Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Chocalhos Entrudeiros

O profano em sagrada aliança com a ritualização da magia, o Entrudo Chocalheiro, néctar da essência, demoníacas figuras alvoroçadas pela tradição, histórias muitas contadas pelo "mou" Ti Manel Alfaiate, enquanto se amacia o esófago "c'ua pinga de binho e um carólo c'um cibeco de queijo frezco". Os potes repousam afagados pelo calor que vai emanando do "strafogueiro", cenário de perdição, os sentidos anestesiados pelo que ainda não foi desvirginado pela mediatização. «- No mou tempo é q'era! Um mês im antes do Demingo Magro já nos botábamos por aí a fora, de terra im terra, éramos piró q'ó diabo! Um dia, im Baldrez, querium-m'ir ó focinho, c'um carbalhtchas! Ium-me racosendo o lombo, puso-me a tchucalhar ua rapariga e, bá, fi-jiu d'apropósito, botei-l'ua mão à teta, que mim consoladinho q'ou staba. Mas o catano da mulher pôsu-se ós berros e ós homes num le tchaldrou a cousa!»... Permaneço no "scano", deleito-me com o êxtase da descendência em redobrada atenção pelas "stórias" de quase 90 anos de vida, risos contidos sempre que a atmosfera é brindada com algum termo em vernáculo linguajar, perdoem-se os excessos, já está a adolescência imunizada por este saudável convívio com as pedras. É hora de abalar, cumprido o culto da ancestralidade, renovem-se alianças, sorrisos se gerem, que a solidão também vai precisando de um abraço. A Casa do Careto é ao virar da esquina, deslize-se pelos paralelos que emolduram o solo gasto por ancestrais correrias desenfreadas. Selem-se amizades ou conhecimentos que o tempo não apagou, prossegue o desfilar de constelações em tonalidades de geada, uma ginginha para atenuar as agruras, dois dedos de conversa de recordações muitas por florestal casa. Entretanto, abotoam-se os casacos para amenizar a brisa cortante, aproximam-se as almas de improvisada fogueira, cuidado com as "falmegas q'inda racosim á'lbarda", e olha que já lá vai o cortejo. Aproxima-se o ajuntamento no terreiro defronte de lugar sagrado, vozes afinadas pelos excessos, ecoarão casamenteiros pregões pelo silêncio da noite, funis a postos, improvisações da memória dos tempos, dizem que vão casar a filha do padre, traições da língua, afinal era a irmã, irá desposar a Macedo ou a outro qualquer lugar de rimas feitas. Demoníacos pactos ou sátiras que ninguém leva a mal, seguem os foliões em inversa procissão, fotógrafos em algazarra para obter o melhor ângulo, domina a cerimónia de anos tantos, vozes substituídas pelos sons da terra, primazia à gaita-de-foles a encabeçar o desfile. Trajecto em sublimação dos sentidos, como se a noite, de repente, se metamorfoseasse em dia, e do tempo restassem apenas resquícios de passadas sucessões de vinte e quatro horas. Detêm-se os espíritos em comunhão de propósitos, chega processional cortejo ao destino, colectivo homicídio a fogo e luz, queime-se o Entrudo, pasmados olhares que irrompem do aglomerado, olhos postos em pirotécnicos efeitos, gargantas sedentas, anuncia-se a queimada, alcoólica "galdromada" de intensos aromas. Improvisa-se o "bailo", roda para aqui, encontrão para acolá, espíritos felizes e faces marcadas por uma estranha harmonia em época de recessão. É tempo de rumar ao outro lado da rua, penetre-se nos sons que a tenda suspira, ouçam-se acordes com sabor a terra, aqueçam-se extremidades com aplausos ou trôpegos passos de dança. É um regresso ao passado, emotivamente bem recebido, soltam-se as almas e renegam-se os maus espíritos. Cometem-se excessos, inigualável Paulo sempre na dianteira, correm-lhe máscaras de lata no sangue, a alma é-lhe tecida a fios de lã coloridos e a chocalhos sempre em alvoroço, incontornável figura sempre presente. Agora é tempo de aplacar os exageros, penitenciem-se as carnes, folguem os foliões, segue a vida ao compasso da Quaresma, hão-de esquecer-se as casulas e o butelo, aguçar-se-ão os sentidos pela aproximação da limpeza às teias dos fornos. Os folares serão já ao virar do calendário... Dizem que o Carnaval são três dias... Em Macedo e Podence são quatro...
     

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