Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



sábado, 30 de outubro de 2010

Compensações por coisas simples e banais

Sair da Invicta a uma Sexta-feira ao final da tarde, através da A4, é um exercício próprio para transfigurar a salutar paciência em atroz demência. Sabedor de tal, passei a aproveitar o comodismo da VRI e primas A-Quarentas e qualquer coisa. Não perderam o epíteto de cómodas, mas ganharam o incómodo de, nuns míseros quilómetros, ver a minha carteira sequestrada por uns artefactos metálicos, obras de arte suburbana erigidas por desgorvernados artistas, não plásticos, mas cada vez mais de plástico, ao sabor de disparates cuja culpa é atribuída, invariavelmente, à mediática crise. Mas fui apanhado desprevenido pelo hábito... Quando dei por mim, mal refeito do equívoco de ter renegado a promessa de não circular pelas novas artérias cleptómanas, já as ditas me tinham surripiado três euros e meio, sem apelo nem agravo. Nada como passar por uma experiência traumática para não desejar repeti-la... Circunstancialmente, apeteceu-me cantar o fado, não o popular do trinta e um, mas o da A-Quarenta e um. «Aaaaiiiii.... Ó-la-ri-lo-lela, Como estes não há nenhum, Segue o roubo em Portugal, Até na A-Quarenta e um!»... Repentinamente, fui acossado por um inexplicável saudosismo da velhinha Nacional Quinze. As viagens eram tormentosas, curva e contracurva, intermináveis filas por vezes, um autocarro da extinta Cabanelas que parava a cada cem metros e servia de guia ao extenso formigueiro automóvel, pára, arranca, primeira, segunda e dali não saía até me afastar do perímetro distrital da Invicta. Mas não me sentia roubado! Cousas da Cleptocracia... Adiante, que a A4 está perto, ao virar da portagem. E Amarante, um pouco à frente, logo ali, onde se descortina um acumular de traseiras luzes encarnadas, prévio sinal da exaltação do espírito por pressentimentos de viagem demorada. Sorte danada! A paragem forçada ocorre antes da saída que anuncia o tortuoso itinerário para Marco de Canaveses. Conheço-lhe as entranhas de outras fugas, desvios de tormentos outros. «- Pode ser que resulte»... Resultou, felizmente, resultou, mas fez tardar a hora do repasto que sábias e ancestrais mãos iam preparando. Chegou tarde o desbravar dos sentidos, mas chegou, por entre um breve abraço mais, que a fome ia mutilando as paredes estomacais e multiplicando a ansiedade de degustar o sabor a terra. Cheira a frio, não um aterrador frio invernal, antes aquele frio que arrepia a espinha ao sair da amena temperatura do companheiro de jornada, um leve choque térmico apenas, doce, saboroso, distinto. E cheira, também, a lenha queimada, freixo talvez, oliveira quiçá, carvalho provavelmente, ou qualquer outra, que "mai fai", elimina uns arrepios, seduz com outros. A estranha agradabilidade de adornar os sentidos com os aromas a fumo que passam a decorar a roupa... Sentidos outros que absorvem o desenho de umas alcaparras (as de azeitona, não as outras), temperadas, numa simbiose dourada a azeite e vinagre, uma pitada de sal e um "cibo" de cebola picada, chamariz para a exaltação de gostos perdidos. Ou outros pitéus mais, só para entrada, só para compor o estômago dos «mous filhinhos, que bindes tchêinhos de fome!»... Venha de lá a satisfação do prévio pedido, mimo do inigualável frango caseiro, suculentas coxas que invalidam receios da gula. Reconfortado estômago, divina marmelada, só para adoçar, supremo queijo de cabra, para compensar o doce, nada de mais, delicioso anúnico de sobremesa apenas. Porque a aletria, aquela cremosa aletria aguardava, escondida de gulosos olhares, "grand finale", último aplauso antes da entrada em cena da "volta dos tristes". Só para descontrair, só para desgastar os excessos, só para matar saudades da "vila". E que saudades! Quase deserta, como quase deserta estará em cada noite de tardios repastos, exceptue-se o alarido de académicos festejos, aqui e acolá, lá longe, de passagem. Como de passagem aqui estou, instantes breves na brevidade do retrato de uma noite com coisas simples e banais. As últimas brasas, trémulas, moribundas, anunciam a morte de um dia que já aconteceu, num sempre ansiado retorno a este frio ar que me aquece. Inexplicáveis compensações... Velhinha fisga por testemunha...

2 comentários:

Vicente disse...

Saudaçoes
Mais uma vez e como sempre...brilhante.Só me faz uma invejinha danada de nao "sofrer" esse frio e ficar a cheirar a fumo.
Mas nao tardará...
Abraço Transmontano
J.V.

Cavaleiro Andante disse...

Grato pelo elogio e pela persistência em aturar as "Cousas". Com a respectiva retribuição do abraço transmontano!