
Sou suspeito… Esta suspeição que sobre mim paira e me acompanha os passos, qual sombra eterna legada pela genética ou, mais não fosse, herdada por insubstituíveis visões de ondas planálticas rasgadas pela intrepidez dos que amputaram o Reino de Leão de um pedaço que julgava seu… Não renego o ser suspeito que sou. Seria trair a essência, o alicerce-gérmen, a pilastra que sustenta a inalienável crença que me sussurra ao ouvido que ser Macedense e, por inerência, Transmontano, não é melhor nem pior que outra qualquer coisa ser. É, tão só, ser diferente… Ser percorrido por insondáveis arrepios, como se a circulação sanguínea se transformasse numa torrente de eléctricos efeitos, sempre que o saudável monstro que este orgulho é, se alimenta a novas temperadas a rosmaninho e regadas a uma qualquer pinga saída directamente de uma pipa de ancestrais saberes.

Sou chato, eu sei… Mais não seja, para o teclado, massacrado numa incessante sequência de transmontanos ritmos, queixando-se da transmissão para o monitor de alguns indecifráveis vocábulos, sublinhados a onduladas linhas encarnadas, por não constarem de indesmentíveis dicionários. E nem os acordos ortográficos lhes valem… «Peis é! Num sei a quem dianho botar a culpa de ficar tão contcho cum esta terra cum que m’amiguei. Arrebunhou-m’a alma, fêzu-m’ua burra no peito, scatchou-me o espírito, e fêzu-me sbarar cum a proa que nela tânho, q’até me pintcho. Até se m’aparece que m’stou a ingaliar comigo próprio!». Nos tempos “spritados” em que vamos (sobre)vivendo, reconfortam-me as razões para algumas manifestações de exaltação, sorvendo, de forma sôfrega e trôpega, as ondas brotadas do “Oceano Megalítico”. «E num se pense que fico imbutchinado por ficar todo imbuligadinho de xisto!».

Pelo contrário… Permito-me deleitar-me com esta profusão de ventos pétreos, inalando-os até me sentir etilizado, neurónios dormentes, pernas trementes, sãs descoordenações lexicais, como se possuído por uma efémera “tchabasquice”. «Que mai fai! Todos tãim o dreito a um cibinho de tchotchice, de vez’im quando!»… O “meu” Azibo passou a ser detentor de duas praias decoradas a Bandeira Azul! A repetente (a sextuplicar!) Praia da Pegada e a sua nova acompanhante nestas andanças, a homónima da Ribeira. Não é para todos!... Entenda-se a minha insanidade momentânea… Estou inebriado… “Amantizei-me” com o Azibo desde o tempo em que ainda lhe rasgavam as entranhas. Deixei-me seduzir pela Ilha do Fidalgo quando uma incursão à “Barragem” mais não era que uma epopeia de adolescentes tomados pela indomável vontade de um mergulho de final de tarde. Foram incontáveis as travessias a nado, desde as “escadinhas” até à “ilha”. Era o almejado prémio para um grupo de “gandulos” que, quando a canícula já não investia desmesuradamente contra o escalpe, se aventuravam, de polegar em riste… Era o supremo troféu, após a descida da poeirenta estrada… Era o nosso canto, o nosso quase privado canto, espaço sagrado, onde podíamos dirigir impropérios à vida, solidariedades juvenis com aves de rapina por companhia… Não perco uma oportunidade para ir dar um mergulho às “escadinhas”. Ainda que o sacralizado lugar já esteja desprovido do encanto de outrora, vou erguendo as memórias dos seus recônditos esconderijos, transmitindo o ceptro à descendência.

Fico embevecido por lhes descrever as invisíveis pegadas e as apagadas ondulações provocadas pela algazarra de gente imberbe. Em simultâneo, agradado fico com a renovação do espaço, com a preservação do mesmo, numa manifestação de cultura ambiental num país habitualmente privado dela. Como bem salientou o actual autarca macedense, «este sucesso deve-se não só ao empenhamento do município e aos investimentos realizados na Albufeira do Azibo, mas a todos os macedenses e visitantes.» Assim continue… Porque o Azibo não é só um magnífico “Espelho de Água”. É, também, um sublime “Espelho de Vida”…
1 comentário:
Por volta de meados do século passado havia um senhor com dois filhos a estudar no Porto. Pois esse pai sempre dizia aos filhos para eles não dizerem que eram transmontanos.
- Mas porquê, meu pai, se nós até sentimos orgulho nisso?
- Para eles não terem inveja!, respondeu-lhe o pai.
Bem haja por outro excelente artigo.
António Magalhães
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