
O inexpectável da vida é feito do expectável. Um dia, sem prévia marcação, todos sabemos que faremos a derradeira viagem, aquela que deixará um vazio difícil de preencher naqueles que aguardam na lista de espera. O insofismável desfecho da vida... Desígnios da criação, o luto que nos esforçamos por adiar. Um dia, ainda que acreditando que enganamos a lógica, apercebemo-nos da ilógica do engano. Os suspiros do espírito vão amainando a dura e cruel realidade. E só acordamos, efectivamente, quando se torna irreversível a viagem de alguém... Não um qualquer alguém... Um ser que nos habituamos a admirar, mesmo que tenhamos que reforçar a aprendizagem de formas de comunicação por erros paridos pela medicina. E admiramo-lo, não como por muitos terá sido admirado, porque, simplesmente, nasce uma estranha amizade. Solidificada em memoráveis noites de acesa cavaqueira num não menos memorável ícone macedense. Daquelas imperdíveis noites em que a conversa se prolongava até a impaciência começar a surgir em irrepreensíveis sinais, provenientes do senhor de casaco cinza, prostrado de cansaço, diligente, por detrás do balcão. Gostava de o provocar, não pela provocação em si, mas porque a minha sede de aprendizagem falava mais alto. E, extasiado, deixava-o falar, gesticular, bradar aos céus, praguejar. Por vezes, saía desaustinado em direcção à sala em frente. Era hora de acalmar os vapores da sapiência, refresco da alma para quem eu admirava pelo poço de cultura que era. E tanto que aprendi nessas inolvidáveis noites! E tanto que absorvi desse desfiar de acumulados anos de devorador de mundo, de letras, de notas! Hoje, fechou-se definitivamente o livro. Ficaram as sementes, as raízes e as imagens. Particularmente a do seu inseparável cachimbo... Por isso, em jeito de póstuma homenagem, impregno o ar desses inigualáveis aromas provenientes do "pipe". Fechando os olhos, não escondo uma tímida lágrima de saudade, enquanto o "Peterson" me transporta para aquele banco em forma de sela, onde as horas se transformavam em minutos e o tempo parecia não passar. Não me despeço, porque há pessoas das quais nunca nos despedimos. Ou faço apenas aquilo que ele fazia na hora do "até amanhã": ergo o polegar em sinal de aprovação e digo-lhe o que, invariavelmente, me dizia do alto da alva cabeleira e daquele enigmático sorriso... "Bebe mais um copo"... Hoje bebo mais um, amigo João...
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