Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Cousas Atléticas da Taça e da Onda Livre

A Rádio Onda Livre já não é aquela coisa feita da carolice de uns quantos "piratas" que subiam a um dos mastodontes ao fundo do Jardim para umas emissões de tal forma amadoras que, por vezes, ia para o ar aquilo que não devia... Nos áureos anos 80, mal nos amanhávamos para entender o sistema de botões e com a forma como se colocava uma chamada exterior no ar. Desses imberbes tempos dos discos de vinil, resta a memória de uma semente que me permite, hoje e à distância, ter acesso às emoções das partidas do "meu" Clube Atlético. A tarde de ontem revelou um período de pós-almoço dominical diferente... A vibração tomou conta de mim à medida que o jogo avançava para o prolongamento. Quando se entrou nesse período, preferi afastar-me e alhear-me de alguma surpresa desagradável. Revivi memórias de alguns históricos encontros no velho pelado... Interrompidas pelo avanço para os fatídicos "penalties". Com o meu "puto" a questionar-me do porquê da isolada festa que fiz logo após o primeiro falhanço dos de Lourosa... Ficou a acompanhar-me até ao derradeiro grito na Onda Livre, após o último erro da equipa forasteira. Bem, apenas se conquistou o direito a estar no "pote" da 2ª Eliminatória de uma competição onde o Clube Atlético não tem grandes tradições. Mas, nunca se sabe se não pode repetir-se a saga de 2006/07 onde só foi parado pelo histórico (e hoje moribundo) Boavista ou a vitória de 1988/89 em casa do Trofense (mais não seja proporcionou uns trocos extra com a seguinte visita do Braga, mesmo que isso tenha implicado a maior derrota em casa em jogos da taça, 0-4). A eliminação do Lusitânia de Lourosa, na actual edição, mais que a elevação do ego pelo feito, frente a uma equipa de divisão superior, pode ser a primeira porta aberta para, não sendo o sorteio padrasto para a próxima eliminatória, permitir alimentar a ilusão de uma nova recepção ao Braga, ao Guimarães, ao Paços de Ferreira ou ao Benfica, clubes da I Liga que já tiveram a honra de visitar o Coração do Nordeste. Desta vez pode o Setúbal retribuir a visita que lhe foi feita há cerca de 30 anos. Ou pode ser o surpreendente Nacional ou, porque não, o Sporting ou o Porto. Dava jeito para rechear os cofres... O que não dava jeito nenhum seria uma repetição do pior resultado macedense nesta prova: Oliveirense 9 - Clube Atlético 1... Longínqua época de 1970/71... Acho que ainda não tinha consciência da minha existência... Nem eu, nem o Morais FC... Que despachou o Olivais e Moscavide e lá estará no sorteio a contribuir para algo que poucos concelhos (especialmente do interior) se podem orgulhar: dois clubes no "pote"! Honra ao Moncorvo que lá estará também e ao Mirandela que não se amedrontou com o "rabo do peixe". A espinha ou, neste caso, os infelizes cinco espinhos, ficaram cravados no vizinho Bragança, facto que impediu o pleno das equipas do Nordeste Transmontano... Taça é Taça e não custa nada acreditar que o sonho comanda a vida...

sábado, 29 de agosto de 2009

Outras visões da Senhora do Campo

Há redutos onde o tempo se assemelha a uma ampulheta desprovida de areia. Como se uma ordem suprema bloqueasse o normal curso da vida e a natureza permanecesse imutável no decorrer dos séculos. Uma subida ao outeiro onde se situa a ermida da Senhora do Campo traz consigo a vontade de nos embrenharmos num mundo onde se respira paz. Não uma qualquer paz... A visão de longo alcance arrepia os sentidos e a presença das duas sentinelas em forma de serra faz-nos sentir inexpugnáveis. O arvoredo, conjunto de fantasmas que o tempo não apagou, testemunhas de antigas devoções, permanece imóvel, em sentido, guardando pedras que brotam do solo e a gente que ali aflui. Seja em dias de romaria e cumprimento de promessas, em amenos passeios familiares ou em celebrações de união eterna. O Monte do Facho revela uma distinta faceta, feita de marcos da civilização ou de impenetráveis terrenos onde será impossível descortinar o motivo da toponímia. Outras histórias... Ou uma parte da História, ocultada por detrás da densa vegetação. Será assunto para outro post... Fecham-se as portas e ilumina-se a alma com um pôr-do-sol que remexe nas entranhas das pedras...

Cousas Atléticas

A minha curta carreira a dar uns pontapés no esférico começou no Clube Atlético. Nos idos tempos em que o saudoso "Sô Capela" ia assistir "à bola" munido com o seu guarda-chuva, com receio que o "bandeirinha" se pudesse molhar... O velhinho campo da bola foi um digno antecessor do que hoje lhe ocupa o espaço: já era um verdadeiro tribunal, na vertente popular. Especialmente quando envolvia "julgamentos" em que um dos intervenientes era o S.C.Mirandela ou, de forma menos atroz, o G.D.Bragança. Mais coisa, menos coisa, havia, geralmente, direito a assistir a umas paulitadas e a umas fugas para o balneário de uns senhores vestidos de negro. Mesmo nos jogos das camadas jovens... Quando os ditos eram em casa, com ou sem confusão generalizada, a sensação de segurança reinava. O inverso sucedia quando tínhamos que visitar o exterior concelhio, com o também saudoso "Sô Carvalhinho" a conduzir o autocarro Toyota. Curiosamente, os ânimos sempre se mantiveram calmos nas visitas à sede distrital. O mesmo já não se pode dizer das disputas no Estádio de S.Sebastião, em Mirandela. Consegui ver a minha vida a andar para trás... O mesmo se aplica a Alfândega e a Moncorvo. Contudo, o pior episódio vivi-o a norte, em Vinhais. Percebi, muito jovem, as sensações inerentes à expressão "tremer que nem varas verdes". Foi dessa forma que senti as minhas pernas. Tão forte foi a tremideira que deu em paralisia. Parece que foi o que me salvou. Fiquei de tal forma bloqueado que, para lá do primeiro acesso de tiro ao alvo de que fui vítima, esqueceram-se de mim no meio do campo e só quando o temporal amainou é que me descobriram, sentado no pelado, agarrado a uma perna que tinha duplicado de tamanho, em amena cavaqueira com as gentes de Vinhais... Coisas... Ou cousas... Agora é tempo de Estádio Municipal e de 1ª Eliminatória da Taça de Portugal. Que o Lusitânia de Lourosa seja pêra doce e permita acalentar o sonho de novas epopeias semelhantes a uma visita do Benfica ou à quase glória da última viagem ao Bessa. E, já agora, que o vizinho Morais tenha arte e engenho para "despachar" o Olivais e Moscavide (e que as esgote para o derby de abertura da Série A)...

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Velhotas espertalhonas, um vírus espertalhão e outras cousas

Há uns meses atrás fui tomado por uma onda de espanto a propósito d'"A Filha do Cabra" e da representatividade que uma peça de teatro pode ter na quebra do isolamento. Desta vez, fui surpreendido por uma onda de emoção ao assistir à forma característica e muito transmontana como um conjunto de valorosos actores e actrizes amadores expôs a sua alma à reportagem da SIC. Quando menciono uma onda de emoção estou a referir-me, concretamente, à emoção propriamente dita, com sorrisos e uma lagrimazinha de orgulho de permeio. É a minha peculiar forma de sentir o que brota do mesmo "mar de pedras" que me serviu de alicerce...
Mais que uma via de fuga à realidade do quotidiano marcado pela árdua vida campesina, as "Velhotas Espertalhonas" vão além do carácter lúdico de um evento teatral. Transmitem, em jeito de comédia, como lidar com a "chico-espertice" de quem, sem qualquer tipo de escrúpulos, se aproveita de alguma da ingenuidade gerada pelo esquecimento atrás de montes e planaltos. Se a moda pega, teremos, um destes dias, as grandes companhias teatrais a levarem a palco uma qualquer sátira sobre como nos precavermos contra vírus BPN ou BPP... E outros... Que não o famosíssimo H1N1... Esse, parece que veio para ficar, mesmo que pareçam, como em casos anteriores, mais as vozes que a as nozes. No entanto, como cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém, é de aplaudir a iniciativa do Centro de Saúde em enviar uma equipa de enfermagem num périplo pelas diversas aldeias do concelho, levando às populações a informação técnica que, inúmeras vezes, anda arredia. Por enquanto, segundo números oficiais, o número de infectados, no distrito de Bragança, restringe-se a seis. Que as consequências desta estirpe sejam tão manifestas como o foram as da anterior gripe aviária... Assim seja e será o medo maior que o monstro, à imagem do habitual alarmismo catastrófico que caracteriza o pensar português. Género que não se aplica ao restrito mundo dos Caretos, magistralmente levados à tela por Victor Salvador, através do documentário "No domínio dos tempos". Genial, é o que me apetece dizer! Para quem não teve o prazer de ver e tiver interesse em aguçar o apetite, fica o link para o trailer do dito documentário: http://www.youtube.com/watch?v=Fet9Nt0Pnng

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Azibo - aquele paraíso escondido...


Há locais onde o poder da magia é mais intenso. Espaços onde o céu se funde com a terra, as pedras falam a linguagem da água, os montes são o prolongamento das nuvens e o sol se perde nas reentrâncias de uma mistura harmoniosa, onde convivem imóveis seres pétreos, testemunhas da criação de um mundo dourado. O Azibo é um território mágico, onde se confunde o ruído da vida com o silêncio de bucólicos recantos. Aqui chegou a civilização preservando a virgindade da natureza e mantendo intacta a beleza proporcionada pela explosão de vida natural. Há estradas onde apenas apetece andar parado, caminhos que conduzem sempre à descoberta de uma imagem única. O Azibo é a pureza da volatilidade da alma e o desafio à tenacidade do espírito...

Nocturnos

Não os de uma qualquer magistral interpretação de Chopin pela inigualável Maria João Pires... Seria aspirar ao sublime... Contudo, as tentativas de descobrir os encantos nocturnos de Macedo conduziram-me ao limiar da sublimação. Vagueei pelas artérias macedenses, em horas plenas de gente em busca de temperaturas amenas. Também o fiz nos momentos em que o coração macedense parece recusar-se a bombear vida. O silêncio é imperador, interrompido no seu reinado por fugazes movimentos de noctívagos. Absorvo um pouco do refresco e da paz nocturnos, arrepiando-me, aqui e ali, com a inusitada sensação de ascetismo numa cidade que dorme. Descobri, afinal, que a banalidade diurna de uma jovem cidade dá lugar, a horas impróprias, a momentos intemporais. E a uma interpretação muito pessoal das cores que pintam e preenchem o vazio da noite...

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Nostalgias

Acabei de receber, de novo, a recompensa da brisa oceânica. Não deixa de ser fantástico rever e sentir a minha terra adoptiva, o meu poiso e, porque não, uma parte do meu mundo. Mas trouxe Macedo nas entranhas. Todos os meus poros exalam aromas macedenses e, na minha mente, permanecem bem vivas as imagens e sensações que me deixaram com a indómita vontade de um dia regressar... Talvez... De vez... Pela terra e pela gente... Pelas aldeias e pelos caminhos... Pelas raízes e pela família... Pela Sra. do Campo e pelo Azibo... Pelas hortas e olivais... Por Lamas e Nogueirinha... E por Macedo... Acima de tudo, por essa terra que me viu nascer, pela paixão que se renova a cada incursão e pelo aperto doloroso que toma conta de mim sempre que a abandono até um novo regresso... Esse abandono deu-se há poucas horas e estou já tomado por saudades incomensuráveis dos mimos da mãe, do meu ancião canino, dos afilhados, dos compadres, dos tios, dos primos, dos amigos... E, mais logo, já não disponho de tempo para um pequeno-almoço a impróprias horas, acompanhado pela voz da "velhota" a perguntar-me se não quero um "cibinho" do seu café de panela. Nem para almoços tranquilos sem a tirania dos horários. Nem para vespertinos mergulhos no Azibo... "Bleargh!", vai recomeçar a faina...

sábado, 22 de agosto de 2009

Metamorfoses de um final de tarde

Existirá sempre um qualquer amanhã… A presença fervilhante de vida dará lugar ao abandono… Ou a efemeridade dos filhos pródigos… O fim da linha para esta estadia vai ganhando tons de nostalgia. Com eles, sinto-me possuído por nefastas sensações que não me deixam o espírito incólume. Tento compensar a angústia com a brevidade de um toque de ansiedade pelo próximo regresso. Há-de acontecer nesse qualquer amanhã… Onde retomarei o contacto com o pulsar de um território único e da sua distinta gente. E onde me sentirei seguro, protegido pelos dois guardiães erguidos há milénios das entranhas desta terra com tanto de prosaico como de poético. Não fosse a mesma uma espécie de hermafrodita, dividida em Terra Quente e Terra Fria… Da mesma espécie não é a gente, um esquisso genético brotado do isolamento de um mar planáltico traçado a lápis de xisto. E das rugas de hercínicos movimentos que deixaram sinais da génese da irrequietude das pedras no “umbigo do mundo”. Talvez tenham deixado um qualquer resquício metafísico nesta gente que nasceu numa das jovens donzelas concelhias deste país… Daí o paradoxo histórico da ausência de monumentalidade na novel cidade do distrito bragançano. Daí, também, o recurso às aldeias que pintam o concelho para obter alguma sinalética de ancestralidade histórica. A minha “eterna vila” não pode ocultar o cordão umbilical que a liga aos extintos concelhos ou às antigas circunscrições territoriais. Seria renegar o passado… Como que cortando os ramos da árvore genealógica que a ligam à bisavó Civitas Zoelarum ou ao bisavô Conventus Asturicensis… Ou à magia da religiosidade que, em tempos idos, tinha um “Deus Aernus” como destinatário da devoção e do cumprimento de promessas. A passagem de um personagem fascinante por este planeta foi aproveitada para transferir a aura de santidade para outros entes que pintam as procissões que preenchem os caminhos transmontanos. Sinais dos tempos, da evolução de conceitos e da manutenção da necessidade de recorrer a algo divino… Afinal, esta terra é, em si, também divinal. Fosse possível, na pior das conjecturas, excluir desse conceito de divindade a paisagem, a flora, a fauna, o ambiente, a gente, restariam ainda as tradições. E as iguarias às mesmas associadas… Quem desdenharia de um folar recheado com fumeiro? Ou do próprio fumeiro em si? Butelo, azedo, salpicão, linguiça, bucheira ou alheira? Ou de uns moribundos queijos de cabra transmontano ou terrincho? Ou ainda de adoçar os sentidos com mel da Terra Quente? E que tal uma sopinha de casulas secas? Saem uns peixinhos do rio de escabeche? E uma posta? Sim, senhor! Feijoada à transmontana? É para já! E um Vale Pradinhos? Branco ou tinto?… Branco ou tinto, tanto faz, que as cores são indiferentes num quadro onde sempre existirão tonalidades nunca inventadas. E que se renovam a cada disparo visual, a cada inalação, a cada absorção sonora, a cada despertar das papilas gustativas ou a cada descoberta da macieza da rugosidade de texturas. E a calor humano… Percepcionar a obtenção de semelhante quadro exige um exercício que está para além das banais capacidades sensoriais da espécie. Experimente-se juntar umas pinceladas de Van Gogh, Da Vinci e Picasso, acrescente-se-lhes um toque português de Paula Rego, Júlio Pomar e Vieira da Silva e tempere-se o resultado, condimentando-o com um genuíno toque transmontano de Graça Morais. Coloque-se na imagem final um pouco de sonoridade de Mozart, Beethoven e Vivaldi, remisturando com Pink Floyd, Queen e U2. Um pequeno toque de Rodrigo Leão e Mariza dar-lhe-á a suavidade portuguesa. Imagine-se Shakespeare ou Cervantes a escrever na tela, acompanhados por Camões ou Pessoa. E… A essência da utopia… Porque a beleza de Macedo e Trás-os-Montes jamais residirá na mão dos mestres. Reside na simplicidade da mestria de entender o contraste da incongruência do sentir. Ama-se e odeia-se em simultâneo. Olha-se para um mar de pedras sem sentir brisa oceânica. Vive-se o calor do inferno refrescado pelo paraíso do Azibo e o gelo do inverno amansado pela musicalidade do crepitar lenhoso. Sente-se o vibrar caloroso da alma da gente, escondida por detrás da frieza de caras lavradas a rugas. Choram-se risos e riem-se lágrimas… Sentir Macedo e Trás-os-Montes não se explica, não se pinta, não se compõe, não se escreve. Sentir Macedo e Trás-os-Montes, simplesmente, sente-se… E nasce-se… Até já…

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Água, Incongruências, Boicotes e… Maledicências

Há crimes que se baseiam no silêncio e em lutas intestinas que navegam por águas onde as populações não mergulham. Existem aldeias a noroeste do concelho com deficiências no abastecimento de água. Sem grandes rodeios, isto é um crime! Não tanto pela ausência do bem precioso em si, mas sim pelo que gera a insuficiência. Na minha frontal análise, seja dito. É por demais evidente o conflito existente entre a autarquia e os bombeiros voluntários. O mesmo já foi escalpelizado em diversos órgãos de comunicação social, a propósito da ausência de Macedo na criação das EIP (Equipas de Intervenção Permanente), bem como na pretensa inadequação do novo quartel às actuais realidades, ou ainda na acusação de promiscuidade em relação à eleição dos órgãos sociais da corporação. Não vou tomar o papel de juiz nem me vou imiscuir em assuntos que não me dizem respeito. Tomei como uma das minhas posturas de vida que existem três razões: a tua, a minha e a correcta… O que é relevante são as consequências deste braço-de-ferro em que as vítimas são as que nele não participam. Porque hão-de as populações estar privadas de um bem essencial ou, em última instância, a ser abastecidas de forma insuficiente porque, segundo a informação veiculada, os bombeiros macedenses não têm tido o autotanque disponível para proporcionar a satisfação de uma necessidade primária? Mas não está disponível porquê? Sofrerá da enfermidade de alguma avaria? Tem havido assim tantos incêndios? Se assim é, o vizinho concelho de Mirandela pode considerar-se bafejado pela sorte… Porque é através dos seus autotanques que não surge a contingência de um qualquer regresso ao passado… Ou a uma mudança continental… Ainda que estejamos afectados pela pobreza, persistimos colados ao continente europeu… Ou não?

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Cousas raras no éden

Há uns anos fui chamado à atenção por um amigo sociólogo para uma realidade que desconhecia. Havia uma freguesia do concelho de Macedo que, em termos percentuais, era a recordista de crimes violentos num país mais habituado a notícias sobre eventos criminosos nos grandes centros urbanos. Na altura, meio a sério, meio a brincar, argumentei que isso se devia ao sangue fervilhante transmontano, o qual, por meia dúzia de centímetros de afastamento de um marco ou por um breve desvio de águas de rega, poderia degenerar em paulitadas, sachadas ou vidas ceifadas. Ou honra lavada em sangue por outras questiúnculas… De qualquer forma, tratei de explicar, defendendo a minha dama, que a província transmontana, e o concelho de Macedo em particular, eram feitos de gente pacata, nalguns casos com um grande espírito comunitário e com um carácter hospitaleiro anormal. E que a análise numérica que me era apresentada era passível de várias leituras, tal como é comum em todas as análises numéricas. Extrapolar uma avaliação sociológica, efectuada em termos percentuais, para a realidade transmontana era um erro de palmatória. Particularmente porque é quase unânime que todo o interior é, por excelência, uma região mais segura que o litoral. Os últimos tempos têm, no entanto, revelado outros contornos. Talvez pelo fenómeno de desertificação e pela tendência de envelhecimento da população, a região ficou mais vulnerável. Será sempre discutível, mas a penetração na região de gentes de outras paragens poderá, de igual forma, ter dado luz ao incremento da insegurança. Daí ao aproveitamento de um cada vez maior isolamento, foi um pequeno passo. As burlas têm proliferado e os assaltos a residências tornaram-se mais vulgares. Todavia, mesmo sendo sintomático, trata-se de crimes menores, se comparados com a agressividade existente nos assaltos com que, quase diariamente, somos bombardeados nos noticiários. Até Segunda-feira… Causa-me alguma estupefacção a forma como decorreu o assalto nas imediações da aldeia de Peredo. Agredir, pelos vistos de forma violenta, a senhora que apenas pretendia vender os seus galináceos à beira da estrada causa preocupação. Não só pelas sequelas físicas (e psicológicas) com que há-de ficar a infortunada senhora mas também pelo rastilho que pode representar para o rebentamento de outras ocorrências. Será que 3 mil euros valem tanto? Para os dois indivíduos que perpetraram o assalto, devem ter valido… Virão os do costume afirmar que a culpa do assalto se deve atribuir às condições sociais? Está bem que já estamos habituados a ser assaltados, ainda que de forma indirecta, mas, até agora, ainda não levei nenhum arraial de porrada do fisco, nem das inspecções periódicas... E, já agora, o que acontecerá aos coitados dos assaltantes, vítimas das ditas condições sociais, caso sejam identificados e capturados? Deixem-me adivinhar: termo de identidade e residência?… Se lhes aplicassem a mesma pena com que brindaram uma senhora que, de forma honesta, cometia o “crime” de vender galinhas, é que era um bom correctivo. Mas, nesse caso, viriam logo as ONG a ocupar as aberturas dos telejornais com notícias de excesso de violência policial… É o país que merecemos… Um país onde é notícia o notável aumento de candidatas ao poder local no distrito de Bragança. Distrito cujo poder concelhio é dominado por presidentes do sexo masculino. Sou a favor de equidade e contra a descriminação. No entanto, caso fosse do sexo feminino, sentir-me-ia terrivelmente mal com notícias deste quilate. O que impede uma mulher, num país dito democrático, de se candidatar a presidente de câmara? Nada, para além, provavelmente, de questões hormonais e de sensibilidade (e isto é legitimamente discutível)… A sede de poder é, talvez infelizmente nalguns casos, mais vincada nos homens. Serão melhores ou piores a exercer o poder? Nem uma coisa, nem outra! Há excelentes líderes, quer de um lado, quer de outro. Votaria numa mulher? Obviamente que sim, caso lhe reconhecesse capacidades para nela depositar a confiança do meu voto. Votaria num homem? Obviamente que sim, pelos mesmos motivos. Mas jamais votaria num homem por ser homem ou numa mulher por ser mulher. Nunca vi o lado feminino como o “sexo fraco” mas, caso fosse mulher, seria, provavelmente, como me sentiria com notícias deste género… Imagine-se o impacto que teria uma qualquer notícia relativa a um qualquer concelho onde o poder autárquico seja exercido por uma “Sra. Presidente”, dizendo que havia candidatos do sexo masculino… E? Ainda bem… E do sexo feminino, também? De preferência, jeitosas e bem aparelhadas… (com esta, arrisco-me a ser acusado de machista)

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Um cibinho de paz meteorológica

Hoje tenho a benesse de um dia carregado de nuvens. As tonalidades que marcam o céu revelam o carácter ameaçador de uma trovoada de Verão, confundindo-se as imagens com um dos flagelos da época estival. Pelo meu parco conhecimento, só ainda houve efeitos adversos para os lados de Talhas. Desejo, ardentemente (fogos à parte, irra!), ser fustigado por umas bátegas de água enquanto entoo um desafinado e executo um desajeitado “singin’ in the rain"................................................. Os deuses estão comigo! A chuva foi efémera, mas foi propiciadora de um breve duche exterior, iluminado por uns ténues relâmpagos, fenómeno capaz de reduzir uns anos à “petroa”, tal o pânico que dela se apossa com estas manifestações da ira divina… “Oh mou filho! Atão stá a trubuar e a cairim uas pingas e tu andas aí, que pareces meio tchutchinho, a tirar f’tugrafias?” O meu pirralho também não se assustou com o troar celeste e andou atrás do progenitor com indicações preciosas sobre os melhores contrastes para obter registos para a posteridade… As tonalidades que pendiam sobre nós não foram obstáculo a mais uma churrascada, representada por umas “costelazinhas d’adôbo”. Pena que o jantar se tenha assemelhado a ceia e já não tenha dado permissão para assistir ao “Encontro dos Grupos Culturais”. Deu para assistir ao majestoso final representado por um misto de espectáculo aquático e pirotécnico. E para refrescar a alma com uns “finitos” da “tasquinha” do Grupo Macedense, acompanhados por umas das melhores farturas que comi nos últimos tempos… Bem como pela partilha de umas “ideiotices” universitárias com a descendente do meu “mano adoptivo”, o “mou Bi”. “Inda l’arranquei umas lagrimazecas meiu’scundidas quando cunfessei q’ou churaba que nim um desalmado quando ele s’ia imbora quando andaba armado im grumete na Sagres”. “Bôs tempus!” Nostalgias à parte, outras tasquinhas há que não se dedicam ao negócio da “alcoolização” do público. Umas podem amenizá-la com as já mencionadas farturas ou ainda com cachorros (ainda não percebi porque me sai sempre a mesma parte do “cutcho”…). Outras mostram o que resta do passado, seja através de velharias ou da persistência em mostrar o valor intrínseco da recriação artesanal de alfaias que fizeram de antepassados à maquinaria agrícola. E há sempre umas conversas com os expositores, mesmo que se resumam a relembrar-lhes que eu era o “puto lourinho” que ia lá a casa comprar requeijões… Ou conversas com alguns transeuntes que, invariavelmente, me metralham com aquelas perguntas de quem tudo quer saber e apenas fica a saber pouco mais que nada… Mas também surgem aqueles abraços sentidos com gente que fez parte integrante das minhas infância e adolescência. Ou com os detentores do poder público (esses mesmos que são acusados de falta de democracia) e que, também, com maior ou menor grau, constituem elos com o meu passado. A falta de democracia será representada por se misturarem com o “povaço”? É que, desculpem lá a linguagem viperina, porque não me cruzo eu com os “procuradores” e só vejo os “réus“? É que também gostava de distribuir uns “bacalhaus” pela oposição. Como já disse, tenho amigos de um lado e do outro da barricada. Será a luta tão aterradora que os amigos que tenho do lado rosado se transformaram na versão “n” do hollywoodesco “Desaparecido em Combate”? “Num les cunsigo pôr a bista im cima! Debim star todos de fériaze. Ou num gostum de festaze”… Ou, em última instância, “imbutchinarum-se” por já não reconhecerem o Jardim…

domingo, 16 de agosto de 2009

Pedaços de Macedo ComVida

Estou todo “contcho”! Possuo a mais indelével prova de que não se devem fazer juízos de valor, mas sim juízos de facto. Neste ano de triplo “dever cívico”, cedi às pretensões familiares para me dedicar a três semanas (!) no coração do Nordeste da Sub-Região mais pobre da Europa Comunitária… Pobre numas coisas, mas… Nutro uma enorme paixão pela riqueza que emana de todas aquelas coisas que o dinheiro não pode comprar e que se encontram bem vincadas em “Villar de Masaedo”, bem como nas muitas aldeias que constituem o seu entorno. “Sancta Maria de Lamis“, “Piunero”, “Podenti”, “Tealinas”, “Valle de Cortisis”, “Egreiió”, “Sancta Columba” ou as desaparecidas “Veareses”, “Paixõ” e “Crastelos”, só para citar alguns históricos exemplos. Mas a ideia de estender essa paixão ao transcurso de três semanas provocava-me alguns calafrios de monotonia!… Equivoquei-me… Se equivoquei! Macedo tem vida, o Jardim recuperou alguma da dignidade perdida, as actividades vão-se multiplicando, há cultura, há desporto para lá do futebol!… E há amigos, velhos conhecidos. E, também, pessoas que me cumprimentam e me deixam com uma angústia de “tótó” porque, mesmo com desenhos e mapas, dificilmente avivam a memória de quem daqui se ausentou há mais de duas décadas. É com alguma frustração que sou saudado com alguns sorrisos aos quais retribuo com um indisfarçável sorriso amarelo. A sério, é mesmo constrangedor! Em algumas circunstâncias, no entanto, após algumas insistências do género “Então não te lembras?”, sou invadido por uma inexplicável sensação de conquista, como se me tivesse transformado num neo-Arquimedes. Há situações em que é óptimo resgatar memórias… Outras há em que é mais saudável limitarmo-nos ao “carpe diem”. É baseado nesse “sugar o tutano da vida” que tenho tentado passar através destes dias de canícula. Limitado pela infeliz coincidência de, em simultâneo, terem sido ligados todos os fornos concelhios… Seria um atrevimento aventurar-me pelos remotos locais da nossa história com este calor que deve permitir estrelar ovos sem “sertã“… Como há mais marés que marinheiros, num qualquer futuro próximo, há-de haver disposição meteorológica que me faculte embrenhar-me pela Levada Velha ou pelo Forno da Velha. Ou por outros locais onde foram deixados antropomorfos, podomorfos e arte esquemática. E cruciformes, covinhas e ferraduras… Pena estar a Fraga da Pegada enclausurada por detrás de um estudo… E não perderei o ensejo de um périplo por Xaires, pela Caúnha, pelo Bovinho, pelo Cramanchão, pela Fraga dos Corvos ou pela fantástica Terronha de Pinhovelo. Ou por uma das vias do Itinerário de Antonino que atravessou este concelho, até há bem pouco tempo, pretensamente sem história. Não só tem história como tem quem a procure redescobrir. Honra seja feita a quem se tem dedicado a desenterrar o passado macedense e a expor os resultados em locais magníficos como os Museus Arqueológico e o de Arte Sacra. Pessoalmente, ficarei eternamente grato a quem tem contribuído para o meu entendimento acerca da história do meu concelho e da sua gente. O engrandecimento de uma terra reside nos actos que a elevam à distinção. Esta gestão autárquica tem cometido erros? Sem dúvida! Não conheço nenhuma que os não cometa… Esses erros podem ser camuflados? Obviamente que não! Contudo, os mesmos não constituem um óbice a que hoje sinta um orgulho cada vez mais visível em, mesmo estando à distância, fazer parte desta terra e desta gente. E em participar activamente nas manifestações de índole cultural que vão grassando por estes dias. O concerto dos Quinta do Bill fez-me regredir até aos loucos anos em que pulava incógnito no meio da multidão, absorvendo as tonalidades musicais dos grupos que marcavam o meu crescimento. Reviver esses momentos com os meus pirralhos, atónitos, a pularem a um ritmo que já não consigo acompanhar e a incentivarem-me para um regresso ao passado, foi inolvidável e propiciador de arrepios temporais indescritíveis. Algo semelhante sucede com a marcação de presença assídua na Paisagem Protegida da Albufeira do Azibo, seja para um retemperador mergulho ou para um desentorpecimento de pernas pelos magníficos trilhos que a rodeiam. Fico extasiado com a forma como lhes consegui transmitir a paixão! Eles adoram Macedo, as aldeias (particularmente Lamas e Nogueirinha, onde possuem uma parte das raízes), as piscinas, a barragem, o jardim e as amizades que por cá vão construindo. Ficam fascinados com a fauna e a flora, querem fotografar insectos e mamíferos, aves e peixes, árvores e arbustos. Um rebanho é sempre motivo para uma paragem, querem ver burros, cavalos e demais animais de quatro patas. E questionam-me sobre lontras, lobos, raposas, águias, falcões e… víboras-cornudas… E querem que lhes ensine a atirar pedras longe… E a trepar às árvores e aos penedos de xisto… E massacram-me agradavelmente com as expedições arqueológicas, querendo saber tudo acerca da Mamoa de Santo Ambrósio, da Terronha de Pinhovelo, da ponte e da aldeia de Banrezes… E de Zoelas, Romanos, Suevos, Visigodos, Árabes… E da Reconquista… E porque temos um apelido que consta do grupo dos cinco que fizeram, inicialmente, a história do condado… E qual é a derivação do nome Macedo… E porque Macedo tem a ver com Aljubarrota, mas não tem castelo… Não tem castelo, mas tem VIDA!