Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



sábado, 6 de junho de 2015

"Remebering" São Pedro

Não vou contar nenhuma história alicerçada num plágio ao Gabriel Garcia Márquez, nem me atreveria a alvitrar crónicas de anunciadas mortes, antes preferindo o sensacionalista feliz Verão da senhora Forbes, em versão contentamento restrito com o título. Poderá a senhora Forbes não se lembrar do “São Pedro”… Eu lembro-me…
…da 1ª edição, no longínquo 1983, a mente não me atraiçoe, rapazola esguio, nada habituado a hercúleos esforços do músculo, de “ocupação de tempos livres” a época, adveio a fava na rifa das selecções. A bem da verdade, talvez me tenha saído o prémio, esquissos da memória, lembro-me do saudoso “João Ginja”, de longa data amigo da família, em solene anúncio na forma de um «Rapaz, arranjou-se uma ocupação para as tuas férias. É pertinho de casa, mas vai ser duro.» E foi… Ou não, de acréscimo à experiência a recordação. Construíam-se as actuais Biblioteca Municipal e Junta de Freguesia. Era só saltar o muro para o olival que ainda por lá restava, era dos Padres Marianos, diziam. Erguia-se o esqueleto da obra a cimento e tijolos, escaldava, por esses dias, em quase impossibilidades de respiração, ia valendo o armazém de sacos de cimento onde as agruras eram, ainda assim, dificilmente suportáveis. Por lá rondava o encarregado, o simpático “Sô Joaquim”, dizia-se ainda meu primo, «Não te esforces, rapaz, que tens mãos macias.» Mas eu esforçava-me. Desajeitado, mas esforçava-me. 
Era uma espécie de “pintche”, sem saber bem o significado de tal coisa para lá da associação ao alcatrão. Tinha ouvido os homens que tiraram o pó do Toural a chamarem “pintche” à dita substância negra… Cheguei a pensar que ironizavam por apresentar características dos “copinhos de leite” provenientes de latitudes nórdicas… “Santa inocência”… Um dia, já depois de ter aprendido a fazer uma parede (que, qual milagre, ainda hoje se mantém hirta na Biblioteca!), disseram-me para ir com o “Manel Lázaro” para a “Feira”. Pensei que iria montar tendas, ou coisa que se lhes assemelhasse. Mas o “Manel” perguntou-me se conseguia aguentar com o peso dos ferros que serviriam de estrutura às “barracas da feira”. Seria a “Feira de São Pedro”…

Bem vistas as coisas, isto é presunçosamente histórico! Julgo, não me atraiçoe a mente, repetições de parágrafos outros, que terei participado, a ferros, parafusos, excessivo calor, porcas e chaves-de-porcas, na primeira edição da Feira de São Pedro! “Rais’partam as alembraduras”!

Avolumaram-se as experiências, em universos outros, rasgaram-se folhas de calendário, irreversíveis marchas do tempo. Da pureza a essência, de alguns nomes e formas ficam as letras, as memórias, a gratidão, o desenho mental de sorrisos e vocalizações, idos tempos de conceitos outros. Soam a longínquos, em paradoxos de permanência sob valores distintos, maleficamente distintos, onde se apregoa o umbigo em detrimento do cordão umbilical. Talvez pelo absurdo mantenha esta ligação às figuras que ajudaram a desenhar o lírico que sou. “Roubem-me a comida, mas jamais conseguirão roubar-me a fome”. Lirismos abjectos, o proclamarão os de anticorpos detentores… Fomes outras…


Transformaram-se os parafusos, de metamorfoses em inevitável evolução, o imberbe certame ultrapassou o acne, as dores do crescimento, as crises existenciais. Surgiram as luzes da ribalta, as mediáticas refregas intestinas, os passos menores, ou os maiores que a perna, os sucessos e insucessos. Repentinamente, ou talvez não, despertaram os Nostradamus, que Restelo não tendo e vozes havendo, encomendaram o féretro, anunciaram a cerimónia fúnebre aos cinco ventos, porque insuficiente o dobro do par. De súbito, em desenfreadas corridas, apressaram-se a mudar a cor das gravatas… “Ninguém escreve ao coronel”
…  

terça-feira, 2 de junho de 2015

Mundiais Dias da Criança


Dizem que todos deveríamos ser criança uma vez por outra, alternativamente, num sôfrego alternativamente que conduz a ser criança vez nenhuma. Por isso, ser criança está irremediavelmente restringido às crianças. Ponto final… Sofrer alegremente numa regressão à infância é saudosismo, é descurar um qualquer futuro cuja existência se desconhece, revivalismos bacocos apregoados como sintomas de irresponsabilidade, num endémico processo que menospreza a aparência. Não pode menosprezar-se a aparência, em jeito de retrocessos a tempos que convém apagar da biografia. Ou deturpações do carpe diem… Nutro desprezo pela aparência, num crónico “as iludências aparudem” gerado na infância, inversões de quotidianos muitos, ingénuas aprendizagens, repentinos laivos de uma rebeldia conscientemente controlada.
O ser ao invés do ter, sem receios de represálias por frustradas tentativas de idolatria pelas aparências, propósitos na incontrovérsia responsavelmente assumida de ausência de fenómenos alienígenas a que, quais líderes de matilha, rosnam como rabos-de-palha, ou incontidas indignações apregoadas sem qualquer pejo de atingir cumes pisando e repisando mãos. Não sobrarão dedos na queda…


Amanhã serei criança. Hoje sou criança. Ontem fui criança. Numa nostalgia pela pureza dos pontapés na bola, da porrada que ainda não equivalia a “bullying”, das “lapadas q’abriam a cabeça ó berde”. Ou pelos imperdíveis episódios da Heidi ou do Vickie, vistos inúmeras vezes nas casas dos vizinhos do Toural, num tempo em que, nessa vizinhança, as únicas fogueiras que existiam não eram as das vaidades. Cresceram esses vizinhos, passaram, salvo raras excepções, a epopeias-fantasma de convenientes desconhecidos, ou convenientes conhecidos quando as conveniências assim são convenientes. E capazes são de por nós na rua passar, saudando quando são previsíveis proveitos, ou ignorando quando o futuro vizinho é detentor de uma taxa de juro que supera os rendimentos da saudável saudação. Apetece-me ser criança, nessas alturas apetece-me ser inconvenientemente criança, numa “bárbara agressão” com uma “fisga de grampos”, “pernas pra que te quero”, indomáveis correrias a contar as peripécias aos parceiros de “terrorismo”. E, “rais’partam” as saudades, tenho mesmo saudades… dos malucos dos carinhos de rolamentos, sem pretensões de um carrinho ser melhor do que o do vizinho, apenas numa algazarra que incomodava os saudosos “Sô Joaquim”, “Sô Alberto” ou o “Sô Carlos”, porque lhes surripiavam as ferramentas, os parafusos, as tábuas ou os rolamentos. Depois riam-se e apreciavam a alucinante forma de incipiente Fórmula 1 imberbe. Mais pé esfolado, menos calça rasgada… Mudam-se os tempos… Hoje perguntam-me se é verdade que temos um “Umbigo do Mundo”. Invariavelmente, respondo: «Só um?»… Resposta infantil…        

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Ruminações na essência

A sério que me apavora a essência rejeitada. Como uma paciência em permanência desafiada, pela "comida da vizinha", ou por qualquer outra coisa que more para lá das fronteiras concelhias. "Será chuva, será gente", vergonha será, certamente? Vulgarize-se o tempo, venda-se a própria alma, se necessário for, ruboresça a face direita e permaneça a simétrica em alva postura. E aqueça-se o forno nesta invernia de contrastes, onde surge o sol obnubilado por máscaras aquiescentes da sombra. Agarro-me, a silvas o afogado, agouros estes de enfrentar as pétalas a ameaças de espinhos. Pairam as tempestades, e somem-se na efemeridade de um sopro divino, torpor este libertado pela sucessão dos dias... E dos eventos... E da vida... Sim, porque há vida para lá da crónica de uma moribundez selvaticamente anunciada, morrinha esta de molha-papalvos, não mata, mas mói... E molha, até os ossos praguejarem contra o enregelar de um sol da Islândia... Pois, a Islândia... E o Valter Hugo Mãe...
Que, pasme-se, visitou Macedo de Cavaleiros. Mas é lá terra para se visitar?...Já não vem cá ninguém, apologistas da desertificação dixit, terra de dois tostões, enclausurada entre o nada e o vazio, desprovida de interesse, povoada a desconforto... E mais um rol de pouca coisa que, de tão pouca não ser, indigna os que pululam, de conjectura em conjectura, em vãs tentativas de esvaziar o que, afinal, cheio parece estar. Mas isso, foi o "Ti Tonho que mo dixo"... E "bá, há que le dar um dezeconto, q'o home debe de ser mêo tchaloto"... Mas o Valter Hugo Mãe esteve cá, como outros já cá estiveram, e outros hão-de estar. Mesmo que, do Restelo as vozes, estes confins onde o sol parece não nascer, ocasos em sucessão a ocasos, permanentes trevas de um nunca acabado entristecer, não mereça a visita de tão ilustres figuras literárias. Louve-se o encanto da determinação, ou a permanência da crença. Mas o "tsunami literário", epíteto de Nobel prémio, esteve cá... Azares de uns, sorte de outros...
E poderia, tempo tivesse, para uma sublimação dos sentidos numa breve incursão a mais um local onde nada se passa, tudo se passando. Tempo houvesse... Ou esternutações com odor a sarcástico mundo onde... Nada se passa... De passagem, apenas. Só de passagem, ilustra-se a calçada a passos esguios, fome de ser, a solarenga em sorriso aberto de esperança. Está lá, ao virar dos "segadores", olhar espalmado por ruminações nesta não renegada essência, opípara degustação dos sentidos, e os rostos de Cristo desenhados a outros voos. Vá lá... Mas vá mesmo... Ou "o rosto que mudou o mundo"...
Em tempo de abelhas e conversas apícolas, "rais'parta que num se passa nadinha", unção de vetustas vozes em juvenis poses, da opulência de nadas feito o eco... E ecoa, inúmeras vezes ecoa, num buraco escavado à disparidade de ver a sublime essência a residir do lado de lá, sempre do lado de lá, obtusamente do lado de lá. Porém, a mim dá-me jeito vê-la do lado de cá. Mas só porque me dá jeito... Há mais de quatro décadas... "Catantcho pró Cabaleiro Andante que s'aputou co'esta terra!"... São as "Cousas", inexorabilidade dos dias, são as "Cousas"...

 
 
    

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Encantamentos... Feira da Caça e outras coisas...


Interregnos, buscas de uma interioridade nem sempre lembrada, a festa exaltada na passagem dos dias, algures, num algures de encantamentos tantos, nem sempre bebidos com a mesma intensidade com que se degusta uma qualquer ginjinha no pavilhão de entrada, ou nos que se lhe seguem. Ruminam-se os dias, incessantes buscas da alma das pedras, bem no âmago de um qualquer dentro nunca auscultado, trocas de conversas de circunstância, aqui e ali uma paragem mais, lábios ressequidos pela espera da excelência que sabemos existir. Mora na crença profunda do xisto, ou da originalidade que dela resta...
Depois, são as tentativas de exaltação da essência, produto nem sempre vendável, ou os vendilhões de um qualquer inexpugnável templo em incessantes assaltos ao inatacável. Um salpicão há-de sempre ser um salpicão ou, verborreias tantas, um "tchouriço" só é um "tchouriço" nas agrestes terras dos... "tchouriços". O resto são imitações, caras por vezes, travestidas a industriais invólucros desprovidos do suave aroma a terra. Viva a heterogeneidade, ou o que sobra "d'intchidos" povoados a compostos gaseificados que epitetam a originalidade a arrogância da essência. A essência não se adorna a epítetos... É adornada pela própria natureza de que se reveste, desentendida ao sabor das vagas da conveniência, aspirada em incessantes inspirações do não inspirável. Está cá, não há osmose que lhe valha... O fiolho nunca há-de ser funcho pelas "terras de trás do sol posto"...
Mas há-de ser chá de hepáticas inconveniências, ou de estomacais desarranjos, junte-se-lhe um "cibo" de cidreira, ou "uas folhecas de sálbia, qu'é mim boa pr'ázia". Seguidamente, é só tomar, em breves tragos de aromáticos perfis a pedaços de raízes. Mais uma ginjinha e amansa a densidade...
Recruta-se uma qualquer de rapina, sonha-se com alados voos de inalcançáveis horizontes. Olha-se, olhos nos olhos, penetrante olhar impenetrável, desvios contrários de opostas direcções. Prossegue-se, depois, rumo ao interior, apreços tantos pelo êxito da diferença, sorrisos em riste, e jogos inversos também. Revivem-se, antecipadamente, os Caretos, acariciam-se mucosas com hidromel, olha-se com esperança para um qualquer futuro desenhado a painéis, antes de prosseguir por ambientes decorados a festa, internamento em atmosfera embriagada a sabores de fumeiro, queijos, pão, bolos, e demais exemplares que não deixam adormecer o pecado. E bebe-se mais uma ginjinha, "rais'partam" as ginjinhas, sempre a desafiar os incautos para mais uma rodada de amigos, ou pretensos, ou ocasiões para saldar dívidas antigas a bandeira branca. Mais não seja, abafa-se o som do troar dos canhões, pacíficas meditações pintadas a inusitados chapéus e a canos amaciados a brilho de silêncio. 
E conhecem-se mais pedras paridas em pétreo reino, trocam-se galhardetes de apreço pela terra, partilham-se histórias ao som de um sempre inspirador toque de gaitas-de-foles, um petisco mais, «prefere alheira de caça ou normal?», venham de lá umas linguiças bem temperadas, ou o complemento de uma inigualável posta à mirandesa, condimentada a "Valle Pradinhos" ou "Quinta do Lombo", néctares da terra, ou saia o vinho da casa em jarro. De sobremesa? Sorrisos... Apenas sorrisos...


quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O Alustro num reino de esquecimento... (Sendas-Vale da Porca)


Na fugacidade dos dias, renovadas apetências para albardar o costado com merenda e demais apetrechos, máquina fotográfica a adornar pescoços ávidos por aliviar o peso de matinais geadas.

A Estação de Sendas como ponto de encontro para uma incursão à selva desconhecida onde um dia, a braços e dinamite, se esventrou a terra para passagem dar ao cavalo a vapor. E hoje, 18 de Dezembro de 2013, se cumprem 108 anos sobre a abertura do troço entre Macedo e Sendas... Sonhos de um século, nesta pungente dor que aviva fantasmas do Conselheiro Beça, enquanto se alivia o fardo das memórias de tantas incursões à capital de distrito... Arrojados Alustros estes, incautos parecem, na quase intransponível passagem para o lado de lá. Mas passam! Ou circulam, intrépidos, por paralelas vias. Valdrez há-de estar ali, e o apeadeiro, ou o que dele resta. Pelo caminho, um orgasmo vivo de cores e aromas, numa via que, de férrea, pouco mais lhe resta que uns parafusos esquecidos, aqui e ali, ou uns vestígios de madeira apodrecida. Amputada de ser, já não cheira a silvos, cheira apenas a um aterrador silêncio de morte. Até as pedras padecem de uma putrefacção semeada por carrascos do esquecimento...
São os acordes da impunidade, que a pétrea acumulação que sustentava as travessas queimada não pode ser... Ou "sucateada", de inventados verbos a sessão. Mas restam imagens de um tempo que não deve esquecer-se. A sordidez não se apaga, nem se oblitera a essência. Uma macieira perdida interrompe o périplo, ou venham discussões sobre a flora que, nada tendo de ré, invadiu pacatamente a linha. Paragem para apreciar a suavidade alcoólica de medronhos invasores, incentive-se o apetite para as sandes que massacram o lombo. Há-de chegar Salselas, e o amontoado de paredes assombradas pelo crepitar que, tempos idos, terá invadido o par de lareiras que por lá repousam. Subitamente, um arrepio temporal na espinha, pressente-se a azáfama de um pretérito quase esquecido, gente terá por ali morado, numa época em que nem o telhado nem os sonhos se desmoronavam com a agrestia do alheamento. Isto é nosso, talvez seja nosso, o diz a ingenuidade de um querer movido a desejos...
O Azibo anuncia a sua presença, característico borbulhar de indomáveis águas domadas. Há que atravessá-lo, está a jornada quase terminada, gente afoita para a travessia, encantos outros em oposta margem. Perdem-se as mentes nos reflexos do rio do olvido, Lima não é, que este de esquecimentos lendários não padece... Pinturas a pastel de folhas de Outono, telas de pureza que intensificam o olhar, a perdição de minutos tornados horas, um registo mais para uma posteridade que desconhecemos se existência terá. Pressente-se a chegada do frio, arrepia-se caminho nesta jornada emoldurada a lágrimas não vertidas.
Talvez o Azibo seja o choro da crónica de um finar anunciado no longínquo ano de 1905. Ou resquícios do suor lavado a pás e picaretas, no trinar de esforços de incógnita gente que, um dia, desbravou este reino do esquecimento para que os vindouros não carregassem o peso da distância ao litoral, ou à capital do império... "Atenção aos comboios... Pare, Escute, Olhe... Proibido o trânsito pela linha"... Qual trânsito?...     .
      


sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Ideias Natalícias



O Natal, ainda que destituído do universo mágico que carimbou a infância, persiste no encantamento dos sentidos. Mesmo que não seja fácil "botar" explicações acerca deste estado hipnótico, luzinhas para um lado, enfeites para outro, músicas de embalar o espírito, aculturações em forma de "oh, oh, oh" a partir do refrigerante que não fez voodoo ao mal parido sósia do mal amado candidato ao "balon d'or"...
Adaptações dos tempos, tinha mais apreço pelo "M'nino Jasus", cuja omnipresença deixava prendas em todos os sapatinhos do mundo e arredores. Porém, Natal é Natal, nem que as contingências obriguem a naturais contenções de bolsas e almas. E, de facto, sou um crente da época natalícia... Serei sempre um crente, não obstante o massacre de troikas que me constranjam a deixar de acreditar em trenós. O São Nicolau deverá saber como vir montado em renas, desconforto dos dias. Não continuarão as renas com invisíveis asas? "Que mai fai"! 
Como  me dizia um amigo, quando não se podem fazer omeletes com ovos, façam-se com cascas. E, inúmeras vezes, há omeletes com cascas que surpreendem o paladar, exaltam os sentidos, petrificam o olhar. Divagações gastronómicas à parte, aplaudam-se os empreendedores de ideias! Agrada-me esta ideia da "Cidade Natal". A sério que agrada! Porque, repetições muitas, sou um crente. Obstinadamente crente, descaradamente crente... E confesso que gosto desmesuradamente das decorações natalícias. Afagam-me as agruras, retemperam-me a escuridão, moldam-me o carácter para a persistência. E renovam-me! Pelo tempo que duram os efeitos, mais não seja, até à chegada do fogo dos Caretos... 
Hão-de vir os do costume, os que não "coisam nim saim de cima", descrentes de coisa nenhuma, crentes em coisa alguma. Estarão lá, à espera, afoitos por soltar impropérios à geada, que no tempo dela deveria estar o sol no zénite, e nos trópicos é que se estava bem, ou na Lua, que vento não tem e está sempre virada para o Sol... "Quem mo dixo foi um belho do Restelo, ou lá o q'staba scrito por o poeta birolho q'era mim guitcho pra botar uas ideias de doutore im forma de strofeze"... 
"Ma sim, q'a nha bila tchêa de luzinhas fica mim pimpona! Or sim? Digo ou, bá, que fico tchêo de proa mesmo quando se m'ingaranh'ó narize pra bêr'a câmbera co as jinelas á'lumiar a neite"... 
Dizia eu que me agrada esta ideia da "Cidade Natal". E, convictamente, vou tentar participar, ainda que tenha reservas relativamente ao meu (des)apurado gosto para enfeites. Sejam eles de que âmbito forem... E gosto de ver os segadores com vida renovada, mesmo que alguns insistam em apelidá-los de "cegadores", saiba eu que as "seitouras" também serviriam para tirar olhos quando "s'ingaliabam" uns tantos... Mas Natal não é tempo de "bulhas". Até o burrinho e a vaquinha permanecem em sossego no presépio. E por falar em presépio... Que tal um pequeno desvio até ao Museu de Arte Sacra?...
     

terça-feira, 26 de novembro de 2013

De regresso... Porque dizem que em Macedo não há nada para fazer...

Há fins-de semana que nos despertam da letargia, como se um qualquer relâmpago nos trespassasse a alma, penetrando em todas as latitudes e longitudes do ser. Talvez a rosa-dos-ventos traga, agora, um ponto cardeal chamado Renascente... Pode assemelhar-se a um efémero murro no estômago, e tudo volte à "normalidade", à tão apregoada "normalidade" dos dias que correm. Porque dizem que em Macedo não há nada para fazer... E talvez não haja...
A não ser que que se passe uma agradável noite de Sexta-feira a divagar sobre coisas tão desinteressantes como as marcas da presença dos cristãos-novos, tão nossos marranos, por terras de "trás-do-sol-posto". Envolvendo, pelo meio da tertúlia, coisas tão básicas como o orgulho de ser detentor de hemoglobina xística, ou granítica, "bá", ou coisa que o valha proveniente deste reino pétreo. Como não havia nada para fazer, fui a uma tertúlia literária... Mas poderia ter ficado a fazer coisas muito mais interessantes... Protestar num qualquer café acerca de não haver nada para fazer... Por exemplo...Mas fui a uma desinteressantíssima tertúlia literária... E, azar de um "rais'ma partam", ainda tive o privilégio de rever um grande amigo. Rever grandes amigos é não ter mais nada para fazer..
Desbaratada a essência do ser, gravidade dos factos, o Sábado seria preenchido por um percurso fotográfico, indelével marca Alustro, às entranhas da Linha do Tua, essa coisa mal amada por onde, um dia, de barba rija os homens, se dinamitou a pedra para passagem dar ao cavalo a vapor. Mas não havia nada de mais interessante para fazer... E não havendo nada de mais interessante para fazer, verguem as solas do calçado, reúna-se um grupo de "tchalotecos", arrase-se com o gelo matinal, vontades tantas estas, as de nada ter para fazer. Calcorrear o silêncio, onde um dia reinaram silvos que esventraram a terra, olhar para o vazio preenchido a memórias, escutar cada silva a ranger sempre que pisada era para dar passagem. E os risos, aquela coisa pecaminosa de quem nada tem para fazer. Haverá pior forma de ultrapassar um lúdico Sábado? "Tchotchos", estes Alustros são mesmo "tchotchos"...
Após um mais que insípido matinal e vespertino Sábado, e nada mais havendo para fazer, energias balofas essas, rumo às "Memórias da Maria Castanha", preferível é o colapso de um "bilhó" entalado na garganta ao engasgar do nada haver para fazer... Ouvidos cansados pelo estridente disparo de obturadores, escutam-se histórias da "Maria Castanha", esse tão nosso fruto, batata dos soutos. E ficamos encantados por nada haver para fazer... Porque, de seguida, haverá que rumar a outras paragens. Dizem que a Companhia de Dança do Norte terá um espectáculo no Centro Cultural. Centro quê? Blheargh!... Não têm mais nada para fazer?...
De repente, uma alucinante viagem que nos transporta, paralelismos outros, ao "The Wall"... Corpos em movimento, entrelaçar de coreografias, dança das emoções. Bailar de vontades, encanta-se o olhar em trepidantes sonoridades. Termina a sessão com um natural e unânime aplauso, de pé a gente, mãos aquecidas pela alegria de nada haver para fazer. São assim os dias, malfadados ponteiros de um tempo em que, nada havendo para fazer em Macedo, se fecham brevemente os minutos num desperdício de acordes em forma de teclas. Monótono, muito monótono... Agora, regresso feito, apetece-me ir fazer alguma coisa... Nesta terra em que, dizem os crentes, não há nada para fazer... E não haverá... Até ao próximo fim-de-semana em que nada farei...

 


  


sexta-feira, 19 de abril de 2013

Alustrices


Diz o incomparável que "Deus quer, o homem sonha, a obra nasce". Por bandas de Terras de Cavaleiros, não façam os da casa milagres, que de milagreiros está exógeno espaço cheio, Deus quis, o homem sonhou, a obra nasceu. Numa qualquer conversa de rua, emanada do circunstancial, pacatez dos dias, abane-se o estabelecido, o diziam os líricos, rubrique-se verbal acordo a manifestação de vontades e avance-se para a reunião de desconhecido exército. Não um qualquer exército, apenas um batalhão de sonhadores que nutrem, em simultâneo, inusitada paixão por disparos sem vítimas. Ou vítimas haja, sorrisos ou rugas gravados a recolhas de luz, obturadores em acção, permaneçam em paz momentos do pretérito, ou falem as pedras, surja quem disponibilidade tenha para as escutar. Da procrastinação dos dias não é feita a vontade. É vê-los, visão em riste, poetas de imagens, artesãos do olhar, perscrutando a noite ou sugando o tutano dos dias. Talvez o efémero do pormenor ganhe, subitamente, eternidade. 
Ou, vozes da reacção, o Restelo longínquo, não funcionarão, por bandas estas, da desgraça profecias. Queiram os feiticeiros recriar antídotos de fé muita, dobrar o das Tormentas e desbravar sentidos muito para lá da Taprobana. Deva o céu ser o limite, lá para um mar de estrelas nunca dantes navegado, onde os horizontes se diluam a metafísica. Querer é poder, o dizem os entendidos. "RAIS'PARTA" os ALUSTROS!!! Da resignação não desenham cartazes, telas formatadas a carolice, reinventam o tempo quando tempo não há. E sorriem, simplesmente sorriem, faces moldadas a sonho, que os olhos nunca se cansem e nunca fine a vontade. Depois, é só correr até à próxima paragem. Espíritos desenfreados em busca do nunca visto, irmandade da imagem, voam com os pássaros e lançam privadas orações aos altares da memória. Dizem que querem preservar o património e as gentes, planar como milhafres, entrar no estranho bailado nupcial de mergulhões, imiscuir-se nos aromas de selvagens orquídeas, disputar território a répteis e anfíbios. E captam afectos, na desumanidade da persistência, o dirão os escravos do medo. Talvez as paixões sejam mesmo assim, refrear do racional na irracionalidade do querer. 
Não se explicam, sentem-se. Apenas e tão só, sentem-se. Digo eu, mero Cavaleiro Andante, sonhador de letras e imagens, é assim que vejo os sonhos. 
Só os entendo esquissados a lápis sem cor, coloridos a giz de paixão. Numa qualquer lousa perdida no tempo e partida em partilháveis pedaços. Gostava de ser Alustro, a sério que gostava, ser parte de um bando de pardais à solta. Provavelmente, convidar-me-ão, tudo tem um preço afinal... Julgo já ter a ficha de inscrição, especial impresso para anónimos sócios, Macedo tem vida, ou vida quer ter. E tem património, gente, potencial, atmosfera... E tem Bornes, Nogueira... E Monte de Morais... E tem Azibo... E tem Alustro - Clube de Fotografia A. M. Pires Cabral... Venham mais cinco...    




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domingo, 7 de abril de 2013

Escuteiros - ou regressões ao 602...



Sermos tomados por uma quase incontrolável emoção, olhar perdido num quase infinito, violações ao tempo presente por um pretérito com irrazoáveis tonalidades a futuro. Fixações numa armação decorada a amarelo, verde, azul e encarnado, tremeluzentes ornamentos, no finito de um colorido derretido a esperança. Relembrei nós, acampamentos, fugazes recordações, de mochila às costas, fogos de conselho, não adiadas promessas. A controlada comoção, num assomo de passado, inesquecível, como inesquecíveis são as memórias. Ao vê-los, perfilados, alinhadinhos, no temor de uma qualquer falha de protocolos tantas vezes treinados, repetidas promessas de avanço etário. Tão pequeninos os Lobitos, encantadores. Lembrei-me da primeiras reuniões no piso inferior da "casa do padre". E da adrenalina do primeiro acampamento, liderado pelo saudoso Rui Santos, lá para os lados da ponte ferroviária de Vale da Porca. Áureos períodos da Linha do Tua, era o "cavalo" ainda a vapor, tremia a ponte à sua passagem enquanto eliminávamos os resíduos de gordura nas límpidas água do Azibo. Os "putos", os indomáveis "putos" de lenço amarelo... 
De repente, dei por mim a celebrar a Promessa. «Prometo, pela minha honra e com a graça de Deus, fazer todo o possível por: cumprir os meus deveres para com Deus, a Igreja e a Pátria; auxiliar os meus semelhantes em toda as circunstâncias; obedecer à Lei do Escuta»... As gavetas da memória abriram-se, sem aviso prévio, marcas da nostalgia, talvez. Alerta, sempre Alerta. Ou, Escuteiro por um dia, Escuteiro para toda a vida... Era hora de apadrinhar a promessa do futuro Explorador. Emocionei-me, a sério que me emocionei... 
Ficava a voz embargada, quase castrando a repetição do que ao microfone ouvia. Talvez fosse o eterno espírito de Baden Powell a provocar o estremecimento. Ou o incontrolado desejo de revivescência... Senti um orgulho imenso no 602, semelhante àquele que sentia enquanto entoava a "Radiosa Floração" de tempos idos, no indómito grito de "Escuteiros leais, avante, avante!"... Os Chefes Rui, Fátima, Afonso, Manuel Joaquim... A minha Patrulha Lobo, ou a Veado de avanços outros, lá longe, já ao virar da Associação de Socorros Mútuos para o Bairro de São Francisco. De súbito, lembrei-me de umas fotos que vi, algures, pela rede social... Faces que, evoluções celulares, perderam naturalmente a graciosidade de epidermes esticadas pela juventude. Mantêm-se graciosas, de igual forma. Tal como graciosa ficou a minha vontade de regressar... De repetições também se desenha a vida... Escuteiro por um dia, Escuteiro para toda a vida. Não fiz a Promessa... Mas prometi a mim mesmo o regresso, enquanto assistia a um inenarrável e comovente esvoaçar de lenços ao vento...

(Fotos "surripiadas" da autoria de Alexandra Mascarenhas)


    

     

quinta-feira, 28 de março de 2013

Bô! Dunde carbalhitchas s’indrominou o folare?


Coisas há que nos acicatam esta soberba de às pedras ter pertença. Como se os desafios se sucedessem, numa amálgama de formas aparentemente desconexas, entre prefixos e sufixos, radicais tantos de heranças latinas, árabes, helénicas e outras que tais, bárbaras até, os clássicos o diriam. De quando em vez, sofro deste achaque de contrariar o estabelecido. Demência, o dirão os intelectuais que, avantajado pedantismo, se servem à sobremesa do que vomitado é pela plebe… Afinal, Chacim não era adaptação linguística do arcaico “porco selvagem”, nem chacina de Árabes seria… Solte-se o porco ou tire-se coelho da cartola, não o derivado das pedras, antes o parido na humildade de ter a pretensão de contrariar o estabelecido. Repiquem os sinos da mente!... E recensões académicas venham à causa…
Mas deixemos o “Flacco” de lado e esqueçamos a “villa Flaccini”, outras que tais, que de sericicultura foram outras épocas desenhadas. É tempo da suavidade sedosa de folares a tecerem o êxtase de gustativas papilas, adornados a inconfundíveis aromas desprendidos pela “tchitcha” que recheio lhes dá. É a tradição a marcar pontos neste infame jogo de gula ancestral. E a eterna e histórica dúvida sobre “dunde carbalhitchas s’indrominou o folare”?
Descansem culinários peritos, imiscuir não me vou na excelência do que excelente é. De receitas quero saber-lhes apenas o resultado… E o registo das etapas… Ou inventá-las… Mas ao que interessa vamos…
Qual o significado de folar? Dúvida dos tempos, incisiva questão, dicionaristas se consultem, na embasbacada postura de possuir o dito folar uma origem obscura, especialistas dixit, impossível sendo atribuir-lhe, com segurança, um étimo latino... Como só acreditarei incondicional e piamente na ida à Lua quando lá “botar as patas”, de S. Tomé influências, pruridos me gera esta coisa de os ditos especialistas “botarem” obscurantismo na paternidade do vocábulo “folar”. Quando provo a iguaria, sabe-me a tudo menos a filho de pai incógnito… Ou a resquícios de germânico bolo, “flado” o diz o insuspeito Moraes, como se o mel algo tivesse a ver com o folar. Ou “poularde”, como o afirmam Faria e Lacerda. O folar derivado de frango?! De frango?... Creio mais nas derivações lendárias de Mariana e Amaro, mais o fidalgo sem nome, “floralis” o dizem os entendidos. Creio mas não acredito! Insuficiências de descrente… Só porque, raridade legada pelo “Tabellião” da excelsa vila medieval de Ferreira de Aves, lá para finais do séc. XIII, feito foi um “emprazamento” de metade de um moinho localizado em Folares. Onde? Folares??? Hummmm…. Dizem actuais cartografias que a dita Folares do documento evoluiu para Forles. Auscultem-se, de novo, os entendidos em toponímicas questões e de Folares a Forles influência terá tido a antroponímia de Froila derivada. 
Coisa em que, massa de farinha e ovos pelo meio, não acredito. Mais coisas da descrença… E adiante que, suspeitas da gula, lá me conduziu o folar à fogaça, iguarias de Terras de Santa Maria. Daqui a terras da península itálica foi um salto de pulga… E apareceu a “focaccia” a esgrimir argumentos. Mergulhe-se nas “Etimologias” do célebre Isidoro, lá para meados do séc. VII, e já por lá se vê a “focaccia”, meandros do fogo, “focus” para os pais da latinidade. Do fogo sairá, mundo pagão dos Deuses Lares a acrescer, no feminino de “focácius”. Talvez me “botasse” agora a um “carólo” do bem latino “panis focacius”… Há-de ter evoluído, tê-lo-á feito, seguramente, ou não teríamos hoje o “focolare”… Digo eu, na insapiência vertida de uma qualquer adquirida ignorância. Ou não nos dissesse a De Laude Virginitatis que
o conduto se “coctura in focularibus praeparata”… Derivações de paternidade em “foculare”…
Avance-se até ao medievo, das trevas lhe chamaram, erradamente o direi. Voemos até à Baixa Latinidade, ao “focagium”, imposto de feudalistas timbres, por cá derivado em fumádego, direito de fumagem ou fogaça. Lá teria de haver explicação para se contarem fogos ao invés de casas… E já se pagava uma imberbe forma de IMI… Aos desgraçados dos contribuintes, «alem do foro a que sam obrigados e concertados com o senhorio oyto alqueres de fogaça»… Só para um exemplo citar… 
Ou outro, lá para o séc. XII: «…Et in servicium unam fogazam de duobus alqueiris tritici…». Por estas bandas, também os ilustres donatários do infeliz Mosteiro de Castro de Avelãs se rogavam ao direito de considerar os que em suas terras moravam «bassalos do mosteiro» e «pagam mais de fumadego cada hum para acender foguo quatro dynheiros e meio». E das obrigações seculares, dos tempos evoluções, se terá passado para as religiosas. Como diz o inestimável Abade de Baçal, «Também na mesma semana gloriosa os párocos visitam as casas dos fregueses, lançando-lhes água benta e suplicando a Deus que prospere bem os moradores, ao mesmo tempo que levantam o FOLAR.» Ou resquícios do «focagium»… Pagamentos em «focolare»… Ou em «fo(co)lar(e)»… Digo eu…