
… percorra-se o outro meio caminho. As afinidades geográficas, históricas, linguísticas e, porque não, de “raça”, que possuímos com a vizinha Galiza constrangem-me a deter-me, inumeráveis vezes, na sua própria História. Afinal de contas, se territorialmente o seu fim é o nosso princípio, em termos lexicais acontece o inverso, sendo o nosso término (GAL) o seu início. Coisas de siameses separados por uma linha artificial… Um recente estudo toponímico galego chamou-me a atenção. No interior do território galego, o vocábulo “lameiro” possui significados distintos, consoante nos encontremos em zonas mais próximas do litoral, ou dele mais afastadas. Assim, nas zonas baixas ou de encosta e onde ocorre maior pluviosidade, particularmente no noroeste, um lameiro possui o significado de um lamaçal. Já no interior, mais a sudeste, em regiões onde a topografia é mais acidentada e de precipitações menores, um lameiro é considerado um prado, ou seja, tal como na nossa região transmontana, um local de pastagem.

Curiosamente, as semelhanças com o lado de lá fronteiriço também encontram eco na fonética asturiana, onde “lamas” se transformou em “llamas”, algo que também ocorre nas “terras de Santa Maria”, onde alguns habitantes locais apelidam a sua terra de Santa Maria de Lhamas. Curiosidades… Apenas porque me chegou a gerar alguma confusão a imensidão de topónimos “Llamas” nas Astúrias, podendo esse facto levar-nos a incorrer no erro de o associar às “chamas” ou a uma das formas do verbo “chamar” do castelhano. E também porque um “lameiro” provém de “lama“... O tal “vocábulo perdido” que pode significar “prado enlameado”, “lodaçal”, “barros” e demais derivações de mistura de terra e água. Estando presente este segundo elemento, parece indubitável que “lama” seja um hidrónimo. Este facto parece incontestável, consubstanciado pelos diversos estudos em redor da “lama”. Termo que, sendo pré-latino, deu origem, em linguagem dialectal italiana a “lamature“, com o significado de pântano ou lamaçal. A evidência para a origem não latina do vocábulo poderá ser encontrada na ausência da utilização do mesmo pelos autores clássicos. Isto se exceptuarmos Quinto Horacio Flaco e Quinto Ennio, curiosamente oriundos da região meridional italiana.

Uma das minhas referências em termos de Linguística, Mario Alinei, faz derivar “lamature” de “lama”, atribuindo-lhe uma origem greco-latina, proveniente do ser mitológico descrito por Diodoro Sículo, “LÀMIA”, o monstro-serpente feminino. À mitologia pode ainda ir beber-se a informação de Teucídides acerca das Dionísias, onde é referido que as primeiras ocorriam em honra de “Dionysius LIMNAIOS“, o “deus dos pântanos ou dos lameiros”. Recuando um pouco no tempo, podemos encontrar reminiscências em “LAMASHTU”, a equivalente da “Làmia” grega na mitologia acádia. Um ser mitológico cuja descrição e atributos são em tudo semelhantes, ocorrendo, em simultâneo a versão “LAMASSU”, divindade protectora, cuja origem se encontra na antepassada mitologia suméria, na existência de “LAMA“. Julgando como válidas as descrições que dão conta de rituais de fecundidade associadas a esta divindade, que incluíam a retirada de limo ou lodo (lama) das planícies alagadas da Mesopotâmia, dando-lhe, de seguida, o destino de materiais de construção das habitações, torna-se plausível a identificação desta ancestral divindade como originária de *lama e dos hidrónimos daí derivados.

Todavia, outros autores, entre os quais se destacam Ménendez Pidal ou Antonio Tovar, defendem que *lama constitui um radical com substrato ilírio ou lígure. Sendo discutíveis estas posições, como qualquer outra hipótese aventada para a origem de “Lamas”, não será de descartar a possibilidade de o topónimo ter sido trazido pelas migrações, em tempos remotos, de povos com origem nas imediações do Mediterrâneo, entre os quais podem incluir-se os Lynkos, provavelmente os Luancos a que se refere Ptolomeu. Será este povo o adorador do “Deo Vestio Lonico” e que terá dado origem à dispersão do topónimo “longo” (de “Longos” ou “Liuncos”, com correspondência em Lynkos). É avançada a coincidência da sobreposição territorial da toponímia originária em “longo” com a de “lamas”. Terão sido os “Longos” os portadores do vocábulo “lama”? A ser verosímil, será a nossa conhecida Lamalonga (que em tempos era Lama Longa) fruto do relatado? Independentemente de todas as conjecturas em redor do exposto, parece incontestável que a origem etimológica de “Lamas” remonta a vocábulos estreitamente ligados com “água”, ainda que numa conexão, de certa forma, indirecta. A associação do hidrónimo a “Podence” resultará, seguramente, da posse das terras de Lamas de algum donatário com o nome Potentius, do qual derivará, em genitivo, Potentii (villa).

A ocorrência deste nome latino, não sendo vulgar, ficou registada em alguns documentos ou na narração de alguns acontecimentos, como são exemplo a presença do bispo Potentius de Lugo no Concílio de Toledo em 693, convocado por Egica ou o envio do prelado Potentius, por parte do Papa Leão I, em missão junto dos bispos africanos. Será, eventualmente, este Potentius o bispo mencionado em Tipasa, na Mauritânia... A história da Batalha de Adrianópolis, em 378, regista a morte do filho de um magister equitum romano, Ursinicus, com o nome de Potentius. Contudo, a primeira situação em que Lamas surge, documentalmente, associada a “de Podence” acontece, como já referido anteriormente, apenas no séc. XV. Atendendo a que a aldeia vizinha já tinha uma longa existência, notando que não há qualquer anterior ligação e ressalvando que os detentores de Lamas eram, à altura das primeiras Inquirições, Nuno Martins de Chacim, o Mosteiro de Castro de Avelãs e o galego “Gonsalvo Petri”, parecer-me-á que a história sobre o cavaleiro francês companheiro de lides do conde D. Henrique não passará de um mito. Com toda a probabilidade, dada a proliferação de locais com a designação de Lamas, ter-se-á optado por afirmar que esta era a que ficava ao lado de Podence. Daí ao Lamas de Podence terá sido um pequeno passo… Provavelmente… Ou não… Finito...
Sem comentários:
Enviar um comentário