Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Homenagens à Castanha da Terra Fria

Diz a tradição que deveríamos estar a aproveitar uns dias de uma descontextualizada mini-época estival. Porém, o S. Martinho resolveu, extraordinariamente, antecipar o seu habitual Verão. Já lá vai o Verão, e já lá vai também o S. Martinho, ofertando-nos a sua capa, à semelhança do que ao mendigo fez, só que, desta vez, na originalidade em forma de céu carregado. Haja chuva e hajam castanhas, mesmo que de tamanho diminuto. Em tempos longínquos, ainda a meninice era minha companheira de correrias e tropelias, estes dias eram marcados por um qualquer “magosto” comunitário, fosse o dito em frente ao adro da minha Lamas-paixão ou no terreiro do meu Toural-nostálgico. Nos dias que correm, o dito “magosto” restringe-se à comunidade do ambiente familiar. Procura-se renovar o transe de uma “infurretadela”, tentando-se transmitir aos “cavaleirinhos andantes” as emoções de risadas infantis que acompanhavam cada “stourote” de uma castanha que saltava, aleatoriamente da fogueira, numa trajectória que, por vezes, ia de encontro a um qualquer desprevenido que se abeirava em demasia do calor das chamas. O fim-de-semana que se aproxima trará a Lamas a revivescência das tradições do S. Martinho. A VII edição da Feira da Castanha por lá andará, com encontros e desencontros, particularmente no que ao “vai à adega e prova o vinho” respeita. Por lá não estarei… E por cá me ficarei, na esperança do sucesso de tal edição. Não só porque a castanha constitui um dos principais meios de subsistência económica da região macedense, mas também pela apreensão que me vai gerando o flagelo da doença da tinta e do cancro do castanheiro, que tanto têm afectado os soutos transmontanos. Mesmo que, a dados de 2006, Portugal não represente mais que 3% e 9%, respectivamente, da produção e da área mundiais, o “meu” Trás-os-Montes, segundo o Recenseamento Agrícola que antecedeu o que agora está a decorrer, detinha 75,8% das explorações e 89,9% da área de castanheiros do país. Números que evidenciam a importância e o impacto que os soutos têm para a região. No que concerne ao concelho de Macedo, o mesmo encontra-se abrangido na região de produção da DOP Castanha da Terra Fria, sendo que a variedade predominante, acima dos 70%, é a Longal, ainda que seja possível encontrar outros espécimes, como a Judia, imagem de marca da vizinha Padrela. Não é de estranhar que a paisagem concelhia, especialmente na sua parte setentrional, seja pintada a soutos e, nalguns casos, a castinçais. De igual forma, não admira a proliferação, no concelho, de fitotopónimos como souto, soutinho, soutilha, castanheiro e castanheira. Ou a decisiva contribuição para a nomenclatura de Soutelo Mourisco. Este apego ao castanheiro europeu (Castanea sativa Mill) vem de tempos imemoriais. Contrariando a ideia veiculada durante muitos anos, não foram os Romanos os originais introdutores do castanheiro na península e, mais especificamente, em Portugal. Terão sido o percursores do seu cultivo… De facto, os avanços nos estudos palinológicos e antracológicos sugerem que esta espécie teria existido no território português, particularmente a norte, na fase prévia da vulgarmente apelidada de Idade do Gelo. A última Era Glaciar, o Würm, cujo máximo terá sido atingido há cerca de 18.000 anos, terá obrigado ao recuo do castanheiro para refúgios ecológicos, como parece ter ocorrido com a região cantábrica. É provável que, com este recuo, o castanheiro se tenha, entretanto, extinguido na área compreendida pelo actual Portugal. A partir desta provável extinção, será necessário avançar até há cerca de 3700 anos para detectar as primeiras provas incontestáveis do cultivo do castanheiro pelo homem. As mesmas são provenientes de regiões abrangidas pelo Mar Negro, nomeadamente a região nordeste da Grécia ou a Anatólia. As qualidades detectadas na madeira e nos frutos terão conduzido os Gregos a difundir esta magnífica árvore, atingindo essa mesma difusão as colónias helénicas na Península Itálica. Serão autores clássicos, como Plínio, a enaltecer a versatilidade da madeira, evidenciando a sua especial aptidão para material de suporte das tão amadas videiras dos Romanos. A posterior romanização da Península Ibérica traz consigo, entre muitos outros legados, a difusão do castanheiro sem, contudo, existirem evidências de uma plantação exaustiva e sistemática. Será necessário aguardar pelo séc. XI para, até ao séc. XVI, se assistir à proliferação da cultura de castanheiros, especialmente na zona norte do país. Este auge de cinco séculos traduz-se na representatividade que a castanha passa a ter na dieta de um povo que vive na austeridade de uma das regiões mais remotas do país. O mesmo fruto passa, inclusive, tal a proliferação que atinge, a fazer parte do cardápio da doçaria conventual. Uma análise superficial aos relatos paroquiais de meados do séc. XVIII permite atestar a importância, nas freguesias do concelho de Macedo, dos soutos, juntamente com a vinha e o centeio. Contudo, a introdução do milho e, de forma mais acentuada, a da batata, a partir de finais do mesmo século, conduz ao primeiro fenómeno de decréscimo da produção de castanha. Outros se lhe seguiriam, desde o abandono dos campos, até ás pragas que vão atingindo os castanheiros. No entanto, um pouco á imagem da resistência intemporal desta árvore, o fruto castanho, desde o aconchego do seu ouriço, persiste em estruturar um pouco da identidade transmontana, bem como a sua paisagem. “Bai um copetcho de girupiga c’um bilhó?”

2 comentários:

Koky disse...

Ele há cousas que tardam em achar-se, mas quando se acham são bem e bons achados. Li atentamente diversos artigos, inclusive os já arquivados primeiros meses de vida do blogue e posso apenas concluir que, tarde vale mais que nunca, sem dúvida, mas bem tarde descobri eu este blogue que, tanto gosto me deu ler este fim-de-semana e espero não mais perder pitada dos seus dizeres da pátria transmontana nossa mãe que, mui bem constatou, parecem querer relegar-nos a mãe de filhos da "pútria".

Cavaleiro Andante disse...

É uma boa nova verificar que o "desinteresse quase total por estar interessado em coisas" tenha sofrido uma leve metamorfose e haja um "interesse por estar interessado em COUSAS"... Especialmente, pelos vistos, vindo de um macedense. Obrigado pela companhia.