Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



domingo, 6 de dezembro de 2009

Mouros míticos, rapazes e incongruências

Recentemente, alguém que sabe perfeitamente as influências que já exerceu na minha veia histórico-arqueológica (e não só), teve uma expressão que, a propósito da eventual passagem dos sarracenos por terras transmontanas, me marcou o espírito bem disposto que, nem sempre, assume as rédeas dos meus dias. Mesmo que eu tenha contraposto com os testemunhos que grassam na toponímia e na quase infindável lista de lendas mouras que fazem parte do imaginário popular, a verdade é que, de vestígios arqueológicos, nem vê-los (ainda que haja umas moedas lá para os lados da terra que encantou D. Dinis). De argumento em argumento, a coisa ficou estancada com um "mesmo que os mouros tenham passado por terras transmontanas, nem tiveram tempo para fazer um chichi". Ponto final, parágrafo, é verdade... E nem o pretenso Valiato de Alfandica salva a coisa... Hoje, sem perceber muito bem porquê, a minha memória foi invadida por Balsemão (ou Balsamão, dependendo das autorias). Aquele outeiro, perdido na paisagem deslumbrante, que se vai descortinando à medida que nos afastamos de Chacim e nos aproximamos de Paradinha de Besteiros, é um peculiar mundo dentro da peculiaridade do universo transmontano. A simples visão do pequeno gigante, marcado no seu topo pela concentração de construções marcadas pela alvura, constrange-nos a um qualquer recuo temporal. Quando nos embrenhamos através da subida que lhe dá acesso, marcada por pequenas capelas e, no seu final, pelo recinto amuralhado, ficamos com a sensação que estamos a penetrar num mundo distinto, recheado de lendas e velhas histórias. A verdade é que, chegados ao topo, caso tenhamos a capacidade de nos abstrairmos das construções mais modernas, somos invadidos por uma estranha sensação, como se Mértola estivesse ali ao lado. O "tributo das donzelas" parece ainda pairar no ar, assim como parece sentir-se a mítica presença do emir (ou do sultão, ou do rei mouro, dependendo do cunho pessoal de quem expõe a lenda do Monte Carrascal). Ao longe, as asas da imaginação dão-nos permissão para ver os de Alfândega (que passaria a ser "da Fé") e os de Castro (que ostentaria o título de "Vicente"), vindos em hordas, em defesa do noivo Casimiro e da bela Teolinda. Sentimos um arrepio ao apercebermo-nos que as forças mouras superam, em número e em arsenal bélico, as dos cristãos vindos dos arrabaldes. E assistimos, impotentes, à chacina que vai ocorrendo. A nossa valorosa intervenção não ocorre porque sabemos que, à custa da dita chacina, podemos hoje parar em Chacim... E sabemos, também, que hão-de chegar os reforços dos Cavaleiros das Esporas Douradas. Serão insuficientes perante o poderio mouro... Quando nos aprestamos para intervir, no ardor da carnificina, vemos a bela Teolinda, ajoelhada, solicitando a intervenção divina. E eis que surge o vulto da donzela de manto branco, possuidora de uma vasilha contendo um bálsamo que, colocado nas feridas dos cristãos, lhes recobra e ânimo e... E o resto já sabemos de tantas outras lendárias vitórias cristãs... O que eu sei é que nutro uma especial atracção por Balsemão e pela sua envolvência. Por lá resolvi, em jeito de tributo, não de donzela alguma, baptizar a descendência. Por lá me vou detendo, algumas vezes, aspirando uma atmosfera única e trocando umas impressões, sempre que possível, com os Marianos. E recordando o tempo em que, no vale ao fundo do monte, gastei energias no campo de futebol que por lá havia, nas pausas das actividades ao ar livre que, no Verão, marcavam os meus dias. As idas até ao "Poço dos Paus" para um refrescante mergulho, representavam sempre uma nova aventura, feita de longas caminhadas por entre a densa vegetação, através de arcaicos caminhos desenhados, sabe-se lá, se pelos mouros que iam dar de beber aos cavalos... Terão sido os mesmos a improvisar a corda que nos servia para, por entre estridentes gritos, nos alcandorarmos a herói de selva africana inventado por Edgar Rice Burroughs? Não sei... Mas sei que que "Balsamõ" existia no séc.XIII (e existiria antes, muito antes)... E que, à semelhança de outros, há-de ter tido origem num qualquer descendente de um germano "audax, fidens, fortis"... E, se estiver a cometer perjúrio, que Saint Balsamius (ou Balsème) me acuda... Ou outros, mas o Balsamonis e o Baalsamaeus não foram perseguidos pelos Vândalos... Vou mantendo o carinho que nutro pela Nossa Senhora de Balsemão, ainda que numa visão distinta da aceitável... E vá-se mantendo a tradição da Festa de Cara Mouro... "Espada nele! Espada nele!" Ou outra versão para mais uma lenda moura... Outro dia... Mais a norte, lá para Espadanedo...

1 comentário:

deep disse...

A propósito de toponímia, ocorrem-me as aldeias vizinhas de Gebelim (Jabalain ou Jabalom) e Soeima (Zoleiman ou Zuleiman), que se supõe terem origem árabe. Menos consensual é o topónimo Mogadouro.
Quanto a Balsemão é de facto um lugar mágico e "santo", que convida ao recolhimento e à contemplação (interior e exterior).

Boa semana. :)