Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



domingo, 26 de junho de 2011

Fai um calor do caralhitchas!

O inferno exterior inibe esta desmesurada vontade de um "home" se embrenhar no coração da terra. Aventurei-me lá fora, voz dando a esta sã insanidade que me empurra à descoberta de montes e vales, incessante busca do que excitar gera neste descendente das pedras. Verdugo dos dias, o astro, à realeza elevado, queima as entranhas, língua de fora, qual cão vadio sedento de sombra e água frescas. O escalpe reclama, numa surda voz que atordoa, ecoa o borbulhar, como se uma fervente panela se aprestasse a explodir na presença da brusquidão de um mal calculado movimento. Macedo metamorfoseou-se em forno, cumplicidades com amarelos avisos, solidária cidade nesta causa da vergastada do estio. Não fora um certo puritanismo da educação e boas maneiras, diria "f...-.. lá o calor!". Digo-o, secretas confissões na privacidade de pública exposição, escrever não o faço, resguardo-me no subentendimento, de antemão sabendo que decifrar o faz quem vernáculo idioma usa. Entende-se, é feio, ou dizem-no, porque todos os botões conhecem tão pecaminosa forma de pragas rogar ao desconforto. Valha-nos o lago, ou recantos outros para lá do Azibo! Ou a ventoinha que incessantemente rodopia enquanto o que escreve pragueja... Talvez tenha sido o São Pedro, chaves muitas de aberturas tantas, abriu o céu ao inferno, quem sabe, ou ter-se-á esquecido de uma frincha mal selada, que o Demo, todos o sabem, rogado não se faz a atormentar os vivos. E abriu também a Feira, rejuvenescimento de aparente fantasma, a "vila" encheu-se de vida em dia de popular pai Carreira. Discutíveis gostos, da algazarra me afastei, as agulhas viram-se para sonoridades outras, não sem homenagem prestar às imediações. Sabe a festa, é festa!, celebrem-se os dias em carreiros de humanas formigas, feche-se a Pereira Charula ao trânsito, abram-se alas ao povo, o meu povo, aquele que rugas me faz adorar e a trabalhos muitos vassalo me faço. Na efemeridade dos dias, Macedo está vivo, ou a vida cheira. Sorri o mobiliário de esplanadas habitualmente enredado na pacatez da noite. Sorriem os donos também, esfreguem-se superiores extremidades. E sorria eu! Afinal, a minha "volta dos tristes", penosa e monótona incursão de calcorreado percurso de anos muitos, transfigura-se: há vida para lá da passarada que inferniza cabelos com não solicitado creme. Circunstâncias há em que a sociabilização rasga taciturna face, num aperto de mão mais, inconvenientes perguntas por vezes, não menos inconvenientes respostas, ou a singeleza de uma feliz saudação de quem há anos não se vê. Entretanto, fiz uma pausa para regenerar o espírito com uma água "gaseada" com sabor a limão que dizem ser produzida aqui num concelho ao lado (ainda que os dividendos voem para outras bandas - não é assim também com a produção eléctrica?)... De novo me aventurei a exterior ambiente... E de novo entrei em rápida reclusão! "Fai mesmo um calor do caralhitchas. Num fora pur a bregonha e botaba-me todo couratchinho! Mas tchaldra-me q'inda bem puri a alustrar, bem m'ou finto que num trubô, q'o céu aparecesse-me que se stá ámanhar... Peis habia de bir ua zurbada, q'inda hei-de botar os cousos de molho na barrage a tchuber-me nas fuças". Mas isso serão contas de outro rosário... Porque, mais à "neitinha", quero ir desvirginar o recinto da Feira de S. Pedro 2011. E aí jeito não dá "niua trubuada"...

sábado, 25 de junho de 2011

Gula, amizades e ar puro

Há reinos onde o tempo parece correr ao sabor da mansidão dos montes. Ouve-se a balada da serra, num inquietante sossego que espevita um sorriso que nos abre a alma de par em par, exposições de abertura zero, filtros ausentes, apenas esta hipnose de um arrepio forçado pelo toque de imagens que embriagam os sentidos. Há tesouros assim, na aparência de um esconderijo, despertados em singelas conversas de uma tradição perdida. Ou quase... Revivescências do pretérito, tempero de seculares amizades nascidas debaixo de sagrados calhaus, descontextualizações em modernos tempos onde conceitos se prostituem ao sabor de (in)conveniências tantas. Há purezas assim, equilíbrio do dar recebendo, num qualquer sentido abraço, fraternidade sem cláusulas, gente das pedras, nas pedras criado, nas pedras parido. Simples, despojada de adereços da aparência, feições esboçadas a carácter da serra, completa, que a vida não é para ser levada a prestações. Retome-se a tradição... Há sempre um tempo para retomar a tradição. Relembrem-se as velhas aventuras dos tolos, guerreiros numa qualquer noite do estio, assados à luz da Lua, repetidos convívios de anos a fio, provisoriamente esquecidos numa gaveta da lembrança. Era o "pito assado na Siôra do Campo". Eram os tolos, somente os tolos, providos da vontade de salutar convívio, pactos celebrados a brasas de giesta, ruidosos lampejos a acordar vidas que dormem, inebriantes aromas da gula, talvez se aproximem os lobos, ou lupinos espíritos da ancestralidade. Quebre-se estabelecida ordem, renovem-se os pactos, adornados a perdido javali, estufadas batalhas, um "carólo" por companhia, abra-se o apetite com salgadas azeitonas, guerreie-se com "carabunhas", abram-se hostilidades da gula. Algures, a lenha, restos de amputados carvalhos, renovada vida lhes deram. E acenda-se a fogueira, deslumbrado olhar, é o fascínio do fogo, é o receio também, por entre um copo mais, controladas chamas que ofuscam, por breves instantes, o calor de seladas amizades. Chegam opíparas convidadas, de Judeus nascidas, folgam nasais receptores da magnificência do cheiro a natureza, inunda-se o ar de névoa do fumeiro, excitam-se gustativas papilas pelo prenúncio a sabor a terra. Um copo mais para atenuar a espera, "aparece-se que stão mim boas, bota cá mais um cibo de jabali"... Rotula-se o ar a conversas de "pança tchêa", provam-se os primeiros exemplares, tostados, saborosos, "ou quero o cornitcho". Celebra-se o momento a perdidos olhares no horizonte, o Azibo ali ao fundo, eterna busca de uma distinção mais, Bornes a um lado, Nogueira a outro, dorsos de guardião iluminados por alaranjada luz de final de tarde. "E atão num s'ass'ó pito? Ah peis que num s'assa! Abonda di a grelha que já o racosemos!"... Ide comer erva a um lameiro, ou palha ao palheiro, melhor o diria a matriarca, ainda por cá andasse! Degusta-se o galináceo, como se vez primeira fosse, saborosa carne curada a grão e couves, e a petiscos que a terra dá. Reacendem-se velhos episódios de noites tantas regadas a infâmia do vinho, soltem-se os espíritos, maniete-se a inibição, avance-se destemido para a gargalhada geral. "Atão num t'alembras daquela neite im que quase te mejaste pra cima do assado? Bô, isso foi quando um biu um jabali a racoser-nos o presunto... Catantcho, o que fai o binho!"... A noite cai, de mansinho, distinta prole estelar a abençoar os esparsos pirilampos em que as aldeias se transformam. Levanta-se o arraial, contam-se as armas e os soldados, apagam-se os vestígios da refrega. É hora de descer ao "pobo", acalmem-se excessos com cafeínica dose, ou exacerbem-se, há sempre um digestivo mais à espreita. Ou um javali que se atravesse no caminho... E na ressaca dos dias, hoje começa o São Pedro... Com o inferno do estio lá fora...

terça-feira, 21 de junho de 2011

A ansiedade das pedras


As pedras, perscrute-se-lhes o âmago, insondáveis palpitações de vida o clamará a descrença, dotadas que estão da lucidez de um cúmplice afago. Encoste-se-lhes o ouvido no lado contrário do paradoxo, de mansinho, sem recurso a brusco despertar. Resgate-se o estetoscópio de sublime fantasia, invisibilidade no seu eterno mergulho nos recônditos da alma, activem-se sensibilidades auditivas pela genética contrariadas, apele-se à fugacidade de um efémero beliscar dos sentidos. E estarão lá, bem ao lado do oposto, esquivos, camuflados, numa arredondada esquina do nunca, cardíacos batimentos pétreos, ténues, imperceptíveis, indecifráveis formas de vida onde diz a lógica repousar o inerte. Afinidades que compêndios de Geologia decifrar não sabem... Sabem-no os estreitos e impalpáveis caracteres desenhados a pactos de sangue, xísticos, graníticos, quartzíticos, "íticos" outros mais, petrificados à nascença numa inverosímil geminação que naturais leis contrariam. É a essência do metafísico, do inentendível, linguajar do silêncio, como se da obliteração do som rompessem lexicais formas intraduzíveis, sem recurso a universal dicionário que lhes aclare o significado. Bastante é ser efectivo membro da Confraria das Pedras, intrínseca adesão ao choro primeiro, para carregar esta estranha simbiose que me dota da infame capacidade de escutar a mudez das pedras, falando para surdos seres. Há demências piores... Sirva-lhe a assumpção de atenuante ao juízo dos mortais. Não desminto orgulhosas insanidades: fito em desmesurada estupefacção a fisiologia das pedras, permissão dou a proibida paixão, acossado por estranhos e penetrantes olhares de volúpia, inenarrável desejo pelo que indesejável é, o dizem os manuais dos bons costumes e de não menos boas maneiras. É a perversidade de ser filho das pedras, estranha prole o sou, enraizado na imobilidade, vergado a um pétreo sagrado, altares muitos de monotonia pouca, na grandeza desenhada a formas tantas, altivas por vezes, rastejantes outras. É controverso tentar explicar o inexplicável, abala os sentidos apenas, talvez seja uma arquitectura com arcos de imperfeita volta, ou encavalitados pedaços de petrogénese vergados ao suor dos homens. Sei lá o que é! Ou sei, de privadas confissões de imperfeitos amores, secretas confidências que auscultam a ansiedade das pedras... E a suave angústia de lhes tocar os sentidos... Amanhã...

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Legislativas à Macedense (Parte II)

Mantendo a eventualmente controversa divisão geográfica da "bota concelhia" em seis áreas perfeitamente distintas (tal como referenciado na publicação que esta antecede), leituras há que permitem retirar outras ilações do mapa político. A incontestabilidade do mapeamento laranja parece não oferecer dúvidas. O que também parece não gerar contestação é uma correspondência entre a subida de votação do PSD com a equivalente descida do PS. Porém, outras questiúnculas se levantam... Porque nem sempre o que evidente parece corresponde à realidade. O PSD subiu 828 votos; o PS desceu 835. Soa a transferência directa, mas... Para onde foram os 199 votos que perdeu o CDS? Logicamente, ter-se-ão transformado em voto útil. E para onde terá ido o rombo de 414 votos que o BE sofreu (passou de 6,16% em 2009 para 2,01% nestas eleições - de quarta para quinta força política - tendo o PCP subido apenas 19 votos)? Indo um pouco mais longe... Assumindo sem grandes riscos que, do acréscimo de 828 votos do PSD, 199 corresponderão aos votos úteis provenientes da perda do CDS, restam 629. Será lógico supor que resultem de uma transferência do eleitorado flutuante que votou PS nas anteriores eleições. Mas ainda asssim restam mais 206 votos perdidos pelo PS sem destino evidente. Acrescentem-se-lhes os 395 votos efectivamente perdidos pelo BE (414 menos 19 "transferidos" para o PCP) e ascende a 601 o total de perdas da "esquerda". Se considerarmos que, comparativamente às Legislativas de 2009, houve menos 568 votantes, obtemos uma diferença residual de 33 votos (facilmente distribuídos pelos "pequenos partidos", particularmente o PH e o MPT). Não parece trancendente a conclusão: uma grande fatia dos votos perdidos à "esquerda", particularmente os mais à "esquerda", foram-no para a recentemente chamada "abstenção útil". Isto é, a percentagem de votantes que estão insatisfeitos com o partido no qual habitualmente votam mas não pretendem contribuir para presumível vitória de outro com a sua directa contribuição. Poderá assemelhar-se a falácia, mas não é... Faça-se um mero exercício teórico: 4 listas (A, B, C e D) numa pretensa votação em que obteriam, respectivamente, 34%, 41%, 20% e 5%. Suponha-se que os votantes da lista C optavam pela "abstenção útil". Os resultados finais seriam bastante diferentes: A - 42,5% ; B - 51,25% ; D - 6,25%. Ter-se-ia contribuído para uma maioria absoluta da lista B sendo abstencionista... Cousas curiosas dos números que parecem ter-se passado no concelho de Macedo de Cavaleiros, se bem que com resultados inversos aos eventualmente pretendidos... Um concelho que apresenta nuances particulares já que, e ainda considerando a divisão em seis áreas geográficas, não é visível uma perfeita homogeneidade de votação à medida que se percorrem as distintas regiões. As áreas do Norte concelhio apresentam uma tendência marcadamente "conservadora", atestada pelo fosso de votação entre os partidos considerados de "direita" comparativamente com os classificados como de "esquerda". Nas freguesias englobadas a Nordeste isso é ainda mais notório, com uma votação média de 77,86% nos primeiros contra 17,19% nos segundos. Essa diferença é ligeiramente atenuada a Noroeste com 68,55%/25,60%. É na freguesia de Macedo que essa diferença surge mais esbatida com 62,89%/32,04%, mantendo-se o abismo nas restantes três regiões, se bem que de forma não tão vincada como a Norte. Não espanta, por isso, que seja a Nordeste que PSD e CDS obtêm os seus melhores "scores" médios, com 59,09% e 18,77%, respectivamente. De igual forma não causará espanto que seja aí que PS e BE obtêm as suas piores votações médias, com 14,62% para socialistas e 0,99% para bloquistas. Curiosamente, não é a Noroeste que o PS detém a sua segunda pior votação, mas sim nas freguesias englobadas no Centro. Este facto é perfeitamente explicável por representar este conjunto de freguesias aquele onde PCP e BE obtêm as suas melhores performances, respectivamente, 3,79% e 2,00%, bem como é nas mesmas que os centristas conseguem a sua segunda melhor votação média (em contraponto, é também aqui que o PSD alcança a sua segunda pior votação - não deixa de ser um facto curioso que seja nas freguesias do Centro que os "extremos" conseguem melhores performaces à custa dos partidos de um pretenso "bloco central PSD/PS"). E venham de lá mais curiosidades numéricas... À semelhança das anteriores Legislativas, a freguesia de Ferreira mantém o estatuto de bastião laranja, com 70,27% dos votos no PSD. No lado oposto, mas mantendo a congruência, Santa Combinha é a "ovelha negra" dos sociais-democratas com 26,27%. Já Vilar do Monte mantém, como em 2009, o seu lugar altaneiro nas votações "rosa", com 40,91%. O carrasco dos socialistas foi desta vez com 6,90%, Lamas, destronando Corujas deste posto. No que respeita aos centristas, louvem Santa Combinha e os seus 40,00% de inusitados votos "populares", roubando o lugar de máximo reduto do CDS a Corujas. Numa titânica luta de pequenas freguesias, Soutelo Mourisco, com 2,56% de votos no CDS, roubou o lugar à Burga como freguesia com menos tendência para depositar votos nos centristas. Os Cortiços, nada de novidade, mantêm com firmeza o seu lugar de bastião comunista, ao cederem ao PCP 10,76% dos votos. Vilarinho do Monte, Ferreira, Santa Combinha, Burga e Talhinhas não afinam pela mesma bitola já que não subsistem votantes no PCP. Relativamente ao BE, Carrapatas persiste na posição de freguesia com mais afinidades bloquistas, com 5,11%. Afinidades que não parecem ser geradas em Murçós, Soutelo Mourisco, Edroso, Corujas, Santa Combinha, Burga, Vale Benfeito e Vilar do Monte, onde o BE não consegue um voto que seja. E os chamados "partidos pequenos"? O PH destronou o PCTP do primeiro lugar do pódio, destacando-se a Amendoeira como freguesia onde residem mais "humanistas", seguida de perto por Macedo e por Lamalonga. O MPT, para lá da freguesia de Macedo, obtém simpatia acrescida em Vilarinho de Agrochão. Por sua vez, o PCTP, perdendo 15 "trabalhadores comunistas portugueses" comparativamente às últimas Legislativas, vai conquistando um ou outro adepto de Norte a Sul, sendo quase inexistente a Nordeste e obtendo o seu melhor resultado médio (0,69%) no conjunto das freguesias a Centro. Quanto aos restantes pequenos, para lá de serem residuais, nota para o PPM que mantém os mesmos 23 votos de 2009, com a relevância de não haver qualquer adepto da "realeza" a Nordeste e de terem surgido do nada quatro indefectíveis "monárquicos" nos Olmos. Por idêntico diapasão afinam os "nacionalistas", persistentes nos mesmos 19 adeptos que já detinham em 2009. Contas feitas, esmifradas as Legislativas, espere-se mais dois anos pelas Autárquicas... Ou por outro PEC-IV... Tenho subjectiva e polemicamente dito...

terça-feira, 7 de junho de 2011

Legislativas à Macedense (Parte I)

Dissecar os resultados de umas Eleições Legislativas num âmbito concelhio poderá revelar-se enfadonha tarefa. Especialmente para todos os que, naturalmente, não nutrem particular apreço por números e, particularmente, por estatísticas e afins. O que não é o caso deste Cavaleiro Andante... Vale, essencialmente, pelas curiosidades... Para os interessados, e para uma mais detalhada informação, façam o favor de consultar http://www.legislativas2011.mj.pt/territorio-nacional.html#...

E, pois... Para não contrariar a corrente alaranjada saída destas eleições, o mapa concelhio ficou pintado a tonalidades de vitamina C. Sinais dos tempos, consequências históricas, hábitos... Hegemonia quebrada pelas pequenas, mas digníssimas, freguesias de Vilar do Monte e Santa Combinha. Se a primeira saiu pintalgada a rosa, a segunda, afinidades com a água da albufeira, ficou decorada a azul. Isolados resistentes que, por representarem apenas 1,45% do total de votantes, não beliscaram sequer a onda laranja. Mas fica-lhes o troféu da diferença... E por feita menção a total de votantes, uma reverenciada vénia aos 9.146 que "desalaparam a peidola" de casa para ir depositar a sua vontade em forma de cruzinha (ou em alternativas formas). Aos restantes 9.989 deixo o meu lamento pelo alheamento e por contribuirem para a magnífica taxa de abstenção de 52,20%, desconto feito aos abstencionistas virtuais, seja pelas contingências da ordem natural da vida, seja pela irresponsabilidade de quem deveria gerir os cadernos eleitorais de mais profícua forma. Mas adiante, que é longo o processional cortejo... Com um louvor especial para a Amendoeira, inquestionável vencedora dos direito e dever cívicos, medalha de ouro da luta anti-abstenção com uma magnífica performance de uns "míseros" 35,15% de abstencionistas (indo a prata para Vilar do Monte - 39,31% - e o bronze para Corujas com 42,53%). Nos antípodas, como já habitual vem sendo, a segunda maior freguesia do concelho em termos populacionais: Morais, com os seus inusitados 69,51% de "baldas" ao acto eleitoral. Efectivamente, este parece um fenómeno do Entroncamento, dada a persistência ao longo das últimas eleições. Senhores da Junta de Freguesia de Morais, ainda bem recentemente por aí andei às voltas e os únicos fantasmas que vi foram as pedras da igreja da Sra. do Monte. Ou talvez não... Mas, subjectivas avaliações dadas a conjecturas várias, discutíveis afinidades, divida-se o território concelhio em seis distintas regiões: o Noroeste (Lamalonga, Vilarinho de Agrochão, Arcas, Vilarinho do Monte e Ala); o Nordeste (Murçós, Espadanedo, Soutelo Mourisco, Ferreira, Edroso, Corujas, Lamas, Podence e Santa Combinha); a freguesia de Macedo; o Centro (Sesulfe, Amendoeira, Vale de Prados, Vale da Porca, Castelãos, Carrapatas e Cortiços); o Sudoeste (Burga, Bornes, Vale Benfeito, Grijó, Vilar do Monte, Olmos e Chacim); e, finalmente, o Sudeste (Salselas, Vinhas, Bagueixe, Talhinhas, Talhas, Morais, Lagoa, Lombo e Peredo). E deixem-se voar análises outras... Nada que surpreenda desmesuradamente, é nos extremos Leste (NE e SE) que o fenómeno do alheamento eleitoral é mais vincado, com taxas de abstenção que se situam entre os 57e os 58%. Já nos homólogos ocidentais, o intervalo é de 54 a 56%. É na área em redor da sede concelhia que se situam os mais baixos níveis de abstenção, com valores abaixo dos 50%, oscilando entre pouco mais de 46% na freguesia de Macedo e os quase 48% nas freguesias englobadas no apartado "Centro". Parece inegável que nas imediações do ambiente "urbano" a afluência às urnas é mais notória, cavando-se um fosso à medida que surge o afastamento da sede concelhia. Fenómeno normal da interioridade, parece ser. Mas regressemos à abstenção concelhia... Descontando o valor de "eleitores-fantasmas" que as estimativas apontam para um número a rondar os 10%, ainda assim ficar-se-ia com uma taxa de abstenção de cerca de 49,8%. Como justificar este desprezo de metade da população macedense votante por um direito conquistado pela democracia? Para lá do natural desencanto por sucessivos anos de "cauda da Europa", acrescido dos mediáticos escândalos de políticos e seus acólitos em vivência de desregrada impunidade, talvez o problema resida também nos fenómenos migratórios. Pessoalmente, conheço um grande grupo de dignos macedenses que, afastados há anos da sua terra-natal, nunca se sentiram motivados a proceder à alteração do seu recenseamento eleitoral. Serão justificante suficiente para esta rejeição democrática? Representarão uma fatia do todo, mas não de tal forma aberrante que justifiquem esse mesmo todo... Talvez seja apenas o "são todos iguais" ou um banal "a política não me interessa, eles é que se governam"... No entanto, pegando no recente platónico recurso de um amigo, «Uma das penalizações por nos recusarmos a participar na política é que acabamos por ser governados por outros piores do que nós». Porque o desinteresse pode ser manifestado por outras vias, democráticas de igual forma: os Brancos e os Nulos. Estas silenciosas formas de protesto (ou, cada vez menos, de iliteracia), não contrariando o expectável, resumem-se ao residual. Contudo, são as freguesias englobadas a Sudeste as que se destacam no bolo dos "Brancos" e dos "Nulos", superando consideravelmente a média concelhia (2,02% de votos em branco e 1,25% de votos nulos). Não é de espantar que sejam o Lombo e Lagoa a liderar o pelotão dos "Brancos" com 5,15% e 4,69% dos votos, respectivamente. Assim como não causa espanto que Talhinhas, com os seus 5,08% se destaque nos "Nulos". Maior surpresa, relativizada pela diminuta quantidade de votantes, é a notação de que o "Partido dos Votos Nulos" é a terceira força política em Soutelo Mourisco, com uns inusitados 10,26%!!! Realce ainda, pela excepção, para Ferreira e Santa Combinha, únicas freguesias onde os "Brancos" e os "Nulos" são ostracizados por completo. Como já vai a procissão longa, deixo para depois as restantes avaliações e curiosidades "coloridas"...

sexta-feira, 3 de junho de 2011

A. M. Pires Cabral, os "Esdras Harpix" e os "Tio Zé das Candeias"

Ocasionalmente, reacende-se esta vela parafinada a dinamite, rastilhos de incongruências muitas, nesta contumácia que me impele, desafortunadamente por vezes, a vociferar contra a resignada postura de auto-comiseração, como se as vergastadas no orgulho inflingissem dor naqueles que, à distância de um gabinete, abocanham sarcasticamente a destreza com que somos ludibriados a migalhas de betão e asfalto. Haverá coisa mais regeneradora que o "nacional-coitadismo" que se alcandorou ao patamar de corrente ideológica predominante neste oitavo canto? Talvez creia na bússula de António, mago de lavradas letras, diabolizados olhares de quem «vê oito direcções de mundo, oito métodos de estar. O oitavo é o Nordeste». É a metamorfose dos dias... Sinto-me acolitado por uma qualquer víbora-cornuda, druidismo militante de mágicas poções que desenvoltura dão a esta viperina língua que não se acomoda ao silêncio do rebanho. Profilaxia desta aparente precoce insanidade, o dirão os Esdras Harpix, apeteceu-me viajar até Sancirilo. «Esdras Harpix era [...] esperto mas talvez não inteligente; seguramente inculto e primário. [...] Ele era também [...] manhoso, obstinado, aventureiro, velhaco e destituído de escrúpulos - cinco qualidades [...] contra as quais a finura natural, a erudição, o lastro doutrinário e o poder de argumentação de Judas Ormin não pareciam ser infelizmente arma bastante». Paralelismos tantos de (ir)realidades muitas, náusea dos dias... "Mas atão quem me manda a mim botar serradura onde num se arramou guerdura"? Pontuais devaneios de quem vê com elevado orgulho o débito de um prémio mais ao "home de Grijó, o do sô doutôre da fermácia", nascido um dia, literal e literariamente, «Algures a Nordeste». Desta vez foi a Associação Portuguesa de Escritores que reparou no perturbador "O Porco de Erimanto" e, analgésico para esta perenidade de uma desencantada dor complexada a inverosímil inferioridade, o agraciou com o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco.
"Peis que bus-jiu digou ou, bem m'ou finto que num haija pr'aí uns inbijosos duns lapardeiros imbutchinados pur u causa disto. Pra eis era bem milhore albidarim-se de beze q'inda hai gente pur Trásdusmontes»... E, frustração dos omniscientes, no âmago de "aldeana" gente, esquecida e vilipendiada gente, há pedaços tocados a Midas, como se de uma inusitada revolução das pedras brotassem uivos da consciência, em estranhos bailados de rebeldia do ser, ornados a excelência de descendentes Zoelas, que de epopeizados Lusitanos pouco devemos carregar. Rememore-se o Tio Zé das Candeias, a singeleza em contraponto à altivez dos que tentam transfigurar o Reino Maravilhoso em Merdosa Coutada: «Carvalho, senhor Visconde! Há [...] anos com o rei na barriga, não lhe parece que já eram muito boas horas de o ter cagado?»... Não fina a excelência em António Pires Cabral, seguem-lhe trilhados caminhos os do clã, Rui e Miguel. Ornamente-se a aparência de ficção em pinturas de letras de Manuel Cardoso, Fernando Mascarenhas ou, mais recentemente, Carla Ferreira. Decore-se a tempero de fluidez poética de Virgínia do Carmo e obtém-se um literário folar agridoce com sabor a distinção. E remeto Adriano Moreira ou Raul Rego para outras andanças... "Sêmos bôs, or sim? Atão purque caralhtchas andemos sempre a spremer a lágrima pur us cantos, cmu se tibéssemus q'andar sempre ápaijar uas abantesmas?"... Sou um inconformado, certo é, nesta jornada, inglória por vezes, de elevar a essência trasmontana, macedense por inerência, a patamares onde deveria estar acolhida. Serei apodado de lírico, ingenuidade minha, roubam-me a comida os Esdras Harpix, mas não me tiram esta fome de elevação a Tio Zé das Candeias. E pode ser, viscerais resquícios de uma ancestralidade que não renego, que contágios haja a distraídas mentes. Talvez tudo não passe de um "tiro na bruma" em "tempos cruzados", ou "vertigem" do "ti manel xeringa"... Ou serei o próprio diabo... Mas não serei recordado como o que veio ao enterro. Ainda que more nesta inexpugnável chama do ventre pétreo onde moram calhaus parideiros, não soçobrando pela "proa" imensa na excelência da terra e da gente... Mesmo que a dita esteja urgentemente necessitada de cuidados paliativos, médicos os não direi. De repente, assombro de passagens outras, tomou-me de assalto a popular sabedoria do tio Águsto Cordeleiro: «Rapazes, a saúde está nisto: pés quentes, cabeça fria, cu aberto, boa urina, merda para a medicina»...