
Longe vão os tempos das "ranchadas" de segadores que se acumulavam pelas ruas da então vila, a partir, sensivelmente, do S. Pedro. Em forma de equívoco espacial, foi-lhes dedicada uma praça. Antes esta dedicatória que serem votados ao esquecimento... Afinal, eram estes forasteiros que davam vida e um colorido diferente à vila, com a sua algazarra de cantares, entoados ao som de concertinas e demais instrumentos musicais alheios à pacatez macedense de então.

Mesmo que a sua acumulação se desse noutras praças que não aquela onde lhe foi prestada homenagem, nomeadamente a das Eiras, a Agostinho Valente ou a Manuel Pinto de Azevedo. Vem isto a propósito da persistência das gentes de Morais na recriação de uma tradição que foi substituída pela maquinaria, pela baixa rentabilidade e pela consequente deserção de gente para outras paragens. Tenho pena de não poder dar a minha contribuição presencial. Mas não deixo de me congratular por esta batalha do "recordar das tradições".

Porque o sangue transmontano só continuará a correr nas veias caso se mantenha a unicidade e os traços distintivos de um povo e das suas tradições. Como escreveu Barroso da Fonte no Notícias do Douro, «Ser Transmontano é, verdadeiramente, sinónimo de qualidade certificada.» Essa qualidade é atestada por todas as manifestações de um sentir diferente, de um pulsar distinto e de um carácter único, desenhado a séculos de isolamento.

Por isso é tão importante este resgatar de tempos esquecidos. Para que os que constituem a descendência deste carácter marcado a xisto e granito não esqueçam que os calos deixados hoje por uso excessivo de "gameboys", "playstations" e "x-boxs", eram dantes fruto de actividades como a segada, a acarreja e a malha.



Os comandos eram desenhados a outras cores, com ausência de botões e fios para ligação a consolas ou computadores.

E, para os que podiam, não fosse o diabo tecê-las, havia umas coisas semelhantes a luvas de boxe arcaicas, às quais davam o sugestivo nome de dedeiras.

Mas já existia, então, uma espécie ancestral de "transformers": os carros dos bois ou das burras. Podiam alterar-se, consoante precisassem de "estadulhos" ou não. Não tinham portas, nem motores, nem estofos em pele. Também não possuíam travões de disco nem correias de distribuição. E o único equipamento de som com que vinham equipados era a saudosa canção melancólica do chiar das suas rodas, que se ouvia ao sabor da ausência de ar condicionado, enquanto o ar forçado a calor estival percorria a face e o tronco desejosos de um mergulho fresco...
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