Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



terça-feira, 24 de novembro de 2009

Kings Cross, exclusões, Goleman e emoções

Poderá parecer uma aberração a incongruência visível na sequência que titula esta "cousa". E, provavelmente, até é. Ou não... Há dias em que nos apetece estabelecer uma ligação desconexa com o mundo. Como se nesse mundo se tivesse operado uma trancendental reviravolta, qual efeito de uma rápida inversão da tectónica de placas que nos colocasse (de novo) no Gondwana e passássemos, efectivamente, a estar de pernas para o ar. Seria, apenas, a prática aplicação do que já sofremos em teórico-práticas... Mas, afinal, o que tem uma região londrina a ver com esta repentina desconexão? Desfaça-se o nó... Já por aqui trouxe, em duplicado, segundo o que a minha memória me permite alcançar (vá, uma das situações ainda está pintada de fresco...), o nome de Pedro Pires. O tal ex-futuro físico que se transformou num presente coreógrafo e bailarino e que, para lá da excelência de ter nascido no concelho de Macedo, adquiriu uma boa parte das suas capacidades "vagueando" por Kings Cross, facto que o levou a homenagear a dita região londrina através da atribuição da sua nomenclatura ao espectáculo que, actualmente, dirige. Por muito que tenha na família próxima uma promissora futura bailarina (mais virada para voos de cisnes tchaikovskyanos, que para dança contemporânea), e não deixando de considerar a dança uma arte suprema, confesso que o bailado propriamente dito, seja na vertente clássica, seja na contemporânea, não me seduz. Mas não deixo de celebrar as vitórias de quem lhe dedica uma vida, da mesma forma que não deixo de apreciar outras vertentes da dança. Seja isso, ou não, (in)cultura. Bem vistas as coisas, o facto de apreciar mais o Impressionismo que o Cubismo não faz de mim um melhor ou pior apreciador de pintura... Digo eu... Pois o Pedro Pires, para lá de excelente bailarino, revela-se, de igual forma, um excelente crítico. E não posso deixar de aplaudir a denúncia que o mesmo faz ao afirmar que a região do Nordeste Transmontano é a única do país que está excluída da atribuição de incentivos à criação cultural. No entanto, não me importaria que esta fosse a única exclusão. Espero e desejo que a persistência do Pedro seja a força motriz para a sua não desistência. Infelizmente, Pedro, o Nordeste Transmontano é uma coutada de excluídos, excluindo, passe o pleonasmo, os incluídos numa cidade que também fica a Nordeste, mas apenas caso seja olhada a partir de uma das Regiões Autónomas. Mais infelizmente ainda, quando os excluídos passam a auferir dos rendimentos de incluídos, excluem da inclusão os que, através do "poder do povo", os excluíram da exclusão. Estamos excluídos? Queria dizer, estamos entendidos? Porque, a exclusão não se resume à criação cultural representada pela dança. É extensível a muitas outras áreas, num perímetro de tal forma abrangente que perderia o resto da noite a relatar o que o mesmo abarca. O que seria desejável é que, dentro desse perímetro, surgissem mais vozes a denunciar o esquecimento. Mas isso seria atentar contra os bons costumes de quem recebe os excluídos da exclusão com foguetes, bandas de música, alheiras e posta à mirandesa. «São tão hospitaleiros aqueles "tansos" lá de cima... Sugamos-lhes o que têm e ainda nos recebem com palmadinhas nas costas.» Pois este "tanso" que por aqui escreve subscreve as críticas do Pedro Pires e aplaude-o, pela sua arte e pela sua frontalidade. Venham mais "Pedros" a "botar" o dedo na ferida e a exporem o que lhes vai na alma de excluídos. Para isso, é necessário aprender a exteriorizar emoções. Algo que, a meu ver, nao é apanágio dos meus conterrâneos. Não é de admirar: somos um povo enclausurado pelo esquecimento de séculos a fio. Aproveitando o facto de a Escola Superior de Saúde do IPB ter criado uma associação para fazer face à incipiência do desenvolvimento de competências emocionais neste país, deixo o pedido para que a PAIDEIA leve os ensinamentos de Goleman aos cantos e recantos do distrito bragançano. Entre outras coisas, seria uma boa forma de ensinar que um protesto, de vez em quando, efectuado com a devida assertividade, mais não seja, geraria um pouco da auto-estima que parece andar, inúmeras vezes, arredia no "meu" povo transmontano. Porque será que, como um orgulhosamente genuíno transmontano, sinto que aquilo a que, simpaticamente, chamam de hospitalidade transmontana, não passa da manifestação de uma postura subserviente tão do agrado dos que a apelidam de simpática? Porque será?...

2 comentários:

Koky disse...

O problema é que muitos transmontanos, habituados ao arrastar de décadas de exclusão desistiram já de lutar. Outros não sequer se incomodam com o que consideram questões que os não afectam. Ainda há aqueles que esquecem a sua terra para não mais voltar e nem tampouco vêem nela o potencial para suprimir a urbe onde se enclausuraram e os poucos que se prestam à luta, vão conseguindo pequenas conquistas por entre a miríade de derrotas que a força "ostracizadora" nos impõe. E contudo, nós lutamos, quase no esquecimento, com toda a nossa força, para que não nos calem. E não nos hão-de calar.

Cavaleiro Andante disse...

A mim, pelo menos, não me calam...