Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém hai puri irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as'tanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, dàs bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim nos arraiolos ou o meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Anda'di, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te no motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couratcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRASMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS :







segunda-feira, 14 de setembro de 2009

A machadada de um clube com nome de dramaturgo

Tinha aqui afirmado que o sonho comanda a vida... O sorteio da Taça não augurava nada de bom para as hostes do Clube Atlético. Mas acreditava que a fava poderia sair ao Gil Vicente. Ainda me entusiasmei com o 0-0 ao intervalo e com os comentários abonatórios da Rádio Barcelos ao desempenho dos rapazes de Rui Vilarinho. As pernas não aguentaram na segunda parte e aconteceu o previsível. Com muita pena minha... Para o ano haverá mais Taça e no próximo fim-de-semana derby nordestino. Que os "canarinhos" macedenses dêem uma bicada nos homónimos de Bragança... E que o sobrevivente Moncorvo se aguente mais umas eliminatórias. Quanto ao vizinho Morais, depois dos 4-0 do Macedo, vieram 5 do Covilhã... Ai se a tendência se mantém... Desilusão foram os homens do Tua: estava convencido que fariam companhia aos moncorvenses... Venham de lá agora as lutas da Série A... Lutas onde espero ver o Clube Atlético a honrar a história... "MA-CE-DO! MA-CE-DO!"....

Inconformismos

Entrámos em mais uma maratona de discursos e comícios, festas e festinhas, jantares e jantaradas. Assessorada pelo colorido das arruadas, concertos, cartazes, panfletos e demais imagens em forma de autocolantes, bandeiras e outros “souvenirs”. Assistir-se-á ao déjà vu de desfiles, dos grandes com assento parlamentar (PS, PSD, BE, CDU, CDS), juntando-se-lhes os históricos (PCTP, POUS, PPM), os já conhecidos “dissidentes” (MPT+PH, MEP, MMS, PNR, PND) e os novíssimos (PTP-Partido Trabalhista Português e PPV-Partido Pró Vida). Esta corrida a 15, à cruz no boletim de voto terá o seu epílogo numa incerta nomeação de um primeiro-ministro que sairá, seguramente, do habitual “bloco central”. Os números provenientes das sondagens deixam no ar a possibilidade de se poder assistir a algo inusitado: o partido com mais votos poderá não ser o mais representado na Assembleia da República. Cousas de um método de eleição baseado em círculos eleitorais, onde os grandes saem sobrerrepresentados e os pequenos sub-representados, deixando aberta a injustiça da inexistência de equidade. No dia 27 lá estaremos (exceptuando os do PA-Partido Abstencionista), cada um a exercer o direito de defesa da sua dama. Sai-nos cara a defesa… Há crise? De certeza? Corrói-me a alma assistir ao custo que tem o arraial associado à maratona… PS => 5,54 milhões de euros (para as Legislativas de 2005=> 4,8 milhões de euros), dos quais 3,13 financiados pelas contas públicas… PSD => 3,34 ( 7,3 em 2005), dos quais 2,85 do erário público… CDU => 1,95 (0,862 em 2005) e 1 milhão do orçamento público… BE => 0,99 (0,73 em 2005)… CDS => 0,85 (6,7 em 2005!!!)… E para as Autárquicas, a coisa agrava-se até ao insulto à pobreza: PS => 30,5 milhões de euros; PSD => 21,9 ; CDU => 10,27 ; BE => 1,99 ; CDS => 1,9… Faz-se o desconto dos trocos orçamentais para o pelotão dos pequenos partidos e… Quase 70 milhões de euros!!! 70 milhões de euros??? Junte-se-lhes as moeditas despendidas na campanha para as Europeias e chegamos à módica quantia de cerca de 90 milhões de euros… Irra!!! Como andamos todos a dormir… E nem uns trocos há para o afamado helicóptero do INEM que nunca mais vem por falta de verbas… Distrito de Bragança, Distrito de Bragança, que emudecido andas, adoçado por uma auto-estrada e por inaugurações de novos serviços hospitalares! E por cabeças-de-lista que são professores no Porto ou vereadores em Almeirim! Um deles entende que “o dever de um deputado é, acima de tudo, perante o país e não uma região em particular”. É? Então porque não acabam de vez com os círculos eleitorais? Ainda bem que voto na terra adoptiva… Mas sinto-me inconformado, de qualquer forma… “Em Portugal, os deputados da Assembleia da República da Nação, vão discutir legislação nacional e não legislação regional, mas são eleitos por um distrito. Devem ter uma sensibilidade com os problemas desse distrito”… Como podem ter sensibilidade se lá não nasceram e, provavelmente, por lá não passaram vez alguma? Bem… Quer dizer… Já nem sei… Os senhores deputados, filhos da terra, que nos representaram nesta última legislatura exerceram alguma influência para a melhoria das condições de vida do esquecido Nordeste? Ou seguiram a ideia do Sr. Ministro do Ambiente a propósito da barragem do Tua, quando afirmou a “relevância do projecto ao contribuir para o reforço da produção hidroeléctrica nacional”? O que ganha o depauperado Nordeste com isso? Regressa, Mendo Alão! Ressuscita, Nuno Martins de Chacim! Reincarna, Afonso Mendes de Bornes!...

sábado, 12 de setembro de 2009

Tempos da persistência dos murmúrios


Macedo despiu-se, uma vez mais, de preconceitos e vestiu o seu traje de gala, cortado à medida da música de cariz tradicional. O ribombar vespertino que ecoava através das artérias macedenses arrancou-me do sossego e atirou-me para uma das esplanadas do centro. Foi efémera a estadia, à medida que pressentia o aproximar dos sons que me atordoavam o meu espírito com reminiscências celtas. O inigualável choro ancestral que emana das entranhas da gaita-de-foles atravessa-me a alma, anestesiando-me os sentidos. Uma súbita e indomável vontade de proximidade se apodera de mim, não resistindo a absorver de perto os sons que me deixam o cérebro, anormalmente, com "pele de galinha". O retorno ao conforto da esplanada transformou-se na brevidade da interrupção operada pela excentricidade de outra cultura. A melodiosa flauta andina não me autorizou a sorver a bebida que me saciava, colocando molas na cadeira onde repousava. O fascínio do choque de culturas... Um colorido distinto, pintado a tonalidades de um voo de condor... Feições do outro lado do mundo, provando a igualdade na diferença... Um aperitivo para o repasto musical nocturno. Onde um grupo de tocadores de bombos demonstrou o que deve ser um encontro de gerações e anunciou a entrada em cena da minha surpresa da noite: "Cantarolar"! Suspeitava que a presença de um grupo macedense no elenco do Festival, vocacionado para temas tradicionais, se devesse a mera cortesia. Espanto meu quando soam os primeiros acordes e constato que me equivoquei na prévia avaliação. Os "Cantarolar", mais que um grupo musical macedense, constituem um conjunto de gente com valor, talhado, talvez, para outros voos. E não me parece que o meu sangue macedense seja influência para a parcialidade... Outras sonoridades da terra me provocaram um recuo no tempo e me avivaram memórias da experiência infantil, quando o "Rancho" dava os seus primeiros passos. Estranhamente, três décadas volvidas não foram suficientes para apagar dos meus registos as letras que acompanham, ainda hoje, o reportório do grupo folclórico. Não revivi os passos dançarinos de miúdo com os conterrâneos, mas fi-lo, em jeito de voluntário à força, com os coloridos intérpretes vindos da Cordilheira dos Andes, num jogo de roda que me recordou que já não estou cá para grandes correrias... Por isso me instalei de novo no meu lugar, não resistindo a "abanar o capacete" à medida que sonoridades brasileiras e castelhanas invadiam a noite do "Anfiteatro das Eiras". Por fim, o sono levou de vencida o descendente mais novo, constrangendo-me a um abandono forçado, relembrando-me que o único senão deste festival se resumiu à gritaria de outros descendentes enquanto decorria a actuação dos grupos nele presentes... Enfim... "Tadinhos dos putos"... E "tadinhos" dos que têm que "gramar a pastilha" de ouvir os berros dos filhos dos outros...

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Nostalgia evolutiva e fontes regressivas

“Conclusão: que podem esperar os macedenses de um executivo que não consegue resolver um problema de perda de água de um repuxo e de uma oposição que critica, mas também não apresentou solução?” Honestamente, não sei se existirá resposta possível à pertinente (?) questão em forma conclusiva (?) lançada pelas verrinadas do “Semanário Transmontano”. Todavia, os macedenses não deverão esperar o ressurgimento do Sebastianismo, na forma de algum jornalista-canalizador-empreiteiro com capacidade para solucionar o tema dos fontanários que também foram cúmplices do assassínio do Jardim. Como macedense, orgulhar-me-ia ainda mais da minha terra caso o único problema de que a mesma enfermasse se resumisse à existência ou inexistência de umas fontes com repuxo no local nobre da cidade. Em boa verdade, à custa dos malfadados repuxos, uma simples incursão ao multibanco saldou-se numa prova de perícia em forma de patinagem artística em chinelos de dedo… Reconquistado o equilíbrio e recuperado o fôlego, e após a utilização de alguma linguagem vernácula que, por decoro, não pode ser reproduzida, também eu fiquei com a sensação de que alguma coisa deveria ser feita. Não tanto pelo desperdício de água, mas pelo perigo iminente de contagem de degraus com o apoio traseiro, vulgo “nalgas”, transmontanamente falando… Porém, a minha alma fica em sobressalto por algo mais profundo… A História e as imagens dela guardada falam por si… Se os saudosos Dr. Falcão Machado, Padre Manuel Faria ou Dr. Armando Pires voltassem, por um dia, a olhar o Jardim, não seriam, quiçá, pródigos em encómios ao atentado paisagístico que, em sucessivas tentativas de homicídio, tomou conta da pretérita monumentalidade daquele espaço público. Suspeito que, ao contrário de uma parte da vereação municipal, lhes seria indiferente a visibilidade dos repuxos a partir da Rua Almeida Pessanha! Não deveriam ser visíveis de lado algum! Significaria isso que recuaríamos, numa espécie de misticismo temporal, a uma época em que Macedo vinha assinalado nos mapas como detentor de um campo de aviação e de uma estação ferroviária… Tempos em que o espaço nobre da cidade era uma ampla plateia de onde se desfrutava da visão da magnificência do Adamastor adormecido para os lados de Bornes. Tempos em que podia usufruir dos meus patins tendo como único obstáculo alguns grãos de areia dispersos, provocadores de travagens repentinas não programadas e de algumas odisseias de absorção da rispidez do cimento. Ou em que podíamos improvisar o recinto para a prática de futebol ou basquetebol, utilizando, abusivamente, a frontaria camarária como baliza ou cesto. Como rapazes conscienciosos, havia que manter a rede de espionagem, não fosse aparecer o Sr. Geraldes, acompanhado dos seus PSP’s, no velhinho Peugeot 504. O respeitinho pela autoridade ainda era muito bonito ou, em última instância, era-o pelos lambefes com que seríamos presenteados na eventualidade de uma queixa aos progenitores… Respeito não havia pela reconquista do arvoredo por parte do reino das aves. As noites eram preenchidas pelo abafado som de armas de pressão de ar com os projécteis a descartarem a pontaria afinada, tal era a facilidade com que se aplicava o “cada tiro, seu melro”. No final da caçada às cegas, os troféus artilhados à cinta seriam repasto numa arrozada no dia seguinte, que aquilo não era nenhuma manifestação de caça desportiva… Os momentos lúdicos extravasavam o vazio que hoje se sente, inúmeras vezes, no Jardim. As noites de Verão possuíam como imagem de marca a reunião do “povaço” para as sessões do “quino”. E para brincadeiras onde não entravam comandos de consolas… As elevações laterais da escadaria de acesso ao edifício da Câmara serviam de apoio ao “esconde-esconde”, ao “preto da Guiné” ou ao “arranca cebada, pra cima do mou cam’rada”… Nostalgias… Apenas nostalgias… De uma época em que o fundo do Jardim era povoado por exemplares de típica arquitectura, alheados da funesta substituição que lhes estava destinada pela elevação de uns mastodontes em forma de “fosforeira portuguesa”, despojados de qualquer sinal de bom gosto arquitectónico e alimentados pela irresponsabilidade, ingénua talvez, de quem achou que o progresso pode passar pela descaracterização urbanística a qualquer preço. Para grandes males, grandes remédios… E para bom entendedor… Como uma desgraça nunca vem só, havia que adulterar ainda mais a imponência do grande palco das noites macedenses. Os anos 90 do passado século revelaram até onde pode ir a devastação do bom gosto, cerceando um espaço que era único e castrando-o pela imposição de uma requalificação mal parida, alicerçada num conjunto de pérfidas jóias arquitectónicas, manchadas pela deslealdade à parca história de uma terra que, meio século antes, vira nascer a nobreza espacial de um conjunto de hortas, e da indómita vontade de um punhado de macedenses que, entre muitos outros atributos, primavam pelo bom gosto. Mesmo que essa primazia tenha tido a sua génese nos desígnios de um incêndio no antigo edifício camarário e na negação de um senhor ministro em empobrecer o erário público financiando a pequenez do original substituto. Grande visionário! Neste alvorecer de século, ao invés de estéreis discussões acerca de desperdícios de água ou de postais que os quiosques já não podem vender, seria mais salutar e profícuo reunir as hostes em prol do engrandecimento de uma terra e da sua gente, seguindo o trilhado por grandes obreiros macedenses. Mas isso seria um atentado à mesquinhez política e aos valores partidários… Como me mantenho alheio a esses valores, tenho consciência que “vozes de burro não chegam ao céu”. A algum lado hão-de chegar… É por isso que, em resposta a um convite de uma recente organização partidária, afirmei que o meu partido era Trás-os-Montes… Sou lírico, eu sei…

Atoardas subreptícias em forma de verrinadas

“Uma nação pode sobreviver aos idiotas e até aos gananciosos. Mas não pode sobreviver à traição gerada dentro de si mesma. Um inimigo exterior não é tão perigoso, porque é conhecido e carrega as suas bandeiras abertamente…” Cícero (106 a.C.-43 a.C.) – Filósofo e orador romano A liberdade de expressão é um direito da democracia. Sob este conceito, libertámo-nos do constrangimento do aparelho repressivo representado pelo célebre “lápis azul” da censura. Ao abrigo da pluralidade de ideias resultante desta conquista, procuro inteirar-me das distintas correntes de opinião que povoam os meios de comunicação, particularmente, os escritos. E, dentro deste universo, não deixo de dedicar uma especial atenção à imprensa regional transmontana, dispensando, obviamente, a maior fatia do meu tempo à leitura de temas que digam mais directamente respeito ao concelho de Macedo. Nem sempre estou de acordo com algumas posições assumidas (e anormal seria caso assim fosse…), mas não deixo de as absorver, respeitando a máxima de estar de acordo no desacordo. Contudo, à semelhança do que já por aqui manifestei em Abril com um post com umas “escarradelas” no título, sou forçado a ingerir uns anti-histamínicos mentais na presença de umas “Bocas Verrinos(s)as” com que o “Semanário Transmontano” nos presenteia, debaixo do capote de um anonimato armadilhado. Respeito as ideias expressas pelo anónimo verrineiro, ainda que as mesmas careçam da ausência de atentados à Língua Portuguesa… Mas, o que mais me provoca um excesso na minha resposta imunológica é que sou mesmo alérgico a um tipo de agente patogénico englobado no cada vez mais alargado grupo dos que “cospem no prato em que comem”. Utilizar um periódico flaviense para, em constância, dar traulitada sem nexo no executivo camarário da cidade onde se vive é pura demagogia e um atentado aos mais básicos valores emanados da democracia. Transformar essa faculdade em arma de arremesso na forma de instrumento político, baixando o nível à mesquinhez patética, denota uma completa ausência de sentido de maturidade política. Criticar por criticar é habilidade de todos. Criticar construtivamente só está ao alcance de alguns. Só por isso aceito passivamente o abuso representado pelo recurso a um dos maiores oradores clássicos e às suas Verrinas, para servirem de nomenclatura a um artigo jornalístico. Cícero andará às voltas no túmulo, tal a forma como se deve sentir injuriado pelo discípulo que deixou… Discípulo que jamais poderá proferir as palavras do mestre: “moriar in patria saepe servata” (morra eu na pátria que tantas vezes salvei)… Talvez, antes de verrinar, devesse deter-se na oratória do mestre das Verrinas, começando pelo discurso que encabeça esta opinião… Porque, pelo que vou lendo, mais que denegrir a autarquia, os ditos artigos deixam o nome de Macedo e dos Macedenses cravejados de mácula… Ao fazê-lo, está a pintar, a cores que eu não aprecio, a minha terra (aquela onde é dito que as pessoas cospem para o chão)… Quem não se sente, não é filho de boa gente…

sábado, 5 de setembro de 2009

Neologismos e genuinidade transmontana


O advento das novas tecnologias trouxe a inevitabilidade: a profusão de neologismos. Não coloco em causa se, num mundo de facilitismo, será mais correcto questionar alguém acerca do seu endereço de correio electrónico ou simplificar a questão com a redução a e-mail ou, simplesmente, mail… De idêntica forma, torna-se mais fácil afirmar que escrevo num blog (ou num blogue, na versão aportuguesada), ao invés de o fazer em relação a uma página pessoal e, neste caso, transmissível a quem tenha paciência para a ler. Afinal, um blog nada mais é que um anglicismo resultante da contracção de weblog, ou seja, “um diário de bordo na rede”. Até aqui, tudo bem… Se há uma estratosfera, que haja uma blogosfera… Confesso que prefiro esta forma à oficialização de termos “electrónicos”, tal como foi feito pelo Governo Francês em relação a “courriel” como substituto de “courrier électronique”… Feita a transposição para a realidade portuguesa, não me estou a ver a dar o meu “correiel”… Mas regressemos aos neologismos… Não me provocam prurido alguns dos que vão grassando pela língua portuguesa. Outros há, no entanto, que possuem a capacidade de arranhar o meu canal auditivo. Para lá do célebre “pilhão” (ainda bem que não “hablamos castellano”), surge agora o “depositrão”. Ainda por cima, instalado na minha cidade!... Suspeito que, um destes dias, haverá uma qualquer adulteração de nomes de vulgares utensílios do quotidiano… Como passará a denominar-se um recipiente do lixo? Ou uma sanita? Também são “depositrões”, mas “depositrão” há só um… Fica o desafio linguístico à imaginação… Mas a suprema verborreia em termos de atentado linguístico vem da proliferação de “ódromos”… Até agora, assustava-me mentalmente com a moda dos “sambódromos” ou “fumódromos” do lado de lá do Atlântico. A dita chegou ao lado de cá, precisamente aos meios eruditos universitários, com a criação dos “queimódromos”. Quando pensava que a província transmontana estaria a salvo, eis que surge a novidade de existirem exemplares de raça mirandesa provenientes do concelho de Macedo a disputarem um prémio num concurso de chegas de bois. E onde decorreu? Num “CHEGÓDROMO”???!!! Ora bem… “Dromos” é um sufixo, radical grego, que exprime a ideia de corrida. Estará muito bem aplicado em autódromo, hipódromo ou velódromo. Na realidade, são recintos onde ocorrem corridas. Atentando nos exemplos dados, há corridas de samba? Já se viu fumo a correr? E quem ganhou a última corrida de queimas? E nunca vi nenhuma corrida de chega de bois… Cá para mim, tal prova desenrola-se num lameiro ou num qualquer recinto vedado onde um par de touros tenta disputar a primazia pela força. Na verdade, há, por norma, um que corre… Mas é para fugir, não para receber a bandeira de xadrez. Transmontanamente falando, “bou ó campu ber a tchega de beis”, não vou ao “tchigódrumu”… Como estamos em período de debates eleitorais, porque não anunciar o próximo como decorrendo num “debatódromo”? Razão tem o arquitecto-filósofo Paul Virilio no seu “Cibermundo – a política do pior”. Este “apóstolo céptico” defende que a actual sociedade tecnológica está a reduzir a Humanidade à uniformidade, transformando o Homem num ser alienado. A sociedade de corrida em que vivemos metamorfoseou a democracia num poder “dromocrático”… Viva a “dromocracia”, os “chegódromos”… e os “depositrões”! E viva também, enquanto subsiste, a tipicidade transmontana…

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Murmúrios da persistência dos tempos

Num tempo em que as tradições agonizam, vergadas ao inexorável poder de um mundo de siglas de novas tecnologias, reconforta assistir à irredutibilidade de uns quantos que persistem na manutenção do que moribundo poderia parecer. Atingir a fasquia da décima edição seria coisa pouca para um dos muitos festivais de Verão que inundam o país de norte a sul. Alcançá-la através de um Festival de Música Tradicional é obra de monta e um claro sinal de resistência heróica, num universo dominado por hip-hops, raps e afins. Universo esse em que o intrínseco valor da música (classificam-na como tal e eu respeito) extravasa o ritmo dos acordes para se remeter a avaliações externas sobre qual das instalações sonoras automóveis debita mais decibéis… Cousas de discotecas ambulantes e de testosterona mal dirigida… Adiante… O parto, há um decénio, de um Festival com uma clara marca de ressuscitação de valores perdidos ter-se-á assemelhado a um condenado à nascença. A perseverança, a qualidade musical presente e, porque não, o reavivar dos gostos do público macedense injectaram vitalidade a um evento que já ultrapassou fronteiras. Não surpreenderá, por isso, a proliferação de grupos culturais macedenses, a demonstrar que o cordão umbilical que nos liga à tipicidade das raízes nunca foi, afinal, cortado. Uma prova viva e indelével de que o fenómeno da nova vaga de “World Music” não se confina ao espaço das denominadas elites culturais. Será por isso que, durante dois dias, Macedo receberá um pouco da atmosfera andina, podendo respirar-se um pouco de Machu Pichu e da envolvência mágica dos descendentes Incas. Numa inusual mistura com jograis medievais dos tempos modernos ou com dignos representantes de ancestrais cultos transmontanos, nas figuras dos Caretos ou dos Pauliteiros. Ou ainda no rufar de tambores ou artesanais latos. Para lá deste troar ou do canto das profundezas da familiar gaita-de-foles, poderá assistir-se à genial fusão de sonoridades meridionais com folk nórdico, temperada com um cheirinho de tons medievais e uma voz divinal. Os Dazkarieh transportam consigo o encantamento da darbouka, do bouzouki ou da niquelharpa. Cousas raras irmanadas de forma sublime com instrumentos contemporâneos… Inverosímil parece uma outra irmandade, gerada pela aliança entre o portuguesíssimo fado e a tropicalidade dos sons brasileiros, condimentados por um toque de percussão em formato jazz. A batida do Edu Miranda Trio é um cocktail musical que não deixa a alma quieta. A magistral interpretação de “Fado lisboeta” retira o espírito à letra do fado de Amália… «Eu só entendo o fado; pela gente amargurada à noite a soluçar baixinho; que chega ao coração num tom magoado; tão frio como as neves do caminho»… Fosse caso de as neves já preencherem os caminhos e os Zambaruja cá estariam para aquecer a alma e a gente. Aquecê-las-ão, de igual forma, ao ritmo inebriante de sons em que surgem misturadas tradições do folclore de Castela e Leão com tons da modernidade, acalentados por reminiscências de influência celta e aquecidos pela sonoridade única da dulzaina castelhana. A ementa está recheada pelo exotismo da heterogeneidade de sons de distintas culturas. Sem dúvida que é um apelativo a uma refeição musical distinta. À semelhança de anos anteriores… Lá terei que ir a Macedo de novo… Que chatice!…