
Ainda falta rasgar uma folha do calendário, é certo. A crueldade do tempo, entre a inspiração do hoje e a expiração do amanhã, não se sacia com movimentos de lentidão dos ponteiros. Nesse tempo que parece distante, o futuro mesmo ali ao lado, os montes entregues à devassidão do abandono, restolho de vidas ceifadas por adiadas promessas, encher-se-ão de seiva, em forma de pó, certo é. É efémero, um fim-de-semana apenas, e mais que ver veículos artilhados em manobras inusuais, a emoção de assistir ao regresso de vida.

Montes ermos preenchidos por rugas na terra e pela gente com rugas que as lavrou. Caminhos que vão dar a lado nenhum, aquele onde ficam hospitalidades esquecidas e onde já ninguém se lembra de ir. Rasgos de idos tempos em que um qualquer Sino dos Mouros servia para chamar populações vizinhas à missa. Já não sei se há populações vizinhas ou, se as há, agonizam ao sabor de decrépitos edifícios escolares, vítimas, eles também, de um mundo que só tem olhos para o litoral. Silenciaram-se os sinos, vai-se calando a gente, mumifica-se a memória e ouve-se, cadenciadamente, o roncar dos motores.

Qual espuma de tempos esquecidos, nuvens de pó anunciam uma passagem mais. Eleva-se a gente, espera-se um qualquer deslize, aguardam-se arrojadas trajectórias. E faz-se mais um disparo, tentando vislumbrar o próximo rasto poeirento, enquanto vai escorrendo uma bebida mais que arraste o pó que se vai acumulando na garganta. Olha-se a gente em redor, gente da terra e forasteira gente. Sente-se um pulsar diferente a cada olhar, não sei se da novidade, se da saudade.

Protege-se o corpo de cada estocada no ribeiro que corre serra abaixo, salpica-se a alma escondido atrás de uma qualquer giesta e tenta-se captar o melhor momento para a posteridade. Sente-se o mar de xisto com ondas arbustivas, invasores do esquecimento. E olha-se, ao longe, talvez surja um pedaço de selvagem vida a questionar a paz invadida... O Rallye TT Serras do Norte é mais que um evento de desporto automóvel. É um presente, dado a gente habituada a prendas envenenadas, embrulhadas a papel de serviços públicos que fecham, dizem, por falta de gente. Querem que se cumpram requisitos. Quotas mínimas, afirmam, num território que querem deserto... Com barragens para alimentar o exterior da coutada...
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