Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



sexta-feira, 12 de março de 2010

Preciosidades de uma Lamas de encanto

Deixar-me envolver pela singularidade de Lamas é, também, percorrer as restantes 65 aldeias do concelho macedense. Mais castanheiros, menos oliveiras, mais Terra Fria, menos Terra Quente, todas possuem a sua igreja e o seu adro, as suas festas, os seus santos, as suas fontes de mergulho, os seus pombais, os seus cafés. Todas estão desprovidas da monumentalidade encontrada noutros recantos, todas estão desfiguradas pelo isolamento e pela importação de conceitos além-fronteiras. Visitar uma qualquer aldeia, é sentir o desassossego do xisto moribundo, é assistir à agonia da genuinidade. Como se a pureza transmontana fosse uma doença a erradicar… Certo é que somos o legado de uma série de equívocos históricos, políticos e económicos, mas o Alentejo também o será, e não é por isso que deixo de sentir inveja da tipicidade de uma qualquer aldeia alentejana. Ou, para não ir para tão meridionais terras, corrói-me a alma não ter por cá nenhuma Sortelha ou Monsanto. Mas somos assim… Talvez o isolamento e a pobreza a que fomos votados nos tenham toldado o discernimento, talvez os nossos espíritos tenham sido amaldiçoados por lendas de lobos e corujas… Ou de uma qualquer moura encantada, daquelas que, mais que provavelmente, nem tempo tiveram para molhar os pés no Azibo ou no Sabor… Ou talvez o granito das Beiras ou a cal Alentejana possuam mais valor que o nosso xisto… Ou talvez tardiamente se comece a detectar o que arredio andou por muitas décadas: o orgulho de ser transmontano. Como se, agora que a desertificação nos vai tomando de assalto, sentíssemos que temos de preservar o que, envergonhadamente, se escondia sempre que ocorria uma qualquer aventura para além Marão. Não falo disto apenas por saudosismo… Faço-o pelo orgulho com que sempre levei o nome deste mar de pedras aos cantos por onde passei. Presunçosamente, fui passeando o nome de Trás-os-Montes e de Macedo, mesmo que, inúmeras vezes, me confrontasse (e ainda confronte) com conterrâneos que preferem assumir a sua condição de aculturados, como se ser transmontano fosse uma qualquer metástase a necessitar de ser extirpada. Cousas… Esta minha faceta contestatária deve provir de alguma aberração cromossómica gerada pela simbiose de genética vinhaense com a macedense… Nunca se sabe… O que se sabe ou, pelo menos, o que sei eu, é que persisto, dentro de uma qualquer presumível anormalidade, a embrenhar-me pelo que resta da nação transmontana. Sempre que a oportunidade surge, despeço-me do asfalto e de helvéticos telhados que corrompem a paisagem e deixo apagar a minha existência pela sumptuosidade de um dos muitos caminhos que rasgam os montes, abandonando-me ao vento que sopra, ao frio que gela, a inolvidáveis visões do pulsar de uma terra. É um inenarrável prazer olhar o transmontano mundo a partir do alto. Ouvir o diálogo do arvoredo, perscrutar o horizonte em busca das serranias que protegem a Bacia de Macedo, mergulhar nas profundezas do profano, sentindo o sagrado. Ter uma conversa a sós com a Senhora do Campo, enquanto imagino a azáfama que do recinto se apoderará dentro de pouco tempo. Olhar a “minha” Lamas lá do alto, protegida pela Santa e pelo São Sebastião. Sentar-me num dos artesanais bancos de pedra e ouvir o ribeiro que corria por entre o lamaçal, dividindo a aldeia em duas. Beber água na Fonte de São Brás, reposição de forças antes de infantis correrias pela Canelha e por Cristelos, pela Fonte do Pombo e pelo Facho… Ou pelo Mural, Cedelais, Sortes… E pela “Rebei de Côdes”… Mergulhar, em irresponsáveis acrobacias, no poço que havia por cima do campo da bola, “capar” uns melões e umas melancias, comer uma maçã, de caminho… Empoleirar-me num “sardeiro” e subordinar a legalidade à gula… Correr, desenfreadamente, monte abaixo porque a burra se soltou… Tentar perceber o que era a “aixada”, a “agrade” e a “seitoura”… Compreender, quando subia para o carro das burras, porque me chamavam “estadulho”… E ouvir aquele melancólico chiar que ecoava pela aldeia. Enquanto percorria os montes em busca de musgo e de um pinheiro “amanhadinho”para o presépio… Ou colhendo uns agriões para a salada, bebericando da “augueira”… Manhãs frescas em que aprendia a colocar “pescoceiras”, artilhadas de “aludas”, voltas imensas à espreita da melhor caçada… Chegar a casa “imbuligado”, “tchêinho” de fome e debater-me com um “carólo de centêo” e um “cibinho” de presunto, ajudados a escorregar com uma laranjada ou uma gasosa. Ficar inebriado pelos aromas do “caldo ó lume”… Pular o muro de acesso ao pátio da escola, para jogar à macaca, ao prego, ao “rou-rou” ou “ó q’calhasse”… Empertigarmo-nos, andarmos à “bulha” com uns e “ingaliarmo-nos” com outros. Mais “lostra”, menos “lostra”, mais "biqueiro”, menos “biqueiro”, mais “lapada”, menos “lapada”, no fim andávamos às “carritchas” uns dos outros, fazíamos umas “pintcha-carneiras” e com um “arranca-cebada” ficávamos camaradas de novo. E amanhã havia mais… Se houvesse “carambelo, inda daba pra sbarar”, dando-nos “a risa” com os que se “pintchabum”. “Depeis da cêa”, ligava-se a “trabisão” ou, quando a não havia, punha-se o gira-discos a rodar, enquanto nos “imbutchinábamus” uns com os outros porque um queria ouvir, incessantemente, a mesma música. A música… E a mítica banda… Empoleirada no velhinho coreto, enquanto a mocidade rodopiava com mais “ua moda” e os putos corriam pelo meio do arraial numa saudável disputa sobre quem apanhava mais “barelas”. Depois veio o “altofalante”, seguido dos “cunjuntos”… E os novos tempos finaram as “barelas”… Entretanto, o gélido vento fez-me despertar desta nostálgica viagem. O banco de pedra arrefeceu-me até às entranhas e nem o poluidor de ambiente que acendi me presta calorífica ajuda. É hora de descer até “ó pobo”. Não sem fazer a habitual romaria ao último repouso de antepassados e conhecidos. Só para lhes sentir a presença e para um póstumo obrigado. Olho de novo os castanheiros desnudados, pressentindo a presença de um qualquer tocador de gaita-de-foles… É o vento… E uma ave de rapina que sobrevoa o souto em busca de desprevenida presa…

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