
O presente jamais poderá ter a incumbência de apagar o passado. Poderá, quando muito, reescrevê-lo na forma de um assomo de orgulho, transmissível às gerações vindouras. Uma enorme fatia da reedição dos meus pretéritos tempos traz subjacente o que foi alterado pela Lei 55 de 2003: a designação de Lamas de Podence, retirando-lhe o agente possessivo. Para um “lamo-macedense“, nada mais se fez que transpor para a legalidade o que já legal era, pelo menos para os filhos de Lamas, desejosos de se verem livres dos grilhões de serem da freguesia vizinha. Isso não tinha jeito nenhum e passei a ser um descendente de Lamas de Lamas e “mai nada”! Tal como os de Grijó deram uma vassourada na pretensa vassalagem à freguesia limítrofe. E ainda bem que não há nenhuma freguesia vizinha que se chame Cavaleiros. Caso contrário, lutaria determinadamente de forma a ser apenas de Macedo!…

Mas, sendo “apenas” de Macedo de Cavaleiros, não posso ter a veleidade de trocar, simplesmente, de raízes. Não renegando a vertente genética com proveniência na “Imbernia Lamacense do Bernardo” e salvaguardando a memória do Dr. Urze Pires, que me arrancou artificialmente do ventre materno no Hospital da Misericórdia, julgo pretensioso ser um “filho de Lamas”, considerando-me, antes, um genuíno “neto” de Lamas. E um “cibinho” de “neto” de Corujas… e de Vinhais. “Filho, filho, sou filho de Macedo”… Só para enquadrar as “cousas”… Retornando a Lamas de Podence… Quando ainda dava os primeiros passos em arte nanomicro (agora está na moda) parietal, através de traços figurativo-esquemáticos em lousas, convenci-me de dois disparates (os primeiros de muitos…).

O primeiro deles relacionava-se com o “pontapé na bola”: acreditava que o Clube de Futebol União de Lamas, nos seus tempos áureos, mesmo desconhecendo em que recinto jogava, era o representante máximo do desporto da minha “segunda terra”. E tentava convencer os meus primos e amigos lamacenses da veracidade de tal facto… Santa ingenuidade… E santo isolamento… O segundo dos disparates possui uma ligação umbilical com o que aqui me traz hoje: a toponímia e a etimologia de Lamas de Podence. Versava o dito disparate sobre a dificuldade que a invernia trazia para transpor o percurso entre o Pontão e a casa da Avó. Como não havia carro que subisse, por entre frondosos carvalhais, pela enlameada vereda, era fácil perceber o porquê “daquilo” se chamar Lamas. Ficava, contudo, confuso na época estival, altura em que a dita vereda tomava o nome de estrada.

Como, de igual forma, me remetia para a confusão o facto “daquilo” ser dos vizinhos do lado, ou seja, de Podence. Para colmatar o estado confusional, cheguei a sugerir, julgando ter descoberto a pólvora, que nos três meses de inferno, o “povo” deveria adoptar a designação de “Poeiras de Verão” e nos restantes nove meses, “Lamas de Inverno”. Como os adultos se riam em forma de icterícia e eu só concebia um conceito de sorriso, julgava a proposta aceite por unanimidade e aclamação e ia jogar “ó rou-rou” outra vez… Entretanto, cresci, deixei de acreditar no Pai Natal, comecei a ler “A Bola” e asfaltaram o caminho que alternava entre lama e pó. Assim como o Vasco Santana me ensinou que “chapéus há muitos”, os jornais desportivos ajudaram-me a sair do gatinhar geográfico, demonstrando-me que “Lamas há muitas”.

Por isso sou capaz de levar com espírito positivo o estiramento do esternocleidomastoideu que me massacra vai para dois anos e persisto em incluir a literatura de cordel desportiva na minha ementa cultural diária… Só não percebi porque Lamas se manteve Lamas depois de pintarem a estrada de negro… Até que a curiosidade, leituras para lá do universo desportivo e outros valores me conduziram, entre outras “cousas raras“, a Herculano e aos PMH, a Hübner e ao CIL… “E prontos, mai loguinho hai puri mais, q‘agora já stou pr’áqui mêo a caniar e daqui a um cibo tanho o catancho do garnizo do b‘zinho, armado im Zé Cabra, a smoucar-me az'urêlhaze”…
2 comentários:
Sinto um arrepanhamento do esternoclidomastóideo, qual dificuldade que o ex-Presidente “Thomaz” sentiria a colocar a gravata, ao se abordar estas questões da toponímia.
Como diz José Mattoso, na sua introdução à biografia de D. Afonso Henriques: «Dada a enorme escassez de informações, verifica-se a necessidade de preencher as suas lacunas por meio de raciocínios dedutivos, de informações indirectas e de hipóteses explicativas, algumas das quais de base muito frágil, mas em todo o caso indispensáveis para se alcançar a compreensão possível dos factos e do seu encadeamento.» É precisamente desta forma que vejo, inúmeras vezes, a História e, concomitantemente, outras questõesa ela associadas, como são os caso da Toponímia, da Antroponímia, da Teonímia e de todas as "nímias" que me ajudam a perceber o alcance do que fui (na ascendência), do que sou (moi-même) e do que serei (na descendência)...
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