Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



terça-feira, 30 de março de 2010

Portuguinder Sorpresa

Havia tempos em que a época pascal possuía outros encantos. Até a meteorologia parece ter-se prostituído aos ventos da modernidade… Ainda estarei longe da caducidade. Não me espanta, por isso, que o meu sistema neuronal persista em associar a Páscoa ao período primaveril. Flores, verdejantes campos, aves chilreantes, presságios de Verão… Estou atolado, até aos superiores extremos capilares, da chuva, do vento, do ar fresco que persiste em encarcerar-me… Em jeito de compensação, distracções ao avesso, decidi adaptar-me à permeabilidade, que inflexibilidades não conduzem a lado algum. Troquei as tradicionais amêndoas de Páscoa, aquelas mesmo, artesanais, duras como as extremidades de bovídeos, pintarolas de tripartidas cores: branco, azul e rosa… E cedi à tentação, a provinda da publicidade que inunda os écrans, numa infernal sequência de consumismo natalício, seguido de carnavalescos acessórios, com paragem no apeadeiro do Dia do Pai, estações pascais, veraneantes férias, regresso às aulas… Blheargh… Finalmente, aderi aos “óbos de tchiculate”! Diz o marketing que o seu recheio detém a capacidade de divertir pais e filhos… Contudo, numa desesperada tentativa de salvar a economia nacional, tomei a infeliz decisão de comprar o que é nosso. Contrariando as iniciais pessimistas expectativas que apontavam para um hercúleo esforço em busca de Portuguinder Sorpresa, eis que, ao virar da esquina, ali estava um escaparate decorado a “portugalidade”. Os olhos redobraram o brilho perante tão apelativo embrulho. O meu neurónio racional, numa desesperada tentativa de assumir o comando dos desenfreados parceiros, mais vocacionados para a ingenuidade, gritou, alto e bom som: «Quando a esmola é muita, o pobre desconfia!»… Mas os pobres dos rasos soldados, ouvidos não deram à voz de comando. Acossados por insana loucura, numa quase orgia predadora, atiraram-se, quais esfomeados seres, ao ovo que ocupava o primeiro lugar da fila. A ansiedade tomou conta do ambiente… Qual seria a surpresa? Saiu uma A4 e um Túnel do Marão para montar!!! Dois em um!!! O racional neurónio, do alto do seu pedestal, confidenciou aos seus botões: «- Saiu uma A4 e um Túnel do Marão? Eu chamo-lhes malabarismos»… Ripostaram os botões: «- Não sejas tão negativo! Estamos curiosos pela abertura do próximo Portuguinder Sorpresa!»… A angústia não tardou em dissipar-se. Três em um! Desta vez, recheio constituído por uma companhia de electricidade, uma solidariedade pintada a hipocrisia e uma linha do Tua! Tudo para montar, também! Esperem!... Este Portuguinder Sorpresa tem um fundo falso… Abram! Traz uma barragem escondida! E um comboio anfíbio!!! E contém ainda um bolo chinês da sorte! «- O que diz? O que diz?»… Superadas as dificuldades para aceder ao neurónio racional, supremo comandante de desordenadas tropas, a leitura foi efectuada em voz alta: «- A ingenuidade transmontana paga-se com a produção de 65% da energia eléctrica nacional. O futuro reserva-vos a insistência na retribuição em migalhas»… Ao invés de apupos, o ambiente foi invadido por calorosos aplausos e unânimes mensagens de agradecimento por tão promissor futuro… Do interior da algazarra foi possível percepcionar um «Abra-se o próximo ovo!». Surpresa geral… Helicópteros!!! Com autocolantes do INEM para decorar!!! Desprovidos de tripulação? Desta vez não é o Tribunal de Contas… Não faz mal! Os helicópteros voam sozinhos e, com um pouco de sorte, voarão para outro local que não o inicialmente prometido. E, afinal, este Portuguinder Sorpresa também traz Serviços de Urgência para montar!!!... Num último assomo de coragem, o neurónio racional dirigiu-se à multidão, tentando pôr cobro à colectiva euforia, manipulada por subversivos agentes trajados a beneditinos corredores. Subrepticiamente, sem que os agentes notassem a manobra, foi aplicada uma forte dose de antídoto, despertador da letargia reinante. Olhos abertos, mentes despertas, descobriu a multidão, afinal, que em cada Portuguinder Sorpresa, os kits são sempre os mesmos, apenas lhes muda a cor. Sai sempre malabarista! Impune… E da impunidade vamos vivendo, alegremente sorrindo para uma qualquer câmara de televisão que surja a gravar o isolamento, a pobreza, a solidão, a tristeza, a doença, a velhice… Como transmontano, já não como mais Portuguinder Sorpresa… Ainda que me tirem as poucas amêndoas que restam… Podem roubar-me a comida, mas jamais me roubarão a fome…

5 comentários:

deep disse...

Está visto que deve mudar de marca... parece que o chocolate anda com sabor de amêndoa amarga!

Eu continuo a preferir as tradicionais, se bem que não torço o nariz às restantes. :)

Cavaleiro Andante disse...

A mudança de marca não deveria ser exclusivo meu. Todos os transmontanos deveriam aderir ao bloqueio aos "Portuguinder Sorpresa"... Sem dúvida que o tradicional é melhor... :)

António Magalhães disse...

Tciguei au seu Vlog (estava para escrever blog, mas como é uma palabra CHIC ou grabe, pinsei que deberia escrever cum V, pois debe ser palabra de quem fala asssim, assim mesmo com vários Ss sibilinos), por acaso e tenho apreciado os seus textos.
Devo confessar que me faz lembrar o seu conterrâneo A M Pires Cabral de cuja escrita sou fã.
Eu sou quase seu conterrâneo, d'além rio, onde os falares são parecidos.
Não esmoreça e continue.
Boa Páscoa.

A Magalhães

Cavaleiro Andante disse...

Caro António Magalhães: seja sempre bem vindo às Cousas. Espero que o homem que trouxe o diabo ao enterro não fique chateado com a comparação. Eu não fiquei... Obrigado!

mario carvalho disse...

Caros amigos

é muito importante a participação de todos na defesa de valores que são de todos


Que cada um se responsabilize por , in su sitio, mobilizar as pessoas para irem ver o filme PARE ESCUTE E OLHE e promoverem o debate...

ESTA É A ULTIMA OPORTUNIDADE DE A SOCIEDADE CIVIL ... demonstrar que existe, que está interessada e que merece ser OUVIDA...

senão .... meus amigos... desistam e permitam que nos transformem em HAMBURGUERS


abraço

mario sales de carvalho



Ps Antes ser devorado pelos vermes naturais ... do que ser Mexido, Remexido e transformado em hamburguer.

para que qualquer um possa " mastigar "... à vontade

www.linhadotua.net