Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



sábado, 22 de agosto de 2009

Metamorfoses de um final de tarde

Existirá sempre um qualquer amanhã… A presença fervilhante de vida dará lugar ao abandono… Ou a efemeridade dos filhos pródigos… O fim da linha para esta estadia vai ganhando tons de nostalgia. Com eles, sinto-me possuído por nefastas sensações que não me deixam o espírito incólume. Tento compensar a angústia com a brevidade de um toque de ansiedade pelo próximo regresso. Há-de acontecer nesse qualquer amanhã… Onde retomarei o contacto com o pulsar de um território único e da sua distinta gente. E onde me sentirei seguro, protegido pelos dois guardiães erguidos há milénios das entranhas desta terra com tanto de prosaico como de poético. Não fosse a mesma uma espécie de hermafrodita, dividida em Terra Quente e Terra Fria… Da mesma espécie não é a gente, um esquisso genético brotado do isolamento de um mar planáltico traçado a lápis de xisto. E das rugas de hercínicos movimentos que deixaram sinais da génese da irrequietude das pedras no “umbigo do mundo”. Talvez tenham deixado um qualquer resquício metafísico nesta gente que nasceu numa das jovens donzelas concelhias deste país… Daí o paradoxo histórico da ausência de monumentalidade na novel cidade do distrito bragançano. Daí, também, o recurso às aldeias que pintam o concelho para obter alguma sinalética de ancestralidade histórica. A minha “eterna vila” não pode ocultar o cordão umbilical que a liga aos extintos concelhos ou às antigas circunscrições territoriais. Seria renegar o passado… Como que cortando os ramos da árvore genealógica que a ligam à bisavó Civitas Zoelarum ou ao bisavô Conventus Asturicensis… Ou à magia da religiosidade que, em tempos idos, tinha um “Deus Aernus” como destinatário da devoção e do cumprimento de promessas. A passagem de um personagem fascinante por este planeta foi aproveitada para transferir a aura de santidade para outros entes que pintam as procissões que preenchem os caminhos transmontanos. Sinais dos tempos, da evolução de conceitos e da manutenção da necessidade de recorrer a algo divino… Afinal, esta terra é, em si, também divinal. Fosse possível, na pior das conjecturas, excluir desse conceito de divindade a paisagem, a flora, a fauna, o ambiente, a gente, restariam ainda as tradições. E as iguarias às mesmas associadas… Quem desdenharia de um folar recheado com fumeiro? Ou do próprio fumeiro em si? Butelo, azedo, salpicão, linguiça, bucheira ou alheira? Ou de uns moribundos queijos de cabra transmontano ou terrincho? Ou ainda de adoçar os sentidos com mel da Terra Quente? E que tal uma sopinha de casulas secas? Saem uns peixinhos do rio de escabeche? E uma posta? Sim, senhor! Feijoada à transmontana? É para já! E um Vale Pradinhos? Branco ou tinto?… Branco ou tinto, tanto faz, que as cores são indiferentes num quadro onde sempre existirão tonalidades nunca inventadas. E que se renovam a cada disparo visual, a cada inalação, a cada absorção sonora, a cada despertar das papilas gustativas ou a cada descoberta da macieza da rugosidade de texturas. E a calor humano… Percepcionar a obtenção de semelhante quadro exige um exercício que está para além das banais capacidades sensoriais da espécie. Experimente-se juntar umas pinceladas de Van Gogh, Da Vinci e Picasso, acrescente-se-lhes um toque português de Paula Rego, Júlio Pomar e Vieira da Silva e tempere-se o resultado, condimentando-o com um genuíno toque transmontano de Graça Morais. Coloque-se na imagem final um pouco de sonoridade de Mozart, Beethoven e Vivaldi, remisturando com Pink Floyd, Queen e U2. Um pequeno toque de Rodrigo Leão e Mariza dar-lhe-á a suavidade portuguesa. Imagine-se Shakespeare ou Cervantes a escrever na tela, acompanhados por Camões ou Pessoa. E… A essência da utopia… Porque a beleza de Macedo e Trás-os-Montes jamais residirá na mão dos mestres. Reside na simplicidade da mestria de entender o contraste da incongruência do sentir. Ama-se e odeia-se em simultâneo. Olha-se para um mar de pedras sem sentir brisa oceânica. Vive-se o calor do inferno refrescado pelo paraíso do Azibo e o gelo do inverno amansado pela musicalidade do crepitar lenhoso. Sente-se o vibrar caloroso da alma da gente, escondida por detrás da frieza de caras lavradas a rugas. Choram-se risos e riem-se lágrimas… Sentir Macedo e Trás-os-Montes não se explica, não se pinta, não se compõe, não se escreve. Sentir Macedo e Trás-os-Montes, simplesmente, sente-se… E nasce-se… Até já…

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