
Por vezes sentimo-nos na contingência de abafar a vontade, uma quase indómita vontade de largar amarras e desatar em navegações por megalíticos oceanos. Mas remetemo-nos à clausura, enquanto aspiramos a zanga dos deuses, privações do astro, rei o dizem, a celeste abóbada tingida a limbo de negro, escuridão do dia, numa cabal demonstração de incontidas naturalidades atmosféricas. "Tchobe que Deus a dá", ou numa mais pitoresca versão apreendida de pretéritos tempos estudantis, até os cães bebem água de pé.

E por aqui anda a gente, singulares formas de adesão a um ascetismo forçado. Mas sabe bem, de igual forma. Trás-os-Montes também aprendeu a ser mar, transgressões por vezes, regressões outras, sequências tais que culminam em três de inferno. Estamos nos outros nove, de Inverno os pintam, desgarradas cores ou talvez não, que esta fruste terra é pintada a nunca inventadas tonalidades. Talvez por isso a ame, a adore para lá de compreensíveis entendimentos, desmedidas paixões por uma terra de incontáveis partos, não os consequentes de nove, mas os da surrealidade de um chão capaz de parir pedras recheadas a batatas ou castanhas. E a suor de gente... Talvez esta sonoridade me afecte, cadências muitas de bátegas, "chlap-chlap", "ping-ping", fustigadas vidraças que parecem chorar, ou frutos à espera de repetidas maturações, molhados, suados, quem sabe, ou humedecidos por vontade divina.

Mas sabe bem, repito... Como bem sabe o alegre cantar de um qualquer conjunto de aves que parecem festejar a tormenta, abrigadas nos pinheiros fronteiros. Ou como bem soube o almoço, saberes do tempo, "adôbo" ou vinha de alhos, costelas em repouso de encantado tostar, aromas ao vento, cálidas estrofes de um poema de lenha a crepitar. Ou, simplesmente, desencontradas poesias escritas a lápis de xisto... Frutos secos à espera de uma quase incineração, ou talvez não, outros há que desdenham "d'ua gabela de guiços", basta um seco figo para os aconchegar. Variedades muitas, sucos da alma, filhos do vento e da chuva, do calor também, o suor como pai, as rugas por mães. É a terra, o espírito das pedras, místico, druidas e fadas num bailado só. É isto, é pouco, é muito, é um raio de sol que obscurece o negro, é a chuva que insiste em cair, duradoura paz de uma raíz da terra. Sou eu, és tu, você também, o senhor, a senhora e vossemecê, quem sabe? É isto, dizia, é Trás-os-Montes... Entende? Afirmativo? Então é filho de xisto e granito...
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