Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



sexta-feira, 19 de abril de 2013

Alustrices


Diz o incomparável que "Deus quer, o homem sonha, a obra nasce". Por bandas de Terras de Cavaleiros, não façam os da casa milagres, que de milagreiros está exógeno espaço cheio, Deus quis, o homem sonhou, a obra nasceu. Numa qualquer conversa de rua, emanada do circunstancial, pacatez dos dias, abane-se o estabelecido, o diziam os líricos, rubrique-se verbal acordo a manifestação de vontades e avance-se para a reunião de desconhecido exército. Não um qualquer exército, apenas um batalhão de sonhadores que nutrem, em simultâneo, inusitada paixão por disparos sem vítimas. Ou vítimas haja, sorrisos ou rugas gravados a recolhas de luz, obturadores em acção, permaneçam em paz momentos do pretérito, ou falem as pedras, surja quem disponibilidade tenha para as escutar. Da procrastinação dos dias não é feita a vontade. É vê-los, visão em riste, poetas de imagens, artesãos do olhar, perscrutando a noite ou sugando o tutano dos dias. Talvez o efémero do pormenor ganhe, subitamente, eternidade. 
Ou, vozes da reacção, o Restelo longínquo, não funcionarão, por bandas estas, da desgraça profecias. Queiram os feiticeiros recriar antídotos de fé muita, dobrar o das Tormentas e desbravar sentidos muito para lá da Taprobana. Deva o céu ser o limite, lá para um mar de estrelas nunca dantes navegado, onde os horizontes se diluam a metafísica. Querer é poder, o dizem os entendidos. "RAIS'PARTA" os ALUSTROS!!! Da resignação não desenham cartazes, telas formatadas a carolice, reinventam o tempo quando tempo não há. E sorriem, simplesmente sorriem, faces moldadas a sonho, que os olhos nunca se cansem e nunca fine a vontade. Depois, é só correr até à próxima paragem. Espíritos desenfreados em busca do nunca visto, irmandade da imagem, voam com os pássaros e lançam privadas orações aos altares da memória. Dizem que querem preservar o património e as gentes, planar como milhafres, entrar no estranho bailado nupcial de mergulhões, imiscuir-se nos aromas de selvagens orquídeas, disputar território a répteis e anfíbios. E captam afectos, na desumanidade da persistência, o dirão os escravos do medo. Talvez as paixões sejam mesmo assim, refrear do racional na irracionalidade do querer. 
Não se explicam, sentem-se. Apenas e tão só, sentem-se. Digo eu, mero Cavaleiro Andante, sonhador de letras e imagens, é assim que vejo os sonhos. 
Só os entendo esquissados a lápis sem cor, coloridos a giz de paixão. Numa qualquer lousa perdida no tempo e partida em partilháveis pedaços. Gostava de ser Alustro, a sério que gostava, ser parte de um bando de pardais à solta. Provavelmente, convidar-me-ão, tudo tem um preço afinal... Julgo já ter a ficha de inscrição, especial impresso para anónimos sócios, Macedo tem vida, ou vida quer ter. E tem património, gente, potencial, atmosfera... E tem Bornes, Nogueira... E Monte de Morais... E tem Azibo... E tem Alustro - Clube de Fotografia A. M. Pires Cabral... Venham mais cinco...    




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domingo, 7 de abril de 2013

Escuteiros - ou regressões ao 602...



Sermos tomados por uma quase incontrolável emoção, olhar perdido num quase infinito, violações ao tempo presente por um pretérito com irrazoáveis tonalidades a futuro. Fixações numa armação decorada a amarelo, verde, azul e encarnado, tremeluzentes ornamentos, no finito de um colorido derretido a esperança. Relembrei nós, acampamentos, fugazes recordações, de mochila às costas, fogos de conselho, não adiadas promessas. A controlada comoção, num assomo de passado, inesquecível, como inesquecíveis são as memórias. Ao vê-los, perfilados, alinhadinhos, no temor de uma qualquer falha de protocolos tantas vezes treinados, repetidas promessas de avanço etário. Tão pequeninos os Lobitos, encantadores. Lembrei-me da primeiras reuniões no piso inferior da "casa do padre". E da adrenalina do primeiro acampamento, liderado pelo saudoso Rui Santos, lá para os lados da ponte ferroviária de Vale da Porca. Áureos períodos da Linha do Tua, era o "cavalo" ainda a vapor, tremia a ponte à sua passagem enquanto eliminávamos os resíduos de gordura nas límpidas água do Azibo. Os "putos", os indomáveis "putos" de lenço amarelo... 
De repente, dei por mim a celebrar a Promessa. «Prometo, pela minha honra e com a graça de Deus, fazer todo o possível por: cumprir os meus deveres para com Deus, a Igreja e a Pátria; auxiliar os meus semelhantes em toda as circunstâncias; obedecer à Lei do Escuta»... As gavetas da memória abriram-se, sem aviso prévio, marcas da nostalgia, talvez. Alerta, sempre Alerta. Ou, Escuteiro por um dia, Escuteiro para toda a vida... Era hora de apadrinhar a promessa do futuro Explorador. Emocionei-me, a sério que me emocionei... 
Ficava a voz embargada, quase castrando a repetição do que ao microfone ouvia. Talvez fosse o eterno espírito de Baden Powell a provocar o estremecimento. Ou o incontrolado desejo de revivescência... Senti um orgulho imenso no 602, semelhante àquele que sentia enquanto entoava a "Radiosa Floração" de tempos idos, no indómito grito de "Escuteiros leais, avante, avante!"... Os Chefes Rui, Fátima, Afonso, Manuel Joaquim... A minha Patrulha Lobo, ou a Veado de avanços outros, lá longe, já ao virar da Associação de Socorros Mútuos para o Bairro de São Francisco. De súbito, lembrei-me de umas fotos que vi, algures, pela rede social... Faces que, evoluções celulares, perderam naturalmente a graciosidade de epidermes esticadas pela juventude. Mantêm-se graciosas, de igual forma. Tal como graciosa ficou a minha vontade de regressar... De repetições também se desenha a vida... Escuteiro por um dia, Escuteiro para toda a vida. Não fiz a Promessa... Mas prometi a mim mesmo o regresso, enquanto assistia a um inenarrável e comovente esvoaçar de lenços ao vento...

(Fotos "surripiadas" da autoria de Alexandra Mascarenhas)


    

     

quinta-feira, 28 de março de 2013

Bô! Dunde carbalhitchas s’indrominou o folare?


Coisas há que nos acicatam esta soberba de às pedras ter pertença. Como se os desafios se sucedessem, numa amálgama de formas aparentemente desconexas, entre prefixos e sufixos, radicais tantos de heranças latinas, árabes, helénicas e outras que tais, bárbaras até, os clássicos o diriam. De quando em vez, sofro deste achaque de contrariar o estabelecido. Demência, o dirão os intelectuais que, avantajado pedantismo, se servem à sobremesa do que vomitado é pela plebe… Afinal, Chacim não era adaptação linguística do arcaico “porco selvagem”, nem chacina de Árabes seria… Solte-se o porco ou tire-se coelho da cartola, não o derivado das pedras, antes o parido na humildade de ter a pretensão de contrariar o estabelecido. Repiquem os sinos da mente!... E recensões académicas venham à causa…
Mas deixemos o “Flacco” de lado e esqueçamos a “villa Flaccini”, outras que tais, que de sericicultura foram outras épocas desenhadas. É tempo da suavidade sedosa de folares a tecerem o êxtase de gustativas papilas, adornados a inconfundíveis aromas desprendidos pela “tchitcha” que recheio lhes dá. É a tradição a marcar pontos neste infame jogo de gula ancestral. E a eterna e histórica dúvida sobre “dunde carbalhitchas s’indrominou o folare”?
Descansem culinários peritos, imiscuir não me vou na excelência do que excelente é. De receitas quero saber-lhes apenas o resultado… E o registo das etapas… Ou inventá-las… Mas ao que interessa vamos…
Qual o significado de folar? Dúvida dos tempos, incisiva questão, dicionaristas se consultem, na embasbacada postura de possuir o dito folar uma origem obscura, especialistas dixit, impossível sendo atribuir-lhe, com segurança, um étimo latino... Como só acreditarei incondicional e piamente na ida à Lua quando lá “botar as patas”, de S. Tomé influências, pruridos me gera esta coisa de os ditos especialistas “botarem” obscurantismo na paternidade do vocábulo “folar”. Quando provo a iguaria, sabe-me a tudo menos a filho de pai incógnito… Ou a resquícios de germânico bolo, “flado” o diz o insuspeito Moraes, como se o mel algo tivesse a ver com o folar. Ou “poularde”, como o afirmam Faria e Lacerda. O folar derivado de frango?! De frango?... Creio mais nas derivações lendárias de Mariana e Amaro, mais o fidalgo sem nome, “floralis” o dizem os entendidos. Creio mas não acredito! Insuficiências de descrente… Só porque, raridade legada pelo “Tabellião” da excelsa vila medieval de Ferreira de Aves, lá para finais do séc. XIII, feito foi um “emprazamento” de metade de um moinho localizado em Folares. Onde? Folares??? Hummmm…. Dizem actuais cartografias que a dita Folares do documento evoluiu para Forles. Auscultem-se, de novo, os entendidos em toponímicas questões e de Folares a Forles influência terá tido a antroponímia de Froila derivada. 
Coisa em que, massa de farinha e ovos pelo meio, não acredito. Mais coisas da descrença… E adiante que, suspeitas da gula, lá me conduziu o folar à fogaça, iguarias de Terras de Santa Maria. Daqui a terras da península itálica foi um salto de pulga… E apareceu a “focaccia” a esgrimir argumentos. Mergulhe-se nas “Etimologias” do célebre Isidoro, lá para meados do séc. VII, e já por lá se vê a “focaccia”, meandros do fogo, “focus” para os pais da latinidade. Do fogo sairá, mundo pagão dos Deuses Lares a acrescer, no feminino de “focácius”. Talvez me “botasse” agora a um “carólo” do bem latino “panis focacius”… Há-de ter evoluído, tê-lo-á feito, seguramente, ou não teríamos hoje o “focolare”… Digo eu, na insapiência vertida de uma qualquer adquirida ignorância. Ou não nos dissesse a De Laude Virginitatis que
o conduto se “coctura in focularibus praeparata”… Derivações de paternidade em “foculare”…
Avance-se até ao medievo, das trevas lhe chamaram, erradamente o direi. Voemos até à Baixa Latinidade, ao “focagium”, imposto de feudalistas timbres, por cá derivado em fumádego, direito de fumagem ou fogaça. Lá teria de haver explicação para se contarem fogos ao invés de casas… E já se pagava uma imberbe forma de IMI… Aos desgraçados dos contribuintes, «alem do foro a que sam obrigados e concertados com o senhorio oyto alqueres de fogaça»… Só para um exemplo citar… 
Ou outro, lá para o séc. XII: «…Et in servicium unam fogazam de duobus alqueiris tritici…». Por estas bandas, também os ilustres donatários do infeliz Mosteiro de Castro de Avelãs se rogavam ao direito de considerar os que em suas terras moravam «bassalos do mosteiro» e «pagam mais de fumadego cada hum para acender foguo quatro dynheiros e meio». E das obrigações seculares, dos tempos evoluções, se terá passado para as religiosas. Como diz o inestimável Abade de Baçal, «Também na mesma semana gloriosa os párocos visitam as casas dos fregueses, lançando-lhes água benta e suplicando a Deus que prospere bem os moradores, ao mesmo tempo que levantam o FOLAR.» Ou resquícios do «focagium»… Pagamentos em «focolare»… Ou em «fo(co)lar(e)»… Digo eu…
        

quarta-feira, 27 de março de 2013

Rumando a Nordeste


Estar e não estar... No refugo do tempo, partículas que teimosamente permanecem agarradas à pele rugosa rasgada por geológicos encantos. Por vezes, apetece-me apagar a história, friamente, de macabra forma, sem pudor. "Albidei" a quadra natalícia, reformei antecipadamente o Entrudo, ocultei dias e passagens de repetidos e brilhantes fenómenos  da pátria xística. Condicionalismos dos instantes que se sucedem a alucinantes ritmos. Apetecia-me apagar a história... Mas não apago... "Cousas"...
Seria um desplante o homicídio a este umbilical fio que me une às pedras. Bem vistas as coisas, tornar-me-ia num assassino da essência. E não me apetece... Desculpem-me o incómodo... Prefiro manter este rumo a Nordeste. Mesmo que o Nordeste tenha deixado de ser um ponto colateral considerado na rosa-dos-ventos. Está lá algures, entre o nada e o nenhures, escondido onde visível é para toda a gente, obliterado por inexistentes remorsos de pedras tornadas artificialmente diamantes. Ou julgar-se-ão... 
Crónicas de um definhar anunciado... Prenúncios de uma eternamente adiada moribundez, enquanto nos anunciam que o butelo deve ser matamorfoseado em "Wurst", e umas casulas adulteradas em qualquer coisa assemelhada a  "getrocknete Bohnen"...  Digo eu, que nada sei do linguajar das terras da Wehrmacht, olhares de supremacia em direcção a Sudeste, contágios a "Lissabon"... 
Entre este nada e este nenhures, raio de repetição tantas neste meu algures, de apetência desenhados os genes, não me apetecia, apenas, apagar a história... Também me apetecia um "cibo de folar"... É tempo "deis", de "botar farinha n'ámassadeira", reviver, como num temporal orgasmo, a ancestralidade de uma tradição orquestrada a "massa mim marelinha" e a uns "bôs cibos de tchitcha" a ornamentar-lhe a alma... Resisto e não desisto, rumando a Nordeste...

   



domingo, 25 de novembro de 2012

Pelas bandas da terra das "Cousas"










Talvez há uns anos o programa não fosse apelativo. Em recuados tempos, ouvir a banda seria sinónimo de retrogradação, antítese para evoluídas mentes, avultariam desejos de sons que se sobrepusessem às "modinhas" que os bisavós aproveitavam para se aproximar de oposto sexo. Com o advento das tecnologias, em festa que fosse festa eram obrigatórios abundanciais decibeis debitados pela "aparelhaige" ou, apanágio de fartas terras, "bô, bô, er'ó cunjunto". Recordo com agradável nostalgia os preparativos para a subida ao coreto, difusos acordes abafados pela debandada geral em direcção à taberna... Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, lá o dizia o poeta de gloriosos cantos. 
O cartaz anunciava o "Concerto de Natal" da Associação Filarmónica do Brinço e da Banda 25 de Março. A um mês da noite de todos os encantos, espírito natalício em estágio de pré-época, artimanhas de progenitor, convence-se a prole a companhia fazer, salutar caminhada pelo escasso frio nocturno em direccção ao Centro Cultural, ameaças não concretizadas de aquáticos derrames da abóbada decorada a tons de cinza. Em cima da hora, como convém, debandada familiar pelas artérias da "vila", não haveria de estar o auditório de lotação esgotada. E não estava! Mas estava quase... Macedo - e arredores - sairam à rua e, contingências da anomalia, fomos em degredo para a fila K, lá bem perto das saídas, assuma-se o positivo de estar na "pole-position" quando o espectáculo terminasse. E, bem vistas as coisas, sempre houve permissão para, contas de cabeça à antiga moda, verificar que os assentos continham qualquer coisa que ia para lá de um cento de homólogas. Inflado ego pela adesão da conterraneidade, ouvem-se as últimas afinações nos bastidores, aguarda-se pacientemente pela entrada dos intérpretes enquanto se trocam algumas impressões com a descendência, apenas para passar o tempo e lhe acicatar o espírito. 
Primeiros aplausos! Clarinetes para um lado, saxofones para outro, flautas para aqui, os trombones para ali, ficam na retaguarda as percussões, venha o mestre e siga a banda! Bem cá no âmago, digladia-se o orgulho com a "proa", vencem ambos a contenda, eleva-se uma pontinha de emoção. Afinal, naquele iluminado palco, perfila-se a Banda de Lamas, terra do coração, gente que me acolhe como se fosse efectivamente deles, até a genética por lá tem marca, ao fundo, dando ritmo aos acordes em tons estranhamente latinos. "Atão num m'habia d'intcher de proa?"...
O reportório inflama-me o espírito, os pés não sossegam enquanto a sala se enche com uma atmosfera de sonoridades latinas, inusitadas danças e contradanças ao ritmo de salsa ou cha-cha-cha. Aplaudo, se aplaudo! Depois, arrepia-se-me a alma, percebem os receptores auditivos inusuais acordes para uma filarmónica, mas que raio, isto soa-me a familiar! Retrocesso na descrença, é mesmo um "medley" de temas da banda de Carlos Moisés!
Quase sem dar por isso, desafinada voz abafada pelos metais e pela percussão, vou alegremente cantarolando o "Se te amo", "Quando eu era pequenino" ou o incontornável "Os filhos da nação", dos Quinta do Bill. Nesta altura, quebra-se a apatia, responde o público ao som de acompanhamento de palmas, apoteótico momento antes da despedida. Pausa na emoção, esvazia-se o palco, aproveita-se a deixa para uma conveniente reposição nicotínica. Há-de a Banda do Brinço iluminar de novo a silenciosa sala. Paulatinamente, vão entrando os músicos, ovacionados enquanto se acomodam nos seus lugares. Breve apresentação, avolumam-se outros ritmos na sala, menos ousados, mas não de menor qualidade. Obras em cinco andamentos, a roçar a perfeição, calmas, bastante calmas, fugaz melancolia, por vezes, na agradabilidade de inolvidáveis momentos. Compreensíveis coisas da genética e do apego, absorvo a profusão de ritmos da Banda do Brinço sem o "ruído" causado pela emoção anterior. Mais frio, menos emocional... Por fim, ecoa uma marcha militar, intensa, profunda. Sentem-se os genes a fervilhar, solta-se um acompanhamento de palmas ao ritmo da marcha, olha, orgulhoso, o "mestre" para a audiência, ter-lhes-á despertado uma qualquer intensidade escondida. Finaliza uma noite, a repetir, seguramente, haja mais eventos semelhantes. Provada ficou a qualidade do que se vai fazendo por "Terras de Cavaleiros". Provado ficou, ainda, que afinal há gente por essas mesmas"Terras", contrariando viperinos tons da desertificação. E, para o próximo Sábado será a vez da Orquestra do Norte. Lá procurarei estar, de novo... E hoje, despertei ao som de foguetes... É dia de Festa na Santa Catarina...

               

domingo, 16 de setembro de 2012

Um helicóptero do INEM como causa - a vida saiu à rua


Não desdenharia da possibilidade de enveredar por um desfilar de simbioses vocabulares eruditas. Dotado de uma parafernália de dicionários, enciclopédias, gramáticas e demais acessórios livrescos como leais conselheiros, dúvidas não me assistem acerca da capacidade de vomitar um bolo alimentar desenhado a algo que se assemelhasse a erudição. Mas não me apetece... Pelo contrário, surge-me uma irreprimível apetência para vernaculizar. Descansadas fiquem puritanas almas, apelo não farei à brejeirice, mas esforços não regatearei para alcançar a pureza da mais recôndita essência. Depois, plagiando o que insistentemente circulando vai por sociais redes, "Vão-se foder!"... Porque é assim, basta recorrer a um tasco perdido numa qualquer aldeia perdida deste perdido Nordeste e, salve-me Nosso Senhor, uma "manilha" mal jogada azo dará a um soltar de língua que, desmedidas palavras, executará um indomável "caralho'sta racontrafoda atão num te fize sinal q'o áze num no tinha ou". Assim mesmo, sem vírgulas ou demais pontuações, expelido com toda a força que os "botches" permissão derem, vozes entrelaçadas num "abonda di mais uas mines, q'o mou parceiro já num faze ztinção entre um baléte e ua sóta". Entretanto, descontroladas emoções, algum dos comparsas poderá sentir um aperto no peito, dor atroz que polui o discernimento, sente-se a vida a esvair-se, atrapalhações muitas, "tchamim o cent'i doze, q'o home se pintcha pró lado, que mim branco stá!". É assim no "fim do mundo", ficcionais âmbitos à parte, que de ficções está o mundo "tchêo", e de realidades "tchêo" está este "cibo" de terra confinado a geomorfológicas condições de Trás-os-Montes. Caros senhores à beira Tagus sentados: os mares nunca dantes navegados não se confinam a Atlânticos, Índicos ou Pacíficos; há também um Mar de Pedras, enviesado entre a Estrela Polar e o Sol Nascente, onde marinhos monstros não há, monstros os haverá, quando cá vêm tentando convencer as gentes que os calhaus à beira-mar paridos são de suprema casta, comparados sejam com ígneos ou metamórficos calhaus neste paraíso nascidos. Por isso ontem saí à rua! Confesso que desvirginei o meu comodismo, apenas porque me habituei à salutar santidade de um Pedro Hispano, de um Santo António ou de um São João, ali mesmo, quase ao virar da esquina, à mão de semear, sem necessidade de recurso a helitransporte que me garantisse uma chegada em 30 minutos (!!!!). Por isso ontem saí à rua!!! Porque viver em Soutelo Mourisco, em Vilar Seco de Lomba ou em Peredo de Bemposta é de uma distinção que deveria fazer roer de inveja aqueles que, recheadas contas bancárias, lustrosos gabinetes, se reduzem à imbecilidade de me tratar como um número. Por isso ontem saí à rua!!! E senti uma emoção nunca sentida ao ver a minha gente testemunhar a importância de umas hélices, ao olhar para a inocência de uma criança salva pela eficácia do que pretendem, agora, retirar-lhe. E emocionei-me ainda mais, ouvindo esta gente exposta à gatunagem de gabinete a entoar o Hino do país que lhe quer vilipendiar a pouca saúde que lhe resta. Paradoxos dos dias, descendentes das estirpes dos que infiéis acossaram, filhos dos que este pedaço ao reino agregaram, vergastadas sofreram para pertença terem a este flato lusitano que agora os quer ver morrer agarrados a giestas e castanheiros... Por isso saí à rua!!! Calma e pacificamente, trajado a luto, de palavras de ordem não abusando, coisas de feitio (ou defeito), palmas das mãos aquecendo para ânimo dar a muitas faces talhadas a esquecimento. E, excelentíssimo reverendíssimo senhor presidente do INEM, minhas faço as palavras de quem, gentilmente, lhe endereçou o convite para um pitoresco percurso de ambulância (pode ser uma VMER, uma SIV ou qualquer outra coisa de quatro rodas) entre Miranda do Douro e Bragança. Se tem os "arraiolos" no sítio, bem presos "ó meringalho", "bote cá buber ua pinga"!
No tempo em que decorrer a confortável viagem, para que não sinta a angústia de curvas e contracurvas, sua ilustríssima excelência terá à disposição um inexcedível serviço de tradução, não só do sentir de um povo, mas também do significado de "arraiolos" e "meringalho" (com versão extendida para eunucos), assim como, enquanto "enfarda o bandulho" com umas agradáveis alheiras (ou tabafeias, se aceitar a sugestão de partida), lhe será gentilmente explicado o significado de "alombar", "stadulho", "seitoura", "aixada" e, especialmente, "mangar". Porque, "mangação" é algo pelo qual os Nordestinos têm pouco apreço... Por isso ontem saí à rua!!! Junto do Heliporto Municipal, local onde, a troco de um digno serviço que a actual ladroagem quer retirar, foram gastos uns parcos milhares do erário público, enquanto se me embargava a voz ao som da união de um Hino, lembrava-me dos tempos que passei por "Al-Lixbuna". Um dia, alguém da sua estirpe, com toda a certeza, mandou-me calar em termos menos próprios, dignos de uma certa e característica altivez: «- Cale-se lá, Sr. Trasmontano! Acaso não sabe que Lisboa é Portugal e o resto é paisagem?»... Nesta humildade de calhau parido atrás dos montes, afectuosamente respondi: «- Não, Senhora Professora! O Norte é que é Portugal! O resto são conquistas»... A História tem sempre a particularidade de poder repetir-se... Por isso ontem saí à rua!!!

  

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Umas hélices como simbologia

Por vezes, o burro cansa-se de vergastadas. O verdugo que maneja o chicote, habituado à mansidão do jumento, vai imprimindo ascendentes movimentos, logo seguidos dos contrários descendentes, silvo a irromper na pacatez e, zás!, sem que conste dos manuais do despotismo a desfaçatez da indignação, soltam-se amarras e voam uns cascos que atordoam o abutre. Logo virão outros, crentes na efemeridade do processo de levantamento de ferraduras... A não ser que a persistência dos indómitos resista à afronta... Mas já o dizia o grande Torga nos seus Diários, lá por tempos de passado século: «É um fenómeno curioso: o país ergue-se indignado, moureja o dia inteiro indignado, come, bebe e diverte-se indignado, mas não passa disto. Falta-lhe o romantismo cívico da agressão. Somos, socialmente, uma colectividade pacífica de revoltados.» De quando em vez, agitam-se as águas, muito de quando em vez... Cumprida a revolta, hão-de suceder-se as pastas da Saúde (ou doutro qualquer Ministério), numa prolongada odisseia que, Homero por cá andasse, azo daria a mais uns quantos volumes. Vão os cleptómanos acicatando a soberba, apenas pela inevitabilidade de, fenómenos da geomorfologia, ter ficado um Reino Maravilhoso empoleirado no alto de Portugal. Episodicamente, serve o dito Reino para completar os manuais de estatística ou, eleitorais alternativas, cumpra-se ufana obrigação, alheiras e demais acepipes à disposição, caravanas de promessas do não esquecimento. Depois, apresse-se a retirada de medalhas e retorne-se ao oficial Reino do Olvido. Após o desmembramento das linhas estreitas, estreite-se ainda mais a gente, ampute-se o Reino de básicos serviços, definhe-se a saúde, a educação também, esvazie-se a alma que, de alma desprovido, o povo, essa cambada de anónimos energúmenos, povo deixa de ser. Até um dia... Os Filipes também por cá andaram 60 anos... Talvez precisemos de uma nova Restauração, à traulitada não diria... Mas é premente restaurar a crença, o orgulho, a pertença, esta estranha forma distinta de estar, exuberantemente retratada por Torga: «Onde estiver um Trasmontano está qualquer coisa de específico, de irredutível... Corre-lhe nas veias a força que recebeu dos penhascos, hemoglobina que nunca se descora». Prometeram-nos um helicóptero em troca do desassossego, querem retirar-nos o dito para incrementar o mesmo desassossego. Podem roubar-me a comida, mas jamais me roubarão a fome... Por isso, a 15 de Setembro, lá estarei num fraternal abraço ao veículo das hélices. Ainda que seja simbólico... Porque do pouco se faz muito e muitos não farão, seguramente, pouco.