Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



terça-feira, 5 de outubro de 2010

O calvário da rês pública

Instala-se a dúvida... Procuro, desenfreadamente, esquivar-me a esta quase indomável apetência para transfigurar os pensamentos, dando-lhes vida através de um monocórdico teclado. Contudo, o bombardeamento foi despoletado logo ao despertar, marcado a discursos de altas individualidades, com assistência de outras não tão altas, mas de semelhante dimensão, mantendo-se as incógnitas e baixas individualidades remetidas a uma reclusão para lá do perímetro de segurança... Como convém... Ao longo do dia, o troar persistiu através dos três canais informativos, numa panóplia de monotonia comemorativa... Decido remeter-me à leitura, enquanto o leitor de CDs debita uma qualquer selecção musical. Para temperar melhor a chuva que se abate sobre o arvoredo, dou vida àquela coisa que nos faculta uma ligação ao mundo exterior, auscultando através da virtualidade aquilo a que o tempo cinzento não convida. Para colmatar esta embriaguez de pouco mais que nada, vou partilhando saudades do Azibo, de Macedo, das gentes, do xisto. Partilhando, de igual forma, umas amostras daquilo que me vai adoçando os melómanos tímpanos. Sucedem-se as tentativas de me alhear deste estado de hipnose comemorativa a necessitar de uma catarse. Que me perdoem o Relvas, o Arriaga, o Buiça e os Carbonários, mas nada tenho para comemorar, num Centenário que rima com Calvário e onde, por não ser uma alta individualidade, me sinto tratado como uma Rês Pública da República. E não vou tratar esta cefaleia da alma com nenhuma decapitação... Mas o que tem isto a ver com Macedo ou com Trás-os-Montes, afinal, a génese da amálgama das "Cousas"? Nada ou quase nada... É, apenas, indesmentível que esse território encravado entre montes e rasgado a sul pelo Douro faz parte, oficialmente, desta República que hoje se comemora. Como inegável é que existe gente que carrega esse metamorfismo ígneo desenhado a xisto e granito. De um desses magníficos exemplares, ao que parece rês pública como eu, proveio um dos rastilhos para estar por aqui a efectuar esta transposição de ideias, quiçá polémicas, quiçá desconexas. «Um cidadão que não questione o regime não merece viver numa democracia»... O outro teve origem em semelhante proveniente... «Hoje, em Dia da República, devíamos DESPEDIR os politicos profissionais e colocar os profissionas na politica»... Silêncio, um inusitado e prolongado silêncio, lenta deglutição dos rastilhos, uma quase maratona de conexões neuronais, um agonizante torpor que quase possui o condão de desencravar este nó górdio... Apetece-me ripostar ao bombardeamento. Todavia, reprime-me a consciência alertando-me para o facto de eu não ser papel higiénico. É um facto que o não sou, mas não me livro de fazer parte dos comuns instigados a limpar a merda que os que discursam foram distribuindo(para os mais sensíveis, podem regredir uns vocábulos e trocar, figurativamente, o termo por "caca"). Tenho vivido na ilusão de morar num país onde impera, segundo as sábias palavras de Churchill, «a pior forma de governo, excepto todas as outras que têm sido tentadas de tempos em tempos». Uma tal a que os Gregos epitetaram de Democracia, aquela a quem o irreverente Shaw designou como algo que «é apenas a substituição de alguns corruptos por muitos incompetentes». Reflectindo bem na irreverência percebo, afinal, porque não me sinto motivado para comemorar o Centenário. Que República é esta que começou de tal forma anarquicamente, que só na I República, entre 1911 e 1926, teve oito mandatos presidenciais? E que atravessou uma famigerada II República em que vingou um tal de Estado Novo? Finado por um dia em que o cravo foi elevado a ícone, num nascimento da III República na qual o poder deveria provir do "demos", o povo, mas que esse mesmo povo foi entregando, paulatinamente, a "demos". Demónios que adulteraram o sistema democrático, metamorfoseando-o numa oligarquia que, nos dias de hoje, já chegou ao patamar da cleptocracia. Este malfadado sistema em que nos convidam para ir ao restaurante, constrangendo-nos à limitação ao prato do dia, enquanto assistimos, impavidamente, ao delapidar das parcas poupanças de rês pública, porque somos compulsivamente obrigados a pagar a factura da fausta refeição que o compincha se julga merecedor. Como digestivo, ainda temos que assistir com deleite às queixas do desgraçado... Esta não é a "minha" República, nem definitivamente é a "minha" Democracia. Talvez seja hora de substituir, mesmo, estes políticos profissionais por profissionais na política. Talvez seja hora de adornar a democracia com uns adereços de meritocracia. Talvez seja hora de colocar em prática um dos lemas que me acompanha: «Podem roubar-me a comida, mas jamais me roubarão a fome». Talvez seja hora de gritarmos bem alto o Artigo 1º da Constituição da República Portuguesa... Talvez seja hora...

1 comentário:

Virgínia do Carmo disse...

Rui, partilho do desconsolo... (e o texto está, como sempre, deliciosamente escrito... )

Um abraço