Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém hai puri irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as'tanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, dàs bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim nos arraiolos ou o meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Anda'di, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te no motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couratcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRASMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS :







quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Neites de Berão

Tenho uma relação conflituosa com o calor. Particularmente com aquele que habitualmente impera por terras macedenses no mês que foi inventado para homenagear o imperador Augusto. No entanto, confesso que já estranhava a anormalidade de temperaturas amenas ao cabo de 12 dias de estadia. De igual forma, soava-me a contra senso ainda não ter tido a necessidade de andar meio “couratcho” por casa, bem como a não restrição das minhas tardes ao fresco possível no interior de quatro paredes, tornando-me num quase eremita-morcego que toma mais duches que o aconselhado por dermatologistas (bem, ainda tenho pele, o que significa que posso persistir em refrescar-me debaixo do chuveiro)... Vulcano resolveu-se a dar sinais de actividade. Regressou a normalidade… E com ela alguns rituais que estavam prestes a apagar-se da memória. Um deles é reflectido pelas andanças nocturnas, de compartimento em compartimento, em busca daquele que ofereça alguma amostra de uma geada perdida que me arrefeça o excesso de metabolismo. Não é fácil expor a imagem que deixo transparecer para as moscas que, aqui e ali, desafiam a minha pontaria. Esses chatos, mas úteis, seres voadores, caso extrapolassem o meu exemplo para caracterizar a espécie humana, brindar-nos-iam, à cabeça da lista de características, com algo semelhante a “tolos”. Porque, verdadeiramente, é a algo parecido que me assemelho quando acossado pelo excesso de calor. Todavia, “não há senão sem bela” (só para inverter a lógica)… E a “bela”, neste caso, é a própria beleza das “neites de berão” - “as de berdade“ - em Macedo. A começar pela abóbada celeste. E pela forma como se apresenta visível em locais não influenciados pela poluição luminosa. Foi com o intuito de assistir a esse espectáculo único que me dirigi a Salselas na noite em que por lá decorreria a “Astronomia no Verão”. Mesmo que não tivesse estado mais perto de Júpiter, das estrelas, das nebulosas, dos enxames, já teria valido a pena pela quantidade de estrelas cadentes que vi de “papo para o ar” virado e pela nitidez assombrosa com que se percebia o desenho celeste. A suprema delícia foi, no entanto, quase ter conseguido agarrar a Lua, aquele corpo que vai mudando de forma ao longo do mês e que, sabe-se lá se por reminiscências genéticas de cultos de ancestrais, exerce um enorme fascínio neste “lunático”. Ou talvez esta atracção exista, simplesmente, pelo facto de a Lua não emitir calor e só despontar no horizonte quando o termómetro já se encontra abaixo dos trinta graus… Não seria essa a temperatura na inauguração do “Macedo ComVida”. Mesmo tendo ocorrido quando os ponteiros já se encaminhavam para as onze da noite. Horários da “portugalidade”… Foi espantoso embrenhar-me no meio do calor humano para assistir a um espectáculo de fados. Especialmente porque o mesmo ocorria numa terra situada bem na periferia dos centros donde emana a tipicidade da dita canção portuguesa (como se Portugal fosse apenas o Ribatejo, a Estremadura ou o Alentejo). Para lá do consagrado António Pinto Basto, foi uma oportunidade para ouvir e ver, ao vivo e a cores, a nova coqueluche da canção macedense. Já aqui lhe tinha feito elogiosa referência anteriormente. A Ana Rita Prada tem, verdadeiramente, uma voz divinal. No entanto, parece-me talhada para outros voos que não a canção herdada dos resquícios da aculturação árabe. Opiniões… E hoje há resquícios da aculturação celta… Soam-me melhor esses sons… Tal como o fazem os provenientes do incomparável concerto nocturno de grilos, acompanhados, ao longe, pelo latido de seres caninos que vão conversando numa linguagem que este humano tentava perceber… Até ter desviado a atenção para uma coruja pousada na antena do telhado em frente. Atenção que a fez zarpar a outras paragens, num quadro inimitável, desenhado à magnificência do bater alado e pintado aos tons alaranjados provenientes da iluminação pública. Magníficas “neites de berão”!…

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Cousas depreciativamente depressivas

Estou possuído por uma espécie de embriaguez pré-período eleitoral. Lanço, publicamente, um repto: arranjem-me notícias de Macedo onde não seja mencionada, de alguma forma, a acusação de “falta de democracia” na elaboração das listas para as autárquicas! Creio que será o único antídoto eficaz para lidar de modo mentalmente mais pacífico com as acusações a que já fiz referência num post anterior. Ainda que as mesmas não sejam infundadas, que importância têm para a gravidade de factos que assolam a província transmontana? Num recente estudo da Comissão Europeia acerca da pobreza, a Região Norte foi considerada a mais pobre do país. Num âmbito mais abrangente, está incluída no grupo das 30 mais pobres da UE (considerando 25 países). Isto quando as duas maiores fortunas do país se encontram nesta mesma região! Sinto náuseas… Mais grave e aterrador é que Trás-os-Montes é a Sub-Região mais pobre da UE (considerando 27 países)!!! Apetece-me largar as raízes de vez e mudar-me, de armas e bagagens, para a Eslovénia, para a Letónia ou para o Chipre! Vêm os analistas (aquela classe que sabe de tudo um pouco, um pouco de tudo e nada de nada) afirmar, peremptoriamente, que tal se deve ao desperdício de Fundos Comunitários. Quais fundos? Será que se referem ao PRODER? Aquele programa que tentei aproveitar para revalorizar terrenos incultos e que, de empurra em empurra, de obstáculo em obstáculo, de ignorante em ignorante, me constrangeu a mandar a persistência para aquela parte, tal a forma como fui vencido pelo cansaço de engenheiros e doutores “alapados” numa poltrona de improdutividade em que a regra é “deixem-me descansar até à chegada do próximo ordenado”… Dizem-me as más línguas que foi aprovado um projecto para Trás-os-Montes. Um?!?! Gostaria de conhecer o “sortudo“... Sempre contribuiu para não sermos vergados à vergonha de assistirmos à devolução da totalidade dos Fundos… Pelos vistos, não só somos pobres, como mal agradecidos… Mesmo que, e ainda segundo as más línguas, o rio Douro (que também é transmontano) “desperdice” 55% da produção eléctrica nacional sem recebermos nada em troca. Deve ser por isso que se mantém a pretensão de passar o “desperdício” para 55,5% com a construção da hidroeléctrica do rio Tua… Se já soava a irreversível, mais se agravou a sensação com o debate parlamentar sobre a Petição “Movimento Cívico pela Linha do Tua”. A Oposição, mesmo que hipocritamente, defendeu a manutenção de um dos paraísos transmontanos, com algumas tiradas que são de registar. Saliente-se aquela em que um senhor deputado afirmou que “nem a linha, nem os comboios sabem nadar, tal e qual acontecia com as gravuras de Foz Côa”. Pois não sabem, mas vão ter que aprender. Ai vão, vão! “A via férrea deixou de ter utilização, deixou de ser útil para as pessoas que ali vivem e trabalham, que optaram pelo transporte rodoviário”. Esta intervenção, pasme-se, foi tida por um senhor deputado eleito por Trás-os-Montes! É de lhe se tirar o chapéu! Será que das 5.000 pessoas que assinaram a dita petição estão excluídas todas aquelas para quem a ferrovia se transformou em inutilidade? Será que o Presidente da Câmara de Mirandela tem razão quando afirma que esse deputado foi eleito pelo círculo de “Mirandela para cima”? Ou será que esse senhor deputado não se considera representante dos 5.000 assinantes desvairados? Ou terá sido eleito pelos votos da EDP? Apetece-me recorrer ao quase homónimo do senhor deputado (quase porque tem mais o “de Camões” na nomenclatura) : «A dor acostumada não se sente»… Mas sente-se a dor derivada do facto de a dita Sub-Região mais pobre da UE27 ter eleito um deputado que, dificilmente, voltará a sê-lo na próxima legislatura. Porque nos reduziram para três o número de deputados a ser eleitos pelo círculo de Bragança. Um destes dias igualamos o distrito de Portalegre… Bem vistas as coisas, o melhor seria nem elegermos nenhum. Um dos candidatos cabeça de lista (bem na pole position para nos representar(?)…) é de Penafiel e exerce a sua profissão na Invicta Cidade. Vai defender o quê? Os Vinhos Verdes de Trás-os-Montes?… Perante isto, será assim tão importante a tão propalada “falta de democracia”? Temos é “falta de deputados”, “falta de cuidados”, “falta de riqueza”, “falta de escrúpulos” e, um destes dias, “falta de tudo”… Menos do orgulho em ser transmontano (e macedense)… Por mim falando, certo é… Protestarei até que a voz me doa… Ou até sermos transformados num qualquer Kosovo mesmo à beirinha de Zamora… “Quem tu dixo?”…

H1N1, AVC e outras siglas

Ocasionalmente, a ocupação do lugar de carro-vassoura não equivale a perda de benefícios. O distrito de Bragança está em último lugar em mais coisas do que as que seriam desejáveis. Todavia, só agora cá chegou o primeiro caso da célebre gripe suína (azar de um raio, tinha que ser num macedense!). Cheguei a acreditar que, tal a forma como repetidamente se esquecem de nós, o mesmo viesse a acontecer com a estirpe com variações na hemaglutinina e na neuraminidase (umas “cousas” raras que servem para a “classe iluminada” dizer que este Influenza tem um H e um N diferente da estirpe aviária…). “Cum catancho, atão bamus ter que dar cabo dos recos? Bem mou finto! Tamém se num matarum as bacas quando nus dixerum que ‘stabam loucas, nim se curtarum as goelas às pitas e ós parrecos pur causa du H cincu’e N um‘e”… Tal o alarmismo reinante, parece que estamos no início do século passado, quando levámos uma vassourada com a gripe pneumónica (aquela que provou que, por vezes, do lado de lá da fronteira, nem bom vento, nem bom casamento, já que também a baptizaram de gripe espanhola). Neste momento, mais conta, menos conta, há, em Portugal, cerca de 0,006% de pessoas infectadas com o dito H1N1. Mesmo que o resultado final possa, nalguns casos, ser mais trágico, o quadro sintomático é em tudo semelhante à banal gripe do conhecimento geral… Mas, dando razão à vetusta expressão de “velhos do Restelo”, estamos na presença de uma pandemia (há que dar escoamento aos stocks de antivirais…)! Prefiro ver as coisas sob outro prisma: há 99,994% de portugueses não infectados! Que a mesma percentagem se aplicasse a outros vectores da sociedade em que vivemos… Por exemplo, imagine-se a existência de 99,994% de portugueses não permeáveis à corrupção, ao tráfico de influências, ao “tachismo” e ao “amiguismo político”? Isto sim, seria uma pandemia (não adversa)! Utopicamente falando… Utopias à parte, vivamos de realidades. E de episódios que as confirmam… Há uns anos, fracturei um dos membros superiores. Nada de especial, só um fracturazinha exposta, acompanhada de umas dorzecas insuportáveis… No tempo em que um macedense não era encaminhado para o CHN-UHB , mas se ficava pela UHMC (que era HDMC), fui presenteado com a benesse de um “sô dotor” que me garantiu que me tinha saído a lotaria. Um analgésico local e uma ligadura resolveria o problema menor… A verdade é que não só ganhei a lotaria, como fui bafejado pela terminação: uma perna superior! No dia seguinte, era difícil distinguir o perímetro do meu braço do equivalente no membro inferior… Resolvida a questão por outras vias, alguém me perguntou, com bastante sarcasmo à mistura: «O que querias tu? Em Macedo cura-se uma gripe, e mal!»… Desconheço se o alguém tinha razão. Mas não deveria ter. Porque, nos dias que correm, o CHN até já é detentor de um plano de contingência para a dita gripe (mesmo que seja afirmado que não há internamentos para os “Influenzas“)… Mas a evolução não termina nos planos de contingência… O CHN-UHMC já está dotado de uma unidade de AVC. Com as respectivas recomendações para os familiares remeterem o doente com AVC para a UHMC nas três horas seguintes aos primeiros sintomas. Pergunto-me eu, na minha ingenuidade: quantos familiares sabem quais são os primeiros sintomas? E, já agora, porque a linguagem utilizada, abusivamente, em certos círculos restritos, é fantasmagoricamente fantasmagórica, como raio se faz trombólise na Argana, em Gralhós, em Vila Nova da Rainha ou em Soutelo Mourisco? Ainda se houvesse aquele veículo munido de hélices há muito prometido… Cá “pra” mim, ou se perderam as hélices, ou a vergonha, ou estamos com eleições à porta… E num amanhã muito breve não terei mais motivos para reclamar da inexistência do veículo voador do INEM… Até lá, este “cu do mundo” (na visão da classe política) ainda é “Um lugar para viver”. Pelo menos foi incluído como tal na nova série da RTP filmada na (moribunda?) Estalagem e no Azibo. Aquele sítio que o DN considerou “um pequeno paraíso escondido no Nordeste Transmontano”… Neste limbo em que nos é prometido o Céu enquanto se (sobre)vive no Inferno, é reconfortante ter o Azibo como um dos poucos paraísos que nos restam… O meu espírito maquiavélico diz-me que a nossa sorte é não lhe poderem fazer o mesmo que pretendem para outro dos paraísos restantes, a Linha do Tua… Ou será que, passe o pleonasmo, ainda arranjam maneira de submergir o Azibo? Sei lá, “cum catancho“!…

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Semanas Masaedenses

Entre muitas outras coisas, há uma forma distinta e marcante que caracteriza a essência do ser transmontano. “Cumer e buber é o que lubamus daqui’e!…“ Poderá surgir, de um qualquer canto, um indígena mais genuíno que eu a contestar tal assumpção. Porém, em última instância, a sua aplicabilidade restringe-se, mais não seja, à pureza do sentir macedense que é do meu conhecimento. Ainda que o mesmo seja passível de legítimas discórdias… Limitar-me-ei a estar de acordo, mesmo no desacordo. “Boto cá pra for’ó que sinto e mai nada!”… De tal forma que, excluindo o “enfarta burros” dos dias da festa na aldeia, não tenho feito outra coisa que não… práticas de “enfarta burros”… Na Terça-feira, possuído do desejo de acalmar as hostes, derivadas das contingências de dois dias de “munta tchitcha mamada ó som do bira dus copus”, resolvi manter-me quedo e mudo nas águas calmas do casario do coração da “vila”. Qual quê?… Após mais um fausto jantar, surgiu o desafio do «vamos matar saudades de uma bilharada?»… Assim como quem não quer a coisa e se faz um “catcho” difícil, acabei por não me fazer rogado ao irresistível convite, descendo até à civilização… Uma dose de cafeína extra na “Miguéis” serviu de combustível para a brevidade de uma subida ao “Lá em Cima” que, para um veterano das velhas lides nocturnas macedenses, continua a ser um misto de “Cesário”, “Americano”, “David” ou, mais comummente aceite, “White Horse”. Venha de lá o habitual “Irish”, mais a acompanhante “aguinha com bolhas” para “desinfastiar“... E o silêncio quebrado pelo som de uns tacos a tentarem aplicar a melhor trajectória a umas bolas coloridas… Mais uma noite terminada a horas que, por decência, não vale a pena mencionar. Ou a indecência da ingestão de folar fora-de-época, fora-de-horas… Obviamente que o despertar foi aziago, suturado por uns pontos dados por um mix de analgésico (paracetamol para os amigos, acetaminofeno para os intelectuais e qualquer coisa terminada em “on” para pedir na farmácia) e a antioxidante (uma “mistela“ que não sei se faz muito efeito mas que serviu para uma letra de uma música do Gonzo). Atendendo ao exposto, não houve lugar a almoço… Livra!!! Não havia estômago que aguentasse uma sardinhada após uma noite de abusos… A coisa compôs-se na viagem nocturna a um caldo verde e… a mais um “cibo de tchitcha assada”! Equilibrado o suco gástrico, seria hora de repor as horas perdidas de sono. Não fosse o despertar a horas impróprias, com os batimentos férreos cadenciados para a montagem das tendas que haveriam de servir para a gente trabalhadora que se aprestava para vender os seus produtos na feira. “Pim, pim, pim! Seis da matina?”… Uma incursão à cozinha, um pequeno-almoço forçado pelo ruído exterior, uma leitura com os primeiros raios de sol a incomodarem a lua que ainda se via no horizonte… O sono foi irreprimível e forçou um regresso ao aconchego dos lençóis… Afinal, havia o compromisso de mais um jantar em casa de amigos… Antes do dito houve tempo para uma investida ao ambiente especial da dita feira e, posteriormente a uma cabidela com franguinho caseiro, a algumas aldeias concelhias e a um contacto com gente única que ainda olha com desconfiança o “forasteiro” com aspecto de pirata que se diverte a sentir o pulsar das rugas desenhadas a xisto. «- Bua tarde! - Bua tarde nos dia Dous! U s’nhore é pa cumprá’estas casas? - Bô era! E quem as quer’e? É só pra tirar uas fotos… Num s’importa? - Mim bô gosto tem! Num é de cá, peis não? - Sou, sou! Sou de Macedo e gosto munto disto. - E é de quem?… Bá, tire lá intão as fotos… Num beb’um copo?»… Cumprido o agradável compromisso, na companhia de gente que marca, mesmo à distância, o compasso da minha vida, foi hora de satisfazer os pedidos da miudagem e rumar à Festa do Emigrante. Honestamente, não é manifestação que faça parte dos meus anseios de lazer, mas… Há coisas que merecem um sacrifício… Mesmo que a estadia tenha sido breve. Como que a adivinhar mais uma noite em que o sono haveria de ser interrompido pelas madrugadoras investidas dos jardineiros, acompanhados de umas moto-serras, que andaram a desbastar o arvoredo que limita a “albergaria”. “Seis da matina? Outra vez? Má sorte, amor ardente”… O sono venceu, de novo o ruído… E as constantes interrupções de Morfeu haveriam de ser compensadas por uma incursão ao “meu” Azibo para um retemperador mergulho vespertino. Seguida de um jantar embrulhado a calma familiar… Até ao surgimento do desafio de um casal amigo para “ir dar uma volta à vila”… E a mais um copo… Não tardou a volta porque o cansaço acumulado era por demais evidente. Contudo, a noite, à semelhança das anteriores, revelou-se fértil em ruído anti-descanso. Com a particularidade da antecipação de uma hora! Não fui despertado às “seis da matina”! Já seria monótono… À boa maneira de um qualquer D. Quixote, acompanhado de uns quantos Sanchos Pança, houve uns noctívagos que resolveram transformar um caixote do lixo em “moinho imaginário”. Desconheço quem saiu vencedor da contenda mas, pelo ruído, o mobiliário público resistiu heroicamente às investidas dos cavaleiros… Quem não resistiu foi a minha paciência, especialmente porque, após tão terrível carnificina, surgiu, poucas horas após, a artilharia… Representada pelos morteiros de uma das muitas festas que pululam por este mês de reencontros populares por estas bandas… “Bem que pudium butar us fuguetes mais prá tardinha”… Por isso, o Sábado foi dia caseiro… À excepção de uns devaneios pelo sopé da serra de Bornes e uma rápida excursão a Banrezes. Mais uma saída com a pirralha com o intuito de captar uns nocturnos macedenses. Ainda deu para uma entrada no magnífico Museu de Arte Sacra e… para não conseguir descansar, decentemente, uma noite mais… Os sons provenientes da Festa do Emigrante abafaram o silêncio nocturno até às duas da manhã… E o excessivo vento ajudou à festa… Irra!

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Crónicas Lamacenses

Há coisas fantásticas, não há?… Consegui ludibriar o hábito de não acordar com as galinhas… Talvez tenha sido o acontecimento dominical do ano: o rapaz teve arte e engenho para marcar presença na procissão!!! Mesmo com os resquícios dos naturais abusos na boda de Sábado… É verdade que a cerimónia teve o seu início perto da uma da tarde… Mas o despertar já tinha ocorrido umas horas antes… Diga-se, em abono da verdade, que para o mundo dos “normais” isto soará a surreal. Para quem possua um biorritmo “anormal” é perfeitamente entendível a celebração… “Consegui assistir à procissão! IUPI!”… E consegui cumprir o voto de captar alguns breves momentos que a envolvem. Devo ter os meus pecados todos perdoados… No mínimo… A ironia suprema é que até não me enquadro, por aí além, no quadro dos pecadores… Digo eu… Com pecados ou sem, não deixei de abastecer o “bandulho” no pós-procissão. Mesmo que a ritualização do almoço da festa já não esteja imbuído do mesmo significado. Afinal de contas, o que deve ser valorizável é o convívio com os que fazem dos nossos dias um percurso valioso. Seja em dias de festa, ou não… Com a chegada de outros familiares a Macedo, ausentei-me da festa no período vespertino. Confesso que me ausentaria de igual forma caso eles não tivessem chegado… A permanência em Lamas conduzir-me-ia ao pecado do “bota lá mais um copo!”. E dizem os entendidos que os neurónios vão finando com os excessos… Quero preservar os poucos que tenho, mesmo que isto represente um pretexto “mal amanhado”… E depois havia a promessa de novo abastecimento no período nocturno em casa do Ti João… Já sei o que a casa gasta e o meu rico estômago já perdeu a vocação para cantos gregorianos… Perdi o “jogo da cagadela”, mas ganhei um “cibo” de descanso… Descanso que teve o seu término no arraial e na revelação genética que a descendência feminina possui para a dança. Não posso afirmar que seja um esforço hercúleo… Afinal, ainda bem que tenho uma filhota que me faz companhia nas voltas e contravoltas dançarinas. E sempre serviu para treinar alguma linguagem para aplicar no “futebolês” de Segunda-feira… Este dia foi macabro. Apercebi-me que a PDI (Porra da Idade) não perdoa, mesmo tendo jogado, nos tempos áureos, ao lado de figuras com alguma importância na história futebolística deste país. Nunca pensei que os atributos pudessem esvair-se em tanta falta de jeito… Já não posso fazer uma corrida de mais de 5 metros que me abafo… Percebi que o excesso de peso não se encontra, afinal, na barriga mais proeminente, mas sim nas pernas. As ditas devem ter-se visto privadas de massa muscular, sendo a mesma substituída por chumbo… Ainda bem que os solteiros desistiram da jogatina quando me aprestava para mais uma demonstração sobre como não jogar futebol… Senti um alívio imenso pela irritação gerada por um golo pretensamente mal anulado… Acabou-se, logo ali, o martírio… Para o ano há mais. Desconfio é que me candidatarei a apanha-bolas… E, de novo, a apanha-”tchitcha” assada na brasa! Que bem me soube a merenda! E a camaradagem existente entre a “malta de Lamas”! Mesmo que na dita camaradagem tenha que se conviver com dois “sôs” agentes da autoridade. Ainda bem que não estão em funções… Não haveria “alcoolímetros” que chegassem… “Bá, e assim c’mu quem num quer a cousa, até que nim são más almas”: um teve a penitência de ter que me aturar como “prof“, o que não deve ter sido coisa fácil; o outro teve a remissão dos pecados com a paciência de um sermão à minha rapariga, por andar a colocar em causa a sua segurança e a de outros condutores, o que não deve ter sido coisa fácil, também… Fácil também não foi o regresso a Macedo… O arraial gerou muita sede… “Inda bem que num tibe q’ir ou a guiare“…

Crónica de umas férias anunciadas


Ano após ano o ritual repete-se, assumindo uma forma de deja-vu. Elabora-se a lista das coisas a não esquecer (esquece-se sempre alguma coisa…), atulha-se a mala do carro de forma a assemelhar-se a uma viatura com destino a alguma feira (cabe sempre mais alguma coisa de última hora…) e inicia-se a aventura para mais um estágio por terras macedenses. A etapa de quase 200 km é efectuada em modo de piloto automático, seguindo o trajecto de sempre… Utilizando os protestos de sempre, com as “lesmas” que tornam o IP4 ainda mais lento… E sentindo a mesma ansiedade de sempre em rever as gentes e os locais que contribuem para o desenho daquilo que sou. Apesar da repetição de procedimentos, uma qualquer ida a Macedo não perde o encanto. A emoção da subida do Marão e o vislumbre das barreiras que serviram de baptismo à minha região transportam-me para um mundo onde não sinto os efeitos dos males da vida moderna. Internar-me em Trás-os-Montes equivale a uma terapia cujos frutos são representados por uma paragem no tempo. Não fico mais jovem, mas também sinto um bloqueio no envelhecimento. A visão de mares de pedras, de rios de cores e de montes e planaltos que ondulam no horizonte, desafia o carrasco que o tempo é, silenciando-lhe o tic-tac dos ponteiros. A chegada a Macedo é sempre revivida com o entusiasmo que sentia quando a mala do carro era substituída por uma mochila às costas e a entrada não se dava pelo lado de Travanca mas sim pelo da Estação… Seja tarde ou cedo, a “avó” tem sempre à espera os “miminhos”, um inigualável sorriso e uma qualquer novidade para contar. Renovam-se afectos e histórias antigas… E revisitam-se as obras de arte que ela vai produzindo no jardim, apreciando-se as novidades, reapreciando-se as que o não são. Estranhamente, está fresco. Não se sente a entrada no genuíno mês do estio. A manhã de Sábado brinda-nos com um cocktail de vento e chuva intensos, ocultando o astro-rei que, pela lógica da sucessão de estações, deveria estar a contribuir para a canícula que se encontra arredia. Para esta alma que se sente mal com o excesso de calor é uma bênção… No entanto, nem tanto ao mar, nem tanto à terra. A viagem matinal até Bragança traduziu-se num desafio ao equilíbrio na trajectória do IP4, tal a intensidade com que as bátegas investiam contra o pára-brisas, deixando no asfalto a imagem de um rio negro selvagem. Na noite de Sábado alguém se lembrou de ligar a ventilação no frio e o largo de Lamas transformou-se num arca congeladora para os que pretendiam assistir ao despique entre bandas filarmónicas. Valeu pelos reencontros com velhos amigos e conhecidos… E pelas promessas de novos reencontros de carácter dominical, com prática desportiva de “halterocopia” como treino para o derby futebolístico que haveria de ocorrer no dia seguinte…

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Cousas da Festa de Lamas

"Ó Bó! Bote cá um carólo de pão cum manteiga e cacau!"... "Ó Ti D'mingus! Unde stá u mou púcaro pra buber um cibo de gasosa?"... "Ó Ti C'stina! Abonde cá tantinha auga q'stou tchiinho de sede!"... "Ó Ti Fanano! Poss'ir cunsigo a tocar as burras?"... "Ó Ti ´Sprança! Atão num me dá um cibinho de presunto pra lantchare?"... "Ó Ti Juão! Num tem cicroas prós bilhetes?"... "Ó Ti Zé! Ó Ti Ana! 'Stão bôs? Bá, botim cá um doce!"... Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Mas não se muda a vontade. Sofre, apenas, umas variações. No Domingo repete-se um ritual de muitos anos. Com as alterações que a lei da vida vai fazendo no elenco. De alguns personagens só me resta a saudade, a aprendizagem e a amizade que foi nutrida. É certo que já não vou com "à Bó" à Canelha, o Ti D'mingos já não me compra "chiclas" no café nem joga matraquilhos comigo, o Ti Fanano já não me leva na carroça das burras... O outro Fanano também já não me dá mais cigarros às escondidas, a "Alferdina" já não me dá mais nenhum "magosto" com aquele sorriso inigualável... Nem a Ti'Ámelia me dá a provar mais as melhores alheiras que alguma vez comi... E agora, também já não tenho o Ti Guardiano para me convencer a beber vinho às nove da matina na arranca das batatas... Mas tenho a memória! E o hábito de ir à Festa de Lamas mantendo as visitas que lhes fazia. Pode soar estranho, mas na "minha" festa, eles continuam a presentear-me com os "mimos", o sorriso e a amizade. É por isso que continuo a gostar de marcar presença. Por isso, e não só! Porque as amizades que tive se mantiveram na descendência genética que constitui os meus amigos de hoje. E porque, afinal de contas, a Calinha, a Bia, o Minho-Minho são os melhores afilhados do mundo e o "Bite piqueno" que vem a caminho há-de ser também (a Menanas e o Kiko também se incluem no grupo dos melhores do mundo, mas não têm costela lamacense). A verdade, também, é que, modéstia à parte, continuo a ter os melhores tios e primos do mundo, mesmo com querelas familiares de permeio. Ser "Imberno" é ser "Imberno" e, no que respeito me diz, sinto um orgulho imenso, mesmo sendo meio-Fiscal, em ser cognominado pela alcunha do meu "bô" Bernardino. E por "Imberno" ser, lá continuarei a marcar presença na "pecissão" (se não acordar tarde), no "tacho" em casa do compadre, no concerto da banda (mesmo que tenha saudades das desafinações no coreto) e no arraial (meio "descontchabado" ainda sou capaz de arrastar os pés). Mais uns "copetchos" extra pr'ánimar a malta e uma jogatina de futebol à velha maneira solteiros contra casados (nem que seja fiscal-de-linha sentado num "motcho" só p'ra marcar os foras-de-jogo)...