
Há projectos cujo término desencadeia em mim uma onda de indignação, num processo revolucionário interno em que a principal vítima é, infelizmente, o teclado. O JI de Bagueixe era mais que um jardim infantil. Era um mundo único onde os sorrisos de um punhado de crianças tinham o condão de embriagar de vida os dias da D. Aurora, da D. Maria do Céu, da D. Ana. E do Sr. Narciso, incansável nas suas demonstrações à pequenada de tarefas como a ceifa ou a malha. Sem dar por isso, ia seguindo as aventuras e desventuras, eu próprio fascinado pelas descrições da miudagem, devidamente acompanhada pela educadora de infância (à qual tiro o meu chapéu!), no moderníssimo blog do jardim da infância, qual novela da quebra do enguiço do isolamento dos tempos modernos. E sorria… E, por vezes, dava asas à imaginação e substituía o Sr. Narciso no seu papel de educador de tradições, debaixo do seu chapéu de palha ou do seu boné. Sentia que aquela pequenada era uma digna herdeira dos valores e tradições da ancestralidade. E a mesma retribuía a transmissão dos valiosos ensinamentos com o sorriso transportado através de um projecto de leitura à soleira das portas. Até que… Até que, um dia, recebi a notícia que alguns dos catraios, dando lógica ao natural processo de crescimento, devem ter passado para outra etapa, reduzindo o número de possíveis frequentadores do JI Bagueixe a três. Segundo a economicista política educativa, feche-se o estabelecimento de ensino, por insuficiência de alunos!

Não discuto as vantagens ou desvantagens que possam advir desta política de terra queimada. Seja ela consequência ou causa… Ou pescadinha-de-rabo-na-boca… Os três alunos saltam, compulsivamente, para a vizinha freguesia de Morais, reduzindo um pouco os estragos. E os idosos? A quem vão oferecer agora as miniaturas de cegonhos e malhos? A quem vão ensinar a ceifar o centeio e a malhar as espigas? A quem vão recorrer para terem a sua "hora do conto"? Honra seja feita à mentora do projecto, porque já manifestou a sua diponibilidade em se deslocar ao extremo concelhio oriental, persistindo nas actividades de leitura, e ao presidente da Junta de Freguesia de Bagueixe que se oferece para providenciar a respectiva deslocação… Há terras assim… Em boa verdade, nunca estive em Bagueixe (contrariamente ao normal, as fotos que acompanham este post foram “surripiadas” a alguns “sites bagueixenses” – vá, é por uma boa causa)… Mas esta pequena homenagem a uma instituição de uma aldeia do meu concelho, bem como aos seus mais (in)experientes habitantes, despertou uma curiosidade histórica da minha infância…

Como julgo acontecerá à maioria das pessoas, a onomástica pode gerar afinidades com nomenclaturas que, ou pela sua extensão, como acontece com Freixo de Espada à Cinta, ou pela sua fonética, nos marcam de forma curiosa. Em criança, englobavam-se neste segundo conjunto, Gebelim e Bagueixe. Achava os nomes inusitadamente pomposos! A primeira, por fazer parte de outro âmbito concelhio, não é para aqui chamada… Já Bagueixe… se engloba naquele conjunto de freguesias que, umas mais tardiamente que outras, fazem parte da história do meu concelho. Esta abordagem a uma realidade distinta que terminou, serviu de pretexto para algo que já andava para trazer aqui há algum tempo. Uma espécie de dois em um… Em primeiro lugar, uma justa e merecida palavra elogiosa ao estudo “Toponímia Rústica do Concelho de Macedo de Cavaleiros”, levada a cabo pela “Associação Terras Quentes”. Em segundo, uma singela contribuição para essa extensa lista, onde o termo “Bagueixe” surge catalogado com um “sem proposta de sinonímia”. Na altura em que recorri ao referido estudo toponímico causou-me estranheza tal facto. Particularmente porque Bagueixe, não possuindo, ao abrigo do levantamento arqueológico-histórico levado a cabo pela mesma associação, um património que faça suspeitar da antiguidade da povoação, a verdade é que a mesma engloba o pelotão dos “veteranos” da História de Portugal. Não por feitos ou acontecimentos de singular relevo, mas, simplesmente porque há sinais inequívocos da sua existência e do seu povoamento desde, pelo menos, o início do séc. XIII.

A começar por um duvidoso «BAGEISJ» de 1231, prosseguindo nas Inquirições de 1258, onde surge como «BAGAIXE», «BAGEIXE», «BAGUEYXE» e «BAGUEIXE», surgindo nas de 1290 como «BAGUEIXI» e «BAGREXI». Havendo sinais de ancestrais bagueixenses, nas pessoas do cavaleiro «PERO LOPEZ» que “gaanhou” o casal dos filhos de «JOHAM MARTIJNZ» ou de «PETRO AYRAS» e seus descendentes que, à semelhança do habitual para essa época, “filharam” a igreja de S. Vicente de Bagueixe e fizeram-na, por força, sufragânea da de Castro Roupal, doando ainda algumas propriedades à Ordem do Hospital. Que, pelos vistos, não eram os únicos freires gananciosos: a Ordem do Templo também tinha direito ao seu casal… Mas a história de Bagueixe deve remontar a períodos anteriores. Não querendo dar um passo maior que a perna, o célebre Abade de Baçal faz menção ao topónimo “Cruzes de Castro”, mesmo que o tempo o tenha apagado da memória… Como não creio que haja fumo sem fogo e não acredito na existência de poder inventivo no “abade historiador-arqueólogo” (mesmo que tenha tido alguns equívocos próprios do início do séc. XX)… Deixando de lado a possibilidade da existência de algum castro nas imediações de Bagueixe e avançando um pouco no tempo… Dois representantes do clero do séc. XIX, nos seus estudos de vestígios de língua árabe em Portugal, avançam para a possibilidade de uma derivação do nome “Bagueixe” do árabe “Bachueixe”, diminutivo de “Bochxon” (buraco). Estaria Bagueixe num buraquinho? A verdade é que, nos dias de hoje, isolado como está, não deixa de se poder dizer que está enfiado num buraco… E bem se pode dizer que os resquícios árabes não se limitam à possibilidade de contribuição para a toponímia.

O mundo fantástico das histórias de mouras encantadas está repleto de míticas narrações e Bagueixe não foge ao contributo para a existência das mesmas, havendo relatos que referem a história de um “Zé-da-Moura”, piedoso caçador que recolheu uma das fugitivas árabes do Monte de Morais, casando com ela e dando origem ao apelido Moura… Já que se faz menção a apelidos, o que dizer da existência do apelido Bagueixe? Não sendo comum, o mesmo ainda existe hoje na realidade portuguesa. Bem como no país vizinho, onde prolifera, estranhamente, na província de Álava (será dos néctares da Rioja?...). A Terceira Alçada das Inquirições de D. Afonso III faz menção a uma transacção do tempo do seu antecessor, o irmão D. Sancho II, na qual entra uma “Maria Michaelis bagueixa”. Mesmo ocorrendo esta transacção em região duriense, torna-se evidente que já no segundo quartel do séc. XIII surgia uma expressão semelhante etimologicamente a “Bagueixe”. Atendendo à formulação dos nomes neste período, é de supor que esta “Maria” seria oriunda de alguma povoação com o nome “Bagueixe”, não sendo de descartar a hipótese de esta corresponder à actualmente existente no concelho de Macedo de Cavaleiros. A outra probabilidade reside na paróquia de Tirimol, província de Lugo, em plena Galiza, numa aldeia com o nome “Bagueijos” ou “Bagueixos”. A sua primeira referência remonta ao séc. VIII, na doação de uma vila, por parte do bispo Odoário, ao abrigo das presúrias, e em cujas confrontações consta o “Castro de Bagasius”. Daqui se pode presumir que a origem do nome “Bagueixe” derivará de “Bagasius”, formado a partir do nome latino “Bagasus”? Provavelmente... A "terra de Bagasius"... Ou, simplesmente, "Bagasii"... Confusões toponímicas à parte, a verdade é que se o Jardim de Infância de “Bachueixe” não tivesse encerrado portas, não me teria estendido tanto. Um destes dias, abrirei as portas a outras histórias e... à Banda de Latos de “Bagasii”…