Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

O dia da Carne Vai

É um dia como outro qualquer... O céu assumiu a apatia do nem chove nem deixa chover (malandrices, apesar do espírito carnavalesco, não são para aqui chamadas)... Dia amorfo este, sem chama, sem o colorido de outros tempos. É por estas alturas que a omissão da fanfarronice me arrefece o espírito. Socorro-me das memórias, e de imagens surripiadas, com a devida autorização do "excelente fotógrafo". Poderia ter descido uns poucos de quilómetros. Mas não há Caretos e "Madamas"... E não há Podence, nem Lamas, nem Macedo, sequer. E não há frio cortante, por muito gélido que esteja o ar marítimo. Faça-se um recuo no tempo... A um tempo em que o Carnaval ainda era Entrudo. Os já por aqui mencionados "peidinhos engarrafados" faziam as delícias dos empertigados narizes. Vem-me à memória o velhinho "Ciclo" onde, numa das suas espartanas salas, um rapazola, hoje verdadeiro senhor macedense, resolveu que haveria de boicotar uma aula de Inglês. O nauseabundo aroma que premiou a atmosfera deixou a professora indiferente, por orgulho, ou por narinas entupidas. Cumprida a ordem de fecho das minúsculas janelas, os meus sensores olfactivos ainda se arrepiam com aqueles 50 minutos de degredo. E a minha memória visual regista aquela imponente figura que, ironicamente, ia repetindo: "What a pleasant smell! Don't you like it?"... A solidariedade fez com que ninguém o tivesse acusado... Cousas de outros tempos... Era um tempo em que os "stourotes" e os "rasca-paredes" mais não eram que uma inofensiva brincadeira que hoje transformaram em algo semelhante a um qualquer campo minado do Afeganistão. Tempo em que o Jardim era transformado no culminar de preparativos de um arsenal único representado pelas "bombinhas de Carnaval". Que eu saiba, nunca ninguém se "friu". Nem quando duas pessoas que eu bem conheço resolveram abafar o som da sequência de "bombinhas" com uma craterazinha aberta em pleno Jardim com recurso a dinamite... Não morreu ninguém, não se registaram feridos e não houve necessidade de chamar o helicóptero do INEM... Já se sabia que o dito das hélices não passava de uma brincadeira de Carnaval... Havia as "caretas" vendidas na Tabacaria, na Livraria, no "Snhô'Iduardo" ou no "Snhô'rmando". De um qualquer polímero que tresandava a plástico e que obrigava a destapar o anonimato de quando em vez. Os "disfraces" eram arrancados de esquecidos baús onde repousavam velhas lendas, mistura de rendilhados ocultados pelo tempo, trapos ultrapassados, "tchanatos" com histórias para contar. No final, ganhava o mais garrido e o mais esteriotipado. E dava a "risa" a todos... Especialmente quando não havia susceptibilidades feridas por ficar "imbuligado" com um cocktail onde entravam farinha, farelos, cinza e água. Parecia que a "sostrice" se assemelhava a medalhas de guerra. Quanto mais "côtras" houvesse para limpar ao final do dia, mais intensa tinha sido a jornada. E havia o terror dos Caretos, nada de etnográfico, nada de manutenção de tradições. Era o terror puro, em versão ligeiramente mais pacífica que uma guerra. Mas havia uma batalha de chocalhos que aterrorizava as raparigas que se refugiavam no primeiro esconderijo que encontrassem. E houve histórias de violência. Como aquela em que alguém despejou água a ferver em dois ousados que subiam pelas paredes de xisto... O que eu gostava era do pânico por que eram tomadas as mulheres. "Fuge, fuge, que já'i bãim!!!"... O fascínio por aqueles seres diabólicos que vinham em desenfreada correria em busca de vítimas superava qualquer medo. Ficava atónito, assistindo ao alvoroço da gente, enquanto aquelas figuras pintalgadas a lã colorida desciam a partir da eira, onde terminava o caminho vindo de Podence. Os chocalhos anunciavam o apocalipse! Um qualquer fim do mundo que eu não entendia muito bem. Tal como não entendia porque o mulherio se agarrava, em suplício, aos putos que circulavam pelas imediações do Cruzeiro. Ou porque, em última instância, se enclausuravam, horas a fio, dentro de perímetro marcado pelo adro. Respeitinho pela infância e pelo sagrado... No final, zarpavam os demónios de volta a Podence e contavam-se macabras histórias de indefesas donzelas que "ium ficar thchêinhas de maçaduras"... Haveriam de ter que dar o chá ao bafejado pela sorte dos casamentos anunciados a partir dum mega-funil, lá para os lados do cemitério... Com sorte, poderiam ter como retribuição uma "cacada", elaborada a partir de telhas velhas, do que se encontrasse, acompanhadas dos meus tão adorados "bulharacos"... Era Entrudo...

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