ainda hoje enigmática inscrição de Lamas de Moledo, um misto de linguagem latino-lusitana (ou latino-leukanturi, como os puristas da raça gostam de lhe chamar), mostra-nos uma ainda mais enigmática Lamaticom. O recurso ao “Corpus Inscriptionum Latinarum” faz-nos adivinhar uns dedicantes provenientes de alguma “Lama” (será a dos Vetões de Ptolomeu?), já que se identificam, em duas inscrições, como “Lamensis” numa e “Lamesis” noutra. Sublinhe-se que nada do descrito até ao momento se refere directamente à actual povoação de Lamas, no concelho de Macedo. Serve, tão só, para atestar a antiguidade de topónimos derivados de “lama” e para servir de apoio às conclusões que hão-de justificar a polémica em torno da geração do vocábulo que aqui é motivo de “dissertação”. Avançando no tempo, o presumível Concílio de Lugo, pretensamente convocado pelo suevo rei Teodomiro no ano 569, traz à luz um “Campum de Lamas”, ao abrigo das definições de “comitatus” na “Gallaecia”. Já a História Compostelana faz referência à “Ecclesiae S. Juliani de Lamas”. No ano 875, numa doação de Afonso III, o Grande, surge “Villare Lamas”. Já a sua descendência doa, em 912, a “Villa Lamas” ao mosteiro de S. Salvador de Lérez. Ainda dentro deste âmbito, Ordonho II dá, em 921, “Sancti Joannis de Lama” a S. Salvador de Oviedo. O “Livro de Testamentos de Lorvão” traz o feito por Gunzaluo Mendiz em 981, detectando-se uma “uilla Lamas” no seu conteúdo. Pouco mais de um século após, mais concretamente em 1099, numa venda de Rodorigo Goesteiz, registada no “Araucensis Monasterii”, repete-se a “uilla Lamas”. Já no séc. XII, Afonso VII, o Imperador, primo do nosso Conquistador, faz entrar nas divisões da “Ecclesiae Menduniensis”, “S. Martinus de Lamas”. Pelo exposto até aqui, não é difícil concluir a vetustez do que terá dado origem ao baptismo de Lamas. No entanto, só meio caminho está percorrido…

Esquissos histórico-toponímicos de Lamas (a que já foi de Podence)

Caso algum conterrâneo me questione acerca da antiguidade de uma povoação que já pertenceu a 4 distintos concelhos e que, em 40 anos, perdeu 35% da população residente, digo que… É consideravelmente mais velha que eu… Em termos meramente comparativos, eu nunca fiz parte de “totam Braganciam et Lampazas cum suis terminis” e Lamas terá, quase seguramente, tido enquadramento no “suis terminis”. Fazendo parte, dessa forma, da Terra de Bragança e Lampaças, nos primitivos tempos da nacionalidade. A existência da vetusta Lamas é atestada pelas Inquirições de 1258, mandadas tirar pelo Bolonhês, de forma a tapar, no caso transmontano, os caminhos usurpadores dos senhores da estirpe dos Braganções (mesmo que por via bastarda) e das “pobres” ordens clericais constituídas pelos Beneditinos de Castro de Avelãs, mais os Hospitalários, Templários e outros parceiros do lado de lá da fronteira. Contudo, a antiguidade do povoado deve remontar a outras eras. Não que o mesmo possa ser confirmado arqueologicamente, mas eu sou um crente nos factos históricos oriundos de outras disciplinas que não a Arqueologia (mesmo que esta tenha a última palavra…). Caso contrário, não arranjaria justificação para a existência do topónimo “Cristelos”, ainda hoje vigente entre os habitantes lamacenses, e local onde já andei a experimentar veículos agrícolas. Mesmo que o dito topónimo tenha proveniência na desaparecida “villa de Crastelos”, lugar pertencente à “Parrochia Sancte Marie de Lamis”, onde morariam os senhores Durandus Roderici e Ffernandus Froyle, à altura das Inquirições Afonsinas. Predecessoras das homónimas Dionisinas, 32 anos após, onde a “aldeya de Crastelos” faria parte da “freguesia de Santa Maria de Lamas”. Esta “aldeya” terá subsistido, pelo menos, até ao séc. XV, já que, num documento do reinado da “Ínclita Geração”, “Crastellos” surge como fazendo parte do espólio dos “paupérrimos” monges da terra que terá servido de sede à Civitas Zoelarum. Isto leva-me à associação aos povos pré-romanos, decisores do empoleiramento no alto dos montes, dando origem à proliferação de castros, cujas ruínas preenchem algumas elevações nortenhas. Pois “Crastelos” ou “Cristelos” têm origem, precisamente, em castro! Localizando-se a actual “Cristelos” numa zona elevada, não é difícil levantar a suposição da remota existência de um antigo castro no local, que lhe tenha servido de baptismo, mesmo que assassinados os seus eventuais vestígios pelos arroteamentos feitos ao longo dos séculos. É certo que, ao contrário de outros exemplos, como a Terronha de Pinhovelo, não existem testemunhos arqueológicos da existência de tal povoado. Mas, que eu saiba, também não os há relativamente à documentalmente comprovada “aldeya” de Crastelos (a não ser, talvez, na obscura menção ao topónimo “Casinhas” - que, dizem-me os aldeões, já entra nas contas do termo de Gradíssimo). Assim como só conheço as capelas de S. Sebastião e da Sra. do Campo e já ninguém se lembra da existência da capela dedicada a Sto. André, mencionada nas “Memórias Paroquiais de 1758”. No entanto, subsiste a memória da “Eira de Santo André”. Um destes dias, tenho que acompanhar o “mou Ti João” a Cristelos e às resistentes lajes da tal eira comunal… “P’ra bêre se me chaldra algua cousa, armadu im Indiana Jouneze”… Abandonando, por agora, a “Banrezes” da terra da Sra. do Campo, detenhamo-nos na dita terra de Lamas. A qual, ao longo dos séculos, adoptou diversas designações. A começar pela já mencionada “Sancte Marie de Lamis” em 1258. Quase 30 anos após, o Arcebispo de Braga, num documento sobre os direitos do Mosteiro de Castro de Avelãs, troca um “i” por um “a”, e surge “Lamas”. Algo que haveria de subsistir até meados do séc. XV, período até ao qual a povoação surge como “Santa Maria de Lamas”, como são exemplo as Inquirições de D. Dinis de 1290 ou o Catálogo de Todas as Igrejas de 1320 (ainda que a lista seja do séc. XVII). Numa sentença de D. Afonso IV, aparece-nos com uma pequena derivação, voltando ao “Sancta”, para, numa confirmação do pároco apresentado pelo Abade de Castro de Avelãs por parte de D. Gonçalo, Arcebispo de Braga, vir referenciada somente como “Lamas”. Em 1435 surge, no rol das aldeias com bens pertencentes ao já citado Mosteiro Beneditino, com a nova designação de “Lamas de Podence”. De novo, 27 anos volvidos, surge como “Lamas”, numa nova confirmação de nomeação de pároco pelo arcebispado bracarense para, já no séc. XVI vir mencionada, numa Bula do Papa Leão X, como “Lamas em Terra de Lampaças”. No final deste mesmo século, a propósito das Comendas da Ordem de Cristo, vem mencionada como “Lamas” e “Santa Maria de Lamas”. A partir do “Tombo dos Bens da Comenda de Algoso”, a finalizar o séc. XVII, assume, definitivamente, a nomenclatura de “Lamas de Podence”. Assim vem designada, sucessivamente, na lista dos “Bens do Cabido de Miranda” de 1691, numa sentença que a iliba do pagamento do foro das oitavas ao concelho de Bragança em 1698, na “Corografia Portugueza” de 1706, no “Diccionario Geographico” de 1862 ou na “Chorographia Moderna” de 1879. Curiosamente, no “Portugal Sacro-Profano” de 1768, surge com a grafia “Lamas de Podense“, sendo que, no início do séc. XVIII aparece já a designação de “Nossa Senhora da Assumpção” associada à povoação lamacense. Uma nota mais para as “Memórias Paroquiais” de 1758, onde o reverendo a designa como “Lugar de Lamas, Freguesia de Nossa Senhora da Assumpção”, sendo donatário da povoação o Conde de Avintes. Diz o dito reverendo que “tem em abundância de pão e vinho; castanha, maçãs e peras de tudo isto medianamente”. E que se cultiva centeio e castanha na Serra do Facho, onde há coelhos, perdizes e lebres. Entrados no séc. XIX, vêm as sucessivas alterações administrativas sobre o território, fazendo com que a freguesia de Lamas de Podence se inclua no concelho de Bragança, até à sua passagem para o concelho dos Cortiços em 1842. Neste haveria de perdurar até transitar para o novíssimo concelho de Macedo de Cavaleiros em 1855. Nova alteração haveria de surgir em 1867, transformando Lamas de Podence numa Paróquia Eclesiástica, da Paróquia Civil de Macedo de Cavaleiros, do concelho de Chacim. A partir de 1890 passa, definitivamente, a constituir uma freguesia do concelho da qual, na actualidade, faz parte. O epílogo, por enquanto, da história do nome da freguesia, reside no ano de 2003, quando se vê, finalmente, amputada do “de Podence”, passando a ser dona de si própria… AH! E a onomástica? Qual será o tortuoso caminho etimológico de “Lamas”? E, já agora, e “Podence”?… Como isto é uma intricada teia que envolve Geografia, Religião, Linguística, Antroponímia e… suposições q.b… Voltamos à história do “garnizo do b’zinho, mêmo q’ámanhã num seija dia de satcho”…

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Derivações de umas Lamas que já foram de Podence

O presente jamais poderá ter a incumbência de apagar o passado. Poderá, quando muito, reescrevê-lo na forma de um assomo de orgulho, transmissível às gerações vindouras. Uma enorme fatia da reedição dos meus pretéritos tempos traz subjacente o que foi alterado pela Lei 55 de 2003: a designação de Lamas de Podence, retirando-lhe o agente possessivo. Para um “lamo-macedense“, nada mais se fez que transpor para a legalidade o que já legal era, pelo menos para os filhos de Lamas, desejosos de se verem livres dos grilhões de serem da freguesia vizinha. Isso não tinha jeito nenhum e passei a ser um descendente de Lamas de Lamas e “mai nada”! Tal como os de Grijó deram uma vassourada na pretensa vassalagem à freguesia limítrofe. E ainda bem que não há nenhuma freguesia vizinha que se chame Cavaleiros. Caso contrário, lutaria determinadamente de forma a ser apenas de Macedo!… Mas, sendo “apenas” de Macedo de Cavaleiros, não posso ter a veleidade de trocar, simplesmente, de raízes. Não renegando a vertente genética com proveniência na “Imbernia Lamacense do Bernardo” e salvaguardando a memória do Dr. Urze Pires, que me arrancou artificialmente do ventre materno no Hospital da Misericórdia, julgo pretensioso ser um “filho de Lamas”, considerando-me, antes, um genuíno “neto” de Lamas. E um “cibinho” de “neto” de Corujas… e de Vinhais. “Filho, filho, sou filho de Macedo”… Só para enquadrar as “cousas”… Retornando a Lamas de Podence… Quando ainda dava os primeiros passos em arte nanomicro (agora está na moda) parietal, através de traços figurativo-esquemáticos em lousas, convenci-me de dois disparates (os primeiros de muitos…). O primeiro deles relacionava-se com o “pontapé na bola”: acreditava que o Clube de Futebol União de Lamas, nos seus tempos áureos, mesmo desconhecendo em que recinto jogava, era o representante máximo do desporto da minha “segunda terra”. E tentava convencer os meus primos e amigos lamacenses da veracidade de tal facto… Santa ingenuidade… E santo isolamento… O segundo dos disparates possui uma ligação umbilical com o que aqui me traz hoje: a toponímia e a etimologia de Lamas de Podence. Versava o dito disparate sobre a dificuldade que a invernia trazia para transpor o percurso entre o Pontão e a casa da Avó. Como não havia carro que subisse, por entre frondosos carvalhais, pela enlameada vereda, era fácil perceber o porquê “daquilo” se chamar Lamas. Ficava, contudo, confuso na época estival, altura em que a dita vereda tomava o nome de estrada. Como, de igual forma, me remetia para a confusão o facto “daquilo” ser dos vizinhos do lado, ou seja, de Podence. Para colmatar o estado confusional, cheguei a sugerir, julgando ter descoberto a pólvora, que nos três meses de inferno, o “povo” deveria adoptar a designação de “Poeiras de Verão” e nos restantes nove meses, “Lamas de Inverno”. Como os adultos se riam em forma de icterícia e eu só concebia um conceito de sorriso, julgava a proposta aceite por unanimidade e aclamação e ia jogar “ó rou-rou” outra vez… Entretanto, cresci, deixei de acreditar no Pai Natal, comecei a ler “A Bola” e asfaltaram o caminho que alternava entre lama e pó. Assim como o Vasco Santana me ensinou que “chapéus há muitos”, os jornais desportivos ajudaram-me a sair do gatinhar geográfico, demonstrando-me que “Lamas há muitas”. Por isso sou capaz de levar com espírito positivo o estiramento do esternocleidomastoideu que me massacra vai para dois anos e persisto em incluir a literatura de cordel desportiva na minha ementa cultural diária… Só não percebi porque Lamas se manteve Lamas depois de pintarem a estrada de negro… Até que a curiosidade, leituras para lá do universo desportivo e outros valores me conduziram, entre outras “cousas raras“, a Herculano e aos PMH, a Hübner e ao CIL… “E prontos, mai loguinho hai puri mais, q‘agora já stou pr’áqui mêo a caniar e daqui a um cibo tanho o catancho do garnizo do b‘zinho, armado im Zé Cabra, a smoucar-me az'urêlhaze”…

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Será isto o resultado de alguma aberração cromossómica?

O “Portugal Farm” de hoje não é um exclusivo dos tempos modernos. Longe disso, muito longe disso… Começo a suspeitar que haverá, algures, um conluio cósmico, que terá tido o seu início quando fomos bombardeados há 65 milhões de anos, reinando Sua Majestade D. T-Rex. Bem investigada a cratera de Yucatán, ainda se descobre algum resíduo que explicará porque terá razão uma das minhas “discórdias de estimação”, um “tal” de Nietzsche, quando afirmou que encontrou sede de poder, sempre que encontrou seres vivos. Tivesse ele encontrado “tugas” e acentuaria ainda mais a coisa… Os “tugas”, não numa forma depreciativa, já que neles me incluo com todo o orgulho, resultam da epopeia de um punhado de heróis que os manuais escolares e séries televisivas tratam de nos impingir como um conjunto de desenfreados seres com sede de independência, que fizeram apelo à sua faceta guerreira e ao seu espírito conquistador para correr à espada galegos, leoneses, castelhanos e mouros. E, terminadas as “turras” em território peninsular, haveria que encontrar noutros continentes uso para o gume… Tudo resulta bem quando acaba bem e ninguém mandou à D. Teresa envolver-se com quem não devia. Dessa forma não teríamos a traulitada de S. Mamede… De igual forma, ninguém disse aos mouros para se aproveitarem das dissenções entre os visigodos. Não teriam apanhado nenhuma lição em Ourique… E tivesse D. Fernando apontado para outro lado e não haveria necessidade de um bastardo andar em correrias por Aljubarrota… Bem, aqui outro galo canta, porque teríamos perdido um herói macedense… Todavia, esta exaltação ao ego nacional, bem ao jeito do espírito vigente num tempo a que hoje chamam “da velha senhora” (não a “outra senhora” que as hostes rosadas afirmam ainda por cá andar, mas aquela onde vigorava, efectivamente, o “orgulhosamente sós”), pareceu-me, desde muito novo, como desprovida de toda a verdade… Mesmo que se tenham metido desastres de Badajoz pelo meio, para dourar a pílula… E se tenha antecipado o espírito da nacionalidade ao caudilho Viriato, desafiado no seu espírito belicoso por umas tréguas traiçoeiras. Já nessa altura a palavra lealdade tinha umas deturpações no dicionário lusitano, acrescentando-se-lhe, como possível significado, “traição dos melhores amigos por uns trocos romanos”… Quando olho para os “Afonso Henriques” dos tempos modernos, não fico espantado. E chego sempre à mesma conclusão: é genético, só pode ser genético! É só andarmos por cá daqui por uns mil anitos e recorrer à forma como serão cantadas as conquistas de Durão Barroso, Santana Lopes, José Sócrates (só para citar os três últimos PM) e demais políticos dos séc. XX-XXI… Não será preciso tanto… Afinal, só ainda passaram 35 anos sobre uma determinada data e já toda a gente se esqueceu das atrocidades levadas a cabo para reconquistar a “independência”… Mas, recuando, de novo, no tempo… E regressando ao vocábulo lealdade… O que dizer da fratricida luta entre o secundogénito Bolonhês com o primogénito Capelo? Ou do Lavrador com as suas “manas” e com o seu próprio filho, o Bravo? Carga que já lhe viria do trisavô quando andou em refrega com a tetravó?… Conclusão: poder, apenas poder! Onde reside a diferença com os actuais “reinantes”? Nos utensílios… Já ninguém anda de espada em riste. Substituiu-se a dita pelo gume das estatísticas. E, em vez de um cavalo só, alimentado a feno, andam os ditos “reinantes” em vários cavalos de uma vez só, apaparicados a combustível fóssil. Já não há fossados, nem anúduvas, nem eirádigos… Mas há IRC, IRS, IMI… Bem… E também não é tão descarada a protecção aos da mesma igualha, já não há honras nem coutos e tão pouco se assiste à simbiose entre a aristocracia e o clero. Mas há “tachismo”, “corrupção”, “favores políticos”… O que, mais excomunhão, menos repúdio, vai dar ao mesmo. Tal como ao mesmo vai dar o isolamento do distrito bragançano… Já não há Braganções, ou descendentes seus a exercer funções na corte. Mas haverá, a partir de agora, três deputados a defenderem, mais que provavelmente, a terceira auto-estrada entre Lisboa e Porto, o TGV e a OTA… Donde virá esta forma de estar em que o inimigo político de hoje será o parceiro de coligação de amanhã? Subsistirá algum gene fugitivo, fruto de alguma deleção ou inversão? Será o célebre “gene luso”? Não queria ir tão ironicamente longe, mas seremos nós o elo perdido para o polémico Sahelanthropus? De certeza que deveremos ter FOXP2 a mais… Coloco sérias dúvidas sobre se seremos detentores da quantidade correcta de ASPM e MYH16... Para lá das dúvidas, e passe o pleonasmo, não há dúvida que não somos os melhores, mas também não somos os piores… Somos, apenas, orgulhosamente diferentes… Digo eu…

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Portugal Farm

Certo dia, fazia ainda parte dos recenseados na lisboeta freguesia de Santa Isabel, resolvi efectuar uma visita aos meus vizinhos de S. Bento. Os verdes anos de luta política na guelra ainda estavam bem presentes, e conhecer, in loco, as caras daqueles que contribuíra para eleger, representava uma espécie de troféu e uma divisa mais para apresentar aos companheiros de algazarras e comícios nocturnos. Terá sido nessa longínqua tarde que começou a derrocada da minha ingenuidade política… Dois deputados, em lados opostos da barricada, digladiaram-se verbalmente, até atingirem a fronteira da obscenidade, tal o tom atingido naquilo que se assemelhava mais a ataques pessoais que a uma refrega de ideais políticos. Não fosse a queda um obstáculo de respeito e teria saltado para as bancadas em defesa de um dos meus ídolos. A idolatria, entretanto, haveria de desvanecer-se… Porque as minhas expectativas saíram goradas, por uma espécie de “ignis fatuus” parlamentar. Os dois seres, que pareciam estar nos preliminares do que seria um duelo exterior, resolveram arrecadar a hipocrisia para as massas e, num assomo de bom senso de salvaguarda de interesses pessoais, foram detectados, por esta alma penada, em amena cavaqueira, acompanhada de gargalhadas que roçavam a histeria, num dos espaços públicos confinantes com a Assembleia. Local onde, momentos antes, tinham presenteado os assistentes com uma das mais degradantes manifestações a que tive o “privilégio” de assistir… Senti apossar-se de mim um sentimento de humilhação, nascido da fraude, combustível para a quase indomável vontade de desafiar, eu próprio, os senhores para um duelo. Esta encenação fez-me repensar a postura que tinha na defesa dos meus ideais. Persisti na crença dos mesmos, desligando-me, no entanto, de qualquer força política e desvinculando-me daquela à qual tinha dado tantas das minhas noites de descanso e pela qual me tinha transformado, inúmeras vezes, num ser afónico. Os anos tratariam de refinar, ainda mais, as consequências do episódio. Ainda que possa provocar acusações de inconstância, a verdade é que, ao longo dos anos de cumpridor dos direito e dever cívicos, já coloquei a cruzinha em cinco organizações partidárias diferentes. Mas, pela primeira vez, a pouco menos de uma semana das Legislativas, encontro-me integrado no pelotão dos PI. Não o dos números irracionais… Nem o dos irracionais seres… Mas o dos que fazem parte do Partido dos Indecisos… Nunca, como hoje, a minha memória foi assaltada por Orwell e o seu “Animal Farm”. Não pela versão do título na língua camoniana… Ainda que o mesmo possa ser identificado pelos mais radicais como uma adequação à realidade que vivemos, parece-me saído daquele rol de traduções descabidas com que se vai fazendo a nomenclatura literária e cinematográfica. E nada tenho contra os “laregos cebados”, particularmente no que ao presunto diz respeito… Mas tenho contra os Snowball e Napoleon que infestam este país… Mais contra os segundos… Ora se ouve bradar aos céus pelo apoio aos agricultores, brado efectuado pelos senhores que “submarinizaram” montados em proveito próprio… Ora ouvimos falar de “coesão nacional” e “redução da diferença entre litoral e interior” - e por isso percebo agora as vantagens de um deputado do Douro Litoral pelo interior círculo de Bragança… Ora se desanca nos PPR’s e se defende a nacionalização, por aqueles que são detentores dos PPR’s propriamente ditos e de acções, nomeadamente na PT… Ora se luta pelas classes e pela eleição de um deputado por Bragança oriundo da vereação de Almeirim… Ora se tenta afogar a Linha do Tua, provavelmente para aproveitamento de carris para o TGV, se fecham serviços, provavelmente para financiar a OTA, ou se constroem “Portos Livres” em reservas naturais, lá para as bandas da margem esquerda do Tejo … E já não acredito na boa vontade de PRD’s e PSN’s… Daí a indecisão… Como ainda não existe o PT (não o Trabalhista, mas o Transmontano)… E como continuo a assistir ao nomadismo dos frequentadores de comícios, resgatados das suas terrinhas para, em autocarros fretados com o nosso dinheiro, irem em excursão até ao local de onde sairá uma proclamação de vitória porque, a título exemplificativo, “4000 pessoas no Palácio de Cristal mostram a vitalidade do partido na cidade do Porto” (e arredores, e arredores, e arredores…). Entendo agora o porquê de uma marca de refrigerantes ter lançado o slogan “não sejas ovelha, bebe «qualquer coisa» groselha“! Porque nem só dos repetidores de lemas de Orwell vive este país, continuam a existir os leais “cavalos”, incansáveis lutadores pela causa até serem, como Sansão, atirados ao covil quando as forças se lhe esvaíram… As “galinhas” que se dispersam nos seus cacarejos… Os “cães” que, fanaticamente, guardam os seus “Napoleon”… E os “burros” e as suas verdades… O Burro Benjamim é o meu personagem favorito, por isso me devo incluir nos “burros“… Quando instigado a falar, pelos outros animais da quinta, limita-se a um “quando não tenho nada para dizer, prefiro ficar calado”. Da minha parte, quando tenho algo para dizer, prefiro não manter o silêncio… Já que peguei em Orwell, pego também em Huxley e no seu “Admirável Mundo Novo”. Sinto-me cada vez mais integrado numa sociedade de castas, onde os valores familiares e de moral vão sendo erradicados e onde somos manipulados através das subtilezas de outras versões de “Soma”, a droga descrita por Huxley para manter os humanos na ilusão de felicidade. Regressando ao Burro Benjamim de Orwell, diz o dito ser asinino: “Deus deu-me uma cauda para enxotar as moscas, mas preferia não ter cauda nem moscas”. Como eu gostaria também de não ter “cauda” nem “moscas” para enxotar… Isso leva-me à utopia… Esta, por sua vez, conduz-me a Eduardo Galeano… “A utopia está lá no horizonte. Aproximo-me dois passos, ela afasta-se dois passos… Por mais que caminhe jamais a alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isto: para que eu não deixe de caminhar”…

Há outras coisas assim...

As novas tecnologias têm destas coisas... A dieta macedense vai mesmo perdurar por mais duas semanas. Uma chamada matinal equivaleu a planos alterados. Tentando reverter a alteração para um sentido positivo: que os desvios que ocorressem na vida se resumissem a isto... Andaria tudo de faces sorridentes... Vou carpir mágoas para outro lado... E já não vou visitar a "Genoveva", nem a horta... "Pacência"...

domingo, 20 de setembro de 2009

Há cousas assim...

Quando tudo apontava para a agrestia de mais duas semanas de dieta macedense, eis que compromissos profissionais me obrigam a um pulo a Bragança. Bem vistas as coisas, há-de dar tempo para matar saudades de uma refeição preparada pela mais velha representante do clã. E para saudar o meu novo afilhado! Mais a afilhada que já o é há muitos anos... E para verificar em que modas pára o distrito que vai ter um deputado de Penafiel (é mesmo verdade - esta está-me atravessada na garganta)... Um distrito em que uma autarquia faculta, gratuitamente, os manuais escolares aos alunos do primeiro ciclo do ensino básico. Esta é de aplaudir! Mesmo que ocorra num concelho que não é o meu (ah! refiro-me a Miranda do Douro). Já que encerram escolas que compensem os alunos (e as bolsas dos encarregados de educação). E o "mou club'atlético" perdeu o derby nordestino... Será por isso que estou parco em palavras? E em ideias... Deve ser das atoardas e contra-atoardas da campanha...

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Sonhos de sondador das miúças dos Felis fetidu

“Ridiamo e rideremo perché la serietà fu sempre amica degli impostori” - Ugo Foscolo

Sonhei com um mundo em que a reincarnação é uma possibilidade. E senti o renascimento, dando corpo a um ser cujo nome assumia a pompa de “Ric Hard Argueiro Pear-tree”… A aterragem decorreu num ambiente de euforia generalizada… Logo suspeitei de algo inusual… O cartaz de boas-vindas, à saída do aeroporto, era sugestivo: «BEM VINDO A LOLILÂNDIA, ONDE UM RISO SATISFEITO VALE MAIS QUE CEM GEMIDOS». Logo me lembrei que, na minha paralela vida real, havia um saudoso Raul que apelava a um “Façam favor de ser felizes”. E que esse apelo caía, maioritariamente, em saco roto… Estranhei as faces dos seres circulantes, descontraidamente em forma de “smile”, que se abeiravam de mim numa postura anormalmente amigável e repetiam, incessantemente, uma frase de um homem dado a escrever sobre os “misérables“ do meu outro mundo: “O riso é a distância mais curta entre duas pessoas”. Rapidamente obtive uma resposta para a minha estranheza. Os écrans espalhados pelo recinto aeroportuário passavam excertos de uma entrevista em que eu próprio era o entrevistador. Era isso impossível! Tinha acabado de aterrar num país estranho! Bem… No universo dos sonhos não há espaço para impossibilidades… Facto indesmentível, atestado pelo rodapé televisivo que debitava informações acerca do “share” de audiências das sequenciais entrevistas, inauguradas pela presença do P.-M. de Lolilândia, Pepe Filósofo. Homem bem disposto, acabado de receber um prémio que fez roer de inveja um tal de Bad Pito, cheio de eloquência, boa disposição e que responde com rasgados sorrisos às minhas provocações sobre a sua grande amiga Nelly Blacksmith Milk. A mesma postura é assumida quando retiro da cartola um “Magellan”, uma espécie híbrida provocadora de contagiosos ataques de riso pelos conteúdos lexicais anedóticos, mas que pode provocar sensações de miopia. Afinal, tudo se passa no decurso de um sonho na Lolilândia… Contudo, algo me soava a familiar… Quase jurava que aquele Pepe Filósofo era um sósia de alguém que conheço, diametralmente oposto… Esqueci por completo a dúvida existencial, já que estava a gostar de me sentir percorrido pelo hormonal universo “endorfínico“… Algo semelhante ocorreu quando as imagens foram substituídas pela incontornável figura da Nelly, a já referida amiga de Pepe. Os músculos faciais não resistiram, perante o atrevimento de questionar a senhora (a que Yohanan Soeiro, da família dos Alone-Airs, apelidou, carinhosamente, de “a outra“) acerca do seu candidato a alqadi de al-Lixbûnâ, para além do já conhecido Petrus Sanct’Hannah Lupus. Também neste caso fui acossado por arreliadores calafrios, provocados pelas semelhanças que a sorridente Nelly possuía com uma dama-de-ferro que, no meu mundo, impôs um cabeça-de-lista do Douro Litoral pelo círculo de Bragança… Coincidências… Afastado o torpor mental, seguiram-se os amicíssimos Paul McDoors (o bravo Market’s Little Paul) e Paco Anacleto (o lutador Franco Vaisselle, parceiro de lutas de outro McDoors), na sua titânica luta de classes dos com ou sem gravata, com ou sem taxas sobre telemóveis empresariais… Como o despertador tocou, fiquei sem saber se o Apache de Pirescoxe será esmiuçado por Ric Hard A. Pear-tree… Estou ansioso por adormecer de novo… E afastar-me, ainda que utopicamente, da Linha do Tua, dos repuxos e mastodontes do Jardim, da “falta de democracia”, das “Bocas Verrinosas”… E do helicóptero do INEM, dos Jardins de Infância e Centros de Saúde que encerram serviços, dos acidentes no IP4, da sub-região mais pobre da União Europeia, da agricultura abandonada, do envelhecimento da população transmontana…
«A IMAGINAÇÃO CONSOLA OS HOMENS DO QUE NÃO PODEM SER. O HUMOR CONSOLA-OS DO QUE SÃO.» Winston Churchill