
A incontornável passagem das Estações é implacável. Traduz-se no fenómeno de um constante regresso ao passado, como se a nostalgia tomasse conta dos dias, qual exterminadora do presente. Um presente que cada vez mais se afasta do passado, sem retorno possível, sem regressão que se fareje no horizonte. Já não sei se a Páscoa perdeu os seus encantos ou se o encanto da Páscoa se esfumou ao sabor da modernidade. Mas, afinal, falar da Páscoa é o mesmo que falar do Natal… Ou talvez seja uma simbiose de defeitos meus com feitio meu, também. Quem sabe se perdi a capacidade de camaleão? A verdade é que já não sinto a Páscoa transmontana como a sentia há uns anos atrás. E não é pela ausência do Coelhinho da dita, assim como o espírito natalício não sofreu uma metamorfose por eliminação do Pai Natal. Desadaptações… Ou uma incessante luta contra o consumismo reinante, num revolucionário espírito pró recuperação dos valores tradicionais, da identidade perdida, do transmontano coração que se vai esvaindo ao sabor de estradas que não existem… Talvez as mentalidades tenham sofrido uma inexplicável corrosão. Ou explicável, quiçá… Seja lá qual for o nome do réu, o juiz não se encontra desprovido do seu. A espada de Dâmocles resume-se ao gume que amputou a doçura da tradição, substituindo-a pela agrura dos valores do fantasma de um depauperado fidalgo que dá pelo nome de consumismo. Ou, na sua mais abominável versão, galopante usurpador de direitos da tradição, de familiares valores: o dinheiro, mais o seu séquito de vassalos que guarida lhe dão. Hoje, já não se fazem folares, já não se oferecem amêndoas. Assemelha-se tudo a um fenómeno materialista, onde a pureza de uma oferta foi usurpada pela monstruosidade das contingências dos modernos tempos. Tempos em que a Visita Pascal, aquele acontecimento que fazia da Segunda-feira de Páscoa um dia distinto, com acessos decorados ao colorido primaveril, se transformou numa efémera ocorrência com o supremo objectivo de recolher um envelope… E já nem a sineta desperta as mentes…
2 comentários:
Compreendo bem esta desilusão, este desânimo. "A tradição já não é o que era", mas talvez nós, homens e mulheres do século XXI, já não sejamos os mesmos. Estamos talvez mais cansados e menos disponíveis interiormente para viver as tradições como as vivíamos antes. Nem as amêndoas têm o mesmo sabor... :)
Já tinha passado por aqui! :)
Blogue interessante, este... Parabéns...
Penso que não é só a Páscoa Transmontana que está descaracterizada... Todas as tradições estão em vias de extinção. É o preço a pagar pela globalização, que nos enche os olhos de apelos cintilantes, e o resto perde-se... ofuscado... Se ao menos a alma pudesse sobreviver a tanto falso brilho... mesmo sem as tradições, já seria bom!
Abraço!
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