Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



domingo, 26 de setembro de 2010

A variabilidade das conveniências

Cada mortal confunde a sua existência, invariavelmente, com os locais que lhe vão rasgando as folhas do calendário. É um agradável paradoxo, como se víssemos o privado santuário profanado pelas experiências. Mas afinal são elas que lhe dão vida, se encarregam de lhe esfregar o soalho, encerando-o de seguida. Por vezes, mais que as desejáveis, as experiências transformam-se em estrofes de uma perna só, conduzindo o poema ao desamparo, desequilibrando-lhe as formas, adulterando-lhe a essência. Particularmente quando cedemos à tentação de as reviver, esquecendo-nos que os momentos são irrepetíveis. Nas minhas aleatórias deambulações por terras macedenses, vou revisitando locais que, em maior ou menor grau, serviram de adubo ao meu crescimento. Por vezes, dou por mim a fazer um desvio em direcção à Barragem da Carvalheira. Está bem, é verdade... Agora o paraíso mora para os lados de Santa Combinha, é inquestionável. Mas tempos houve, lá para os desejos de eterna infância, em que a Carvalheira era o oásis, tempero do estio, destino de eleição para um qualquer ajuntamento familiar, um velhinho Kadett por companhia, uma Dyane em alternativa. Ou, tempos outros, pêlos nas pernas, a "ginga", a inseparável "pedaleira" de Voltas a Portugal imaginárias, prémio de montanha na Corvaceira, meta-volante na Carvalheira, só para refrescar um pouco, antes da passagem por Pinhovelo, Vale Pradinhos, Sezulfe, Gradíssimo... E o fôlego recuperado pela ingestão excessiva de adrenalina, vertiginosa descida até ao Pontão de Lamas. Entretanto, sinais dos tempos, esbranquiçaram os pêlos, esvaiu-se em definitivo o fôlego, a "ginga" repousa os seus pedais num velho encosto de betão. E a Barragem da Carvalheira transformou-se, amputada da magia de espelho de água, pessoal e iconograficamente reduzida a um reflexo do país sem escrúpulos em que nos deixámos mergulhar. Somos, cada vez mais, um país dominado por necrófagos, sempre à espreita, vilmente aguardando que um qualquer afoito predador tome a iniciativa de perseguir a presa, afugentando-o de seguida, para sugar o tutano a ambos. Esta proliferação de espécimes cleptómanos não me surpreende. A estupefacção reside na forma resignada como presas e predadores, que a presas passam, se permitem ser sodomizados, sem um queixume sequer, efusivamente aplaudindo esta forma de prostituição compulsiva, onde o proxenetismo é exclusivo de bestas, primos de bestas, afilhados de bestas, e afins de bestas, que são tratados como bestiais sempre que se lembram que em Trás-os-Montes há alheiras e posta à mirandesa. Este bestiário, conhecido de todos, com uma atroz ligeireza escondido de todos, vai estendendo a sua teia, num eterno entrelaçar de viúva-negra, anestesiando as vítimas, enquanto as faz sorrir com uma seiva que tresanda a morte lenta. E as vítimas parecem apreciar... Será isto uma cabal demonstração de latente masoquismo? Talvez... Especialmente para a gente que se viu parida para lá do Marão, naquela saudável agrestia de Torga, num algures a Nordeste de Pires Cabral. Excepção feita ao residual, a gente do mar de pedras vai-se dividindo entre aqueles que aplaudem cegamente um transmontano homónimo do filósofo barbudo que assumiu a sua ignorância, e os outros que, de olhos vendados, aclamam o homónimo do santo das chaves, conotações cinegéticas por apelido, cuja diferença para o primeiro reside no facto de ter nascido em Trás-os-Montes. "Num é trampa, mas cagou-ó gato"... As vozes residuais, não menos importantes que a maioria, provêm de gente afectada, alternadamente, por miopia, estrabismo ou hipermetropia. Navegam nas incongruências do protesto enquanto não são aliciados para um qualquer cargo na junta de freguesia mais próxima. Umas vezes vê-se melhor à distância, outras na proximidade, e outras ainda há em que a focagem vai derivando ao sabor dos favores. Entretanto, uns e outros, mais os outros que os uns, vão-se digladiando por metafóricas casapianas formas de violação sem recurso a parafina líquida. Estranha forma de vida, estranhos conluios estes que geram corrupios de gente que abocanha qualquer migalha, desde que generosamente com proveniência nas esferas onde impera a podridão, a corrupção, o clientelismo e a impunidade. E onde a responsabilidade, apenas porque a culpa é uma forma vocabular ausente do meu dicionário, morre sempre solteira. Por isso a Barragem da Carvalheira serviu de mote a mais estas "Cousas"... Desconheço se corresponde integralmente à verdade a notícia que li. No entanto, tipifica esta doentia forma de estar que nos vai levando ao abismo. Esta pequena albufeira, construída nos finais dos anos 60, inícios dos 70, do século passado, ao abrigo de dinheiros públicos e, julgo, da vontade de Camilo Mendonça, serviu durante muitos anos para abastecimento da rede pública de água. O nascimento da albufeira do Azibo veio, obviamente, retirar-lhe protagonismo, metamorfoseando-a numa trivial passagem de bestial a besta. Nada de anormal... Afinal, neste bacanal à beira-mar plantado, o amigo conveniente de ontem rapidamente se transfigura no inconveniente do amanhã. Todavia, o seu a seu dono, a César o que é de César, caso haja, obviamente, César. E, neste caso, parece não haver César. Oficialmente, a Barragem da Carvalheira parece ser propriedade da Cooperativa Agrícola. Oficiosamente, a detentora dos seus direitos parece ser a Câmara Municipal. Oficial e oficiosamente, o INAG, um tal de instituto que pretensamente serve de autoridade nacional da água, deveria ser o gestor da dita barragem. Porém, oficialmente não há registo oficioso, ou o inverso, sobre a propriedade e direitos sobre um ser que interessa ver moribundo. Entretanto, neste jogo do empurra, oficioso mas não oficial, os empreiteiros que andam a rasgar as entranhas da terra para umas sempre bem vindas vias de comunicação, parecem ter aproveitado, oficiosamente, as reservas de água que, oficialmente, ninguém sabe a quem pertencem. Temperando a eufemismo uma aparente vernácula forma linguística que me adoça os tímpanos nas minhas incursões à terra do olvido, "num sei que bus diga, ma no tempo dus mous abós era d'aixada e seitoura, já tinh'hábido uas cabeças abertas ó berde e uas tripas de fora c'ua peliqueira, ma racontracosa ó carbalho se num é berdadinha! O carbalho ou... A Carbalheira!"

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