
Quando a prolongada ausência desperta os suspiros da sua letargia, as saudades vociferando, num protesto virulento nascido da ausência... Quando os sentidos perdem o Norte, carregando o peso da longitude que os afasta da textura da terra-mãe... Retira-se, sorrateiramente, aquela compota com sabor a Trás-os-Montes, religiosamente guardada para um momento especial. Desperta-se o pão do Ti Luís do seu sono congelado. E aguarda-se pelo finar dos momentâneos protestos da alma... Não finam os ditos, não se sacia a alma. Recorre-se àquelas azeitonas especiais, treinadas para elevar as papilas gustativas ao éden, socorre-se uma alheira esquecida no desolador frio de um congelador.

Salva-se a dita, que nos retribui o esforço com aromas únicos e distintos gostos. Repentinamente, lembramo-nos de visitar um velho amigo, perna que já foi, presunto, chamam-lhe os entendidos. E eis que, do nada, surge a antecipação de gostos pascais. Nada de transcendente, já não faltam os 40 dias... De súbito, ergue-se o gosto pela epopeia. "Não é tarde, nem é cedo! Fazemos um folar?" Reúnem-se as tropas... Ancestrais saberes na retaguarda... As alas, qual guarda-de-honra, farinha, fermento e ovos de um lado; azeite, manteiga e sal do outro... Na vanguarda segue a indómita vontade de seres a quem lhes corre sangue de xisto nas veias...

Começa a batalha da tradição. "En garde!" Desfere-se o primeiro ataque, forças centradas no presunto, estocada após estocada, vai cedendo às investidas do gume afiado. Recobram-se forças, rapina-se um dos moribundos pedaços do desmembramento, acalma-se a seca garganta, enquanto se aguarda pelo apoio da retaguarda. Sábias mãos, veteranas de longas batalhas, saber de décadas acumulado.

Investem as alas, imbuídas de uma abnegação tal que, em breves instantes, impulsionadas pela valentia da retaguarda, se confundem no campo de batalha em que um alguidar se transformou. São momentos de ansiedade, desfeita a ala dos ovos, confundida a da farinha. Entram as gorduras na liça, não se percebe o que em tempos foram. Pede-se ao repórter para abandonar o campo de batalha, mantém-se o mesmo em serviço nas imediações. Protesta o comandante, protestos em vão, diga-se. Afinal, dever de repórter é transmitir ao povo o que se passou. Imparcialmente!

Terminada a peleja, honra aos vencidos, homenagem aos contendores. Enfeita-se o palco das cerimónias com escorregadia gordura, que os convidados não se podem pegar. Aquece-se o salão, não os apoquente o frio. E espera-se... Pacientemente, espera-se. Enquando os sentidos vão sendo atormentados pela invasão de odores a tradição que se vão acumulando no espaço. Não há forno típico, nem o inconfundível perfil aromático da lenha transmontana, mas há o familiar cheiro a folar!

Aquele cheiro que me faz voar sobre Bornes, planar sobre o Azibo, desafiar a subida à Senhora do Campo, perder-me num labiríntico resgatar de memórias. E salivo... Qual reflexo pavloviano, salivo, ao mesmo tempo que inalo a atmosfera transmontana em que a cozinha se transformou. A angústia dos sentidos acalma-se, finalmente, com aquela única visão de uma obra de arte ligeiramente tostada. Como que a querer partilhar desta orgia de aromas e sabores, a Natureza decide aparecer no festim, presenteando os sentidos com outras cores...
2 comentários:
Bem, só coisas boas. Está tudo com tão bom aspecto que é impossível não ficar com água na boca! :)
Eu fiquei... Até ter provado! :)
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