Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



domingo, 29 de março de 2009

Sra. do Campo

Há 30 anos era assim. Para lá do carácter religioso e da importância do profano para a comunidade, a Festa da Sra. do Campo era um acontecimento familiar. Cada um dos agregados familiares do clã reunia previamente os componentes para a merenda, alojando-os em canastras que, não me recordo por que meios, haveriam de aparecer depois da missa. Mas antes tinha que se cumprir o ritual da longa procissão, acompanhada ao som da mítica Banda 25 de Março. O Padre Quina seguia na cabeça de uma espécie de serpente humana, que acompanhava, devotamente, as imagens religiosas através da íngreme subida. Quando ainda era um rapaz mais às direitas, carreguei, pelo menos em duas ocasiões, com os andores. A primeira delas, o mais pequenino de todos, o qual, ainda assim, me deixou bem vincada nos ombros a marca do seu peso. No final, isso era assumido como uma "medalha de guerra" para mostrar aos comparsas e discutir qual o que tinha suportado o maior peso. Mas o que interessava mesmo eram as correrias pelo meio do giestal, numa competição entre rapaziada, para verificar quem tinha, no final, apanhado mais canas dos foguetes. Nunca apanhei muitas, porque estava mais preocupado com as trajectórias que as ditas tomavam depois daquela ensurdecedora sequência de "pum...pá...poum". Não fosse alguma acertar-me em cheio na "tola"... Agora a coisa está mais amena e, não vá o diabo tecê-las, os foguetes de cana deram lugar a uns estouros pirotécnicos de base terrestre, mas que provocam uns efeitos mais curiosos que a simples imitação de uma trovoada. De carácter obrigatório era a presença no "encontro". Caso contrário, mesmo que me tivesse desviado de todas as canas, arriscava-me a que um "mosquete" me acertasse em cheio. Era (como ainda é) um momento solene. Mas, há 30 anos atrás, havia algo que me deixava siderado. Ficava estupefacto com a quantidade de notas que penduravam nas fitas do andor da Sra. do Campo. E punha-me a sonhar sobre o que faria eu com aquele dinheiro todo... Com a falta de noção monetária, pensava que poderia comprar o "bazar" todo... Todinho!... Terminada a missa, era hora de dar a volta ao outeiro, prestando a última homenagem à guardiã do povo de Lamas. Com os estômagos a substituírem em ruído os últimos foguetes e a abafarem o som da banda, era hora da reunião do clã. Por tradição, sempre no mesmo local, rezando-se para que não chovesse. Estendiam-se as mantas, espalhavam-se os haveres, cada um procurava ocupar uma posição estratégica para melhor aceder ao "carólo" de pão e ao "cibo de tchitcha" que silenciariam os trovões estomacais. Nesse tempo, sabia tão bem um copo de laranjada ou de gasosa! E sabia ainda melhor a companhia da mãe, do pai, da avó, da tia-avó, dos tios, primos e todo aquele conjunto de gente que só via uma vez por ano, mas que me diziam que eram meus familiares. "Este é o primo de Corujas"... "Esta é a tia de Sezulfe"... "Aqueloutro é de Vilaverdinho"... Depois de reconfortados os estômagos e a alma, era chegado o momento por que ansiava. A recolecção das moeditas para "ir ó bazare". "Atão, já bais ós bilhetes? Toma lá cincroas..." Que me recorde, é a segunda vez na minha vida que não vou à festa... Espero que no próximo ano não seja a terceira... Que possa estar a "mandar abaixo a malga da sopa", depois de encher o bandulho na minha segunda casa em Lamas... "Ó cumpadre, bota cá um copu!" E que esteja a "mamar" o dito copo que já hoje me ofereceram via novas tecnologias... Na companhia do "Bite", do "Pintxe", do(s) "Compadre(s)", da "Calinha", do "Cebola", do "Alfaiate", do "Meco", do "Tchico", do "Tass'queiro" e de todos aqueles com quem andei em desenfreadas correrias atrás das canas dos foguetes... E "à bolta das árbures cum buracos"... "Juguemos ó fito?"...

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