
O abrupto traumatismo luso-literário que me foi infligido nos velhos tempos do "Secundário", injustiças cometidas com "As viagens na minha terra" ou "Os Maias", arcaicos métodos compulsivos de incentivar a leitura, apenas teve o seu ocaso entrado que estava o finar do vigésimo século. Numa dessas revistas semanais pioneiras em agregar espécimes literários às suas edições, surgiu uma colecção de grandes autores. O simbólico do preço não colocou entraves de maior à dupla aquisição. Para mal dos meus pecados de então, o primeiro duo incluía... "Os Maias". Franzi o sobrolho, quase aderi à imediata desistência, tal o trauma. Contudo, aguardei pelo terceiro exemplar... "O memorial do convento"... Má sorte, amor ardente! Uma "coisa" escrita por um autor que se situava quase nos antípodas do que norteava o meu pensamento!

Porém, como não sou xenófobo (não apenas no conceito de preconceitos raciais que, erradamente, se atribui à expressão), mandei a resistência intelectual às malvas e decidi dar-me permissão para me embrenhar nas aventuras e desventuras de Blimunda e Sete-Sóis, mais as históricas Mafra e a inovadora Passarola de Gusmão. O desacerto literário fascinou-me, o sarcasmo e a ironia geraram uma estranha cumplicidade com um rapazola habituado a situar-se na contra-corrente, não por contra ser, mas por concordar com a de Calcutá, que era sempre a favor de alguma coisa. Óbvio que a "pseudo-intelectualite" sempre colocou reservas e reticências (e outros ortográficos sinais mais) a uma lavra que contrastava com o nosso jeito de povo bem amanhadinho, cumpridor das mais elementares regras gramaticais, mas que depois vende o corpo e a alma a imposições ortográficas paridas além-atlântico... Prostituições intelectuais... A safra foi de tal forma proveitosa que, sôfrega e rapidamente deglutido o ficcional do reinado do "Freirático" (dizem-no "o Magnânimo", mas a sua magnânime apetência por noviças dixit...), deixei que as recordações traumáticas se esbatessem e, a medo, invadi o queirosiano universo dos amores e desamores de Carlos Eduardo e Maria Eduarda... E vi-me na contingência de rever todos os conceitos que tinha herdado dos meus verdes anos de estudante macedense. Fiz um tratamento anti-celulite luso-literária, recompus-me e tratei de elevar a ícones (não a ídolos, que a idolatria não faz parte dos meus dias) alguns autores portugueses que descobri e redescobri.

Um deles, finado que está, terá agora direito a inumeráveis e incontáveis cerimónias de póstumo louvor. Provavelmente, com a irónica e sarcástica presença dos detractores... Aqueles que quase me convenceram, Nobel atribuído, que Uderzo e Goscinny estavam equivocados quando epitetavam os Gauleses de loucos... Loucos, loucos, são os Suecos... Bem vistas as coisas, ainda terá uma barragem com o seu nome, lá para o Alentejo, talvez, que as setentrionais terras são pouco atreitas a que uma qualquer barragem do Sabor ou do Tua seja baptizada com nomencaltura de anti-cristo... Essas, hão-de ser "Qualquer Coisa Comendador Mexia"... Restringindo-me à minha trivial posição de constituinte do anónimo povo, a minha homenagem quedar-se-á por ler o que ainda me falta... Mesmo que discorde, de forma absolutamente absoluta, de "lanzarotianas" posturas políticas. Mas, trabalho é trabalho, conhaque é conhaque... Ah! Não sei se o diabo virá ao enterro, mas louvem-se os vivos também! Porque de um qualquer "Sancirilo" resgatado, há uns anos, de uma estante, espantou-se o fantasma da portuguesa literatura. Neste caso, alimento deu ao "monstro" do orgulho na terra-mãe... E tudo isto porque queria escrever sobre a recente criação da Academia de Letras de Trás-os-Montes. Logo tinha que desaparecer o mago do sarcasmo, para derivar as idéias... Por ter mencionado sarcasmo... E porque fiz uma referência, ainda que indirecta, ao grande Pires Cabral... Lembrei-me do Grémio Literário... A saudável simbiose literária expectável entre os dois distritos transmontanos redundará numa mais que previsível intelectual guerra surda?... Espero que o olfacto me engane... Antes que a coisa azede, "bou-me infardar uas cereijas mim ducinhaze"...
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