
Chove… No exterior, as gotículas cadenciadas enfeitam a atmosfera em redor do candeeiro cuja tonalidade faz inveja às laranjeiras. Qual depurativo do manto branco, a chuva insiste na sua queda, constrangendo-me à suave preguiça de permanecer envolto em leituras adiadas, alimentadas a crepitar e a nicotina. Timidamente, vou desviando o cortinado, numa desesperada busca de revivescências da noite anterior. Não cheira a neve. Os aromas desvaneceram-se ontem. Paciência… Já tive a minha dose de loucura precoce na pretérita noite, na companhia da enlouquecida descendência, em deambulações a horas impróprias pelas artérias do centro. Ficaram os registos e a gravação na retina de inolvidáveis minutos de faces fustigadas pelo chicotear do vento e da neve. Ao ontem branco, seguiu-se o hoje cinzento. Seguir-se-á um amanhã de tonalidades idênticas. E o Natal está quase aí, pronto a bater às portas humedecidas pelo tempo. Antes que tenha possibilidade de sentir na pele os alertas amarelos relacionados com previsão de chuvas e ventos fortes, hoje foi dia de antecipadas visitas natalícias.

Aventurei-me pelas estradas ainda pintadas a branco, velocidade de lesma, olhando à esquerda e à direita, atafulhando os sentidos com a alternância dos verdes com o branco. Aqui e ali, uma curva mais abrigada retarda o olhar, deslocando a atenção para a melhor trajectória. Depois vêm aqueles abraços e beijos, renovação de laços, partilha de sangue comum. É a família, aquela “cousa” que foi substituída pela sinalética da modernidade. Ancestralidades do ser, manietadas pela galopante crise, não a económica, a outra, aquela que se instalou nos valores. Quando era “puto”, havia crise económica, mas não havia crise familiar. Não havia centros comerciais onde éramos entrevistados, vendo invadida a nossa privacidade por perguntas incompreensíveis… “Quanto pensa gastar neste Natal?”… Eu penso gastar uma “carrada” de sorrisos, outra de renovação de afectos… Tenho o orçamento preenchido com abraços, beijos, apertos de mão…

E também dou umas prenditas, só para manter a tradição. Ontem já recebi algumas das melhores deste Natal… Uma sempre indescritível incursão às imediações do Azibo. O frio esquecido pelo calor de uma amena cavaqueira em torno de ancestralidades e descendências macedenses, aquecida com um divinal licor de medronho. E o meu futuro afilhado veio ver-me. Desde que nasceu trouxe, como por magia, um novo sorriso à amargura futebolística dos últimos anos. Ontem não se fez rogado e… É melhor não ferir susceptibilidades… O supremo condimento veio, seguidamente, pintado de branco. Com sequência no dia de hoje. Revi tios e primos, senti o calor de quem tem sempre um sorriso tímido para dar (e uma couves, umas maçãs, uma qualquer coisa com sabor a terra). E que insiste sempre “pra buber um copito”…

E recebi aquele inigualável sorriso da minha afilhada mais velha. E umas parcas palavras do afilhado mais novo que hoje cumpriu mais um aniversário. Fico contente com pouco? Não, fico contente com muito! Especialmente se o contentamento for complementado com iguarias que só encontro na abrangência destas terra de encanto e sonho… Uma alheira ou uma linguiça das “de berdade”… Um coelhinho do monte… O lombinho e a costela “d’adôbo”… O pão do “Ti Luís”… Umas inigualáveis compotas elaboradas pelo saber tradicional da avó… Hoje “obrigou-me” a carregar com uma “cabaça pró doce”. E a impulsioná-la, violentamente, contra o solo. Há que desfiá-la, sem a presentear com o gume da faca… Cousas… Boas… Tão boas…
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