Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



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domingo, 26 de agosto de 2012

Alustrar em 24 Horas Non-Stop, ou a paixão pela fotografia

As paixões são como um alustro, surgem de um inexplicável nada, atormentam-nos o racional e, osmoses dos dias, transferem-se para o âmago até que o desmesurado palpitar se esvaia através de uma qualquer substituição. Aos amantes da fotografia sucede algo semelhante. São tomados de assalto pela insanidade de captar a mais simplória singularidade, transformando-a em mais uma obra de arte, sua, apenas sua, partilhada, por vezes, mas nem sempre detentora de predicados que a elevem ao Olimpo dos registos de luz. Mas, crédito ao pleonasmo, são suas, apenas suas... E a paixão, tormento das almas, contrariamente a outras paixões, avoluma-se, instala-se em contraponto ao efémero, cristaliza-se em forma de perenidade. Os anos avançam e não esmorece o fogo. Por vezes, raras vezes, os solitários amantes, ocultados por detrás de uma objectiva, lógica contrariada, desvendam a intimidade de anómalas fusões, partilhas de momentos de êxtase, fulgores de uma pecaminosa luxúria de encantamentos por uma artefacto, artilhado com "pixels" e adornado, inúmeras vezes, a próteses de culto. Vezes outras, evoluções dos tempos, serve um qualquer telemóvel, ou fermenta-se o momento a rudimentar descartável, adquirido no quiosque da esquina. O resultado final, não raras vezes, ludibria o que os olhos viram... Mas isso são coisas para a Física, variações da Óptica, e não meto a foice em alheias searas... Um dia, quais FA (Fotógrafos Anónimos), na quietude de uma tarde de estio, revela-se a paixão quase remetida ao secretismo, exaltam-se valores de objectivas e momentos, elevam-se os sonhos numa catarse que impulsiona entusiasmos atraiçoados pela rotina. Congregam-se esforços, contam-se os soldados e, enquanto esfrega o demo as pálpebras, já se está a alinhavar o evento. Vontades reunidas, avance o batalhão, armas em riste ou, bem vistas as coisas, tire-se-lhe bélico sentido, de máquina em punho. Dança e contradança, rodopios de fulgor, sigam desencontrados passos em busca da alma perdida de uma cidade do interior. Prolonga-se a noite, cruzamentos vários, acumulações de bocejos, pesam as pernas num solitário bailado acolitado, de longe, convenientemente bastante longe, pela incontornável figura de Morfeu. Mantém-se a distância com cafeínicas deambulações, regista-se mais um momento, troca-se uma impressão mais com noctívagos seres, a sobriedade em contraponto à embriaguez, por vezes, anima-se o espírito com a jovialidade de gente trajada a noite em eclipses de cerebrais amígdalas. De repente, valorosa gente outra, a do anonimato, vassoura a postos, reflectores em oposição a goradas tentativas, artérias amansadas por rítmico coçar de asfalto, detritos em acumulação, pás e carrinhos de mão a postos. Ao longe, o silêncio do amanhecer, entrecortado, aqui e ali, por afoitos manobradores de volantes ou por discussões de seres alados em desentendimento no resguardo arbóreo. Vai reinando, de paulatina forma, a inércia, circulam os resistentes em contramão nesta autoestrada nocturna, enquanto a esmagadora maioria da cidade dorme. O peso da madrugada vai-se sentindo nos ossos, reclamam os músculos por descanso, dizem que o cansaço não vem aos que por gosto correm. Mas vem, se vem! Apela-se à presença dos substitutos, em estranhas poses de exposição que, dia fosse, talvez coragem não houvesse. Há-de surgir a salvação, hora de almoço pequeno e de breve refrega com a almofada. Um retrato mais, pormenor esquecido por consecutivas horas de intromissão na noite, abale-se para o lar que tarde se faz. Outros companheiros de luta virão, diurnas captações, não muda a orquestra, só os intérpretes. Decorrem as horas, intrépidos seres, "click" aqui, "click" acolá, Macedo para a vida, ou a vida em Macedo. Não será tão deserta quanto pintada é, nem tão viva quanto desenhada, vezes outras, será. É apenas um pedaço de Nordeste, enfermando dos mesmos males de outros Nordestinos pedaços, captado com alma e fervor por um grupo de apaixonados que o quis eternizar. Tomam o estranho nome de Alustro, um tal de Clube de Fotografia A. M. Pires Cabral, ilustre patrono da terra que, em humildade alustrando, apadrinhou a ilusão de um grupo de aficionados pela fotografia que metamorfosearam o sonho em realidade. Num qualquer futuro, distante se espera, prenúncios de moribudez, hora nunca seja chegada de toque a finados, ir-se-ão os anéis, ficarão os registos. Aos 18 de Agosto de 2012, era assim a vida Macedense durante 24 horas...           

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Rumando a Nordeste - II Encontro de Escritores Trasmontanos

Desdobra-se o tempo vagueando pelas vielas, sob um sol escaldante, a insanidade de correrias tantas em busca de um qualquer éden. O batimento dos ponteiros a acabrunhar-se perante adrenalínicos ritmos respiratórios, a expiração lançando atoardas à inspiração, desregulam-se os passos num vai e vem, sobe e desce de invisíveis degraus. Os sonhos são, inúmeras vezes, dotados de crença... É lançado o repto, fasquia de intransponíveis altitudes, alterna-se o "rewind" com o "forward", entra-se em "pause" vezes outras, sustém-se o inadiável em incursões de querer, monte acima, monte abaixo, param os grãos de areia numa inventada ampulheta redesenhada a xisto e granito. Ao longe, o paraíso, ondulação pétrea entrecortada por vales de um qualquer esquecimento - mas vale a pena o olvido! É só mais um cheirinho a vento, uma pitada de rajadas no escalpe, aspira-se o pó das nuvens, o Encontro é já ao virar do próximo fraguedo. Incrementa a intensidade dos dias, há aquele pormenor a não esquecer - «- Aponta aí na "check list"!» - fugacidade de instantes sobrepostos a instantes, vulgarizam-se pegadas da memória, amontoam-se pausas de fé, lá dizia o poeta dos heterónimos aquela coisa sobre o sonho e a obra... E a dita nasce!    
Apruma-se literário adro, mais para a esquerda, desvia à direita, graves e agudos afinados, inunda-se o espaço a vocalizações de ensaio, prenúncio de imagens de um Reino, espanta-se a gente com azáfama tanta, vai a noite alta, que amanhã é dia de "satcho"... «- Bá, bou-m'à deita q'amanhã tânho que star guitcho!»... Soam os últimos impropérios às bruxas, saem figas de bom comportamento, despedidas de breve trecho, que o dia há-de começar a energias de letras, contos, ditos e... feito! A suave ânsia de ansiado dia, tudo a postos, alinham-se as mentes para o inusitado. Venha a envolvência dos dias, revejam-se velhos amigos, saúdem-se desconhecidas faces, surpreenda-se a alma com o inesperado. Abafa-se o burburinho com o trovão, repentina entrada com o Reino Maravilhoso a aplacar a sede de pertença, toma a emoção conta do aglomerado, faces em desalinho de sorrisos, preenche-se a alma a tonalidades de encanto. De súbito, "Trás-os-Montes", na versão de Teodoro & Cia., incursões à inocência da malvadez do estranho ritual de passagem da infância à adolescência. Memórias de um tempo aldeão readaptado a pena de Tiago Patrício, solenidade de um préstimo a um pretérito futuro. Correm os instantes ao sabor da essência, molda-se a atmosfera a conversa, sente-se o intimismo do espaço, agruras do âmago temperadas a gosto. Mais prosa, menos prosa, saia da ementa um "Alustro", sequências de retratos de um sentir trasmontano, seja lá o que isso for, sente-se, não se explica, corre nas veias, eritrócitos moldados a hemoglobina dos penhascos. Ressuma a seiva, o dizia Torga. Parada e resposta, cheira a uma qualquer transplantação para cá do Marão, a capital do Reino em genética translocação. Sai mais uma Posta à Cavaleiro, condimentada a ancestrais sopros, o António não deixa o dedilhar na gaita-de-foles apagar a memória de idas jornadas acolitadas a sons de arrepio. Entretanto, contam-se as espingardas, o fulgor das horas amansado por amena batalha de um inexplicável querer, talvez tenha sido reinventada uma forma de estar. Afinal, Macedo está vivo, não o Martim de estocadas outras, rejubilam os crentes de ousadia tamanha. E Trás-os-Montes vivo está, juntem-se as pedras que castelos se erguem... Tempos haverá para toque a finados... Por enquanto, siga o cortejo de um estranho sentir, é uma doença que se pega e apega, por contágio, quiçá, o dizem os adoptados, que não basta nas pedras parido ser para o Reino engrandecer. "Trallosmontes" é assim, entranha-se, insondável genótipo talvez. Clamores do crepúsculo, vêm "os anjos nus", pirilaus na amálgama, abafam-se pudores com o mágico comunicar da mestria do inigualável A. M. Pires Cabral, metamorfoses em "anjas nuas", navegam indisfarçáveis sorrisos por ilustre assistência. Venham de lá os autógrafos, lavra para a posteridade, revelam-se sons outros, a Sara e a Helena, violino em desafio ao piano, cumplicidades de clássica euforia, adultere-se o adágio, que filhas de escritor sabem tocar, não fora a pauta rabiscada a uma qualquer demanda do ideal. Terminem literárias incursões, folguem os costados de tertulianos debates, hora da descompressão, brinde-se à vivência numa harmonia esquissada a sabores da terra. Dizem-no "mata-bitcho", deslocado, certo é, mas isto de matar o dito que rói estomacais paredes é quando um homem quer ou, para radical não ser, quando o cerebral centro de controlo se estabelece de armas e bagagens no local onde prolifera clorídrico ácido. Reconforte-se o troar do "butcho" a alheira, tempere-se a um "cibo" de presunto, um "carólo" por companhia, um "tantinho" de divinal queijo. Excitem-se gustativas papilas a incomparáveis doces da Lu, anime-se a gula a inesquecíveis bolachas de Lu outra, acomode-se alimentar bolo a néctar dos deuses, reconforte-se a alma a verdes caldos. Assim, na simplicidade de um inimitável espaço, na intimidade de gente com quem se gosta de estar. Poderia ter-se passado numa livraria. Mas não... Passou-se na Poética...         


sexta-feira, 3 de junho de 2011

A. M. Pires Cabral, os "Esdras Harpix" e os "Tio Zé das Candeias"

Ocasionalmente, reacende-se esta vela parafinada a dinamite, rastilhos de incongruências muitas, nesta contumácia que me impele, desafortunadamente por vezes, a vociferar contra a resignada postura de auto-comiseração, como se as vergastadas no orgulho inflingissem dor naqueles que, à distância de um gabinete, abocanham sarcasticamente a destreza com que somos ludibriados a migalhas de betão e asfalto. Haverá coisa mais regeneradora que o "nacional-coitadismo" que se alcandorou ao patamar de corrente ideológica predominante neste oitavo canto? Talvez creia na bússula de António, mago de lavradas letras, diabolizados olhares de quem «vê oito direcções de mundo, oito métodos de estar. O oitavo é o Nordeste». É a metamorfose dos dias... Sinto-me acolitado por uma qualquer víbora-cornuda, druidismo militante de mágicas poções que desenvoltura dão a esta viperina língua que não se acomoda ao silêncio do rebanho. Profilaxia desta aparente precoce insanidade, o dirão os Esdras Harpix, apeteceu-me viajar até Sancirilo. «Esdras Harpix era [...] esperto mas talvez não inteligente; seguramente inculto e primário. [...] Ele era também [...] manhoso, obstinado, aventureiro, velhaco e destituído de escrúpulos - cinco qualidades [...] contra as quais a finura natural, a erudição, o lastro doutrinário e o poder de argumentação de Judas Ormin não pareciam ser infelizmente arma bastante». Paralelismos tantos de (ir)realidades muitas, náusea dos dias... "Mas atão quem me manda a mim botar serradura onde num se arramou guerdura"? Pontuais devaneios de quem vê com elevado orgulho o débito de um prémio mais ao "home de Grijó, o do sô doutôre da fermácia", nascido um dia, literal e literariamente, «Algures a Nordeste». Desta vez foi a Associação Portuguesa de Escritores que reparou no perturbador "O Porco de Erimanto" e, analgésico para esta perenidade de uma desencantada dor complexada a inverosímil inferioridade, o agraciou com o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco.
"Peis que bus-jiu digou ou, bem m'ou finto que num haija pr'aí uns inbijosos duns lapardeiros imbutchinados pur u causa disto. Pra eis era bem milhore albidarim-se de beze q'inda hai gente pur Trásdusmontes»... E, frustração dos omniscientes, no âmago de "aldeana" gente, esquecida e vilipendiada gente, há pedaços tocados a Midas, como se de uma inusitada revolução das pedras brotassem uivos da consciência, em estranhos bailados de rebeldia do ser, ornados a excelência de descendentes Zoelas, que de epopeizados Lusitanos pouco devemos carregar. Rememore-se o Tio Zé das Candeias, a singeleza em contraponto à altivez dos que tentam transfigurar o Reino Maravilhoso em Merdosa Coutada: «Carvalho, senhor Visconde! Há [...] anos com o rei na barriga, não lhe parece que já eram muito boas horas de o ter cagado?»... Não fina a excelência em António Pires Cabral, seguem-lhe trilhados caminhos os do clã, Rui e Miguel. Ornamente-se a aparência de ficção em pinturas de letras de Manuel Cardoso, Fernando Mascarenhas ou, mais recentemente, Carla Ferreira. Decore-se a tempero de fluidez poética de Virgínia do Carmo e obtém-se um literário folar agridoce com sabor a distinção. E remeto Adriano Moreira ou Raul Rego para outras andanças... "Sêmos bôs, or sim? Atão purque caralhtchas andemos sempre a spremer a lágrima pur us cantos, cmu se tibéssemus q'andar sempre ápaijar uas abantesmas?"... Sou um inconformado, certo é, nesta jornada, inglória por vezes, de elevar a essência trasmontana, macedense por inerência, a patamares onde deveria estar acolhida. Serei apodado de lírico, ingenuidade minha, roubam-me a comida os Esdras Harpix, mas não me tiram esta fome de elevação a Tio Zé das Candeias. E pode ser, viscerais resquícios de uma ancestralidade que não renego, que contágios haja a distraídas mentes. Talvez tudo não passe de um "tiro na bruma" em "tempos cruzados", ou "vertigem" do "ti manel xeringa"... Ou serei o próprio diabo... Mas não serei recordado como o que veio ao enterro. Ainda que more nesta inexpugnável chama do ventre pétreo onde moram calhaus parideiros, não soçobrando pela "proa" imensa na excelência da terra e da gente... Mesmo que a dita esteja urgentemente necessitada de cuidados paliativos, médicos os não direi. De repente, assombro de passagens outras, tomou-me de assalto a popular sabedoria do tio Águsto Cordeleiro: «Rapazes, a saúde está nisto: pés quentes, cabeça fria, cu aberto, boa urina, merda para a medicina»...