
Talvez seja inédito, ou estejam os processos cognitivos atravancados de acumulações de esparsas memórias. Sábio ancião não sou, nem sábio de forma alguma serei, que a absoluta sapiência é omnisciente modo de estar, e gosto de ser burro que nem um tamanco, salutar forma de aspirar a cavalares promoções. E no enredo deste constante limar da ignorância, recurso a pergaminhos da memória, hercúleo esforço por trazer à tona uma qualquer naufragada imagem, não me recordo de nevões em Novembro. E se, acasos do destino, vir ressuscitado um perdido quadro do passado, já não irei a tempo de corrigir o que escrito está. Porque, simplesmente, não me apetece e, bastas vezes, gosto de ver saciados os apetites ou, lexicais variações de um polimento inverso, aprecio a saciedade dos não apetites. Não me vou vergastar por isso. Nem o vou fazer por não me lembrar do que lógico deve ser, que ilógico, ilógico, seria um nevão em Julho. E aguardo, serenamente, a chegada de um tempo que espero distante, onde darei rédea solta a esta sede de partilhar histórias e historietas, Macedo por timbre, Trás-os-Montes por escudo, netos e bisnetos por companhia. Algures num perdido alpendre de uma anunciada coutada, cachimbo de sôfregas aspirações, assim os pulmões o permitam, baforadas de idílicos aromas abaunilhados, entrecortadas por incursões a um pretérito onde a vida ainda reinava em província de amores muitos, Torga o sentiu, outros também. Nesse longínquo dia de um futuro-mais-que-perfeito, traições da memória não corrompam o éden, lembrar-me-ei que nevou nos últimos dias de Novembro do ano da graça de 2010. Não o da "Odisseia no espaço", o outro, o não ficcional, o dos Orçamentos e FMIs, afins e demais, bem me entende quem queira do entendimento fazer armadura para peneiras que já não tapam sóis. 2010, o da odisseia espacial, talvez, especial, também, para os desprevenidos crentes que, como eu, ingredientes são do bolo de massa atónita, num depauperado mundo que sustenta ricos fidalgos a submarinos e atrasados veículos anti-motim, desesperando numa pobre fidalguia de bloqueada gente à primeira mijinha de alvura, porque a desprotegida Protecção Civil se verá privada - diz a minha inocência - de verbas para um básico serviço público de desencarceramento de quem atascado fica à primeira mija dos deuses feita de tresloucados farrapos brancos. E fiquei com inveja, assim me confesso, pecados meus... Quem os não tem, seus também? Que a neve possui os seus encantos, encantos muitos os direi, e a chuva, doseada seja, também os terá. Mas não para quem aterrou no penico de Portugal, Atlântico por vizinho, produtiva terra onde quando não chove, há chuva. E mais chuva, e ainda um pouco mais de chuva, torrencial ou às pinguinhas, pingando torrencialmente, ou torrencialmente pingando. Ainda se pudesse fazer bolas de chuva para me confundir no infantil mundo da descendência! E nem as insanas versões para arquitectar um boneco de chuva resultam... O velho cachecol fica invariavelmente ensopado e são em vão as inúmeras tentativas de recolocar a cenoura a servir de apêndice olfactivo... Por isso fico a ruminar nesta abrutalhada forma de sã inveja. Também queria um "cibo de nebe", um "cibinho", só um "tantinho pra num ficar im augado"...
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