Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



sábado, 25 de junho de 2011

Gula, amizades e ar puro

Há reinos onde o tempo parece correr ao sabor da mansidão dos montes. Ouve-se a balada da serra, num inquietante sossego que espevita um sorriso que nos abre a alma de par em par, exposições de abertura zero, filtros ausentes, apenas esta hipnose de um arrepio forçado pelo toque de imagens que embriagam os sentidos. Há tesouros assim, na aparência de um esconderijo, despertados em singelas conversas de uma tradição perdida. Ou quase... Revivescências do pretérito, tempero de seculares amizades nascidas debaixo de sagrados calhaus, descontextualizações em modernos tempos onde conceitos se prostituem ao sabor de (in)conveniências tantas. Há purezas assim, equilíbrio do dar recebendo, num qualquer sentido abraço, fraternidade sem cláusulas, gente das pedras, nas pedras criado, nas pedras parido. Simples, despojada de adereços da aparência, feições esboçadas a carácter da serra, completa, que a vida não é para ser levada a prestações. Retome-se a tradição... Há sempre um tempo para retomar a tradição. Relembrem-se as velhas aventuras dos tolos, guerreiros numa qualquer noite do estio, assados à luz da Lua, repetidos convívios de anos a fio, provisoriamente esquecidos numa gaveta da lembrança. Era o "pito assado na Siôra do Campo". Eram os tolos, somente os tolos, providos da vontade de salutar convívio, pactos celebrados a brasas de giesta, ruidosos lampejos a acordar vidas que dormem, inebriantes aromas da gula, talvez se aproximem os lobos, ou lupinos espíritos da ancestralidade. Quebre-se estabelecida ordem, renovem-se os pactos, adornados a perdido javali, estufadas batalhas, um "carólo" por companhia, abra-se o apetite com salgadas azeitonas, guerreie-se com "carabunhas", abram-se hostilidades da gula. Algures, a lenha, restos de amputados carvalhos, renovada vida lhes deram. E acenda-se a fogueira, deslumbrado olhar, é o fascínio do fogo, é o receio também, por entre um copo mais, controladas chamas que ofuscam, por breves instantes, o calor de seladas amizades. Chegam opíparas convidadas, de Judeus nascidas, folgam nasais receptores da magnificência do cheiro a natureza, inunda-se o ar de névoa do fumeiro, excitam-se gustativas papilas pelo prenúncio a sabor a terra. Um copo mais para atenuar a espera, "aparece-se que stão mim boas, bota cá mais um cibo de jabali"... Rotula-se o ar a conversas de "pança tchêa", provam-se os primeiros exemplares, tostados, saborosos, "ou quero o cornitcho". Celebra-se o momento a perdidos olhares no horizonte, o Azibo ali ao fundo, eterna busca de uma distinção mais, Bornes a um lado, Nogueira a outro, dorsos de guardião iluminados por alaranjada luz de final de tarde. "E atão num s'ass'ó pito? Ah peis que num s'assa! Abonda di a grelha que já o racosemos!"... Ide comer erva a um lameiro, ou palha ao palheiro, melhor o diria a matriarca, ainda por cá andasse! Degusta-se o galináceo, como se vez primeira fosse, saborosa carne curada a grão e couves, e a petiscos que a terra dá. Reacendem-se velhos episódios de noites tantas regadas a infâmia do vinho, soltem-se os espíritos, maniete-se a inibição, avance-se destemido para a gargalhada geral. "Atão num t'alembras daquela neite im que quase te mejaste pra cima do assado? Bô, isso foi quando um biu um jabali a racoser-nos o presunto... Catantcho, o que fai o binho!"... A noite cai, de mansinho, distinta prole estelar a abençoar os esparsos pirilampos em que as aldeias se transformam. Levanta-se o arraial, contam-se as armas e os soldados, apagam-se os vestígios da refrega. É hora de descer ao "pobo", acalmem-se excessos com cafeínica dose, ou exacerbem-se, há sempre um digestivo mais à espreita. Ou um javali que se atravesse no caminho... E na ressaca dos dias, hoje começa o São Pedro... Com o inferno do estio lá fora...

2 comentários:

deep disse...

Sê bem vindo a T-o-M mais uma vez. :)

Cavaleiro Andante disse...

Obrigado! Repetições de rejuvenescimentos da alma... ;)