Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



domingo, 22 de março de 2009

Sorefamonostalgia II

A história deste país jamais se afundará, mas vai-se afundando ele mesmo. Já há muitas vítimas do naufrágio deste "Titanic" à beira-mar plantado. Uma delas é a saudosa SOREFAME (e já lá vão uns cinco anos desde que foi "bombardierada"). E porque a trago aqui se, em boa verdade, as suas marcas são poucas ou nulas na mais mítica (para mim, claro está) linha do Tua? Precisamente porque, para chegar às "napolitanas" do comboio do Tua, fazia um longo percurso nas bem portuguesas "sorefames". A começar em S. João do Estoril, na linha de Cascais. Artilhado de mochila às costas, munido do passe social e do "cartão jovem CP", saía pouco após o jantar para dar início a uma maratona ferroviária superior a meio dia. No Cais do Sodré, apinhado de militares que se aprestavam para idêntica maratona em direcção à terrinha, era um "ver se te avias" para conseguir um dos "fogareiros". " - É p'a Sant'Ápolónia, se fachavor!" O Inter Regional (mais conhecido por Comboio-Correio) com destino a Porto-Campanhã saía à meia-noite e vinte. Antes de saber a plataforma da qual partiria, atestava o alforge com umas bifanas ou com umas "sandes de omelete". Invariavelmente, nos primeiros tempos fazia sempre a viagem apoiado nos membros inferiores. A ingenuidade desapareceu quando uns magalas macedenses me ensinaram a arte de conseguir lugar no dito "Correio". Bastava questionar as pessoas certas e as ditas informavam-nos, antecipadamente, onde se encontravam estacionadas as carruagens antes de serem rebocadas em direcção à plataforma. Um dia, descobri que as carruagens de 1ª Classe possuíam compartimentos, dotadas de uns bancos bastante confortáveis nos quais me poderia estender, dormindo até chegar a Campanhã. Como era detentor do "Cartão Jovem CP", até que não ficava muito dispendioso o bilhete até Macedo. Como a experiência já me tinha tornado um especialista nas manhas de viajar com algum conforto, entrava na dita carruagem, seleccionava um compartimento vazio e ocupava três dos seis lugares disponíveis (um com a mochila, outro com um jornal e o seguinte com um casaco). Deambulava pelo corredor ou pela própria estação, estando sempre de olho no "meu" compartimento. Alguém tão manhoso quanto eu haveria de ocupar os restantes três lugares (isso estava estipulado na Constituição da República Ferroviária...). Quando, finalmente, a composição partia, era só ocupar o assento da janela, ler o jornal e substituí-lo no seu lugar pela mochila. Normalmente, passado o "Braço de Prata" e a sequência de "abre e fecha" a porta do compartimento, podia refastelar-me, enquanto devorava, ao bom estilo romano, a primeira bifana, acompanhada de uma "cervejola". Com a última invasão no Entroncamento, era hora de saborear a conquista. Ajeitada uma almofada improvisada, ficava na companhia de Morfeu até à paragem em Gaia. Curiosamente, despertava sempre com o alvoroço das Devesas. Tomava o meu pequeno-almoço, já sentado, aguardando pelo ranger da ponte D. Maria Pia. Como nunca fui um grande adepto das alturas, só suspirava de alívio quando terminava a lenta marcha com que se atravessava a ponte. Mas fazia-o sempre debruçado na janela, procurando abstrair-me da ideia de me transformar em Ícaro, recorrendo ao ansiolítico representado por um cigarro. Depois vinha a barafunda de Campanhã e mais uma "marosca". Apanhava-se o primeiro comboio com destino a S. Bento com o intuito de conseguir um lugar no Regional que haveria de me levar ao Tua. Essa pequena viagem de ida (e depois de volta) era sempre feita de forma clandestina, fugindo, caso fosse necessário, do revisor que andava sempre de olho nos magalas chico-espertos. Como eu não era magala, safei-me sempre... O Regional partia às 07h45 de S. Bento. Marcado o lugar, ainda dava tempo para estender um pouco as pernas, passar um pouco de água pela cara e "colgate" pela dentadura. E para me reabastecer de mantimentos, que ainda faltavam mais de 6 horas até Macedo. A linha do Tua é uma das minhas paixões, mas, justiça seja feita, a homóloga do Douro não lhe fica atrás. A parte inicial do seu percurso nada tem de transcendente, mas a partir do momento em que o rio passa a fazer-nos companhia, atravessa-se uma região de paisagens deslumbrantes. Entre o serpentear ao lado de um rio que já foi selvagem e que foi dominado por mão humana, repunham-se as energias com mais uma bifana, enquanto se colocava a leitura em dia. Depois, chegava finalmente a estação do Tua. Chegava também a azáfama da mudança para a via estreita, para as "napolitanas" e para as histórias que por aqui já fui contando. Mas o que me trouxe aqui foram as "sorefames"... E o que me dói é assistir à hipoteca deste país. A SOREFAME não teve um funeral digno de uma empresa que chegou a fornecer o Metro de Los Angeles, o de Chicago ou o de Lisboa. Acabou como acabam muitas outras instituições deste país. Para mim, jamais acabará. Porque as recordações nunca morrem... E a memória dos homens também não. A viagem continua, mas fica sempre uma marca no sítio por onde se passou...

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