Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



domingo, 26 de setembro de 2010

A variabilidade das conveniências

Cada mortal confunde a sua existência, invariavelmente, com os locais que lhe vão rasgando as folhas do calendário. É um agradável paradoxo, como se víssemos o privado santuário profanado pelas experiências. Mas afinal são elas que lhe dão vida, se encarregam de lhe esfregar o soalho, encerando-o de seguida. Por vezes, mais que as desejáveis, as experiências transformam-se em estrofes de uma perna só, conduzindo o poema ao desamparo, desequilibrando-lhe as formas, adulterando-lhe a essência. Particularmente quando cedemos à tentação de as reviver, esquecendo-nos que os momentos são irrepetíveis. Nas minhas aleatórias deambulações por terras macedenses, vou revisitando locais que, em maior ou menor grau, serviram de adubo ao meu crescimento. Por vezes, dou por mim a fazer um desvio em direcção à Barragem da Carvalheira. Está bem, é verdade... Agora o paraíso mora para os lados de Santa Combinha, é inquestionável. Mas tempos houve, lá para os desejos de eterna infância, em que a Carvalheira era o oásis, tempero do estio, destino de eleição para um qualquer ajuntamento familiar, um velhinho Kadett por companhia, uma Dyane em alternativa. Ou, tempos outros, pêlos nas pernas, a "ginga", a inseparável "pedaleira" de Voltas a Portugal imaginárias, prémio de montanha na Corvaceira, meta-volante na Carvalheira, só para refrescar um pouco, antes da passagem por Pinhovelo, Vale Pradinhos, Sezulfe, Gradíssimo... E o fôlego recuperado pela ingestão excessiva de adrenalina, vertiginosa descida até ao Pontão de Lamas. Entretanto, sinais dos tempos, esbranquiçaram os pêlos, esvaiu-se em definitivo o fôlego, a "ginga" repousa os seus pedais num velho encosto de betão. E a Barragem da Carvalheira transformou-se, amputada da magia de espelho de água, pessoal e iconograficamente reduzida a um reflexo do país sem escrúpulos em que nos deixámos mergulhar. Somos, cada vez mais, um país dominado por necrófagos, sempre à espreita, vilmente aguardando que um qualquer afoito predador tome a iniciativa de perseguir a presa, afugentando-o de seguida, para sugar o tutano a ambos. Esta proliferação de espécimes cleptómanos não me surpreende. A estupefacção reside na forma resignada como presas e predadores, que a presas passam, se permitem ser sodomizados, sem um queixume sequer, efusivamente aplaudindo esta forma de prostituição compulsiva, onde o proxenetismo é exclusivo de bestas, primos de bestas, afilhados de bestas, e afins de bestas, que são tratados como bestiais sempre que se lembram que em Trás-os-Montes há alheiras e posta à mirandesa. Este bestiário, conhecido de todos, com uma atroz ligeireza escondido de todos, vai estendendo a sua teia, num eterno entrelaçar de viúva-negra, anestesiando as vítimas, enquanto as faz sorrir com uma seiva que tresanda a morte lenta. E as vítimas parecem apreciar... Será isto uma cabal demonstração de latente masoquismo? Talvez... Especialmente para a gente que se viu parida para lá do Marão, naquela saudável agrestia de Torga, num algures a Nordeste de Pires Cabral. Excepção feita ao residual, a gente do mar de pedras vai-se dividindo entre aqueles que aplaudem cegamente um transmontano homónimo do filósofo barbudo que assumiu a sua ignorância, e os outros que, de olhos vendados, aclamam o homónimo do santo das chaves, conotações cinegéticas por apelido, cuja diferença para o primeiro reside no facto de ter nascido em Trás-os-Montes. "Num é trampa, mas cagou-ó gato"... As vozes residuais, não menos importantes que a maioria, provêm de gente afectada, alternadamente, por miopia, estrabismo ou hipermetropia. Navegam nas incongruências do protesto enquanto não são aliciados para um qualquer cargo na junta de freguesia mais próxima. Umas vezes vê-se melhor à distância, outras na proximidade, e outras ainda há em que a focagem vai derivando ao sabor dos favores. Entretanto, uns e outros, mais os outros que os uns, vão-se digladiando por metafóricas casapianas formas de violação sem recurso a parafina líquida. Estranha forma de vida, estranhos conluios estes que geram corrupios de gente que abocanha qualquer migalha, desde que generosamente com proveniência nas esferas onde impera a podridão, a corrupção, o clientelismo e a impunidade. E onde a responsabilidade, apenas porque a culpa é uma forma vocabular ausente do meu dicionário, morre sempre solteira. Por isso a Barragem da Carvalheira serviu de mote a mais estas "Cousas"... Desconheço se corresponde integralmente à verdade a notícia que li. No entanto, tipifica esta doentia forma de estar que nos vai levando ao abismo. Esta pequena albufeira, construída nos finais dos anos 60, inícios dos 70, do século passado, ao abrigo de dinheiros públicos e, julgo, da vontade de Camilo Mendonça, serviu durante muitos anos para abastecimento da rede pública de água. O nascimento da albufeira do Azibo veio, obviamente, retirar-lhe protagonismo, metamorfoseando-a numa trivial passagem de bestial a besta. Nada de anormal... Afinal, neste bacanal à beira-mar plantado, o amigo conveniente de ontem rapidamente se transfigura no inconveniente do amanhã. Todavia, o seu a seu dono, a César o que é de César, caso haja, obviamente, César. E, neste caso, parece não haver César. Oficialmente, a Barragem da Carvalheira parece ser propriedade da Cooperativa Agrícola. Oficiosamente, a detentora dos seus direitos parece ser a Câmara Municipal. Oficial e oficiosamente, o INAG, um tal de instituto que pretensamente serve de autoridade nacional da água, deveria ser o gestor da dita barragem. Porém, oficialmente não há registo oficioso, ou o inverso, sobre a propriedade e direitos sobre um ser que interessa ver moribundo. Entretanto, neste jogo do empurra, oficioso mas não oficial, os empreiteiros que andam a rasgar as entranhas da terra para umas sempre bem vindas vias de comunicação, parecem ter aproveitado, oficiosamente, as reservas de água que, oficialmente, ninguém sabe a quem pertencem. Temperando a eufemismo uma aparente vernácula forma linguística que me adoça os tímpanos nas minhas incursões à terra do olvido, "num sei que bus diga, ma no tempo dus mous abós era d'aixada e seitoura, já tinh'hábido uas cabeças abertas ó berde e uas tripas de fora c'ua peliqueira, ma racontracosa ó carbalho se num é berdadinha! O carbalho ou... A Carbalheira!"

domingo, 19 de setembro de 2010

Insónias por ingestão excessiva de uns fornos


A submersão nas cristalinas ondas pétreas, rápidas ascensões ao tecto de um particular mundo, sentido nas entranhas, vulgarizado por uma paixão sempre tida. O expoente dos sentidos, a cada mergulho em poeirentas estradas, a cada vertiginosa descida pelos rápidos de uma corrente de nadas desenhados a quase vazias florestas de almas penadas... E uma ponta de orgulho a cada curva, incrementos numa estranha adoração que revê um tesouro em cada "bulharaco" ou em cada minúscula pedra, como se nunca os tivesse visto, ou lhes tivesse sentido a textura. Talvez se trate de uma precoce insanidade, causas muitas, causas tantas, de imensas que são. Seja, ou não, quem sabe, a fidedigna verdade mora no prazer que, a cada recanto, desperta os sentidos, numa profunda, mas fugaz absorção de elementos que fluem ao sabor de cada chilrear de pássaros que, inúmeras vezes, de tão familiares não sei identificar. Incongruências de uma mente que se expõe à ondulação de um seco mar, opiáceo que estimula navegações nunca tidas, inóspita ilha de xisto que nunca serviu de chamamento a Gama ou Cabral. Outros navegadores virão... À descoberta de ruínas, edifícios que existência nunca tiveram, detractores o dirão, maldizentes remunerados a betão e asfalto, vassouras de um alienado passado. Ou encapotadas formas de despovoar o que desertificado está. Sei lá, ou saberei o que já não sei, disso sabendo... Ou me calarei, apenas morrendo... Mas fica a agregação, de alfabéticos signos, contágios a quem lhes pretenda sugar mais que a pretensa decifração literal. Que dizia eu, que me perdi? Ah, memória minha que me trais! Estou por Salselas, ali mesmo ao lado onde a toponímia regista megalíticas contruções, antas as dizem, em cabeços de registos muitos. "Num fui ou q'iu dixo, foi o Snhô Padre, dissesti-jiu bós, q'Abade o pintastis lá prós lados de Baçal. Foi um home mim bô, q'bus-jiu digo ou"... Resta a volatilidade de neolíticas formas, ou invenções da trivialidade das lendas. E resta, também, exemplar único por terras estas, coisas de romanos que por aqui passaram e queremos ver esquecidos. Que isto de Conímbrigas e Bracaras Augustas é "lá pra baitcho, c'os gaijos que lubabum uas lostras do Aztericse e do lapouço que se pintchou no caldeiro num se debim ter astrebido pur aqui a mamar uas tchapadas nas bentas"... A insofismável verdade é que as terão levado, retribuindo a triplicar, que os Zoelas bem "s'amoutcharum", assim rezam a história e os cacos. Como rezam outras coisas mais, lá para Pinhovelo e Cortiços, Lamalonga e Argana, também. Fala a sigillata, brada a tegula, cantam as pedras da calçada, a XVII pintada, choram epigráficos fantasmas. E chorarão almas outras quando a voragem do tempo e a negligência dos homens não deixarem mais que laivos de nostalgia. Extensível a amontoados outros, contemporâneos estes, guardadores de memórias de um tempo em que a economia rural de Salselas e Vale da Porca era pintada a cal e resguardada a telha. Subsistem as herbáceas, quais guardiões de anunciados trilhos, placas esquecidas à espera da vilanagem, ou pacientemente aguardando a digestão pelo implacável. Haverá prioridades outras, ou diversos serão os caminhos. Mas dói, se dói, numa prolongada algia que imobiliza, como se as enzimas da saliva, ao invés de alívio, se tranfigurassem num veneno que vai corroendo esta transmontana alma. E era tão fácil albergar o muito que a essência da ancestralidade nos legou. Com tão pouco...

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Encantos de Setembro (III) - Tertúlias na Interioridade Literária

Talvez se tratasse de uma alucinação... Uma daquelas aparições fantasmagóricas saídas de profundos e enraizados desejos, recônditos da alma onde persiste em morar a crença de que, na minha eterna "vila", reside algo mais que a útil banalidade, sempre útil banalidade, reforce-se, de manifestações banais ("pleonasme-se" um pouco, precioso auxiliar de composição, banalize-se a banalidade... banal)... Talvez se tratasse, ainda, e em alternativa, de um estarrecimento ocular por precoces deturpações dos periscópios da alma. Conduzi as extremidades de superiores membros ao par de componentes que filtram as cores do mundo, numa desesperada tentativa de me vincular à realidade. Esfreguei denodadamente, revolvendo pálpebras e pestanas, breve escuridão de irresponsabilidade, efémero acto de presentear os globos com alguma conjuntivite... Porém, de volta ao planeta, alucinação não era, e de metafísicas formas, nem sinal. Era real, intensamente real, pasme-se! Ali estava, bem à frente das "bistinhas c'a terra há-de cumer", um quadro de intrepidez, arrojo de um duo de almas a querer lançar sementes de abcedário na pretensão de inóspito solo. Talvez essas fossem as dores, algias de braços trémulos pela lavra, desconfortos de suor brotado de uma fonte de incerto porvir. Talvez os prazeres fossem outros, a adrenalina da incógnita, a inviolabilidade do querer. Na dúvida, ficou a agenda rasgada a traços de "TERTÚLIA" em folha de dia de aniversário da progenitora. Mais não fosse, a incomum tentativa não morreria sem assistência, sedentos genes loucos em busca de um oásis distinto de oásis outros que povoando vão terras onde cheira a prenúncio de morte. Mas isso são contas de ocultos rosários, sub-reptícias formas de ermar o que ermado nunca foi... No dia, lá estaria, orgulhoso de ver a minha terra num literário gemido. Grito de Ipiranga, diria, num assomo de inusitada coragem, desvairadas melancolias livrescas, dirão os mais atentos a qualquer sinopse de brejeiro sentir. "Anyway"... Viradas as folhas do calendário, assentados arraiais no macedense primo do de Belém, encantamentos pela pureza do desbravar de trechos, inquietantes formas de encarar o público por uma magnífica decifradora de vocábulos da alma, sorriso aberto, escudo incapaz de disfarçar o excesso de nervosismo, deliciosos enganos geradores de arrepios, uma voz que ecoou pelo âmago de macedense sentir, inesquecível gravação neste xisto interior de uma privacidade que só eu sinto e não partilho. Desfilem as ideias, prestem-se auditivos sensores ao entorpecimento da palavra, mágicos torpores, diria, num acervo de vozes e retratos de distinto sentir. Cale-se a poesia que a prosa vai falar. Silencie-se esta, honra à crónica seja dada. Escute-se, agora, a chama de indecifráveis, vezes muitas, poéticas chamas. Clamem as letras históricas pelo seu heróico lugar, deixem-se fundir, também, na ficção de romanceadas histórias, ou verta a sabedoria de acumulada vivência por macedenses ruas. Inebriem-se os sentidos, somente, portas escancaradas ao pingue-pongue entre a veterana escrita e o imberbe escrever. Permissão seja dada ao deambular por entre prismas de tons de unicidade, verdades muitas, verdades outras, cúmplices seres que aram a pena, miscelânea de ingredientes de uma estranha confecção, pastelaria dos sentidos, bolo da alma. Aconteceu, irremediavelmente aconteceu, algures onde o setentrião se cruza com o sol nascente, parando, escutando e olhando, talvez tenha finado o enterro, ou tenha belzebu deixado de lhe querer assistir. Ou tenha o futuro renascido das cinzas, milagre das têmporas de algum padroeiro ibérico, Martim de Macedo, quiçá, segredos desvendados, de queimados fontanários ou do primeiro da de Borgonha. Desviou-se o tiro, a bruma o cegou, a noite dos tempos lhe serviu de aconchego. Ausentou-se o fresco sabor da marmelada fresca, descansos de época, da cafeína, também. No final, sei e sinto que persistem chávenas de negro líquido, em "solo" pedido do lado de lá da fronteira, "cargado" de preferência, transmontana paixão de irreprimível sentir. Como alguém que serve de cavalgadura ao "Cavaleiro" terá dito, num sentido mas breve adeus, ressuscitando palavras de meio século, voltarei eu também. Singela e grata homenagem desenhada a V de vitória & a P de persistência...

sábado, 4 de setembro de 2010

Encantos de Setembro (II) - Refulgências de pele lamacense


A Festa... Era no Domingo. Pretérito futuro, perfeito ou imperfeito, num envolvimento mais que perfeito. Eram as cores, garridas, até, trajes de gala que engalanavam o âmago de um qualquer orgulho que parecia irremediavelmente perdido, no quotidiano de "gadanhas", "seitouras" e "aixadas". Sujas roupas, desajeitadas vestes amparadas pelas Sortes, o Moral, Cristelos, Cedelais ou uma Canelha qualquer. Nesse dia ocultava-se a gente "imbuligada" da terra, excepção aos garotos, irrequietos "cmó catancho", desenfreadas correrias pelo aglomerado de gente com roupa "striada de nóbo". E não se ouvia o melancólico ranger dos veículos de tracções outras, alaranjadas formas calcorreantes de caminhos ornados a pó, onde me empoleirava, vezes sem fim, "stadulhos" por segurança, infância doirada por companhia. Nesse Domingo, o despertar era decorado a sonoridades distintas, troavam os sons da alvorada a ritmo de canhão, acordava atordoado com a sequência de "pum-pum-catrapum", tímpanos em algazarra, que os céus pintavam-se a trajectórias de um inconfundível "fiiiiiuuuuu", rastilhos acesos, elevações fumegantes, ficava no ar o rasto de efémeras nuvens artificiais. Era uma cadência de estouros, contra-estouros e re-contra-estouros que me atazanava o espírito, numa melodia que se assemelhava a um concerto de martelos que me vergastavam os receptores auditivos. Até a compensação chegar em forma de sonhos de arcaicos heróis de recolha de "barelas". Ou até descortinar os primeiros acordes da banda 25 de Março, alinhadinha, com o "mestre" na vanguarda, secundado pela rapaziada que fazia da carolice aprendizagem musical. Desafinavam, por vezes, mas ficava siderado com aquele "pó-ró-ró-ró", orgulhosamente extasiado por ver o "Ti Demingos" a debitar umas notas musicais. Era o melhor músico do mundo e arredores, projecto de ídolo de infância do sobrinho. «É u mou tio q'ali bai na banda!»... E já me tinha dado "deis e quinhentos prós doces»... Imaginava-me, crescido, a manusear dourados botões de trompete ou saxofone, percussão talvez, pratos poderia ser, apenas sonhava fazer parte daquele grupo dos "grandes", fardado e de chapéu de polícia na cabeça. Não hesitava em segui-los, marchando ao seu compasso, empunhando, numa mão, a melhor "barela" que havia encontrado no lameiro, na outra munido da artesanal bandeira de papel, encarnada de preferência, que carinhosamente o "Ti Demingos" me tinha deixado surripiar da varanda. Seguia-os, religiosamente, num estranho culto, simbióticas formas onde me via como um imaginário soldado, guardião do rebanho musical. Talvez a minha bandeira de papel fosse o estandarte do exército e a "barela" fosse a espada ou a espingarda dotada de baioneta. Não me recordo de recontros com o inimigo, probabilidades de não existência, ou incompatibilidades da memória. Quem sabe, o inimigo daria tréguas naquele dia especial, aquartelando-se à distância, receios de ser trespassado e esquartejado por aquele indomável general de truta e meia. Apareceria o "Squina", perdão, hábitos não perdidos de tardios baptismos, professor que meu foi. Que por religioso ser, excepções não havia para juvenis epítetos de classe docente. Dizia, apareceria o Quina, perdão de novo, Padre Quina, se faz favor, homem que a sua existência confunde com o pulsar de Lamas. Queira-se ou "desqueira-se", inebriadas vozes de pecados muitos... Com essa inesquecível figura de batina, chegava a solenidade, aproximava-se a "santa hipocrisia" também, que as viperinas linguas amansadas ficavam, que quem ali estava agora era o "S'nhô Pá'dre". E mandava, se mandava! Punha tudo em reboliço. Chapéus desenterrados da cabeça, para "eis", negros lenços desviados, capilares plumagens femininas à vista. E excomunhão para desafios à tradição e ao respeito, ostracizem-se adoradoras de Mary Quant ou expositoras de antepassados de Wonderbra. O "Ti Fanano" punha os sinos em desassossego, "imbarrando-se, dás bezes" na torre da igreja, num desafio ao precipício, inigualável sorriso de oponente do perigo. Silêncio agora, se faz favor, era hora da missa. Missa cantada, mal cantada, encantadoramente mal cantada. Que delicioso era subir a escadaria ao fundo da igreja, ascender ao alpendre, abafar as constantes risadas quando uma voz se descontextualizava do canto, porque havia sempre um mais atrevido que deixava escapar um «Ulha! Aquela aparece-se c'ua pita zeganiçada!». O privado espectáculo da "ganapada" não evoluía para o descalabro porque havia sempre uma respeitável voz que, em surdina, lançava o aviso: «Se num fitchais a matraca, infiu-bos puri ua lostra!». Por entre vernáculas expressões que, por decoro, e por respeito à solenidade, não devem ultrapassar a barreira do irreproduzível. Devotamente, seguia-se a procissão, não sem antes rebentarem mais uns petardos aéreos, anunciantes da saída do pálio, dos andores e do povo que os seguia, cumprimentos de promessas, caras lavradas pela amargura, artificialismo em casos muitos, mostras de social solidariedade, ou dever cumprido, simplesmente. Ia disfarçado de "Cruzado", alva faixa conquistada a custo junto das catequistas, afinal só era "mêo" de Lamas, por causa da costela "imberna". Confesso que preferia não estar dependente do andamento, mas caso assim não fosse outras seriam as memórias. Regredindo no tempo, reconheço que havia um tormento que superava aquele sacrifício da independência e a exposição do escalpe ao tórrido sol de Agosto. Terminada a "pecissão", a minha vontade de desentorpecimento de mente infantil era castrada por uma nova procissão, a do desfilar de gente à qual tinha, quase compulsivamente, de agradar com um sorriso, cedendo ao "bota cá ua mãozada", enquanto olhava esse qualquer desconhecido familiar afastado como executor da minha pena de reclusão às imediações do adro. Cumprida a sentença, prémio de horas muitas, recebia a honra, impagável honra, de ser portador do chapéu do "Ti Demingos". E que "contcho ficaba, tchêinho de proa". Breves mas memoráveis instantes até ouvir a voz da imponente figura da "bó", bradando aos céus, que o "jantar" já estava na mesa. Hora de saciar apetites, laranjada ou gasosa por companhia, que bebidas do Tio Sam ainda eram uma miragem. A azáfama de assados e afins continuava, sequências de éden do paladar, apressadas deglutições para zarpar em direcção à irreprimível tendência consumista de catraio. Com início nos encantos da sorte do bazar, fugazes rasgos de tentativas de recolha de um papelinho premiado. Quando, finalmente era bafejado pelo carimbo da Comissão de Festas, advinha a frustração. Ganhava um "tareco" que, sabe-se lá porque mágicas artes, haveria de aparecer na quermesse do ano seguinte... Inspirado pelo desalento, refugiava-me nos refrigerantes da taberna do "Ti Zé Pinto" ou nos "matraquilhos" da homónima do "Ti Luís". E pedia "ua tchicla d'ua croa" para relaxar a musculatura facial, antes do massacre a pedras esferificadas e gastas pelo tempo, imóveis e desfigurados seres pétreos trajados a jogadores de futebol como carrascos. Por vezes, um dedo exterior ao elenco levava uma "biqueirada" da distracção, trocava-se o parceiro por outro qualquer ansioso em lista de espera. E sujava-se a mão, a vestimenta até, com o óleo que impregnava o suporte dos mudos jogadores equipados à Benfica, Porto ou Sporting. Era tarefa ingrata, depois, justificar os negros resquícios que precisavam de dose extra de "RenaMatic". Se o dito, ou uma boa esfrega com sabão azul não devolvessem a original cor do tecido, era provável que a epiderme facial apresentasse resquícios, de igual forma. Esses rejeitavam qualquer aplicação de tensioactivos... Folgava, com sorte, a carne. Como folga era dada à autofagia que, chegada à hora da "cêa", ia afligindo as entranhas. Nada que um "cibo de tchithca com tantinho arroz" não resolvesse. Culinárias artes da ancestralidade prévias à exteriorização do nocturno espírito festivo. Arrumava-se a banda no velhinho coreto, soava o arranque das primeiras "modas", perfilavam-se arautos conquistadores de donzelas, timidamente apregoando dotes dançarinos. Terminada a dança, voltava tudo ao lugar, nada de exageros, progenitores-sentinela à espreita por entre um copo mais. A inovação dos "cunjuntos" chegaria mais tarde, mas chegou. Dias em que o "Pontão" passava a registar um inusual movimento automóvel, caóticas formas de alterar a fisionomia do "povo", itinerantes mostras de alienígenas matrículas. Um dia veio o cheiro a morte, sinais dos tempos, hipnotizou-se a vergonha e invadiu-se o pretenso privado couto da concelhia sede. Revés de uma inadiável aculturação, paralelos interesses, quiçá, finou a tradicional entrega da bandeira aos novos mordomos. Recusas, incapacidades, desinteresses, estranhas causas muitas, de inentendíveis que são. De resistentes saíu nova prole de mordomos, louváveis guerreiros de moribunda tradição. Cuidados paliativos, tão só... Visíveis na lenta agonia de uma Festa que é prima afastada da Festa que conheci. Mas resiste. Tal como resiste a minha sede de revivescência de quase imemoriais tempos, tão longe que parecem ir, tão perto estão aconchegados. A alfinetada neste ser não provém da perda de aura da Festa, a propriamente dita, com foguetes, bandeirinhas e arraial. Essa apenas é importante porque é a Festa da "minha" Lamas, da "minha" aldeia, das raízes. A outras não me recordo de ter ido, exceptuando a da vizinha Podence, por familiares atributos. Os pontiagudos artefactos que me assolam residem no alheamento a que a Festa está hoje votada. E, por nefasta inerência, na representatividade que esse efeito de modernos tempos tem no evoluir da contaminação através do desprezo. Não é só a Festa que está moribunda ou, em instância última, para demasiado grave não ser a acusação, com efusividade reduzida. É a própria essência de uma forma de estar, contágios do chamariz que já provocou desertificação, despovoamento agora é, eufemismos de quem vai promovendo a gestação do abandono. O parto, quando chegar, há-de ser doloroso. Entretanto, vamos tocando pífaro, ou assobiando para o ar, aguardando que a Senhora do Campo faça algum milagre. Serão gémeos? Sócrates e Aristóteles? Coelho e Lebre? Portas e Janelas? Louça e Plástico? Jerónimo e Touro Sentado? Quem sabe, mas já não acredito em milagres, muito menos provenientes de São Bento... Entretanto, deu-me um desvario do ser... Talvez tenha sido de não ter bebido laranjada e gasosa na Festa. Nebulosidade dos tempos... Cousas voláteis, etílicas, dirão as más línguas... "Q'sa contra-racosa quim u dixo, q'ou num imprenho pur os oubidos, nim pur lado nium! Hai bezes que sou mouquinho de todo"...

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Encantos de Setembro (I)

O encantamento não tem a sua génese na representação de mês de aniversário (esse, já lá vai). Nem resulta da atracção que, artes mágicas o dirão, o número 9 exerce no cavaleiro, cardinal que agora se lhe atribui, ou pelo primo 7, pai que foi da nomenclatura original. A cada ano, o mês que sétimo já foi, alumia o início de um novo trajecto. Estranhas formas de cavalgar a translação... Dizem que o Natal é quando um homem quer... Extrapolei a coisa para a Passagem de Ano e desato, mentalmente, a deglutir as passas e o champanhe dois pares de meses antes da efeméride das doze badaladas do trivial fim do ano. E parto para a decrescente contagem que me conduzirá a nova euforia, lá para finais de Julho, perante a aproximação dos dias que, tradição o diz, me fazem aspirar um pouco de atmosfera quente, tórrida até, de uma terra sem a qual o mês da inveja de Augustus estaria desprovido de um colorido único. Anormalmente, Agosto é o último mês do meu ano. Ao não ser Augustus, ou Julius, resumo-me à insignificância de Cabalarius, jeito não vendo de corromper os equinócios e os solstícios. Mas, a bem da honestidade, não queria ver o pseudónimo perpetuado por uma qualquer nomenclatura de um dos doze. O homónimo já se encarregou, e bem, de o fazer pela via dos acordes, mais o seu cavalo de pau... Mas já estou a divagar, e as divagações gosto de as deixar entregues à irrequietude dos pensamentos... Regressando a Setembro... Mês em que me encarrego de digerir a apimentada delícia de um breve período estival que, por alturas de Agosto, é condimentado, quase invariavelmente, a resquícios de xisto, montes, tradições, família, e regado a... "muntas cousas", por vezes, abusivamente, "cousas muntas". A culpa é "du calôre"! E da irresistível hospitalidade traçada a família e amigos, onde, em cada mesa cabe sempre um "bota lá mais ua pinga", ou é "copetcho q'stá sempre mêo bazio"! Se na mesa espaço não houver, é só mais uma, por vezes vertiginosa, descida até à adega mais próxima. Só a acalmia de Setembro consegue superintender alguns neurónios que ainda permanecem alvoroçados, desregrados que foram pelas partidas do tempo, ausências de horários, despreocupações de colesterol, triglicéridos, ureia e demais aparentes compósitos de parafernália bioquímica. Mas Macedo faz-me incomensuravelmente bem! Ainda que no regresso tenha sido parasitado com um trio de quilos a mais. Alternativa e enganadoramente, talvez a balança tenha sentido a ausência de rotina, desregulando-se propositadamente, em jeito de vingança. Lirismos... De regresso à Terra (o planeta)... Uma estadia na Terra (a mãe) conduz-me à utopia da simplicidade, elevando singelas "cousas" a patamares da excelência. A esquiva Podarcis, olhando-me de soslaio, arquitectando repentinas fugas, não sem antes fazer pose para a eternidade. Ou o par de jovens Delichon, dos beirais as dizem, assustadoramente à beira do precipício. No dia seguinte já por lá não moravam, apenas quiseram legar o registo da sua acrobacia sobre o arame. Mas morava os silêncio das pedras, guardadoras de historias muitas, esquecido pedaço de tégula, jazendo aconchegada por rolados calhaus. Talvez, bem auscultada essa réstia de romana herança, ainda possamos ouvir algum lamento Zoela, ou prece a Aernus. Ofertando-lhe uma flor, quem sabe... Uma das que compõem o jardim regado a suor e carinho, como só ancestrais mãos sabem fazer desabrochar. Cores muitas e formatos tantos, garridas formas de sarapintar a terra castanha, ressequida por abrasador calor. O forno diminui a temperatura quando o satélite surge na sua lunar forma, mas mantém quentes os corpos assados pela canícula. É hora de abreviar o tormento aos sedentos e coloridos seres que rodeiam a albergaria macedense. Aproveita-se a artificial precipitação para refrescar o desnudado tronco, mais habituado à nocturna aragem marítima. "Num corr'um arzinho!", queixa-se a progenitora. "Bá, q'inda bem puri ua trubuada d'Agosto, q'inda há um cibo bi alustrar prós lados da serra", riposto, em carinhosa ironia de quem vê a celeste abóbada pintalgada a constelações. "E frias-te no crutcho! Bem m'ou finto que tchoba!"... E não choveu... Mas choveram sonoridades de Bizet, abafada noite das Eiras, numa simbiose orquestral onde conviveu uma harpa com o brio de uma Senhora que manuseava castanholas como nunca havia visto... Não era a Carmen...