Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



domingo, 25 de novembro de 2012

Pelas bandas da terra das "Cousas"










Talvez há uns anos o programa não fosse apelativo. Em recuados tempos, ouvir a banda seria sinónimo de retrogradação, antítese para evoluídas mentes, avultariam desejos de sons que se sobrepusessem às "modinhas" que os bisavós aproveitavam para se aproximar de oposto sexo. Com o advento das tecnologias, em festa que fosse festa eram obrigatórios abundanciais decibeis debitados pela "aparelhaige" ou, apanágio de fartas terras, "bô, bô, er'ó cunjunto". Recordo com agradável nostalgia os preparativos para a subida ao coreto, difusos acordes abafados pela debandada geral em direcção à taberna... Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, lá o dizia o poeta de gloriosos cantos. 
O cartaz anunciava o "Concerto de Natal" da Associação Filarmónica do Brinço e da Banda 25 de Março. A um mês da noite de todos os encantos, espírito natalício em estágio de pré-época, artimanhas de progenitor, convence-se a prole a companhia fazer, salutar caminhada pelo escasso frio nocturno em direccção ao Centro Cultural, ameaças não concretizadas de aquáticos derrames da abóbada decorada a tons de cinza. Em cima da hora, como convém, debandada familiar pelas artérias da "vila", não haveria de estar o auditório de lotação esgotada. E não estava! Mas estava quase... Macedo - e arredores - sairam à rua e, contingências da anomalia, fomos em degredo para a fila K, lá bem perto das saídas, assuma-se o positivo de estar na "pole-position" quando o espectáculo terminasse. E, bem vistas as coisas, sempre houve permissão para, contas de cabeça à antiga moda, verificar que os assentos continham qualquer coisa que ia para lá de um cento de homólogas. Inflado ego pela adesão da conterraneidade, ouvem-se as últimas afinações nos bastidores, aguarda-se pacientemente pela entrada dos intérpretes enquanto se trocam algumas impressões com a descendência, apenas para passar o tempo e lhe acicatar o espírito. 
Primeiros aplausos! Clarinetes para um lado, saxofones para outro, flautas para aqui, os trombones para ali, ficam na retaguarda as percussões, venha o mestre e siga a banda! Bem cá no âmago, digladia-se o orgulho com a "proa", vencem ambos a contenda, eleva-se uma pontinha de emoção. Afinal, naquele iluminado palco, perfila-se a Banda de Lamas, terra do coração, gente que me acolhe como se fosse efectivamente deles, até a genética por lá tem marca, ao fundo, dando ritmo aos acordes em tons estranhamente latinos. "Atão num m'habia d'intcher de proa?"...
O reportório inflama-me o espírito, os pés não sossegam enquanto a sala se enche com uma atmosfera de sonoridades latinas, inusitadas danças e contradanças ao ritmo de salsa ou cha-cha-cha. Aplaudo, se aplaudo! Depois, arrepia-se-me a alma, percebem os receptores auditivos inusuais acordes para uma filarmónica, mas que raio, isto soa-me a familiar! Retrocesso na descrença, é mesmo um "medley" de temas da banda de Carlos Moisés!
Quase sem dar por isso, desafinada voz abafada pelos metais e pela percussão, vou alegremente cantarolando o "Se te amo", "Quando eu era pequenino" ou o incontornável "Os filhos da nação", dos Quinta do Bill. Nesta altura, quebra-se a apatia, responde o público ao som de acompanhamento de palmas, apoteótico momento antes da despedida. Pausa na emoção, esvazia-se o palco, aproveita-se a deixa para uma conveniente reposição nicotínica. Há-de a Banda do Brinço iluminar de novo a silenciosa sala. Paulatinamente, vão entrando os músicos, ovacionados enquanto se acomodam nos seus lugares. Breve apresentação, avolumam-se outros ritmos na sala, menos ousados, mas não de menor qualidade. Obras em cinco andamentos, a roçar a perfeição, calmas, bastante calmas, fugaz melancolia, por vezes, na agradabilidade de inolvidáveis momentos. Compreensíveis coisas da genética e do apego, absorvo a profusão de ritmos da Banda do Brinço sem o "ruído" causado pela emoção anterior. Mais frio, menos emocional... Por fim, ecoa uma marcha militar, intensa, profunda. Sentem-se os genes a fervilhar, solta-se um acompanhamento de palmas ao ritmo da marcha, olha, orgulhoso, o "mestre" para a audiência, ter-lhes-á despertado uma qualquer intensidade escondida. Finaliza uma noite, a repetir, seguramente, haja mais eventos semelhantes. Provada ficou a qualidade do que se vai fazendo por "Terras de Cavaleiros". Provado ficou, ainda, que afinal há gente por essas mesmas"Terras", contrariando viperinos tons da desertificação. E, para o próximo Sábado será a vez da Orquestra do Norte. Lá procurarei estar, de novo... E hoje, despertei ao som de foguetes... É dia de Festa na Santa Catarina...

               

domingo, 16 de setembro de 2012

Um helicóptero do INEM como causa - a vida saiu à rua


Não desdenharia da possibilidade de enveredar por um desfilar de simbioses vocabulares eruditas. Dotado de uma parafernália de dicionários, enciclopédias, gramáticas e demais acessórios livrescos como leais conselheiros, dúvidas não me assistem acerca da capacidade de vomitar um bolo alimentar desenhado a algo que se assemelhasse a erudição. Mas não me apetece... Pelo contrário, surge-me uma irreprimível apetência para vernaculizar. Descansadas fiquem puritanas almas, apelo não farei à brejeirice, mas esforços não regatearei para alcançar a pureza da mais recôndita essência. Depois, plagiando o que insistentemente circulando vai por sociais redes, "Vão-se foder!"... Porque é assim, basta recorrer a um tasco perdido numa qualquer aldeia perdida deste perdido Nordeste e, salve-me Nosso Senhor, uma "manilha" mal jogada azo dará a um soltar de língua que, desmedidas palavras, executará um indomável "caralho'sta racontrafoda atão num te fize sinal q'o áze num no tinha ou". Assim mesmo, sem vírgulas ou demais pontuações, expelido com toda a força que os "botches" permissão derem, vozes entrelaçadas num "abonda di mais uas mines, q'o mou parceiro já num faze ztinção entre um baléte e ua sóta". Entretanto, descontroladas emoções, algum dos comparsas poderá sentir um aperto no peito, dor atroz que polui o discernimento, sente-se a vida a esvair-se, atrapalhações muitas, "tchamim o cent'i doze, q'o home se pintcha pró lado, que mim branco stá!". É assim no "fim do mundo", ficcionais âmbitos à parte, que de ficções está o mundo "tchêo", e de realidades "tchêo" está este "cibo" de terra confinado a geomorfológicas condições de Trás-os-Montes. Caros senhores à beira Tagus sentados: os mares nunca dantes navegados não se confinam a Atlânticos, Índicos ou Pacíficos; há também um Mar de Pedras, enviesado entre a Estrela Polar e o Sol Nascente, onde marinhos monstros não há, monstros os haverá, quando cá vêm tentando convencer as gentes que os calhaus à beira-mar paridos são de suprema casta, comparados sejam com ígneos ou metamórficos calhaus neste paraíso nascidos. Por isso ontem saí à rua! Confesso que desvirginei o meu comodismo, apenas porque me habituei à salutar santidade de um Pedro Hispano, de um Santo António ou de um São João, ali mesmo, quase ao virar da esquina, à mão de semear, sem necessidade de recurso a helitransporte que me garantisse uma chegada em 30 minutos (!!!!). Por isso ontem saí à rua!!! Porque viver em Soutelo Mourisco, em Vilar Seco de Lomba ou em Peredo de Bemposta é de uma distinção que deveria fazer roer de inveja aqueles que, recheadas contas bancárias, lustrosos gabinetes, se reduzem à imbecilidade de me tratar como um número. Por isso ontem saí à rua!!! E senti uma emoção nunca sentida ao ver a minha gente testemunhar a importância de umas hélices, ao olhar para a inocência de uma criança salva pela eficácia do que pretendem, agora, retirar-lhe. E emocionei-me ainda mais, ouvindo esta gente exposta à gatunagem de gabinete a entoar o Hino do país que lhe quer vilipendiar a pouca saúde que lhe resta. Paradoxos dos dias, descendentes das estirpes dos que infiéis acossaram, filhos dos que este pedaço ao reino agregaram, vergastadas sofreram para pertença terem a este flato lusitano que agora os quer ver morrer agarrados a giestas e castanheiros... Por isso saí à rua!!! Calma e pacificamente, trajado a luto, de palavras de ordem não abusando, coisas de feitio (ou defeito), palmas das mãos aquecendo para ânimo dar a muitas faces talhadas a esquecimento. E, excelentíssimo reverendíssimo senhor presidente do INEM, minhas faço as palavras de quem, gentilmente, lhe endereçou o convite para um pitoresco percurso de ambulância (pode ser uma VMER, uma SIV ou qualquer outra coisa de quatro rodas) entre Miranda do Douro e Bragança. Se tem os "arraiolos" no sítio, bem presos "ó meringalho", "bote cá buber ua pinga"!
No tempo em que decorrer a confortável viagem, para que não sinta a angústia de curvas e contracurvas, sua ilustríssima excelência terá à disposição um inexcedível serviço de tradução, não só do sentir de um povo, mas também do significado de "arraiolos" e "meringalho" (com versão extendida para eunucos), assim como, enquanto "enfarda o bandulho" com umas agradáveis alheiras (ou tabafeias, se aceitar a sugestão de partida), lhe será gentilmente explicado o significado de "alombar", "stadulho", "seitoura", "aixada" e, especialmente, "mangar". Porque, "mangação" é algo pelo qual os Nordestinos têm pouco apreço... Por isso ontem saí à rua!!! Junto do Heliporto Municipal, local onde, a troco de um digno serviço que a actual ladroagem quer retirar, foram gastos uns parcos milhares do erário público, enquanto se me embargava a voz ao som da união de um Hino, lembrava-me dos tempos que passei por "Al-Lixbuna". Um dia, alguém da sua estirpe, com toda a certeza, mandou-me calar em termos menos próprios, dignos de uma certa e característica altivez: «- Cale-se lá, Sr. Trasmontano! Acaso não sabe que Lisboa é Portugal e o resto é paisagem?»... Nesta humildade de calhau parido atrás dos montes, afectuosamente respondi: «- Não, Senhora Professora! O Norte é que é Portugal! O resto são conquistas»... A História tem sempre a particularidade de poder repetir-se... Por isso ontem saí à rua!!!

  

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Umas hélices como simbologia

Por vezes, o burro cansa-se de vergastadas. O verdugo que maneja o chicote, habituado à mansidão do jumento, vai imprimindo ascendentes movimentos, logo seguidos dos contrários descendentes, silvo a irromper na pacatez e, zás!, sem que conste dos manuais do despotismo a desfaçatez da indignação, soltam-se amarras e voam uns cascos que atordoam o abutre. Logo virão outros, crentes na efemeridade do processo de levantamento de ferraduras... A não ser que a persistência dos indómitos resista à afronta... Mas já o dizia o grande Torga nos seus Diários, lá por tempos de passado século: «É um fenómeno curioso: o país ergue-se indignado, moureja o dia inteiro indignado, come, bebe e diverte-se indignado, mas não passa disto. Falta-lhe o romantismo cívico da agressão. Somos, socialmente, uma colectividade pacífica de revoltados.» De quando em vez, agitam-se as águas, muito de quando em vez... Cumprida a revolta, hão-de suceder-se as pastas da Saúde (ou doutro qualquer Ministério), numa prolongada odisseia que, Homero por cá andasse, azo daria a mais uns quantos volumes. Vão os cleptómanos acicatando a soberba, apenas pela inevitabilidade de, fenómenos da geomorfologia, ter ficado um Reino Maravilhoso empoleirado no alto de Portugal. Episodicamente, serve o dito Reino para completar os manuais de estatística ou, eleitorais alternativas, cumpra-se ufana obrigação, alheiras e demais acepipes à disposição, caravanas de promessas do não esquecimento. Depois, apresse-se a retirada de medalhas e retorne-se ao oficial Reino do Olvido. Após o desmembramento das linhas estreitas, estreite-se ainda mais a gente, ampute-se o Reino de básicos serviços, definhe-se a saúde, a educação também, esvazie-se a alma que, de alma desprovido, o povo, essa cambada de anónimos energúmenos, povo deixa de ser. Até um dia... Os Filipes também por cá andaram 60 anos... Talvez precisemos de uma nova Restauração, à traulitada não diria... Mas é premente restaurar a crença, o orgulho, a pertença, esta estranha forma distinta de estar, exuberantemente retratada por Torga: «Onde estiver um Trasmontano está qualquer coisa de específico, de irredutível... Corre-lhe nas veias a força que recebeu dos penhascos, hemoglobina que nunca se descora». Prometeram-nos um helicóptero em troca do desassossego, querem retirar-nos o dito para incrementar o mesmo desassossego. Podem roubar-me a comida, mas jamais me roubarão a fome... Por isso, a 15 de Setembro, lá estarei num fraternal abraço ao veículo das hélices. Ainda que seja simbólico... Porque do pouco se faz muito e muitos não farão, seguramente, pouco.         

domingo, 2 de setembro de 2012

Arrepios e encantos de um Grupo Coral Macedense


Talvez se trate apenas de uma exaltação derivada desta permeabilidade aos encantos do que proveniente é do Reino Pétreo... Afinal, detentor não sou de musicais dotes que permissão dêem a doutas avaliações. Mas de receptores auditivos posse tenho, e tal me basta para "botar uas palabrinhas" acerca de um tal de Grupo Coral Macedense. Lá por épocas natalícias, ser padrinho também tem destas cousas, fui presenteado com uma compilação musical do dito coro. À medida que o disco ia centrifugando, tomava a agradabilidade conta dos segundos, recostava o banco, deleitava-me com a simbiose de tons debitada por cada uma das colunas. De mansinho, absorvia o conjunto de afinadas vozes, em simultâneo percorrendo a lista de nomes e conhecidas caras, facto que, confesso, me acariciava, com emoção, os genes da pertença. Naquele baú especial onde se amontoam impalpáveis artefactos, como as recordações ou a saudade, aquele mesmo que alberga tudo o que um dia morrerá connosco, elevou-se uma pontinha de orgulho, "proa a tchamam", sobressaindo o desejo, ténue talvez, de um dia aspirar aquela orquestra de vozes ao vivo. Esse dia chegou, sem antecipada previsão, dizem que o melhor encanto dos sentidos é a surpresa. E que surpresa! Apresta-se a gente para o culto, religiosidade dos dias, por vezes, lá para os lados de Corujas, homenagem a ímpar figura da terra, perfilam-se simpáticas faces na lateral de mor altar, encantadoras, elas, pose cavalheiresca, eles. De repente, uma catadupa de estranhas sensações enquanto, ao fundo, a harmonia de vozes entoava louvores. De súbito, pareço ter remetido causas terrenas para um poço sem fundo e, revoluções outras, desencadeou-se um estranho bailado de eriçados pelos braçais, epiderme de superiores membros em ebulição, o êxtase de eléctricos choques dorsais, cerebral controlo sucumbindo a celestial momento. Tudo não passou de uma efémera, quase indisfarçável, comoção dos dias. São aqueles segundos que passam deixando o rasto dos momentos... Que não me leve a mal a Mariza, obrigado, "oh gente da minha terra"!...       

domingo, 26 de agosto de 2012

Alustrar em 24 Horas Non-Stop, ou a paixão pela fotografia

As paixões são como um alustro, surgem de um inexplicável nada, atormentam-nos o racional e, osmoses dos dias, transferem-se para o âmago até que o desmesurado palpitar se esvaia através de uma qualquer substituição. Aos amantes da fotografia sucede algo semelhante. São tomados de assalto pela insanidade de captar a mais simplória singularidade, transformando-a em mais uma obra de arte, sua, apenas sua, partilhada, por vezes, mas nem sempre detentora de predicados que a elevem ao Olimpo dos registos de luz. Mas, crédito ao pleonasmo, são suas, apenas suas... E a paixão, tormento das almas, contrariamente a outras paixões, avoluma-se, instala-se em contraponto ao efémero, cristaliza-se em forma de perenidade. Os anos avançam e não esmorece o fogo. Por vezes, raras vezes, os solitários amantes, ocultados por detrás de uma objectiva, lógica contrariada, desvendam a intimidade de anómalas fusões, partilhas de momentos de êxtase, fulgores de uma pecaminosa luxúria de encantamentos por uma artefacto, artilhado com "pixels" e adornado, inúmeras vezes, a próteses de culto. Vezes outras, evoluções dos tempos, serve um qualquer telemóvel, ou fermenta-se o momento a rudimentar descartável, adquirido no quiosque da esquina. O resultado final, não raras vezes, ludibria o que os olhos viram... Mas isso são coisas para a Física, variações da Óptica, e não meto a foice em alheias searas... Um dia, quais FA (Fotógrafos Anónimos), na quietude de uma tarde de estio, revela-se a paixão quase remetida ao secretismo, exaltam-se valores de objectivas e momentos, elevam-se os sonhos numa catarse que impulsiona entusiasmos atraiçoados pela rotina. Congregam-se esforços, contam-se os soldados e, enquanto esfrega o demo as pálpebras, já se está a alinhavar o evento. Vontades reunidas, avance o batalhão, armas em riste ou, bem vistas as coisas, tire-se-lhe bélico sentido, de máquina em punho. Dança e contradança, rodopios de fulgor, sigam desencontrados passos em busca da alma perdida de uma cidade do interior. Prolonga-se a noite, cruzamentos vários, acumulações de bocejos, pesam as pernas num solitário bailado acolitado, de longe, convenientemente bastante longe, pela incontornável figura de Morfeu. Mantém-se a distância com cafeínicas deambulações, regista-se mais um momento, troca-se uma impressão mais com noctívagos seres, a sobriedade em contraponto à embriaguez, por vezes, anima-se o espírito com a jovialidade de gente trajada a noite em eclipses de cerebrais amígdalas. De repente, valorosa gente outra, a do anonimato, vassoura a postos, reflectores em oposição a goradas tentativas, artérias amansadas por rítmico coçar de asfalto, detritos em acumulação, pás e carrinhos de mão a postos. Ao longe, o silêncio do amanhecer, entrecortado, aqui e ali, por afoitos manobradores de volantes ou por discussões de seres alados em desentendimento no resguardo arbóreo. Vai reinando, de paulatina forma, a inércia, circulam os resistentes em contramão nesta autoestrada nocturna, enquanto a esmagadora maioria da cidade dorme. O peso da madrugada vai-se sentindo nos ossos, reclamam os músculos por descanso, dizem que o cansaço não vem aos que por gosto correm. Mas vem, se vem! Apela-se à presença dos substitutos, em estranhas poses de exposição que, dia fosse, talvez coragem não houvesse. Há-de surgir a salvação, hora de almoço pequeno e de breve refrega com a almofada. Um retrato mais, pormenor esquecido por consecutivas horas de intromissão na noite, abale-se para o lar que tarde se faz. Outros companheiros de luta virão, diurnas captações, não muda a orquestra, só os intérpretes. Decorrem as horas, intrépidos seres, "click" aqui, "click" acolá, Macedo para a vida, ou a vida em Macedo. Não será tão deserta quanto pintada é, nem tão viva quanto desenhada, vezes outras, será. É apenas um pedaço de Nordeste, enfermando dos mesmos males de outros Nordestinos pedaços, captado com alma e fervor por um grupo de apaixonados que o quis eternizar. Tomam o estranho nome de Alustro, um tal de Clube de Fotografia A. M. Pires Cabral, ilustre patrono da terra que, em humildade alustrando, apadrinhou a ilusão de um grupo de aficionados pela fotografia que metamorfosearam o sonho em realidade. Num qualquer futuro, distante se espera, prenúncios de moribudez, hora nunca seja chegada de toque a finados, ir-se-ão os anéis, ficarão os registos. Aos 18 de Agosto de 2012, era assim a vida Macedense durante 24 horas...           

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Dias de Festa


Repete-se o fenómeno, ano após ano. Avivam-se memórias em desconcertados Domingos temperados a bafo do estio, Agosto no seu auge, vielas inundadas a "voitures", valorosa gente da labuta além-fronteiras que regressa ao cantinho da infância. Por instantes, perde-se o sentido de Nordeste quando um «- Atão, stás bô?» é substituído pela simplicidade de um «- Ça va?». Mas a genuinidade não é renegada, "coffres", "poubelles" ou "vitesses" em sentido quando se solta um sorriso na companhia de um inenarrável «- Ah car.... ma rafo..!», "carbalho ma racosa" em eufemística versão, que este equivalência não tem para lá das fronteiras do rectângulo. Juntem-se-lhe uns "intremóços" e "ua pinga" e "desentorna-se" o caldo da essência. É só aliviar o momentâneo entorpecimento da alma com um "ricardo" ou um "martine c'ua mine", solta-se a voracidade de momentos idos, relembram-se aventuras tidas e nunca tidas e «- Anda di buber um copo!»... Já não há alvoradas marcadas a ritmo de silvos de "barelas", mas persiste a banda nos seus acordes de eterno marco de raízes. Largos engalanados a bandeiras e bandeirolas, coloridas a modernidade, já lá vai o tempo de artesanais irmandades decoradas ao sabor de triângulos e demais geométricas figuras, apresta-se a gente para a solenidade anunciada pelas badaladas. Alguém "imbarrado" na torre sineira, pernas "scarnantchadas", alterna a sinalética do ritual ora massacrando o sino da direita, ora alvejando o da esquerda. Os menos afoitos a religiosidades, escapolem-se para o tasco mais próximo, sacralizaçóes cervejeiras, alcoólicos compostos outros por vezes, ou lavagem à adega com "auga" gaseificada dos lados de Sampaio. Duas de treta, "bota-se" um olhar de soslaio à aperaltada com excessivo decote, olhos esbugalhados pela infâmia de largos centímetros de perna "ó léu", trocam-se mais umas desconversas de ocasião e, ressequidas gargantas de matinais conversas - e de nocturnas lembranças - "bota" lá mais um encosto labial a "ua mine". Vai soando a homilia, elevações da alma, apresta-se a gente para homenagem prestar à padroeira, anormal ajuntamento defronte do adro. Distribuem-se mais uns "bacalhaus", um "tchi" acolá, sorrisos e um burburinho de encontros de gente da terra. Segue o cortejo processional pelas ruelas da ancestralidade, devoção de muitos, olha-se o abandono com irreprimíveis dores de nostalgia enquanto a banda vai devorando pautas e os passos vão percorrendo, vagarosamente, o que foram trilhos desenhados a pó. Ainda restam alguns exemplares de encavalitamento de xisto, testemunhos de outrora, imóveis seres que a inexorável modernidade ainda não digeriu. Percurso de recordações de um imberbe mundo, expelem-se memórias com acompanhante descendência, saúda-se os que por perto partilhando vão a breve peregrinação. Estará o repasto pronto, tempos outros em que melhorado era, vão felizes os tempos de diferenças poucas para o quotidiano dos dias. Já não se fica para a arrematação das flores, vai clamando o "bandulho" por atenções, redundâncias da espécie, esperam os assados por salivares excitações. Crescem as mesas mais de palmo e meio, acomoda-se a gente ao redor, parecem as salas diminuir com a afluência. Vão alternando os sorrisos com olhares embrenhados na tristeza proporcionada pela saudade, os que não estão e poderiam estar, os que já estiveram e deixaram o legado de uma gravação na retina, e o coração a palpitar pela memória de sublimes tempos. Principia o repasto, desembucham as almas enquanto os espíritos se soltam, as línguas também, cruzam-se conversas e alimentam-se, em simultâneo, os estômagos e os canais auditivos. Há sempre uma história nunca contada ou, se contada já foi, de ponto um acrescento, a novidade se assemelha. Vociferem os descrentes, mas aqui a carne sabe a "tchitcha", o feijão verde tem o sabor de "casulas" e a alface tem o encanto de "selada". Junte-se-lhes o "pupino" e "ua talhada" de melão, por cima o de tostão, desliza o encantamento e fica um "home cm'um tchintcho". Depois, os caminhos não vão dar a Roma. Tropelias do hedonismo, "pança tchêa", os carreiros de gente afluem ao digestivo e à retoma de cafeínicas poções. Renovam-se saudações, conversas de ocasião, "bota mais ua q'agora pago ou". A efémera felicidade ou o êxtase de frustrações encarceradas por um dia. Paira no ar uma certa libertinagem, como se um qualquer comando tivesse ateado um fogo que não arde. Berram os putos em loucas correrias, rosadas faces de adulto em algazarra, parece o tempo fluir em desenfreados paradoxos de ida ao futuro com retorno ao pretérito sem percepção do presente. "Que sa racosa a crise, ou lá o que carbalhitchas dixo aquela que s'aparece c'um home e que dize uas bajoujices quaisquera n'ua língua que num se percebe nadinha!"... Energias repostas, galgue-se a distância que separa o campo da bola, tractores a postos para inusitadas corridas, banho de pó à espera. Há-de chegar o sorteio da vitela, dependência de vontades da dita de o campo estrumar.
Um "finito" para aliviar a acumulação de poeira, sente-se um estranho apelo para "mastruquir", alianças entre a fome e a vontade de comer, regressa-se "ó pobo" onde, artesanais desvios, já soa a preparativos de arraial. Geram-se acumulações lipídicas e demais compostos contraproducentes, recuperar-se-á amanhã dos abusos, que em dia de festa não há quem morra de hipoglicemia. Estreitam-se os laços, selados a etílicas partilhas por vezes, enquanto vão afinando os acordes da banda. O "conjunto" há-de tocar a seguir, ecoarão sonoridades de popular âmbito, aglomerar-se-á a gente defronte do palco, passo para aqui, outro para acolá, siga o bailarico até que as pernas doam. Amanhã é já ali ao lado e será outro dia... Normal...            

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Rumando a Nordeste - II Encontro de Escritores Trasmontanos

Desdobra-se o tempo vagueando pelas vielas, sob um sol escaldante, a insanidade de correrias tantas em busca de um qualquer éden. O batimento dos ponteiros a acabrunhar-se perante adrenalínicos ritmos respiratórios, a expiração lançando atoardas à inspiração, desregulam-se os passos num vai e vem, sobe e desce de invisíveis degraus. Os sonhos são, inúmeras vezes, dotados de crença... É lançado o repto, fasquia de intransponíveis altitudes, alterna-se o "rewind" com o "forward", entra-se em "pause" vezes outras, sustém-se o inadiável em incursões de querer, monte acima, monte abaixo, param os grãos de areia numa inventada ampulheta redesenhada a xisto e granito. Ao longe, o paraíso, ondulação pétrea entrecortada por vales de um qualquer esquecimento - mas vale a pena o olvido! É só mais um cheirinho a vento, uma pitada de rajadas no escalpe, aspira-se o pó das nuvens, o Encontro é já ao virar do próximo fraguedo. Incrementa a intensidade dos dias, há aquele pormenor a não esquecer - «- Aponta aí na "check list"!» - fugacidade de instantes sobrepostos a instantes, vulgarizam-se pegadas da memória, amontoam-se pausas de fé, lá dizia o poeta dos heterónimos aquela coisa sobre o sonho e a obra... E a dita nasce!    
Apruma-se literário adro, mais para a esquerda, desvia à direita, graves e agudos afinados, inunda-se o espaço a vocalizações de ensaio, prenúncio de imagens de um Reino, espanta-se a gente com azáfama tanta, vai a noite alta, que amanhã é dia de "satcho"... «- Bá, bou-m'à deita q'amanhã tânho que star guitcho!»... Soam os últimos impropérios às bruxas, saem figas de bom comportamento, despedidas de breve trecho, que o dia há-de começar a energias de letras, contos, ditos e... feito! A suave ânsia de ansiado dia, tudo a postos, alinham-se as mentes para o inusitado. Venha a envolvência dos dias, revejam-se velhos amigos, saúdem-se desconhecidas faces, surpreenda-se a alma com o inesperado. Abafa-se o burburinho com o trovão, repentina entrada com o Reino Maravilhoso a aplacar a sede de pertença, toma a emoção conta do aglomerado, faces em desalinho de sorrisos, preenche-se a alma a tonalidades de encanto. De súbito, "Trás-os-Montes", na versão de Teodoro & Cia., incursões à inocência da malvadez do estranho ritual de passagem da infância à adolescência. Memórias de um tempo aldeão readaptado a pena de Tiago Patrício, solenidade de um préstimo a um pretérito futuro. Correm os instantes ao sabor da essência, molda-se a atmosfera a conversa, sente-se o intimismo do espaço, agruras do âmago temperadas a gosto. Mais prosa, menos prosa, saia da ementa um "Alustro", sequências de retratos de um sentir trasmontano, seja lá o que isso for, sente-se, não se explica, corre nas veias, eritrócitos moldados a hemoglobina dos penhascos. Ressuma a seiva, o dizia Torga. Parada e resposta, cheira a uma qualquer transplantação para cá do Marão, a capital do Reino em genética translocação. Sai mais uma Posta à Cavaleiro, condimentada a ancestrais sopros, o António não deixa o dedilhar na gaita-de-foles apagar a memória de idas jornadas acolitadas a sons de arrepio. Entretanto, contam-se as espingardas, o fulgor das horas amansado por amena batalha de um inexplicável querer, talvez tenha sido reinventada uma forma de estar. Afinal, Macedo está vivo, não o Martim de estocadas outras, rejubilam os crentes de ousadia tamanha. E Trás-os-Montes vivo está, juntem-se as pedras que castelos se erguem... Tempos haverá para toque a finados... Por enquanto, siga o cortejo de um estranho sentir, é uma doença que se pega e apega, por contágio, quiçá, o dizem os adoptados, que não basta nas pedras parido ser para o Reino engrandecer. "Trallosmontes" é assim, entranha-se, insondável genótipo talvez. Clamores do crepúsculo, vêm "os anjos nus", pirilaus na amálgama, abafam-se pudores com o mágico comunicar da mestria do inigualável A. M. Pires Cabral, metamorfoses em "anjas nuas", navegam indisfarçáveis sorrisos por ilustre assistência. Venham de lá os autógrafos, lavra para a posteridade, revelam-se sons outros, a Sara e a Helena, violino em desafio ao piano, cumplicidades de clássica euforia, adultere-se o adágio, que filhas de escritor sabem tocar, não fora a pauta rabiscada a uma qualquer demanda do ideal. Terminem literárias incursões, folguem os costados de tertulianos debates, hora da descompressão, brinde-se à vivência numa harmonia esquissada a sabores da terra. Dizem-no "mata-bitcho", deslocado, certo é, mas isto de matar o dito que rói estomacais paredes é quando um homem quer ou, para radical não ser, quando o cerebral centro de controlo se estabelece de armas e bagagens no local onde prolifera clorídrico ácido. Reconforte-se o troar do "butcho" a alheira, tempere-se a um "cibo" de presunto, um "carólo" por companhia, um "tantinho" de divinal queijo. Excitem-se gustativas papilas a incomparáveis doces da Lu, anime-se a gula a inesquecíveis bolachas de Lu outra, acomode-se alimentar bolo a néctar dos deuses, reconforte-se a alma a verdes caldos. Assim, na simplicidade de um inimitável espaço, na intimidade de gente com quem se gosta de estar. Poderia ter-se passado numa livraria. Mas não... Passou-se na Poética...         


sábado, 21 de julho de 2012

Segadas de intenso sentir por terras de Morais

Volatiliza-se o tempo, ensimesmado, o peso das pálpebras parece flutuar na excitação de revivescências que aproximação têm. Dentro de horas poucas, há que madrugar, o diz gente de árduas tarefas, ajeitam-se electrónicos ponteiros de um duo de despertadores, não vá Morfeu tecê-las. Desperta-se, ainda o galo não cantou, pois se galináceos já a "vila" não povoam, neurónios em agitação, descoordenados movimentos de uma falsa percepção do dia que há pouco a noite abandonou. Na refrega de uma batalha entre a vontade de ir e o peso do conforto de um leito, vence a primeira, saber-se-á lá por que armas. «Tá a despatchare, meninos, c'um catantcho, bamos prá segada!!! Drumis na biaige»... Tenta-se avivar a ancestralidade com tonalidades nascidas das pedras... O breve percurso pedestre até ao Jardim reaviva a noção, matinal frescura a sacudir o escalpe, incrementa a força que parece finar. Já esperam os companheiros de jornada... Estremunhadas mentes em alvoroço, à direita, metálico e alvo arvoredo da serra em saudação, Castelãos já lá vai, palavra puxa palavra, o Santo Ambrósio nunca pareceu tão perto, Limãos em recepção a crentes nas tradições. Penetra-se num distinto planeta de terras coloridas a sangue, parece aqui residir xística hemoglobina, Umbigo do Mundo, o Rheic suprimido por sequências de um qualquer sei lá, alóctones às "carritchas" de autóctones, geológicas linguagens, ou pedras que contam a estratigrafia do tempo. Há milhões de anos não havia segadas... Ao virar da curva, "santandre de moraaes", refastelado ao abrigo da Paixão, histórias muitas de lonjuras tantas, a Senhora do Monte as guardará. O ajuntamento grande não é, aqui e ali, um vestígio do que se seguirá. Talvez a camarada de segadores fotógrafos tenha dado corda em demasia ao relógio... Subitamente, o aglomerado ganha outro colorido, olhares de soslaio aos forasteiros, chega o Sr. Joaquim para fazer as honras da casa, distinto defensor da terra, venha de lá a "mãozada" de virtual amigo de sociais redes! A descendência insiste em abstrair-se do mundo, sonos por dormir, há sempre um improvisado banco para refastelar o peso de uma noite mais breve que o habitual. Arrancam as tropas, chapéus de palha a condizer, típicos trajes de outrora, afiam-se foices para cerealífera guerra, segue o jumento no cortejo, regalam-se as vistas com o que inusual vai sendo. Sorrisos em riste, um apetrecho aqui, outro acolá, vinho há-de haver para refrescar os "por dentros", que a faina enrijece os músculos mas desgasta o estômago. Começa a refrega, discutidos preços, pareceu-me ouvir "setent'e cinco scudos, bôs tempos que bu-jiu digo ou!". Agora é tudo "im ouros"... Ah, valentes! Vai tombando o cereal, avança o pelotão sem grande resistência, merecido retemperar de forças a vínico sentir, ou água para compensar. Chegam retardatários, faces emolduradas a vontade, um sorriso mais, distinta gente que aquece a alma. De súbito, ouvem-se vozes ao desafio, cantarolar aqui, uma piada que surge do nada, gargalhadas entrecortadas por mais um copo para amansar a dureza de ressequidas gargantas. Vai-se erguendo o astro, despoja-se o corpo das vestes protectoras de matinal brisa, vão-se debatendo inferiores extremidades com as estocadas do restolho. Quem por gosto corre, não cansa... Saltita-se para direita, apressa-se o passo para a esquerda, tenta obter-se o melhor ângulo. Desatam-se as cordas do fascínio, poderosos momentos que apaixonam, inexplicável intensidade de um Reino, saudades do futuro ou qualquer paradoxo que não cabe no universo das palavras. Acaricia-se o orgulho nestas terras com sorrisos em alternância com desregrada emoção, talvez apeteça soltar uma qualquer lágrima, regressões ao pó da infância. Desvia-se o olhar para hábeis mãos que o tempo curou, marcas que apetece registar, é indescritível a "proa" que vai assaltando o que escreve. Soltam-se registos nunca registados, perenidade de memórias que se julgavam caducas, um trinar de inexistentes cordas desafinadas, talvez sejam alinhados "stadulhos", corre-se desenfreadamente em direcção àquela melodia tão familiar, canto de carpideira, o chiar de um carro de bois! Sente-se um estranho aperto no peito, atroz felicidade, se a há. Arrepiante, inenarrável, vulgariza-se o tempo na efemeridade de um segundo, o sabor da eternidade guardado num frasco desenhado a objectiva. Fui bafejado pela lotaria da imortalidade, gravada naquele momento de um concerto a duas rodas! Alguém tivesse percebido o olhar de criança e veria o resgate do encantamento de uma qualquer infância passada entre montes e vales. Cousas de um Reino Encantado... Pegue-se na "spalhadoura", desafie-se a gravidade, mansa junta em apego à terra, orgulho dos donos, que "mim contcha" que estava a gente! O alvoroço dos dias... Carros carregados, arfam os bichos para a posteridade, sorriem segadores com a colheita. Hora de retemperar energias, há-de o almoço chegar, avolumam-se conversas na permanência de uma sombra. Afaga-se o dorso da imponência, num Trás-os-Montes que definhando vai, abre-se um ficheiro especial para recuperar memórias no porvir. Um registo mais, apenas, e outro mais de seguida, parecem as opções exceder a capacidade de retenção. Inclui-se um plano mais, só mais outro, e ainda outro mais. Aproxima-se o calor da hospitalidade, convidados estamos para o repasto. E que repasto! Opíparo, suculento, saboroso! A simplicidade das coisas inesquecíveis: as sopas da segada! «-E atão num bota ua pinga?»... Claro que sim, para aconchegar! Ainda há lugares assim, onde se aplaca a sede com a pureza de gestos simples. Ainda há gente assim, que nos aconchega a alma com a sua grandeza. São sentimentos que apenas se sentem... A gratidão é um deles... Obrigado, gentes de Morais! Talvez para o próximo ano possa ficar para a malhada, "pra buber mais ua pinga"...    

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Azibo - a Oitava Maravilha


Engrandecer o que à nascença detentor já era de enormidade poderá soar à tecelagem de uma pegajosa teia justificável pelo apego à génese. Corre-se o risco de sublimar o sublime, metamorfoses em aracnídeo que emaranha fios de letras, desconexas, em suave deambulação pelas pedras do éden... Talvez agora engrosse o pelotão dos crentes no Inferno; afinal, o Paraíso existe... O Azibo nem é, sequer, um local... é um entrelaçado de coisas que roçam o intangível, fronteiras traçadas a imaginário, solo opaco de transparências tantas, o infinito alcançável na inatingibilidade do finito. Talvez tudo não passe de uma incestuosa paixão, na lascívia do pecaminoso, fusões de água e fogo, indistinto corte de umbilical cordão, tal a incapacidade do tempo para ocultar a ligação. Sentir-me-ei um Carlos da Maia em luxuriante apreço pela inconfundível beleza de Maria Eduarda... Ou, contemporâneas contenções, um Sete-Sóis em amena contemplação a Sete-Luas. Seja o que for, é uma paixão de imberbes sinaléticas, indómitos arrepios e um palpitar de saudade sempre que a distância temporal supera o emocionalmente razoável.
O Azibo é uma sequência de emoções intraduzível, transpiração do âmago, sente-se ou não se sente ou, de anciãos a herança, quem a feio ama, bonito lhe parece... Suspeito serei, nesta incontrolável chama que consome, fogo ardente, história de vida que inúmeras vezes se confunde, vigores da adolescência amansados por inolvidáveis finais de tarde. Nesses idos 80, novidade da paixão, loucuras tantas, a insanidade de travessia da albufeira de "escadinhas" a "escadinhas", intempéries de um querer não amestrado, rebeldia em fusões de corpo e água. Era assim, não poderia ser de forma outra, os meses de inferno clamavam pelo que lhes aplacasse a fúria. Transfigurava-se o Azibo em bálsamo, aquática força bruta que acariciava epidermes ressequidas pelo fulgor do estio, tapa-vento líquido, parecia ensandecer a adolescência em arriscadas manobras de tropelias de anfíbios.
Cresceu a dona, da maturidade se fez o deslumbre, magnificência adornada a voos de rapina, sons de orquestra em polifónico timbre, surpresa aqui, arrepio dos sentidos acolá. Ou a redescoberta de incontidas paixões, o tempo bloqueia por lá, e regride-se. A inenarráveis tempos nunca existidos, súbitos desejos de saltar para a Ilha do Fidalgo e absorver indecifráveis histórias gravadas nas rochas, petroglifos da memória, ritualizações do endeusamento do espaço. Devagar, sem pressas, com asas discretas, planadas incursões a telas abraçadas pelo beijo do sol poente. Sente-se a brisa de lendas muitas, mitos em alvoroço, remoinhos de danças ao demo, Lua Cheia nas encruzilhadas espelhada, o dizem as crenças. Prende-se o horizonte com o olhar, sobre a Fraga da Pegada mirando, inala-se a atmosfera dos dias, a praia da Ribeira ao fundo, corre a imaginação pela superfície de calmas águas, sorve-se gelada bebida na esplanada batida por refrescantes imagens de coloridos navegadores em permanente algazarra. Policrómico tecido de água entre montes encravado... Breve intensidade de um desenho em prolongamento de uma qualquer fragilidade do ser, sinto-me pequeno na presença de ambientes assim... Limito-me a penetrar-lhe nas entranhas, apenas porque se entranha. Talvez seja uma das 7 Maravilhas. Para mim, é a Oitava, insistentemente diferente...  

domingo, 1 de julho de 2012

Poetizar a província...


De mansinho, somos sonegados à pacatez da Pereira Charula. Uma estranha e profética visão apodera-se dos sentidos, rumores da diferença, apega-se a alma a imagens outras, vulgarizam-se memórias de românticas varandas de um romântico tempo em que a Rua da Praça ir desembocar na Praça. Tempo de desencarcerar os pleonasmos, soltando eufemismos, e vivas dando a figuras de estilo sem estilo algum. São os recursos expressivos, ou coisa que o valha... Divorciei-me da gramática, separei-me da morfologia das letras, etimologicamente desprovido de sintaxe, peremptoriamente afirmam os iluminados que regressões tive a idos tempos de iluminações outras, a petróleo talvez, ou às avessas candeias. O candeeiro é, hoje, outro, furtem-me a comida, que a fome não roubam. Porque os livros estão lá, à passagem da esquina da difamação, penetra-se num mundo de ilusões, aspira-se a inebriante voz das letras. De repente, um idílico mundo em que as cepas se vêem adornadas a cachos de letras, doces ou amargas, verdes ou maduras, folheia-se o tempo que pára subitamente, à medida que um quadro de negra tela se vai ofuscando por detrás de pinceladas de giz, aquele mesmo que preenchia lousas em recuadas épocas em que os pais, ingénuos seres de outrora, amputados não eram da prole.
Por entre umas baforadas de capas e contra-capas, entorta o olhar para a esquerda, alterne-se com a direita, a fermentação de fonemas interrompida pela embriaguez de sorrisos, recatadas faces, a Alice, disponibilidade do ser, a Virgínia, mestre de letras, encantadora de serpentes da escrita, no seu mundo pintado a alvinegro, colorido pela inefável, por vezes, magnânime presença da contagiante D. Ana. Solitário remador na presença de navegadores em barcos de papel... Ou o universo traçado a pena, indecifráveis tintas, da China, ou doutro lado qualquer. Folga o costado de quotidianos sentires, aplaca-se a sede de indizíveis vazios, sorve-se o tempo num alienígena espaço, que a Física tudo não explica, venham o Hawking ou o Albert, conceptualize-se a relatividade da quântica, relativizem-se livrescos quasares, quantifiquem-se negros buracos literários. Opte-se, então, por descer a telúrico planeta, percorram-se os meridianos, pausa para simpático e reconfortante café, duas de letra o dizem, o conforto de uma troca, voam ideias. De tempos a tempos, poéticos saraus, afinidades na partilha ou, novos autores, consagrados outros, preencha-se o serão a velas, luminosidades de encanto, intimista, familiar, na proximidade de um circo de letras, sopa de feras de signos conjugados a sentir.
Vezes outras, empreendedorismo o clamam, ganha o ambiente nobres aromas, excitam-se estomacais fluídos, revisitem-se Isabel ou Laura, venere-se Afrodite ou retempere-se a alma a chocolate, cocktails de excêntricos sabores, ou o sabor das compotas da Lu. Tempera-se a noite a espasmos de gulodice, condimentos do exotismo da D.Virgínia, ou da descendente Joana, uma deglutição mais, poetiza-se a comida, como uma sequência de estrofes do paladar, saliva em ebulição, versos de sabor e alma. Encontram-se anormais rimas entre framboesa e maçã, nêsperas de outra galáxia, gustativas papilas em reboliço, funde-se a amálgama num vulcão rodeado de livros. 
Há espaços assim por Trás-os-Montes, bem no coração do Nordeste, ponto oitavo de Pires Cabral, Terras de Cavaleiros, no despovoamento povoada por locais de eleição, louvores ao sonho em realidade transfigurado. Há simbioses dos sentidos que valem a pena...                        

quarta-feira, 30 de maio de 2012

História, figuras e génese

É destemido ler nas pedras. Penetrar-lhes nas entranhas, sugar-lhes o endógeno, vulgarizar-lhes a seiva, num sistema de excelência. Ocasionalmente, revelam-se as leituras. Na intimidade, recatados momentos, senso anestesiado pelo anseio do "que tudo corra bem". E corre, na eloquência de uns seixos rolados bafejados pelo abraço do Azibo, pelo afago do Sabor ou, simplesmente, pelas suaves carícias de um qualquer regato que desbrava montes e descansa em vales. Por vezes, sublimam-se distantes cronologias, incisas decorações, penteadas o sejam, lá para o tempo de metalurgias primeiras, seriam corvídeos donos da Fraga, o Vilar no sopé do Monte. Já por lá se andou, ao sabor do estio, encantos na sapiência dos que no pó lêem, partilhas que movem os genes, ancestralidade feita culto, ressuma a génese. Sobra espaço para ouvir os que estocadas dão à nossa ignorância. Sentinelas do tempo, resgatado ao som da protecção do "Monte Mellis", dorso de Bornes a clamam modernos tempos. De modernos o são pinceladas da excelência...
Há oficinas que restauro dão à negligência, à excelência, ocasiões outras, sacros rumores na Casa Falcão, ex-libris de um centro inúmeras vezes pouco central. É ali ao lado, na esquina da passagem, ignorâncias de pedras da calçada, fugas de compromissos outros, ou seja o conformismo de mirar, causais fenómenos da interioridade, para museus outros ao alcance de uma qualquer incongruência de definhar o que autóctone é. Mas mora a igualdade, ou supremacia da herança das pedras, lá para os recantos de um Museu de Arte Sacra pintado a querer, simbioses mal entendidas por heróis do escárnio (será?), ou a impureza do desinteresse (será também?). Ou uma qualquer outra coisa estacionada para lá de visível entendimento...
Excitam-se os genes da pertença, figuras muitas de elevação, ganham-se prémios de Academias, Pedro Hispano uma, lá para as bandas de Corujas, grandezas da humildade, imita-se o ilustre de Grijó, raras elevações em duo de anos, fica Frei Francolino registado nas memórias dos conterrâneos, temos um Macedense a dar cartas na exégese bíblica, Pontifícias Comissões, e o Profeta Isaías descodificado pela herança da terra. Figuras outras, idas, ressequidas por cronológico bafo, releituras do cronista, intensas, envolventes, Fernão revisitado, temporais regressões aos tempos do Sandoval, terá prostrado o Mestre, rótulas em desespero, auxílio do de Macedo, o Martim toponimicamente omisso, Aljubarrota revisitada e revista. Para quem quer, para quem pode, para quem sorve...
E fala-se de um linguajar, requiem pelas almas, salvem-se fonológicos processos do purgatório, exalte-se a ancestralide absorta em cumprida penitência, louvem-se os que incentivam. Dizem que o Dialecto Trasmontano é raro caso, híbrido o alcunham, influências do que a artificialidade criou. São as Histórias de Macedo, reveladas pelas bibliotecas do pó, ilustradas pela excelência da recuperação de sacro património, motivadas pela distinção de humildes seres, regadas a envolventes ressuscitações da causa do de Avis, emolduradas a imaterial património da oralidade. Foram as Jornadas da Primavera, antítese do Inverno do esquecimento, prenúncio do fulgor do estio. É a Terra, é a Gente, é o Património... São as histórias com História... São os resultados... É Macedo na estranha e invulgar distinção que tem para dar... Um "bô cibu" está aqui...

                 
 

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Este tempo que consome...


Irremediavelmente, os ponteiros são os carrascos dos dias. Assistimos à inapelável passagem, corrupios dos dias, incremento têm os espécimes brancos que adornam o escalpe, vai diminuindo a apreciável distância que um dia nos fazia olhar a descendência como se estivéssemos estacionados no décimo andar, já estão eles a morderem-nos o queixo e apercebemo-nos que os nossos fémures já não crescem mais. O tempo de os presentear com uma viagem às "carritchas" já lá vai, transfigura-se o passado em longínquas memórias presenciais. Sem qualquer desconjuntado desprimor para a descendência de carne e osso, valha-lhes o lugar mais alto do pódio na bomba da circulação - mais o agradável e sublime desgaste em neuronal sistema, naturalidade das coisas, o diria - também há filhos da virtualidade. As "Cousas" vulgarizaram-se como tal... Um dia, peripécias do tempo, ocupações outras, energias voltadas para afazeres que intensificam o prazer que a vida nos dá, encerramos a virtual prole numa gaveta situada num compartimento que deixamos de visitar assiduamente. Os ponteiros vão efectuando a sua circum-navegação diária, prioridades outras, austeridade dos dias, a inexorável passagem, atenções focadas no essencial, perde-se à meada o fio, remete-se uma das "meninas dos olhos" ao calabouço, olvidada fica ao sabor do acumular de poeiras. Um dia, num outro futuro dia, sente-se o atroz fulminar da saudade. Das "Cousas" simples... E, num assomo de sabe-se lá bem o quê, resgatam-se. E ilumina-se, subitamente, o que as pálpebras protegem...