Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



quarta-feira, 27 de abril de 2011

Folaradas - Injecções de distinto sentir


Ocasionalmente, uma sã insanidade apodera-se de ignóbil gente que, paradoxos de inventadas vanguardas, ao invés de apreciar o bulício de corredores atulhados de espécimes a paspalhar, pavlovianos reflexos atiçados por esfaimado monstro da criação do supérfluo, dedicação tem a artesanais formas de incremento dar ao assoberbamento residente nesta peculiar forma de ter orgulho em ter sido parido num mundo de pedras e calhaus. O Folar Transmontano parece ser um dos veículos da soberba... Porque não é um pecado mortal, nem moral o é, que moralidade é extasiar os sentidos com as riquezas que a criação nos facultou, e a gula, de pecaminosa, só quando satisfeita não é. Desvarios de um pretenso sandeu, fanáticos da modernidade o epitetarão, deliciosamente consumido até à medula por este incomensurável orgulho de fazer parte da prole da ignóbil gente. Porque a tradição já (só) não é o que era para os que idolatram o facilitismo de uma deslocação à pastelaria mais próxima em busca do produto acabado... "Inda há uns tchabascos que s'astrebim a indrominar uns folares e uas bolas à moda dos abós. Puri"... Haja vontade, ajuda, "tchitcha e óbos dos de berdade". E haja "quim os dêa, ou pitas poedeiras"... "Scatcha-se" o presunto, "amanhum-s'uns cibos" de salpicão e linguiça, "bota-se um tantinho de tchitcha gorda". Segue-se em alegre romaria para uma Lamas de encanto, torpor tamanho em genética espera, impagáveis sorrisos de compadres, afilhada também, abraço da alma de adoptiva irmã, a genialidade humilde de um calor único, impoluta chama que o espírito aquece. Nem o tormento meteorológico aplaca a ânsia do reencontro com a ancestralidade, retornos a uma velha infância em que o dia dos folares era oficial feriado do lar. Tempos outros, idos tempos, jamais esquecidos, sempre lembrados. Era a procissão "folaresca" aos fornos dos vizinhos, o dos Mascarenhas, saudosa D. Marquinhas, sempre sorridente, sempre diligente. Ou o da D. Deolinda, manhãs outras, em frente seguia o cortejo. Fina o passado, ressuscite-se o presente. Que a moda é a mesma, ingredientes o dizem, a vontade também, mudam apenas os actores e o cenário da peça, restituições de um pretérito nunca distante. Afinal, os aromas persistem em idêntico assombro dos sentidos, alternância às formas apenas, num repetido ocaso do ontem, deslumbramento do hoje que sobe. Amanhã será dia de repetições muitas, elenco outro, produções tais de substitutos realizadores de películas de intermináveis episódios da gente. É o Dia dos Folares, episódio infinito, oito prostrado, pessoais cunhos de intépretes que um dia passaram pela escola de dramática representação e noutro, "cousas" da inevitabilidade, cresceram. Profanação de um templo de costumes finados, moribundos talvez, sacrilégio dirão os adoradores de eléctricos artefactos. Ou uma inexpugnável resistência à herança de pais, avós e demais ancestrais, zelo da nostalgia, homenagens a oclusas vozes em registos da memória, articulados sons que um dia transmitiram o legado, vícios da alma, os direi, ou hedonismo dos sentidos. "Amassadeira" limpa, "amassadeira" pronta, alvo pó depositado em espera, há-de chegar a amornada preparação de amarela cor, casamento previamente combinado pela sapiência da tradição. Siga a boda que gente espera por tostado epílogo. Fecundações em forma de pasta em simbiose de branco com amarelo, envolvência paciente, braços que giram ao sabor de uma receita escrita nas paredes da memória. Lentamente, sem pressas, que longas são as festividades, vai-se sentindo o cheiro a inconfundíveis aromas, anestesiam-se nasais receptores, folga a mente de económicas convulsões, alivia-se a apreensão do futuro de um país adiado... Subitamente a estridente algazarra de umas mãos que à escola da vida foram resgatar inumanas forças para vergastar a disforme pasta que na "amassadeira" repousa. Surpreende a intensidade da flagelação, naquele incessante "chlap-chlap" que amansa a adormecida fera antes do despertar das leveduras. É o fascínio no feminino, como só um feminino ser é dotado para violentar a dureza tornando-a macia. Talvez a massa pressinta esse carinho em dóceis mãos que a chicoteiam num constante vaivém, numa paradoxal vexação que a amaciará a ternura. Impressiona a destreza, arregala-se o olhar para as formas previamente untadas, agora recheadas a pasta amarela, suavize-se o mortal pecado que o destino próximo está. E a "tchitcha", pedaços de antigo saber arrancados a porcinos seres, domados a fumo e sal como só uma transmontana cozinha pode adestrar. Apetece surripiar um pouco, mas inutiliza-se a pretensão com um "carólo de bola-subada com um cibeco de queijo curado", duro como extremidades bovídeas, saboroso como um divino manjar... Faz-se a cama aos folares, "mim amanhadinha", velhos cobertores de lã a servirem de abrigo, formas alinhadas e acomodadas ao sabor de antigos ensinamentos. Agora é esperar que "lebedem os bitchos"... "Abonda daí uas gestas pr'ácender o forno, se faxabôre!"... É hora de impregnar a atmosfera a distinto aroma de lenha resgatada ao monte. Força alucinogénica que asas faculta para viagens a remotos tempos, recorda-se a imponente figura da matriarca, a "Bó Maria", intensas viagens a outrora, motriz força para um sorriso mais. A curiosidade detendo se vai na evolução das chamas que fustigam o revestimento do forno, efémero regresso à mesa onde o garrafão repousa, um "copetcho" de permeio, retemperem-se forças para mais "ua gabela". Fomenta-se a combustão alimento dando à amostra de inferno, numa quase interminável espera pela chegada ao degrau da temperatura perfeita. Condimenta-se o tempo a histórias antigas, fecham-se as portas da amargura temperando o crepitar da lenha a reconfortantes piadas, "bô, dá-l'a risa àquela", "bota cá mais ua pinga atão", "num le qués tchiscar a mais um cibo de queijo?"... Discute-se a catástrofe do país, "homes" para um lado, "mulhés" para o outro, cruzam-se conversas em amálgamas de inentendíves vocábulos, por vezes, ambiente entrecortado por uma risada mais, calorosas formas de celebrar uniões de anos, cumplicidades paridas pela afinidade genética e pelo cimento da amizade. É a emoção ao rubro enquanto ruborizam as paredes do forno. Hão-de alvas ficar, diz a prioresa do forno. Destapam-se os acamados, "ulha que mim marelinhos stão!", acomoda-se o forno com o "ranhadouro", resgata-se a pá do seu esquecido canto e início se dá à invasão do côncavo cubículo que albergará enformados prazeres. Fita-se o incrível esboço que os círculos vão desenhando à medida que o infernal espaço é preenchido. Paradisíacas visões que excitam salivares glândulas... Seguem-se as bolas de azeite, "subadas" as dizem também, atulha-se o disponível espaço, fecha-se a porta a investidas outras. E espera-se, novamente se espera, num tamanho aguardar intercalado por mais uma pitada de sorrisos, conversa para aqui, discurso para lá, desconexa comunicação ali, ou silênio apenas. Anda rápido o tempo ou detém-se em oco momento, negligência aos ponteiros em emoções de familiar paródia, é assim o tempo na aldeia, num desfilar de apeadeiros e estações temporais que parecem ignorar o passar das horas. Como se um constante entretenimento da alma obstruísse a pressão da incontornabilidade dos dias. Destapa-se a boca do forno, pasmados olhares de surpresa, é chegada a hora do preenchimento da ânsia, finalizada está a cozedura. É a sublimação dos sentidos, rompem-se os laços que tempo deram ao tempo, numa luta por um estranho equilíbrio de tostado manjar em pá de forno sem mãos. Em breves instantes hordas aromáticas invadem o espaço, redondas formas exalam perfume a terra, a saber, a tradição, a memória, a emoção. Repetidos olhares atónitos, como se a visão fosse desvirginada por uma qualquer momentânea raridade. Mas não... É tão só um desmascarar de idas recordações, regressões ao futuro, inviolabilidades de recuadas épocas. "Incerta um dos que num têim thictcha a ber se stão bôs!"... Tudo se assemelha a um desmaio do tempo, num bloqueio da realidade, suga-se o tutano de amarelo petisco, como se primeva vez fosse. Surreal contágio... É a gula no auge, amparo na consciência, num frenesim repetido a cada ano e sempre renovado. São os tontos, gente que renegar não faz às origens, perseverança do querer, reminiscências de indígena fundo, louvores a memórias gravadas, renovar de laços, "tchalotice" talvez. É o degustar da tradição, num pétreo deglutir do sabor aos montes que nome deram a uma terra de encantos muitos.
São os folares, os nossos folares, alheamento de torres decoradas a asfalto e betão, fugas a corrupções muitas, cegueira dos tempos. É o orgulho sentido, este xistífero orgulho, nascido algures a nordeste, onde o sangue foi moldado a "tchítcharos" e "erbanços", a "butelo" e "butcheiras", a "pitas" e "parrecos", a "cotchino" e... A "uas carbalhadas, de bêze im quando, tamém"... "Bô era!"...

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