Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Retalhos natalícios

Consomem-se os derradeiros segundos, malas prontas, aviadas, compostas. Rectificam-se os últimos temperos, provam-se banais ansiedades, agoirentas as dirão os votados a crendices, passageiras de anos tantos, suavizam-se ao primeiro roncar de motor, aliviam-se às iniciais passadas de devorado asfalto, extinguem-se com o vislumbre de anunciadoras ondas de pétreo mar. Vulgaridades de repetições muitas, ano após ano, há anos tantos que, de tão poucos, quiçá, muitos parecem... Inquietações, amenas inquietudes, adensa-se a incerteza de vergastadas no mercúrio, arrepia-se a jornada a cada baforada de nicotina, esbugalham-se os sensoriais receptores a cada invasão de forçada brisa da montanha. É um mundo, reinterprete-se, O MUNDO!, pintado a familiares cores, tonalidades de sempre, ou reinventadas aguarelas de uma imaginação onde em permanência germinam centeio, batatas e castanhas em férteis campos regados a paradoxo de agrestia. Sente-se, explica-se, ou tenta-se, num infindável desfilar de nunca tidas sensações, como se, de repente, a uma algia da alma lhe aprouvesse transfigurar-se em dor do prazer. Conquista-se o Marão, barreira de ancestral ditado, mandam os que lá estão, ou não mandarão. Cala-se o silêncio de uma qualquer balada de ocasião, infunde-se respeito pelo recado do vento, gélido vento da alvura. Abranda-se o andamento, respira-se a cor, absorve-se a momentânea expiração da montanha, pulmonares simbioses de encantos muitos. Está frio. Ao longe, o manto da névoa, redobrados cuidados, montes de sopés tapados, repetidas imagens sempre guardadas. E a angústia da proximidade, filtra-se o espaço, falta muito, pouco falta? Calem-se, prazenteiras vozes!, Murça é já ali, ao virar de uma qualquer próxima curva, e o Tua compassado corre, há-de chegar, indisfarçável desprezo por uma travessia mais, lá longe, ali perto, tão perto. À distância de uma ultrapassagem mais, ou não, dependências de mal paridos itinerários que a terras do olvido conduzem. O Romeu, a outra Jerusalém, terá Saladino efectivado uma conquista mais?, ou será a miragem de um qualquer oásis num deserto que ao paraíso conduz? Macedo está ali, incólume, ao findar da subida, aconchegado entre sentinelas, pacificamente aguardando o culminar de uma epopeia sempre repetida, sempre desejada, de sempre adorada. É o epílogo da jornada, clímax de repetidas façanhas, batalhas tantas de pretenso Quixote, um moinho aqui, outro acolá, sem velas ao vento, apenas a fugaz tenacidade de um desejo que, de cansaços tantos, apenas quer repousar à sombra do protector braço de Montemé. Sorriem os olhos pelo avistar da silhueta do dorso, agora adornado a pirilampos desenformados de eólicas desventuras, venturas talvez. Gradíssimo acolá, Pinhovelo além, Amendoeira ali, a Carvalheira de sempre, Travanca ao lado, a Bela Vista dos arredores, e o Herculano eternizado, equivocadamente eternizado. É chegada a minha "vila"... Emoções repetidas, nunca monótonas, o renovar de um laço mais, aquele abraço, o beijo outro, e outro abraço mais. E um estômago que reclama pela volúpia de refinados paladares, distintas atmosferas que atrofiam os receptores da taciturnidade, ressuscitando memoráveis registos de anestesiados sentidos. "Ora abonda cá mais um cibo de tchitcha, bota-l'um tantinho de molho queimão... E atão, o arrôze de coube e irbanços stá mim amanhadinho, num stá?"... É a pureza em estado puro... Corroborada pelo tamanho encanto a que as gustativas papilas são elevadas, num reencontro com "rijões" que, na simplicidade de um mundo de xisto, sabem a rojões. Ou no clássico bailado de um queijo de ovelha fresco impregnado a compota de abóbora com nozes... Trás-os-Montes sabe-me a mundo distinto... É o restolho da genética, das raízes, da alma! Dele provém a indómita vontade de não resistir ao encantamento do fumeiro. Remete-se a vontade de uma incursão ao café para a gaveta do amanhã, afia-se o querer, desafia-se o comodismo, espanta-se a preguiça. Degola-se o pão, um após outro, metodicamente. Recheia-se o "caldeiro", camada após camada, a paciência por companhia, o trote da máquina por estímulo. Alguém há-de despertar para a cozedura das "tchitchas", num ritual da ancestralidade, potes ao lume, fogo desperto, imensamente desperto, ambiente impregnado de inconfundíveis aromas, saliva em convulsão. Hão-de vir as sopas das alheiras para saciar a gula, efémeros momentos para a eternidade. Não sem presenciar o estranho digladiar num pântano de massa de pão com carne desfiada, onde se entrecruzam mãos ávidas por rechear as tripas que aguardam a sua vez de se transformarem em arte de ourives, quais luzidios pendentes alinhados numa vara à espera de um cliente que não resista aos seus encantos. Já lá estão, soltando lágrimas por se lhes secarem as entranhas, apura-se-lhes o sabor, aquece-se-lhes a alma com a ternura de sábia gente que lhes conhece as manhas, um "strafogueiro" mais, chegam-se-lhes as brasas que lhes afumam o ser. Um dia hão-de estar prontas para saciar desmedidas vontades. Deseja-se o frio que as atormente e lhes amenize a cura. Mas não! Persiste esta urina dos deuses disfarçada de chuva. O disfarce deveria ser outro... Mas é assim, as alheiras estão lá, altivas, aguardando que a impaciência dos que as cobiçam não se eleve cedo demais...

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