Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Feliz Futuro!

É tempo da efemeridade dos desejos. Desejou-se Bom Natal, apenas numa mísera noite, regressando os desejos ao recato de uma qualquer gaveta do olvido. Até para o ano... Deseja-se agora Bom Ano Novo, farsa de um dia de uma nota só. Porque Ano Novo é amanhã. Mas também depois de amanhã... E depois... E depois... Um amanhã que se repetirá por 365 dias sem repetições de desejos. Numa sinfonia do tempo onde deveriam constar distintos acordes. Abafados por uma qualquer desinteria da modernidade... Por isso, as Cousas não desejam um Bom Ano Novo. Limitam-se à singeleza do desejo de um Óptimo Futuro. Amanhã... Depois de amanhã... E depois... E sempre!

Tempo (in Cântico do Homem - Miguel Torga)

Tempo — definição da angústia.
Pudesse ao menos eu agrilhoar-te
Ao coração pulsátil dum poema!
Era o devir eterno em harmonia.
Mas foges das vogais, como a frescura
Da tinta com que escrevo.
Fica apenas a tua negra sombra:
— O passado,
Amargura maior, fotografada.

Tempo...
E não haver nada,
Ninguém,
Uma alma penada
Que estrangule a ampulheta duma vez!

Que realize o crime e a perfeição
De cortar aquele fio movediço
De areia
Que nenhum tecelão
É capaz de tecer na sua teia!

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Retalhos natalícios

Consomem-se os derradeiros segundos, malas prontas, aviadas, compostas. Rectificam-se os últimos temperos, provam-se banais ansiedades, agoirentas as dirão os votados a crendices, passageiras de anos tantos, suavizam-se ao primeiro roncar de motor, aliviam-se às iniciais passadas de devorado asfalto, extinguem-se com o vislumbre de anunciadoras ondas de pétreo mar. Vulgaridades de repetições muitas, ano após ano, há anos tantos que, de tão poucos, quiçá, muitos parecem... Inquietações, amenas inquietudes, adensa-se a incerteza de vergastadas no mercúrio, arrepia-se a jornada a cada baforada de nicotina, esbugalham-se os sensoriais receptores a cada invasão de forçada brisa da montanha. É um mundo, reinterprete-se, O MUNDO!, pintado a familiares cores, tonalidades de sempre, ou reinventadas aguarelas de uma imaginação onde em permanência germinam centeio, batatas e castanhas em férteis campos regados a paradoxo de agrestia. Sente-se, explica-se, ou tenta-se, num infindável desfilar de nunca tidas sensações, como se, de repente, a uma algia da alma lhe aprouvesse transfigurar-se em dor do prazer. Conquista-se o Marão, barreira de ancestral ditado, mandam os que lá estão, ou não mandarão. Cala-se o silêncio de uma qualquer balada de ocasião, infunde-se respeito pelo recado do vento, gélido vento da alvura. Abranda-se o andamento, respira-se a cor, absorve-se a momentânea expiração da montanha, pulmonares simbioses de encantos muitos. Está frio. Ao longe, o manto da névoa, redobrados cuidados, montes de sopés tapados, repetidas imagens sempre guardadas. E a angústia da proximidade, filtra-se o espaço, falta muito, pouco falta? Calem-se, prazenteiras vozes!, Murça é já ali, ao virar de uma qualquer próxima curva, e o Tua compassado corre, há-de chegar, indisfarçável desprezo por uma travessia mais, lá longe, ali perto, tão perto. À distância de uma ultrapassagem mais, ou não, dependências de mal paridos itinerários que a terras do olvido conduzem. O Romeu, a outra Jerusalém, terá Saladino efectivado uma conquista mais?, ou será a miragem de um qualquer oásis num deserto que ao paraíso conduz? Macedo está ali, incólume, ao findar da subida, aconchegado entre sentinelas, pacificamente aguardando o culminar de uma epopeia sempre repetida, sempre desejada, de sempre adorada. É o epílogo da jornada, clímax de repetidas façanhas, batalhas tantas de pretenso Quixote, um moinho aqui, outro acolá, sem velas ao vento, apenas a fugaz tenacidade de um desejo que, de cansaços tantos, apenas quer repousar à sombra do protector braço de Montemé. Sorriem os olhos pelo avistar da silhueta do dorso, agora adornado a pirilampos desenformados de eólicas desventuras, venturas talvez. Gradíssimo acolá, Pinhovelo além, Amendoeira ali, a Carvalheira de sempre, Travanca ao lado, a Bela Vista dos arredores, e o Herculano eternizado, equivocadamente eternizado. É chegada a minha "vila"... Emoções repetidas, nunca monótonas, o renovar de um laço mais, aquele abraço, o beijo outro, e outro abraço mais. E um estômago que reclama pela volúpia de refinados paladares, distintas atmosferas que atrofiam os receptores da taciturnidade, ressuscitando memoráveis registos de anestesiados sentidos. "Ora abonda cá mais um cibo de tchitcha, bota-l'um tantinho de molho queimão... E atão, o arrôze de coube e irbanços stá mim amanhadinho, num stá?"... É a pureza em estado puro... Corroborada pelo tamanho encanto a que as gustativas papilas são elevadas, num reencontro com "rijões" que, na simplicidade de um mundo de xisto, sabem a rojões. Ou no clássico bailado de um queijo de ovelha fresco impregnado a compota de abóbora com nozes... Trás-os-Montes sabe-me a mundo distinto... É o restolho da genética, das raízes, da alma! Dele provém a indómita vontade de não resistir ao encantamento do fumeiro. Remete-se a vontade de uma incursão ao café para a gaveta do amanhã, afia-se o querer, desafia-se o comodismo, espanta-se a preguiça. Degola-se o pão, um após outro, metodicamente. Recheia-se o "caldeiro", camada após camada, a paciência por companhia, o trote da máquina por estímulo. Alguém há-de despertar para a cozedura das "tchitchas", num ritual da ancestralidade, potes ao lume, fogo desperto, imensamente desperto, ambiente impregnado de inconfundíveis aromas, saliva em convulsão. Hão-de vir as sopas das alheiras para saciar a gula, efémeros momentos para a eternidade. Não sem presenciar o estranho digladiar num pântano de massa de pão com carne desfiada, onde se entrecruzam mãos ávidas por rechear as tripas que aguardam a sua vez de se transformarem em arte de ourives, quais luzidios pendentes alinhados numa vara à espera de um cliente que não resista aos seus encantos. Já lá estão, soltando lágrimas por se lhes secarem as entranhas, apura-se-lhes o sabor, aquece-se-lhes a alma com a ternura de sábia gente que lhes conhece as manhas, um "strafogueiro" mais, chegam-se-lhes as brasas que lhes afumam o ser. Um dia hão-de estar prontas para saciar desmedidas vontades. Deseja-se o frio que as atormente e lhes amenize a cura. Mas não! Persiste esta urina dos deuses disfarçada de chuva. O disfarce deveria ser outro... Mas é assim, as alheiras estão lá, altivas, aguardando que a impaciência dos que as cobiçam não se eleve cedo demais...

Anormalidades meteorológicas

Os impropérios do tempo, não os do malfadado que corre sem sequer dar permissão a uma breve cavalgadura ao ponteiro dos segundos, derreado pelo peso da vontade de uma fugaz atrocidade de regressão temporal, ou paragem apenas, leve, suave, candidamente decorada a infâmia de troca das voltas do que estabelecido está. Não esse tempo... O outro, meteorologicamente louvado em boletins de gente que sacia a avidez de controlarmos o que, climaticamente, incontrolável é. Simplesmente, chove... Olha-se a abóbada, desesperadamente olha-se a abóbada, a celeste, perscrutando o infinito, salvaguardando a irreprimível vontade de descortinar uma estrela, uma estrela apenas, uma que seja, lá longe, perdida no horizonte do desejo. Não há estrelas, visíveis que sejam, tão só esta cadência de gotículas que fustigam o ar, amena temperatura de um Dezembro que se queria pingado a gelo, neve que fosse, alva, pura, temperada a Natal, a Inverno seja, mas fria, deliciosamente fria, atormentadoramente fria, gelada até. Mas não! Chove, apenas chove. Desesperadamente, chove, sem frio, sem termómetros flagelados pela geada, sem aragem que enrijeça a alma. Anseia-se pelo choque térmico que cura as carnes, vergastadas por um gélido vento que desperte o mais morfinizado dos neurónios, e nada. Nada de nada! Resume-se o exterior à insanidade húmida, temperada, desprovida de aromas a Inverno, privada da agrestia que empurra umas luvas ou um cachecol que afaguem a epiderme. Ergue-se o olhar e assiste-se à impavidez da Lua, cheia parece, assemelhando-se a um desolado par que aguarda pelo convite de desenfreadas nuvens que dançam ao som de uma orquestra de silêncio quebrado pela percussão de gotas que, aleatoriamente, se estatelam de encontro à desolação de um chão molhado. É a prosápia do tempo, incólume, insondável, imbeliscável... É a altivez de uma incontrolável e inatingível forma de rasgar o canto do gelo. É o "catantcho do tempo que se m'aparece q'stá a mangar co Imberno. Ou só q'ria um cibeco de frio"...

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Paulitadas na Dança de Palotes

A propósito de outras andanças, um amigo sentenciou uma pequena discrepância com o seguinte comentário: "Na vox populi quase tudo o que é antigo, ou é romano ou mourisco"... «Oh, Santa Prepotência!» - dirão os mais arreigados a essa elevação a digitais impressões de Júlio César ou Al-Mansur, e afins sucedâneos, de tudo (ou quase tudo) o que velho é. «Oh, Santo Alívio!» - direi eu, enclausurado que estou nesta infame anormalidade, que me conduz ao protesto sempre que vejo indumentária medieval pintada a togas ou turbantes... "E ós depeis, ou num sou capaze de fitchar a matraca! Habium de me puntear as beiças, cmu fazim ós miótes rotos!... Bô, ma num m'amoutchaba na mesma, q'as idêas habiam d'sbarar dos miólos pró cumputadore. Tchintcha-l'aí, home do catantcho!"... Haverá contestação, na certa. Contudo, prefiro a alheia contestação, à equivalente da própria alma. Toda esta verborreia a propósito de outras "cousas" que vão decorrendo lá para os lados das redes sociais, "cousas" essas que servido têm para rebarbar os excessos da minha ignorância. Em simultâneo, também têm sido o rastilho para este mau feitio que me atormenta a alma e impulso me dá para embrulhar a realidade a comentários quando algo prazenteiro não é, ou de esquiva forma se furta à verdade, ou de mansinho a deturpa. Ingenuamente, inúmeras vezes, a deturpa... Como se este meu transmontano povo se furtasse à hibridez em que vive, sem percepção ter. Por isso transforma em romanas ou árabes, coisas que têm um "cibeco" mais de meio milénio. E acredita nisso, porque lhe faz bem a um ego historicamente maltratado. Afinal, seja por mutação genética ainda não estudada, seja antes por nos terem compulsivamente enclausurado na pobreza (material e de espírito), a cada nova esternutação histórico-cultural remetemo-nos a uma supérflua grandeza, espirrando para o ar gotículas de inverdades que, de tão repetidas, correm o risco de se transformar em verdades. Universais e irrefutáveis!!! E, estranhos pruridos na alma, este meu anestesiado povo trata de empurrar a outra grandeza, a que naturalmente possui, para patamares não consentâneos com o orgulho que deveria ostentar. Bastaria uma limitação à identidade, não valorizando em demasia quem de pouco tempo dispôs para, sequer, deixar registos de ADN nas águas do Azibo ou do Sabor; nem sobrevalorizando tudo aquilo que é mais fruto de fantasiosas falácias que de provadas realidades... Como dizia anteriormente, a propósito de alguns encantamentos noutras bandas que fazem parte da prole das novas tecnologias... Vieram os Pauliteiros à baila. Sei que não se nota muito, mas sinto uma desmesurada paixão por tudo o que se relacionando vai com aquela leira a nordeste do rectângulo a que alguém se atreveu a chamar de Reino, abusando do atrevimento ao caracterizá-lo de Maravilhoso. Ah Grande Adolfo!!! (não o de Braunau - livra! - mas sim o de S. Martinho da Anta, vulgo Torga)... E como os Pauliteiros são uma das dignas imagens de marca da leira, obviamente se enquadram nessa tela de paixão... Só que... Ao ler uma das muitas publicações que recheio vão dando à teia, vulgar "net", soou o alarme! Como tinha sido transcrita, na íntegra, de uma página institucional, fiquei a saber que a existência das danças dos Pauliteiros ocorre há mais de 2000 anos, no Norte de Portugal, na Galiza e em Castela-Leão e que agora só se dança no distrito de Bragança... Como a coisa me fazia colapsar todas as tentativas que tenho feito para minorar a minha ignorância, resolvi dar mais umas voltas por outras páginas, institucionais umas, particulares outras. E o estarrecimento foi crescendo... Como é possível que, depois de tantos ilustres nos terem deixado como legado o fruto das suas dedicação e sapiência à cultura Mirandesa (Vasconcelos, Deusdado, Alves, Gallop, Giacometti, Mourinho, entre outros), se persista em exacerbar o que necessidade não tem de exacerbado ser? A "dança de palotes", como correctamente é designada pela cultura Mirandesa, é uma herança ancestral cujo valor é indiscutível. É difícil precisar as suas origens, dividindo-se os eruditos quanto à génese desta estranha forma de dança de acompanhamento a "lhaços" tocados a gaita-de-foles, tambores, castanholas e, eventualmente, "fraita" (a modernidade introduziu-lhe, recentemente, os ferrinhos e a pandeireta). Se uns lhe vêem reminiscências das danças pírricas gregas, trazidas pela romanização, outros encontram o seu eco nas pantominas medievais derivadas da encenação de lutas entre cristãos e mouros. Outros ainda buscam o seu nascimento a partir de influências indo-europeias, retratadas provavelmente nas "danças de espadas" do centro europeu. Com bastante segurança, a atentar na Geografia de Estrabão, os povos pré-romanos que habitavam a Península Ibérica já excecutavam danças em honra dos seus deuses, assim como se exercitavam através de simulacros de combate, possivelmente assemelhados a danças. O que parece indubitável é que o estranho bailado em que se entrelaçam "paulitos" será uma expressão de origem pagã que a Igreja se encarregou de incorporar em festividades religiosas, à semelhança de muitas outras manifestações. Provavelmente, com intuito guerreiro, ou como culto de fecundidade, ou como manifestação de celebração a alguma divindade, algo que é denominador comum a diversos povos e religiões, desde os Egípcios aos Hebreus, passando por Gregos e Romanos. O que é inegável é que, talvez por influência Leonesa, a "danza de palos" ou "paloteo" se instalou nos concelhos da raia transmontana, particularmente em Terras de Miranda. Do lado de lá da fronteira, para lá do "paloteo", recordo-me do "ball de bastons" na Catalunha, o "palotian" em Aragão e a "ezpatadantza" no País Vasco. E, subindo até ao Reino Unido, não é difícil verificar as afinidades entre os Pauliteiros e as célebres "morris dances"... Contrariamente ao que acontece em Espanha, com referências explícitas a estas danças na literatura (por exemplo, Cervantes faz-lhes referência na sua obra-prima), em Portugal a notoriedade dos Pauliteiros só tem eco em finais do séc. XIX, levando um grupo a actuar, pela primeira vez em Lisboa. Quando em meados dos anos 30 do século passado, actuam no Royal Albert Hall de Londres, ganham dimensão internacional. Os anos 40 e 50 representam a revitalização pela mão de António Maria Mourinho, mas será só a partir da década de 70 que os Pauliteiros ganham nova vitalidade, chegando aos dias de hoje como um dos ícones da cultura transmontana. Um ícone que temos obrigação de preservar! Sem exacerbar... (Foto: AFCML)

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Penhascos brancos

Talvez seja inédito, ou estejam os processos cognitivos atravancados de acumulações de esparsas memórias. Sábio ancião não sou, nem sábio de forma alguma serei, que a absoluta sapiência é omnisciente modo de estar, e gosto de ser burro que nem um tamanco, salutar forma de aspirar a cavalares promoções. E no enredo deste constante limar da ignorância, recurso a pergaminhos da memória, hercúleo esforço por trazer à tona uma qualquer naufragada imagem, não me recordo de nevões em Novembro. E se, acasos do destino, vir ressuscitado um perdido quadro do passado, já não irei a tempo de corrigir o que escrito está. Porque, simplesmente, não me apetece e, bastas vezes, gosto de ver saciados os apetites ou, lexicais variações de um polimento inverso, aprecio a saciedade dos não apetites. Não me vou vergastar por isso. Nem o vou fazer por não me lembrar do que lógico deve ser, que ilógico, ilógico, seria um nevão em Julho. E aguardo, serenamente, a chegada de um tempo que espero distante, onde darei rédea solta a esta sede de partilhar histórias e historietas, Macedo por timbre, Trás-os-Montes por escudo, netos e bisnetos por companhia. Algures num perdido alpendre de uma anunciada coutada, cachimbo de sôfregas aspirações, assim os pulmões o permitam, baforadas de idílicos aromas abaunilhados, entrecortadas por incursões a um pretérito onde a vida ainda reinava em província de amores muitos, Torga o sentiu, outros também. Nesse longínquo dia de um futuro-mais-que-perfeito, traições da memória não corrompam o éden, lembrar-me-ei que nevou nos últimos dias de Novembro do ano da graça de 2010. Não o da "Odisseia no espaço", o outro, o não ficcional, o dos Orçamentos e FMIs, afins e demais, bem me entende quem queira do entendimento fazer armadura para peneiras que já não tapam sóis. 2010, o da odisseia espacial, talvez, especial, também, para os desprevenidos crentes que, como eu, ingredientes são do bolo de massa atónita, num depauperado mundo que sustenta ricos fidalgos a submarinos e atrasados veículos anti-motim, desesperando numa pobre fidalguia de bloqueada gente à primeira mijinha de alvura, porque a desprotegida Protecção Civil se verá privada - diz a minha inocência - de verbas para um básico serviço público de desencarceramento de quem atascado fica à primeira mija dos deuses feita de tresloucados farrapos brancos. E fiquei com inveja, assim me confesso, pecados meus... Quem os não tem, seus também? Que a neve possui os seus encantos, encantos muitos os direi, e a chuva, doseada seja, também os terá. Mas não para quem aterrou no penico de Portugal, Atlântico por vizinho, produtiva terra onde quando não chove, há chuva. E mais chuva, e ainda um pouco mais de chuva, torrencial ou às pinguinhas, pingando torrencialmente, ou torrencialmente pingando. Ainda se pudesse fazer bolas de chuva para me confundir no infantil mundo da descendência! E nem as insanas versões para arquitectar um boneco de chuva resultam... O velho cachecol fica invariavelmente ensopado e são em vão as inúmeras tentativas de recolocar a cenoura a servir de apêndice olfactivo... Por isso fico a ruminar nesta abrutalhada forma de sã inveja. Também queria um "cibo de nebe", um "cibinho", só um "tantinho pra num ficar im augado"...

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Martinhadas e Castanhadas


"Ou cousa que se l'apareça"! Havia algo de místico, sobrenatural até. Seria um dia como qualquer outro dia, não ditasse o calendário situar-se na vizinhança de meados de Novembro, algures onde apregoava a tradição haver uma sinopse do estio, dizem-na Verão de um cavaleiro romano que virou bispo por ter corrompido a profecia de vigésimo primeiro século: uma tal de centúria em que são os pobres que desafiam a gravidade, não a do Isaac, que essa é coisa de maçãs, assim a dizem, mas a outra, a da situação! Assim de mansinho, para não ser rotulado de reaccionário, aquela que vem sendo madre de todas as cousas, cousas essas que incluem, a título meramente exemplificativo, nada de transcendente, juros da dívida pública no limiar da entrada em cena de Santo FMI (para os mais desatentos, o dito Santo é o padroeiro da Fome Mascarada Iminente, santidade meio a jeito de deturpação do globalmente parodiado por infiltrados agentes mediáticos). Ou a maléfica forma de impor ao mendigo que ceda metade da sua capa ao eminente cavaleiro... Apenas um prolongar da ausência de tréguas na milenar luta entre Sua Eminência e Nossa Iminência... Destravado espírito o meu que se deixa agrilhoar pela viperina condução de extremidades superiores de encontro a um teclado! "Atão, c'um lecença de Bosselências, ou juro pur estas bistinhas q'a terra e os bitchinhos hádim cumêre e inda juro tamém pur'us mous pecadinhos, que são mim pouquetchos, que fui dezbiado das nhas intenções pur estes malditos tóros das manápulas, que debium mas era star imbarrados pra que num s'apusessim desinquietos. Olha pró que l'habia de dar ó diatcho dos dedos! Ind'ós mando pró caralhitchas d'Antártida, pra ber s'amoutch'um tantinho, que bus-jiu digo ou. Dixu-m'u aldrúbias do Tonho Lingrinhas, o que s'amigou co'a galdéria da Miquinhas da Ti Alzira dos Poulos, que por lá num s'amanham homes ingrabatados q'indrominim o pobo cum IBAs de bint'i deis ou bint'i três pur cento, nim nos cobrum IMI se nos der na catchimónia de nos botarmos a fazer um ou deis iglus. E aparece-se q'os postes prás SECUTES num se sigurum no gelo... Peis, é berdade, num há batatas nim castinheiros, nim recos pra cebar, mas inda s'amanhum uns pinguins, que tânho que préguntar à minha se num ficum munto rijos si us strugir mim strugidinhos"! Entretanto, após este fogacho desviante, estou de regresso ao Planeta Europa, aqui bem perto da extremidade a que uns rapazolas colonizadores apelidaram de Finis Terrae... Não será a dita, porque o Colombo e o Álvares decidiram dar voz à sua obstinação, mas Finisterra não sendo, assemelha-se, cada vez mais, a "Cu do Mundo", desconhecendo-se se ficará no nadegueiro hemisfério ocidental ou oriental, porque andam por aí uns países a reclamar o epíteto, atente-se em privações de pátrias de verdadeiros filósofos. Ainda há filósofos? Pois... Terá derivado esta efémera cedência do controlo à hipnose por um teclado para uma agonizante filosofia barata? Um momento, que vou armadilhar os fusíveis que energia providenciam a este desregrado impulso de escrevinhar filosofando acerca do "infilosofável"... ... ... Dizia eu, quando o curto-circuito mental ainda não tinha ocorrido, que havia algo de místico, sobrenatural até (sim, logo no início desta "martinhada", antes da verborreia que incluiu pinguins e afins - ops, rimou...). O Dia de S. Martinho, o do "baiádêguipróbóbinho", era detentor daquele trágico ritual de apenas providenciar a extrema unção às castanhas após a degola das ditas, e depois do inferno a que eram submetidas numa enorme fogueira no terreiro, num qualquer comunitário terreiro, dos que possuem imensos donos sem terem donatário algum. Era grande o ajuntamento! Vinha o Zé Povinho, e o Povão Zé, estranhas simbioses geradoras de um simples Zé Povo, ou Povo Zé, onde cabiam a Senhora, a Dona, o Senhor e o Doutor. Nada de estratificações, nada de obsoletas ramificações de instituídos feudalismos, "népias"! Nesse dia vulgarizava-se a igualdade de classes, num hilariante disparate histórico em que, por um dia, reinava a utopia de direitos e deveres semelhantes, igualitárias neblinas que obliteravam milenares realidades. Era o Magusto, o "Magnus Ustus", a grande fogueira, ou reminiscências de um "Magus Ustus", ancestralidades de sementes celtas de um qualquer Samhain. Era a pureza vingadora das distinções, soturnas faces que soçobravam perante os enternecedores sorrisos que desenhavam caras "infurretadas" pela cinza, se desinibiam por gargantas acariciadas a jeropiga ou outro qualquer líquido alento para melhor digestão dos "bilhós". E provava-se o vinho, o novo, o velho, garrafões envoltos em vime em breve esvaziados ou, ternurenta tradição, as pipas transformadas em alcoólicas bicas, num desenfreado corrupio de provas em copo único. Que se danassem os micróbios! Aliás, a microbiana vida devia alhear-se da potencial mortandade em vespertinos finais de algazarras muitas, espíritos à solta, num atmosférico escambo de etílicos vapores, desenfreados diabos invasores de alheias adegas, contínuos ecos de desencontradas gargalhadas, ao sabor de mais "ua pinga", um "cibo" de presunto, quando o havia, um "tantinho" de queijo curado, do duro, daquele que se solta em finas lascas, lascando, de igual forma os dedos dos mais incautos. E voavam "carabunhas", resquícios de deglutidas azeitonas, imaginárias guerras sem baixas, onde as bestas eram braçais forças arremessadoras de salivados projécteis. Foi ontem, num pretérito algures perdido no tempo, resgatado de uma qualquer memória futura. E ninguém se "imbutchinaba" nessas batalhas onde toldados cérebros se aglomeravam num pequeno mundo de xisto...

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Associação Potrica - Lapadas, biqueiros e lostras no iletrismo



O maior mal não é o analfabetismo, é o iletrismo das classes dirigentes (Ricardo Jorge)

Para os mais desprevenidos... Há, reconhecidamente, um dialecto de "Tráze duje Monteje", com as suas especificidades regionais, sublinhe-se. Para os que, humildemente, o desconhecem, talvez tivesse sido mais eficaz ter no título "Pedradas, pontapés e estalos" (e para os que, com sobranceria o renegam, fica, simplesmente, "ua lapada, um biqueiro e ua lostra" para a renegação). Já para os afoitos dos neologismos, talvez a substituição do "iletrismo" por "iliteracia" se revelasse mais conveniente. Contudo, não pretendendo ser mais papista que o Papa, procuro - nem sempre conseguindo, é verdade - elevar a desbaratada Língua Portuguesa a um delicioso purismo, temperando a ousadia com um "cibo" de orgulho nas raízes. Conquanto, nos tempos que correm, lhe veja a pureza desvirginada por "atos de corrução" paridos por quem, numa "ação" de desvirtuar o ditado, aceitou que fosse ensinado o Pai-Nosso ao padre. Andarão o Luís, o Fernando, a Florbela, o Ary e outros mais "práguêjando ná séputura", a aviltar semelhante homicídio? Que pensará El-Rei D. Dinis, tresloucado poeta-lavrador que impôs o bárbaro Português como língua oficial dos diplomas? Que se dane, ainda se desconhecia a existência das terras de Vera Cruz e as traulitadas resumiam-se a ser sanadas por Tratados de Alcanices, e Tordesilhas ainda se anunciava longe... E, reconheça-se o factualmente indesmentível: os polegares apenas detinham desenvoltura para manejar espadas, maças e demais artefactos bélicos medievais para "infiar uas catchouçadas" nos do lado de lá, e para se defender das ditas, também. Hoje, dizem os especialistas em genética, o futuro será sorridente para uns tendencialmente mais extensíveis polegares, muito à custa da massiva utilização de novas tecnologias. Nada de anormal, nada de pecaminoso... O pecado mora ao lado, bem ao lado da correcta utilização de um tal de camoniano idioma, adulterado a "kstões de kem axa k ixo d screver é 1a xpriêxia dkls k tb é 1 xpetakulo" transcendente, mesmo que a transcendência se transforme num vocábulo inentendível. Adiante, que o Sabor ainda corre selvagem e o Tua ainda não inundou a linha... E adiante que, ocasionalmente, vão surgindo motivos para sorrir! Como uma tal de "Associação Potrica" ("Axoxiaxão Potrika" em "Portecladês", cabal demonstração de poliglota!), uma infame organização que, pasme-se, quer revigorar hábitos de leitura. Em cafetarias!!! Mas que "dexk/xideraxão" para quem apenas encara determinados locais como um vínculo à cafeína ou a etílicas formas de arejar a mente! Mas que atentado à liberdade de "xprexão"!!! Mas este rapazola, detentor de uma linguística insanidade de Cavaleiro Andante, aplaude, aplaude, e volta a aplaudir, aplaudindo novamente, numa prolongada ovação a mais esta tentativa de não anuir com a ostracização a que a Língua Portuguesa vai sendo votada através de ignominiosas formas de barata prostituição. Amparem-se os superiores membros, rubicundos que estão de tanto aplauso, limitem-se as suas extremidades a transfigurar os signos de um teclado em vocábulos de louvor a tão impagável iniciativa. Todavia, vou sendo assolado por uma inenarrável tristeza... Macedo estará à distância de um pulo, mas a minha dose de cafeína foi deglutida algures num "tasco" à beira mar plantado onde, em substituição do delicioso silêncio de um livro, ecoava pela atmosfera a aculturação de uma pronúncia que, não desmerecedora de crédito pela sua beleza, se inflitrou em forma de "á-cô-ré-dô" desde que uma Sónia de cravo e canela invadiu o mar português. Foi ontem, lá longe, a preto e branco... E foi hoje, bem perto, a cores... Nesse hoje apenas desejei, temporal arrepio dos sentidos, aspirar uma macedense atmosfera, temperada a Torga ou Junqueiro, condimentada a Pires Cabral ou Trindade Coelho, ou adoçada a monstros outros. Limitei-me à leitura da saqueta de sacarose, reli a saudade e tentei decifrar uma forma de aplaudir uma tal de "Associação Potrica", essa tal que convida para uma "Pausa para a leitura" nos cafés macedenses. Bem-haja! Porque o analfabetismo não reside naqueles que não sabem ler; mas sim naqueles que, sabendo-o, não o fazem... Impavidamente extensível ao iletrismo de certas classes...

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Sobrevivências com rejuvenescimento do espírito

Será a repetição uma apologia à perversidade de insistentemente escutar a surdez alheia? Ou soará a tal… Para lá da potencial catalogação de insanidade, encaro o repetitivo ser como um audaz, mas tenebroso também, violentador do silêncio das massas. As encefálicas, as cinzentas, as corporais e, para que ostracizadas não se sintam, as alimentícias também. Só para compor o ramalhete das massas, dê-se albergue aos hidratos de carbono, momentâneos desvios da atenção ao essencial, fica-se a pensar no amido e segue o baile do silêncio, entrecortado pelo ruído de umas bolhas de água fervente, frutos da convecção que faltando vai à minha resignada gente. Afunda-se a alma e renega-se a física, num desfilar de fluidos em que as moléculas compulsivamente rejeitam o efeito calorífico, apenas por ausência do mesmo. Derivações de uma qualquer densidade pétrea, não a da terra, não a que emana de geológicas entranhas, mas a do betão que insistem em impingir, à força de atoardas orçamentais, expoente máximo da indignidade com que uma cambada de umbigos com excessivo perímetro vai cerceando a milenar constatação de que todos estamos dotados de resquícios de cordão umbilical. «- Or om’zesta! C’um catancho, o Cabaleiro debe-se ter sbarrado contra um candiólo e ficou tchalotinho, o pobre home! Puri, sbarou no carambelo, scarnatchou-se todo e botou-se scaleiras abaitcho. Foi o mou que mu dixo, oubiu-lo no pobo ó Ti Tonho Gago, ma num me spanta que lu tânha intendido ó scontra, q’o home ingalêa-se co’as palabras e dás bezes dize deis e são déze! Mas inda cm’assim, aparecesse-me q’o Cabaleiro já num dize cousa cum cousa»… Não confirmo nem desminto, talvez seja apenas a indumentária com que o dito traja, carapaça como armadura, antídoto à propaganda com que um bando de falsários leva a cabo aquilo que noutras bandas seria apelidado de genocídio, macabras limpezas, redutoras da etnicidade que lavra na alma de um povo, silenciosamente conduzido ao lenocínio. Sim, porque os ímpetos carnais são dotados de várias vertentes! E as formas de exploração da carne resumidas não são ao propriamente dito… Triste sina a de um povo que “s’amoutcha”, vergastado pelo despotismo dos iluminados de beneditinos corredores, amansado pelo marketing de “train à grande vitesse”, depauperado por extintas “Sem Custo para os Utilizadores”, indiferentemente sodomizado por IVA, IRS, IMI e demais paridos verdugos do pouco que lhe resta. Penitência para alheios pecados, dez “políticos-nossos” e cem “avé-confrarias”, jejum por quarenta dias… E uma sorridente auto-flagelação, alegre suplício da alma (e da carteira também), venham de lá campanhas mais, eleitorais umas, estomacais as outras. “Bou-me mas é fitchar a matraca, num me bânha puri um AVC ou, transmontanamente, um ABC - Agonia por Bias das Cousas”. (Mentalmente, confesso que o C me faz derivar insistentemente para uma vernácula forma vocabular que rima com tostões, assim meio a jeito de conotações caprinas, mas não quero ferir susceptibilidades)… E, verdade seja dita, por caprino linguajar, o queijo de cabra que degustei no fim-de-semana fez-me esquecer as agruras temporais. E as espirituais também! Trás-os-Montes regenera-me a alma! Ainda que este fim-de-semana seja apologético de uma fogueira das vaidades, repetidas mostras em tapetes de arranjos florais, reina a hipocrisia por um dia, que bárbaro sou!, iluminada a ceráceas formas que, por efémeras, não desmentem a compostura de ser socialmente correcto uma vez por ano, na procissão de um rebanho que anda tresmalhado na restante dúzia de meses. Que se danem as sepulturas por 364 dias! Pois… Também sou do rebanho, mas sou uma ovelha ranhosa que se dá ao tresmalho no dia primeiro do mês que já foi nono… Na panóplia de opções, prefiro ausentar-me, numa debandada geral do ser, levando a companhia dos que já companhia me fizeram, relembrando-os numa privada cerimónia, algures num paraíso a que chamam Azibo, onde apascento as recordações a chamas de redescoberta de um mítico chão de onde brotam pedras, sobreiros, cogumelos, castanheiros e outras coisas mais. E onde as agora gélidas águas me aquecem numa orgia de inacabados sentidos, sou capaz de ver o som de um grasnar e ouvir imagens de um sol que se apresta a entregar-se a Morfeu, cheirar a textura da rugosidade das pedras e tocar os aromas que se desprendem da terra, provando a essência de nunca inventados sabores. É tão só um aconchego entre tantos outros que emanam de uma curta estadia pela terra que me esculpiu o ser. Fogueiras outras, que não as da vaidade, umas que aquecem a alma, o coração outras. Moram naquele abraço, num sorriso mais, tantas vezes repetido, na suave sonoridade de palavras traçadas a distinta pronúncia, vozes do povo, vozes da alma, vozes do querer. Residem naquele “capão” que se vai buscar para fazer o “magosto”, nos “stourotes” das castanhas que saltitam no velho assador, nos “bilhós” regados com jeropiga, nas gargalhadas que vão povoando o ambiente com o desfilar de histórias mil vezes repetidas e mil vezes aplaudidas a “risa”. Não cansam, reconfortam, embriagam o espírito sem etílicos vapores. E aliviam o fardo de um Dia de Todos os Santos onde, nos dias que correm, por de todos os santos ser, cabe também um qualquer Dia de São Nunca, padroeiro dos orçamentos, ou, controversas verdades “infurretadas” a inverdade, passou a caber também o Dia de São Pinóquio, incontestado padroeiro e defensor de “boys” ou, instância última, de “jobs” para os ditos… Perdoe-se o Geppetto, que não sabia o que fazia…

sábado, 30 de outubro de 2010

Taciturnidade dos dias

Por vezes sentimo-nos na contingência de abafar a vontade, uma quase indómita vontade de largar amarras e desatar em navegações por megalíticos oceanos. Mas remetemo-nos à clausura, enquanto aspiramos a zanga dos deuses, privações do astro, rei o dizem, a celeste abóbada tingida a limbo de negro, escuridão do dia, numa cabal demonstração de incontidas naturalidades atmosféricas. "Tchobe que Deus a dá", ou numa mais pitoresca versão apreendida de pretéritos tempos estudantis, até os cães bebem água de pé. E por aqui anda a gente, singulares formas de adesão a um ascetismo forçado. Mas sabe bem, de igual forma. Trás-os-Montes também aprendeu a ser mar, transgressões por vezes, regressões outras, sequências tais que culminam em três de inferno. Estamos nos outros nove, de Inverno os pintam, desgarradas cores ou talvez não, que esta fruste terra é pintada a nunca inventadas tonalidades. Talvez por isso a ame, a adore para lá de compreensíveis entendimentos, desmedidas paixões por uma terra de incontáveis partos, não os consequentes de nove, mas os da surrealidade de um chão capaz de parir pedras recheadas a batatas ou castanhas. E a suor de gente... Talvez esta sonoridade me afecte, cadências muitas de bátegas, "chlap-chlap", "ping-ping", fustigadas vidraças que parecem chorar, ou frutos à espera de repetidas maturações, molhados, suados, quem sabe, ou humedecidos por vontade divina. Mas sabe bem, repito... Como bem sabe o alegre cantar de um qualquer conjunto de aves que parecem festejar a tormenta, abrigadas nos pinheiros fronteiros. Ou como bem soube o almoço, saberes do tempo, "adôbo" ou vinha de alhos, costelas em repouso de encantado tostar, aromas ao vento, cálidas estrofes de um poema de lenha a crepitar. Ou, simplesmente, desencontradas poesias escritas a lápis de xisto... Frutos secos à espera de uma quase incineração, ou talvez não, outros há que desdenham "d'ua gabela de guiços", basta um seco figo para os aconchegar. Variedades muitas, sucos da alma, filhos do vento e da chuva, do calor também, o suor como pai, as rugas por mães. É a terra, o espírito das pedras, místico, druidas e fadas num bailado só. É isto, é pouco, é muito, é um raio de sol que obscurece o negro, é a chuva que insiste em cair, duradoura paz de uma raíz da terra. Sou eu, és tu, você também, o senhor, a senhora e vossemecê, quem sabe? É isto, dizia, é Trás-os-Montes... Entende? Afirmativo? Então é filho de xisto e granito...

Compensações por coisas simples e banais

Sair da Invicta a uma Sexta-feira ao final da tarde, através da A4, é um exercício próprio para transfigurar a salutar paciência em atroz demência. Sabedor de tal, passei a aproveitar o comodismo da VRI e primas A-Quarentas e qualquer coisa. Não perderam o epíteto de cómodas, mas ganharam o incómodo de, nuns míseros quilómetros, ver a minha carteira sequestrada por uns artefactos metálicos, obras de arte suburbana erigidas por desgorvernados artistas, não plásticos, mas cada vez mais de plástico, ao sabor de disparates cuja culpa é atribuída, invariavelmente, à mediática crise. Mas fui apanhado desprevenido pelo hábito... Quando dei por mim, mal refeito do equívoco de ter renegado a promessa de não circular pelas novas artérias cleptómanas, já as ditas me tinham surripiado três euros e meio, sem apelo nem agravo. Nada como passar por uma experiência traumática para não desejar repeti-la... Circunstancialmente, apeteceu-me cantar o fado, não o popular do trinta e um, mas o da A-Quarenta e um. «Aaaaiiiii.... Ó-la-ri-lo-lela, Como estes não há nenhum, Segue o roubo em Portugal, Até na A-Quarenta e um!»... Repentinamente, fui acossado por um inexplicável saudosismo da velhinha Nacional Quinze. As viagens eram tormentosas, curva e contracurva, intermináveis filas por vezes, um autocarro da extinta Cabanelas que parava a cada cem metros e servia de guia ao extenso formigueiro automóvel, pára, arranca, primeira, segunda e dali não saía até me afastar do perímetro distrital da Invicta. Mas não me sentia roubado! Cousas da Cleptocracia... Adiante, que a A4 está perto, ao virar da portagem. E Amarante, um pouco à frente, logo ali, onde se descortina um acumular de traseiras luzes encarnadas, prévio sinal da exaltação do espírito por pressentimentos de viagem demorada. Sorte danada! A paragem forçada ocorre antes da saída que anuncia o tortuoso itinerário para Marco de Canaveses. Conheço-lhe as entranhas de outras fugas, desvios de tormentos outros. «- Pode ser que resulte»... Resultou, felizmente, resultou, mas fez tardar a hora do repasto que sábias e ancestrais mãos iam preparando. Chegou tarde o desbravar dos sentidos, mas chegou, por entre um breve abraço mais, que a fome ia mutilando as paredes estomacais e multiplicando a ansiedade de degustar o sabor a terra. Cheira a frio, não um aterrador frio invernal, antes aquele frio que arrepia a espinha ao sair da amena temperatura do companheiro de jornada, um leve choque térmico apenas, doce, saboroso, distinto. E cheira, também, a lenha queimada, freixo talvez, oliveira quiçá, carvalho provavelmente, ou qualquer outra, que "mai fai", elimina uns arrepios, seduz com outros. A estranha agradabilidade de adornar os sentidos com os aromas a fumo que passam a decorar a roupa... Sentidos outros que absorvem o desenho de umas alcaparras (as de azeitona, não as outras), temperadas, numa simbiose dourada a azeite e vinagre, uma pitada de sal e um "cibo" de cebola picada, chamariz para a exaltação de gostos perdidos. Ou outros pitéus mais, só para entrada, só para compor o estômago dos «mous filhinhos, que bindes tchêinhos de fome!»... Venha de lá a satisfação do prévio pedido, mimo do inigualável frango caseiro, suculentas coxas que invalidam receios da gula. Reconfortado estômago, divina marmelada, só para adoçar, supremo queijo de cabra, para compensar o doce, nada de mais, delicioso anúnico de sobremesa apenas. Porque a aletria, aquela cremosa aletria aguardava, escondida de gulosos olhares, "grand finale", último aplauso antes da entrada em cena da "volta dos tristes". Só para descontrair, só para desgastar os excessos, só para matar saudades da "vila". E que saudades! Quase deserta, como quase deserta estará em cada noite de tardios repastos, exceptue-se o alarido de académicos festejos, aqui e acolá, lá longe, de passagem. Como de passagem aqui estou, instantes breves na brevidade do retrato de uma noite com coisas simples e banais. As últimas brasas, trémulas, moribundas, anunciam a morte de um dia que já aconteceu, num sempre ansiado retorno a este frio ar que me aquece. Inexplicáveis compensações... Velhinha fisga por testemunha...

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Consolos do desconsolo

Anualmente repete-se este misto de sentimentos. Estranha forma de vida esta! A proximidade de mais uma incursão às raízes faz balançar a alma. De um lado, a excitação pela adrenalina gerada pelo aproximar da partida para mais uma fusão com o Marão, calcorreando um mal parido IP4, num dia em que a chuva fustigou anormalmente a terra. E a deliciosa ansiedade pelo reencontro com o ar que regenera, com a família que aconchega, com as serras de Bornes e da Nogueira que amparam a "pátria-mãe", com o Azibo de mil e um encantos, com o xisto e as pedras que com ele se irmanam. Do outro, a saudade, ou a áspera forma como nos dedicamos a relembrar a saudade. E a triste constatação de que, num ano mais, se irão repetir abraços da virtualidade a imagens de gente de quem já sentimos o calor e hoje apenas sentimos o trinar da recordação. Este ano terei mais uns abraços virtuais, daqueles que desejaríamos fossem reais, e muitas vezes repetimos numa realidade passada, mas que ficam sempre por dar quando alguém que nos é próximo é atingido pelo natural ciclo da vida. Esta semana partiu mais um... Ficam as imagens do caçador sorridente, daquele sotaque único, da hospitalidade com que sempre recebia, dos longos jogos de damas com o patriarca, sentados num velho escano com a lareira por companhia... E fica uma singela homenagem... Nada mais... Agora, é hora de zarpar, Macedo espera-me! Não é hora de fado, é tempo de ouvir as castanhas a estourar, num bailado acompanhado por imaginárias gaitas-de-foles onde os paulitos são substituídos por uns "copetchos de girupiga"! "- Bota lá mais um, c'um catano!"...

domingo, 17 de outubro de 2010

O "silente dos inocêncios"...


... ou a degola dos ditos. Implacável, silenciosa, atormentadoramente silenciosa. Como uma neoplasia maligna, adenocarcinoma da alma, sente-se, uma lenta corrosão das entranhas, uma submersão forçada onde até as silvas servem de verdugo ao afogado, renegando o comum senso. As "Cousas" foram geradas através de inseminação natural, num coito pétreo que renega Darwin e adultera Lineu, onde o metamórfico xisto se fundiu com o ígneo granito, gestação de um corpo com pés de sobreiro, pernas de oliveira, tronco de castanheiro, braços de videira, cabeça de súbdito do Reino Maravilhoso, alma de descendente de Principado Macedense. Talvez a alimentação devesse resumir-se a batatas e centeio, castanhas e azeite, bísaro e mirandesa. Talvez a rega devesse limitar-se à proveniência do Azibo, do Tua ou do Sabor. Talvez, quiçá, provavelmente... Um dia, num anómalo dia equivalente à adição de múltiplas vinte e quatro horas, o céu tingiu-se de um negro mais negro que a atroz negritude de inimagináveis trevas. A escuridão foi vilmente consumindo os rasgos de ténue luz que irradiavam de um povo que brilha, um povo que manietado é, compulsivamente guiado à cegueira e à surdez, digerido num processo de autofagia em que da disfonia se passou à mudez. Uma melodia cantada em acordes de silêncio, lida numa partitura sem pentagramas e desprovida de claves, breves e colcheias, acompanhada de um orquestra de instrumentos afónicos. Mas com maestros... Inúmeros Calistos Elói, saídos de profundezas camilianas, anjos que queda não tiveram, antes elevação na ausência de escrúpulos, sublimação pelo engodo de corrupções muitas, desmedidas paixões pela renegação do Reino que Torga pintou. E a essência das "Cousas" sofreu um ligeiro desvio, apenas ligeiro, porque da terra se trata, esquecida, vilipendiada, calada, inundada, castrada... Num longínquo dia de permanências estudantis por terras banhadas pelo Tejo, terras de albergue a Calistos, uma qualquer Calista, professora a diziam, aculturada se fez por capitais ares, renegando a génese, de arrogantes humilhações se armou, dizendo ao Cavaleiro que Lisboa era Portugal e o resto era paisagem. Os transmontanos genes altercados ficaram, ripostando que o Norte é que era Portugal e o resto eram conquistas. A ousadia valeu-me uma injustiça mas adubou-me o orgulho. Anos passados, ousadias esquecidas, inverteu-se a posição de históricas batalhas. De conquistadores, resignámo-nos a meros conquistados, submersos em barragens de migalhas poucas, numa persistente tentativa de transformar Vila Real e Bragança em Sodoma e Gomorra. Mas os cananeus vêm de fora, paridos lá dentro... É-me indiferente quem me governa, mas já não me é indiferente esta permanente perversão em que me vejo na contingência de prostituir a minha essência porque uns "labregos" se associaram a uns "lapouços", Calistos de um lado, Elóis do outro, gente em quem depositei economias de esperança, mas me come as economias reais porque o monstro da cleptocracia tem um apetite voraz. Não me calo... Não me calo... Não me calo!!! É hora de passar o Rubicão... Não vou dar permissão a ser cobaia de uma "almastectomia"... "Alea jacta est"...

terça-feira, 5 de outubro de 2010

O calvário da rês pública

Instala-se a dúvida... Procuro, desenfreadamente, esquivar-me a esta quase indomável apetência para transfigurar os pensamentos, dando-lhes vida através de um monocórdico teclado. Contudo, o bombardeamento foi despoletado logo ao despertar, marcado a discursos de altas individualidades, com assistência de outras não tão altas, mas de semelhante dimensão, mantendo-se as incógnitas e baixas individualidades remetidas a uma reclusão para lá do perímetro de segurança... Como convém... Ao longo do dia, o troar persistiu através dos três canais informativos, numa panóplia de monotonia comemorativa... Decido remeter-me à leitura, enquanto o leitor de CDs debita uma qualquer selecção musical. Para temperar melhor a chuva que se abate sobre o arvoredo, dou vida àquela coisa que nos faculta uma ligação ao mundo exterior, auscultando através da virtualidade aquilo a que o tempo cinzento não convida. Para colmatar esta embriaguez de pouco mais que nada, vou partilhando saudades do Azibo, de Macedo, das gentes, do xisto. Partilhando, de igual forma, umas amostras daquilo que me vai adoçando os melómanos tímpanos. Sucedem-se as tentativas de me alhear deste estado de hipnose comemorativa a necessitar de uma catarse. Que me perdoem o Relvas, o Arriaga, o Buiça e os Carbonários, mas nada tenho para comemorar, num Centenário que rima com Calvário e onde, por não ser uma alta individualidade, me sinto tratado como uma Rês Pública da República. E não vou tratar esta cefaleia da alma com nenhuma decapitação... Mas o que tem isto a ver com Macedo ou com Trás-os-Montes, afinal, a génese da amálgama das "Cousas"? Nada ou quase nada... É, apenas, indesmentível que esse território encravado entre montes e rasgado a sul pelo Douro faz parte, oficialmente, desta República que hoje se comemora. Como inegável é que existe gente que carrega esse metamorfismo ígneo desenhado a xisto e granito. De um desses magníficos exemplares, ao que parece rês pública como eu, proveio um dos rastilhos para estar por aqui a efectuar esta transposição de ideias, quiçá polémicas, quiçá desconexas. «Um cidadão que não questione o regime não merece viver numa democracia»... O outro teve origem em semelhante proveniente... «Hoje, em Dia da República, devíamos DESPEDIR os politicos profissionais e colocar os profissionas na politica»... Silêncio, um inusitado e prolongado silêncio, lenta deglutição dos rastilhos, uma quase maratona de conexões neuronais, um agonizante torpor que quase possui o condão de desencravar este nó górdio... Apetece-me ripostar ao bombardeamento. Todavia, reprime-me a consciência alertando-me para o facto de eu não ser papel higiénico. É um facto que o não sou, mas não me livro de fazer parte dos comuns instigados a limpar a merda que os que discursam foram distribuindo(para os mais sensíveis, podem regredir uns vocábulos e trocar, figurativamente, o termo por "caca"). Tenho vivido na ilusão de morar num país onde impera, segundo as sábias palavras de Churchill, «a pior forma de governo, excepto todas as outras que têm sido tentadas de tempos em tempos». Uma tal a que os Gregos epitetaram de Democracia, aquela a quem o irreverente Shaw designou como algo que «é apenas a substituição de alguns corruptos por muitos incompetentes». Reflectindo bem na irreverência percebo, afinal, porque não me sinto motivado para comemorar o Centenário. Que República é esta que começou de tal forma anarquicamente, que só na I República, entre 1911 e 1926, teve oito mandatos presidenciais? E que atravessou uma famigerada II República em que vingou um tal de Estado Novo? Finado por um dia em que o cravo foi elevado a ícone, num nascimento da III República na qual o poder deveria provir do "demos", o povo, mas que esse mesmo povo foi entregando, paulatinamente, a "demos". Demónios que adulteraram o sistema democrático, metamorfoseando-o numa oligarquia que, nos dias de hoje, já chegou ao patamar da cleptocracia. Este malfadado sistema em que nos convidam para ir ao restaurante, constrangendo-nos à limitação ao prato do dia, enquanto assistimos, impavidamente, ao delapidar das parcas poupanças de rês pública, porque somos compulsivamente obrigados a pagar a factura da fausta refeição que o compincha se julga merecedor. Como digestivo, ainda temos que assistir com deleite às queixas do desgraçado... Esta não é a "minha" República, nem definitivamente é a "minha" Democracia. Talvez seja hora de substituir, mesmo, estes políticos profissionais por profissionais na política. Talvez seja hora de adornar a democracia com uns adereços de meritocracia. Talvez seja hora de colocar em prática um dos lemas que me acompanha: «Podem roubar-me a comida, mas jamais me roubarão a fome». Talvez seja hora de gritarmos bem alto o Artigo 1º da Constituição da República Portuguesa... Talvez seja hora...

domingo, 26 de setembro de 2010

A variabilidade das conveniências

Cada mortal confunde a sua existência, invariavelmente, com os locais que lhe vão rasgando as folhas do calendário. É um agradável paradoxo, como se víssemos o privado santuário profanado pelas experiências. Mas afinal são elas que lhe dão vida, se encarregam de lhe esfregar o soalho, encerando-o de seguida. Por vezes, mais que as desejáveis, as experiências transformam-se em estrofes de uma perna só, conduzindo o poema ao desamparo, desequilibrando-lhe as formas, adulterando-lhe a essência. Particularmente quando cedemos à tentação de as reviver, esquecendo-nos que os momentos são irrepetíveis. Nas minhas aleatórias deambulações por terras macedenses, vou revisitando locais que, em maior ou menor grau, serviram de adubo ao meu crescimento. Por vezes, dou por mim a fazer um desvio em direcção à Barragem da Carvalheira. Está bem, é verdade... Agora o paraíso mora para os lados de Santa Combinha, é inquestionável. Mas tempos houve, lá para os desejos de eterna infância, em que a Carvalheira era o oásis, tempero do estio, destino de eleição para um qualquer ajuntamento familiar, um velhinho Kadett por companhia, uma Dyane em alternativa. Ou, tempos outros, pêlos nas pernas, a "ginga", a inseparável "pedaleira" de Voltas a Portugal imaginárias, prémio de montanha na Corvaceira, meta-volante na Carvalheira, só para refrescar um pouco, antes da passagem por Pinhovelo, Vale Pradinhos, Sezulfe, Gradíssimo... E o fôlego recuperado pela ingestão excessiva de adrenalina, vertiginosa descida até ao Pontão de Lamas. Entretanto, sinais dos tempos, esbranquiçaram os pêlos, esvaiu-se em definitivo o fôlego, a "ginga" repousa os seus pedais num velho encosto de betão. E a Barragem da Carvalheira transformou-se, amputada da magia de espelho de água, pessoal e iconograficamente reduzida a um reflexo do país sem escrúpulos em que nos deixámos mergulhar. Somos, cada vez mais, um país dominado por necrófagos, sempre à espreita, vilmente aguardando que um qualquer afoito predador tome a iniciativa de perseguir a presa, afugentando-o de seguida, para sugar o tutano a ambos. Esta proliferação de espécimes cleptómanos não me surpreende. A estupefacção reside na forma resignada como presas e predadores, que a presas passam, se permitem ser sodomizados, sem um queixume sequer, efusivamente aplaudindo esta forma de prostituição compulsiva, onde o proxenetismo é exclusivo de bestas, primos de bestas, afilhados de bestas, e afins de bestas, que são tratados como bestiais sempre que se lembram que em Trás-os-Montes há alheiras e posta à mirandesa. Este bestiário, conhecido de todos, com uma atroz ligeireza escondido de todos, vai estendendo a sua teia, num eterno entrelaçar de viúva-negra, anestesiando as vítimas, enquanto as faz sorrir com uma seiva que tresanda a morte lenta. E as vítimas parecem apreciar... Será isto uma cabal demonstração de latente masoquismo? Talvez... Especialmente para a gente que se viu parida para lá do Marão, naquela saudável agrestia de Torga, num algures a Nordeste de Pires Cabral. Excepção feita ao residual, a gente do mar de pedras vai-se dividindo entre aqueles que aplaudem cegamente um transmontano homónimo do filósofo barbudo que assumiu a sua ignorância, e os outros que, de olhos vendados, aclamam o homónimo do santo das chaves, conotações cinegéticas por apelido, cuja diferença para o primeiro reside no facto de ter nascido em Trás-os-Montes. "Num é trampa, mas cagou-ó gato"... As vozes residuais, não menos importantes que a maioria, provêm de gente afectada, alternadamente, por miopia, estrabismo ou hipermetropia. Navegam nas incongruências do protesto enquanto não são aliciados para um qualquer cargo na junta de freguesia mais próxima. Umas vezes vê-se melhor à distância, outras na proximidade, e outras ainda há em que a focagem vai derivando ao sabor dos favores. Entretanto, uns e outros, mais os outros que os uns, vão-se digladiando por metafóricas casapianas formas de violação sem recurso a parafina líquida. Estranha forma de vida, estranhos conluios estes que geram corrupios de gente que abocanha qualquer migalha, desde que generosamente com proveniência nas esferas onde impera a podridão, a corrupção, o clientelismo e a impunidade. E onde a responsabilidade, apenas porque a culpa é uma forma vocabular ausente do meu dicionário, morre sempre solteira. Por isso a Barragem da Carvalheira serviu de mote a mais estas "Cousas"... Desconheço se corresponde integralmente à verdade a notícia que li. No entanto, tipifica esta doentia forma de estar que nos vai levando ao abismo. Esta pequena albufeira, construída nos finais dos anos 60, inícios dos 70, do século passado, ao abrigo de dinheiros públicos e, julgo, da vontade de Camilo Mendonça, serviu durante muitos anos para abastecimento da rede pública de água. O nascimento da albufeira do Azibo veio, obviamente, retirar-lhe protagonismo, metamorfoseando-a numa trivial passagem de bestial a besta. Nada de anormal... Afinal, neste bacanal à beira-mar plantado, o amigo conveniente de ontem rapidamente se transfigura no inconveniente do amanhã. Todavia, o seu a seu dono, a César o que é de César, caso haja, obviamente, César. E, neste caso, parece não haver César. Oficialmente, a Barragem da Carvalheira parece ser propriedade da Cooperativa Agrícola. Oficiosamente, a detentora dos seus direitos parece ser a Câmara Municipal. Oficial e oficiosamente, o INAG, um tal de instituto que pretensamente serve de autoridade nacional da água, deveria ser o gestor da dita barragem. Porém, oficialmente não há registo oficioso, ou o inverso, sobre a propriedade e direitos sobre um ser que interessa ver moribundo. Entretanto, neste jogo do empurra, oficioso mas não oficial, os empreiteiros que andam a rasgar as entranhas da terra para umas sempre bem vindas vias de comunicação, parecem ter aproveitado, oficiosamente, as reservas de água que, oficialmente, ninguém sabe a quem pertencem. Temperando a eufemismo uma aparente vernácula forma linguística que me adoça os tímpanos nas minhas incursões à terra do olvido, "num sei que bus diga, ma no tempo dus mous abós era d'aixada e seitoura, já tinh'hábido uas cabeças abertas ó berde e uas tripas de fora c'ua peliqueira, ma racontracosa ó carbalho se num é berdadinha! O carbalho ou... A Carbalheira!"