Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



sábado, 16 de abril de 2011

As cousas do "feicebuque"...

O sossego de uma pacata tarde de Sábado... Interrompido pela voracidade de uma ligação ao mundo. De súbito, o chapéu se lhe tire, no mural de um dos muitos amigos "feicebuquianos", um incessante vómito de fotogramas. Não umas reproduções quaisquer, tingidas a digitais modernidades, antes um desfilar de marcas do tempo, de um pretérito tempo em que a minha "vila" ainda não se tinha prostituído à infâmia do betão. Largos sorrisos, numa estranha simbiose com nostálgicos espasmos, como se um paradoxo do tempo me tivesse amputado o presente, resgatando-me numa temporal regressão a tardes de encanto, manhãs também, onde o garoto de arregalado olhar abandonou o ventre da Escola do Toural para ingressar na balbúrdia do "Ciclo". O "Ciclo" é que era! Por lá circulavam os "grandes", impalpável conceito em cujas entranhas me incluiria, seria "grande" também! Numa amálgama de gritarias muitas, algazarras constantes, sonoras derivações de proveniências várias. Já não eram só as familiares vozes dos "putos do Toural", afinidades tamanhas nascidas no regaço da professora Maria Cândida. Era o choque do mundo real, como se o "Ciclo" fosse um lá fora qualquer, num corrupio de gente que vinha das Escolas da Praça, do Trinta, e de todas aquelas aldeias das quais, em relação à maioria, só lhes reconhecia a familiaridade dos nomes, imaginando-as povoados de outro reino. Hoje reconheço-lhes o abandono, o esqueleto de xisto, as fantasmagóricas escolas de peculiar arquitectura, um dia preenchidas de vida, hoje exalando putrefactos aromas a morte, da perfídia nascidos... Era o Solar dos Vasconcelos, pátria do Externato Trindade Coelho de idos tempos, Escola Preparatória Eng. Moura Pegado de revolucionários anos 70, ou a simplicidade do "Ciclo" para uma horda de "putos". Era o degrau para a "Escola Técnica", que Liceu ou Secundária não tinham ainda conquistado o direito a vocábulos correntes. Era a conquista de um mundo que soava a inacessível enquanto duraram os quatro anos de desconfortáveis carteiras de madeira, reguadas de quando em vez, castigos por não se saber na ponta da língua os nomes dos rios de Portugal, e o conforto gerado pela segurança da mesma sala, da mesma professora, das mesmas caras, do mesmo recreio. Hoje soa a incoerência do crescimento da infância. Afinal, imaginava-me "grande", "puto" sendo...
Mas permanecem irremediavelmente gravados os aromas da inglória "grandeza", as imagens desse ritual de dúbia penetração na adolescência. O fascínio da "escola grande", com um recreio "grande", com gente "grande". E com imensos professores, incomparavelmente mais que a singularidade da professora Maria Cândida! De repente, tenho as memórias tomadas de assalto por um rol de nomes que me marcaram os dias, a formação, a educação: a prof. Iria, o prof. Campos, a prof. Inês, o prof. Seabra, o padre Nélson e outros tantos de que recordo os traços faciais mas não os nomes. E o Sr. "Maxmino", sempre pronto a dar umas traulitadas aos mais traquinas... A D. Maria sempre disponível... Ou a inesquecível simpatia das senhoras do Bar... Aquele Bar, o inconfundível cheiro do Bar! E porque menção a aromas fiz... Indómita vontade de um efémero regresso, breve apenas, na fugacidade de sessenta segundos, às salas da insurreição da (in)segurança, onde o monóxido de carbono desenhava uma atmosfera manchada a névoa de cascas de amêndoa queimadas em improvisados fogareiros. Oh, se hoje fosse! Estariam, precocemente, finados os imberbes! Ressuscitaram, quem sabe, emergindo de um qualquer "carambelo", subtraindo-se ao gume de um qualquer "candiólo". Eram frios os tempos, geadas tamanhas, "sbaraba-se" numa mal amanhada calçada de lisas pedras, "scatchaba-se" a camada de gelo que cobria as poças com "uas lapadas" ou com "uas biqueiradas"... E aquele ar impregnado a fumo de invólucros de frutos secos, aquecidas as extremidades que luvas usam, temperadas hostis forças... «Meninos, todos sentados, que agora temos que começar a aula!»... Enregelados pés, olhares atentos... Era o "Ciclo"... Hoje é, tão só, um pedaço de recordação transfigurado em aborto arquitectónico... Como era linda a minha "bila"... "Bá, berdade, berdadinha, ind'ó é... Dizi-o o coração... Mas aparece-se mais´c'ua abantesma injaldrada por uns aldrúbias quaisqueras... Dixu-mu o Ti Tonho Manco, o da Ti Maria Birolha, que bibe ó cimo do pobo... Bô, cmu m'indromino co estas cousas im que crece o natcho... É que regas! Que mintiroso m'assaiste! Bem m'ou finto! E frias-te no crutcho"!...

2 comentários:

Koky disse...

Ir para a escola dos grandes era um passo gigante, nos pequenos passos da infância. Inchava-se logo no peito um orgulho tremendo de já se ser crescido por andar no ciclo. Hoje, tenho saudades de ser pequeno... ;)

nêspera disse...

:)
Ainda se diz por essas terras que quem bebesse água daquela fonte ficaria (casaria) nessa terra?
Comigo não resultou. Mas o fascínio por essa vila (agora já é cidade, não é?) continuou. Fiz graaaaandes amigos em/de Macedo de Cavaleiros vai já para 27 ou 28 anos e, graças a Deus, ainda os conservo! :)