Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



quinta-feira, 5 de julho de 2012

Azibo - a Oitava Maravilha


Engrandecer o que à nascença detentor já era de enormidade poderá soar à tecelagem de uma pegajosa teia justificável pelo apego à génese. Corre-se o risco de sublimar o sublime, metamorfoses em aracnídeo que emaranha fios de letras, desconexas, em suave deambulação pelas pedras do éden... Talvez agora engrosse o pelotão dos crentes no Inferno; afinal, o Paraíso existe... O Azibo nem é, sequer, um local... é um entrelaçado de coisas que roçam o intangível, fronteiras traçadas a imaginário, solo opaco de transparências tantas, o infinito alcançável na inatingibilidade do finito. Talvez tudo não passe de uma incestuosa paixão, na lascívia do pecaminoso, fusões de água e fogo, indistinto corte de umbilical cordão, tal a incapacidade do tempo para ocultar a ligação. Sentir-me-ei um Carlos da Maia em luxuriante apreço pela inconfundível beleza de Maria Eduarda... Ou, contemporâneas contenções, um Sete-Sóis em amena contemplação a Sete-Luas. Seja o que for, é uma paixão de imberbes sinaléticas, indómitos arrepios e um palpitar de saudade sempre que a distância temporal supera o emocionalmente razoável.
O Azibo é uma sequência de emoções intraduzível, transpiração do âmago, sente-se ou não se sente ou, de anciãos a herança, quem a feio ama, bonito lhe parece... Suspeito serei, nesta incontrolável chama que consome, fogo ardente, história de vida que inúmeras vezes se confunde, vigores da adolescência amansados por inolvidáveis finais de tarde. Nesses idos 80, novidade da paixão, loucuras tantas, a insanidade de travessia da albufeira de "escadinhas" a "escadinhas", intempéries de um querer não amestrado, rebeldia em fusões de corpo e água. Era assim, não poderia ser de forma outra, os meses de inferno clamavam pelo que lhes aplacasse a fúria. Transfigurava-se o Azibo em bálsamo, aquática força bruta que acariciava epidermes ressequidas pelo fulgor do estio, tapa-vento líquido, parecia ensandecer a adolescência em arriscadas manobras de tropelias de anfíbios.
Cresceu a dona, da maturidade se fez o deslumbre, magnificência adornada a voos de rapina, sons de orquestra em polifónico timbre, surpresa aqui, arrepio dos sentidos acolá. Ou a redescoberta de incontidas paixões, o tempo bloqueia por lá, e regride-se. A inenarráveis tempos nunca existidos, súbitos desejos de saltar para a Ilha do Fidalgo e absorver indecifráveis histórias gravadas nas rochas, petroglifos da memória, ritualizações do endeusamento do espaço. Devagar, sem pressas, com asas discretas, planadas incursões a telas abraçadas pelo beijo do sol poente. Sente-se a brisa de lendas muitas, mitos em alvoroço, remoinhos de danças ao demo, Lua Cheia nas encruzilhadas espelhada, o dizem as crenças. Prende-se o horizonte com o olhar, sobre a Fraga da Pegada mirando, inala-se a atmosfera dos dias, a praia da Ribeira ao fundo, corre a imaginação pela superfície de calmas águas, sorve-se gelada bebida na esplanada batida por refrescantes imagens de coloridos navegadores em permanente algazarra. Policrómico tecido de água entre montes encravado... Breve intensidade de um desenho em prolongamento de uma qualquer fragilidade do ser, sinto-me pequeno na presença de ambientes assim... Limito-me a penetrar-lhe nas entranhas, apenas porque se entranha. Talvez seja uma das 7 Maravilhas. Para mim, é a Oitava, insistentemente diferente...  

domingo, 1 de julho de 2012

Poetizar a província...


De mansinho, somos sonegados à pacatez da Pereira Charula. Uma estranha e profética visão apodera-se dos sentidos, rumores da diferença, apega-se a alma a imagens outras, vulgarizam-se memórias de românticas varandas de um romântico tempo em que a Rua da Praça ir desembocar na Praça. Tempo de desencarcerar os pleonasmos, soltando eufemismos, e vivas dando a figuras de estilo sem estilo algum. São os recursos expressivos, ou coisa que o valha... Divorciei-me da gramática, separei-me da morfologia das letras, etimologicamente desprovido de sintaxe, peremptoriamente afirmam os iluminados que regressões tive a idos tempos de iluminações outras, a petróleo talvez, ou às avessas candeias. O candeeiro é, hoje, outro, furtem-me a comida, que a fome não roubam. Porque os livros estão lá, à passagem da esquina da difamação, penetra-se num mundo de ilusões, aspira-se a inebriante voz das letras. De repente, um idílico mundo em que as cepas se vêem adornadas a cachos de letras, doces ou amargas, verdes ou maduras, folheia-se o tempo que pára subitamente, à medida que um quadro de negra tela se vai ofuscando por detrás de pinceladas de giz, aquele mesmo que preenchia lousas em recuadas épocas em que os pais, ingénuos seres de outrora, amputados não eram da prole.
Por entre umas baforadas de capas e contra-capas, entorta o olhar para a esquerda, alterne-se com a direita, a fermentação de fonemas interrompida pela embriaguez de sorrisos, recatadas faces, a Alice, disponibilidade do ser, a Virgínia, mestre de letras, encantadora de serpentes da escrita, no seu mundo pintado a alvinegro, colorido pela inefável, por vezes, magnânime presença da contagiante D. Ana. Solitário remador na presença de navegadores em barcos de papel... Ou o universo traçado a pena, indecifráveis tintas, da China, ou doutro lado qualquer. Folga o costado de quotidianos sentires, aplaca-se a sede de indizíveis vazios, sorve-se o tempo num alienígena espaço, que a Física tudo não explica, venham o Hawking ou o Albert, conceptualize-se a relatividade da quântica, relativizem-se livrescos quasares, quantifiquem-se negros buracos literários. Opte-se, então, por descer a telúrico planeta, percorram-se os meridianos, pausa para simpático e reconfortante café, duas de letra o dizem, o conforto de uma troca, voam ideias. De tempos a tempos, poéticos saraus, afinidades na partilha ou, novos autores, consagrados outros, preencha-se o serão a velas, luminosidades de encanto, intimista, familiar, na proximidade de um circo de letras, sopa de feras de signos conjugados a sentir.
Vezes outras, empreendedorismo o clamam, ganha o ambiente nobres aromas, excitam-se estomacais fluídos, revisitem-se Isabel ou Laura, venere-se Afrodite ou retempere-se a alma a chocolate, cocktails de excêntricos sabores, ou o sabor das compotas da Lu. Tempera-se a noite a espasmos de gulodice, condimentos do exotismo da D.Virgínia, ou da descendente Joana, uma deglutição mais, poetiza-se a comida, como uma sequência de estrofes do paladar, saliva em ebulição, versos de sabor e alma. Encontram-se anormais rimas entre framboesa e maçã, nêsperas de outra galáxia, gustativas papilas em reboliço, funde-se a amálgama num vulcão rodeado de livros. 
Há espaços assim por Trás-os-Montes, bem no coração do Nordeste, ponto oitavo de Pires Cabral, Terras de Cavaleiros, no despovoamento povoada por locais de eleição, louvores ao sonho em realidade transfigurado. Há simbioses dos sentidos que valem a pena...                        

quarta-feira, 30 de maio de 2012

História, figuras e génese

É destemido ler nas pedras. Penetrar-lhes nas entranhas, sugar-lhes o endógeno, vulgarizar-lhes a seiva, num sistema de excelência. Ocasionalmente, revelam-se as leituras. Na intimidade, recatados momentos, senso anestesiado pelo anseio do "que tudo corra bem". E corre, na eloquência de uns seixos rolados bafejados pelo abraço do Azibo, pelo afago do Sabor ou, simplesmente, pelas suaves carícias de um qualquer regato que desbrava montes e descansa em vales. Por vezes, sublimam-se distantes cronologias, incisas decorações, penteadas o sejam, lá para o tempo de metalurgias primeiras, seriam corvídeos donos da Fraga, o Vilar no sopé do Monte. Já por lá se andou, ao sabor do estio, encantos na sapiência dos que no pó lêem, partilhas que movem os genes, ancestralidade feita culto, ressuma a génese. Sobra espaço para ouvir os que estocadas dão à nossa ignorância. Sentinelas do tempo, resgatado ao som da protecção do "Monte Mellis", dorso de Bornes a clamam modernos tempos. De modernos o são pinceladas da excelência...
Há oficinas que restauro dão à negligência, à excelência, ocasiões outras, sacros rumores na Casa Falcão, ex-libris de um centro inúmeras vezes pouco central. É ali ao lado, na esquina da passagem, ignorâncias de pedras da calçada, fugas de compromissos outros, ou seja o conformismo de mirar, causais fenómenos da interioridade, para museus outros ao alcance de uma qualquer incongruência de definhar o que autóctone é. Mas mora a igualdade, ou supremacia da herança das pedras, lá para os recantos de um Museu de Arte Sacra pintado a querer, simbioses mal entendidas por heróis do escárnio (será?), ou a impureza do desinteresse (será também?). Ou uma qualquer outra coisa estacionada para lá de visível entendimento...
Excitam-se os genes da pertença, figuras muitas de elevação, ganham-se prémios de Academias, Pedro Hispano uma, lá para as bandas de Corujas, grandezas da humildade, imita-se o ilustre de Grijó, raras elevações em duo de anos, fica Frei Francolino registado nas memórias dos conterrâneos, temos um Macedense a dar cartas na exégese bíblica, Pontifícias Comissões, e o Profeta Isaías descodificado pela herança da terra. Figuras outras, idas, ressequidas por cronológico bafo, releituras do cronista, intensas, envolventes, Fernão revisitado, temporais regressões aos tempos do Sandoval, terá prostrado o Mestre, rótulas em desespero, auxílio do de Macedo, o Martim toponimicamente omisso, Aljubarrota revisitada e revista. Para quem quer, para quem pode, para quem sorve...
E fala-se de um linguajar, requiem pelas almas, salvem-se fonológicos processos do purgatório, exalte-se a ancestralide absorta em cumprida penitência, louvem-se os que incentivam. Dizem que o Dialecto Trasmontano é raro caso, híbrido o alcunham, influências do que a artificialidade criou. São as Histórias de Macedo, reveladas pelas bibliotecas do pó, ilustradas pela excelência da recuperação de sacro património, motivadas pela distinção de humildes seres, regadas a envolventes ressuscitações da causa do de Avis, emolduradas a imaterial património da oralidade. Foram as Jornadas da Primavera, antítese do Inverno do esquecimento, prenúncio do fulgor do estio. É a Terra, é a Gente, é o Património... São as histórias com História... São os resultados... É Macedo na estranha e invulgar distinção que tem para dar... Um "bô cibu" está aqui...

                 
 

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Este tempo que consome...


Irremediavelmente, os ponteiros são os carrascos dos dias. Assistimos à inapelável passagem, corrupios dos dias, incremento têm os espécimes brancos que adornam o escalpe, vai diminuindo a apreciável distância que um dia nos fazia olhar a descendência como se estivéssemos estacionados no décimo andar, já estão eles a morderem-nos o queixo e apercebemo-nos que os nossos fémures já não crescem mais. O tempo de os presentear com uma viagem às "carritchas" já lá vai, transfigura-se o passado em longínquas memórias presenciais. Sem qualquer desconjuntado desprimor para a descendência de carne e osso, valha-lhes o lugar mais alto do pódio na bomba da circulação - mais o agradável e sublime desgaste em neuronal sistema, naturalidade das coisas, o diria - também há filhos da virtualidade. As "Cousas" vulgarizaram-se como tal... Um dia, peripécias do tempo, ocupações outras, energias voltadas para afazeres que intensificam o prazer que a vida nos dá, encerramos a virtual prole numa gaveta situada num compartimento que deixamos de visitar assiduamente. Os ponteiros vão efectuando a sua circum-navegação diária, prioridades outras, austeridade dos dias, a inexorável passagem, atenções focadas no essencial, perde-se à meada o fio, remete-se uma das "meninas dos olhos" ao calabouço, olvidada fica ao sabor do acumular de poeiras. Um dia, num outro futuro dia, sente-se o atroz fulminar da saudade. Das "Cousas" simples... E, num assomo de sabe-se lá bem o quê, resgatam-se. E ilumina-se, subitamente, o que as pálpebras protegem... 

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Chocalhos Entrudeiros

O profano em sagrada aliança com a ritualização da magia, o Entrudo Chocalheiro, néctar da essência, demoníacas figuras alvoroçadas pela tradição, histórias muitas contadas pelo "mou" Ti Manel Alfaiate, enquanto se amacia o esófago "c'ua pinga de binho e um carólo c'um cibeco de queijo frezco". Os potes repousam afagados pelo calor que vai emanando do "strafogueiro", cenário de perdição, os sentidos anestesiados pelo que ainda não foi desvirginado pela mediatização. «- No mou tempo é q'era! Um mês im antes do Demingo Magro já nos botábamos por aí a fora, de terra im terra, éramos piró q'ó diabo! Um dia, im Baldrez, querium-m'ir ó focinho, c'um carbalhtchas! Ium-me racosendo o lombo, puso-me a tchucalhar ua rapariga e, bá, fi-jiu d'apropósito, botei-l'ua mão à teta, que mim consoladinho q'ou staba. Mas o catano da mulher pôsu-se ós berros e ós homes num le tchaldrou a cousa!»... Permaneço no "scano", deleito-me com o êxtase da descendência em redobrada atenção pelas "stórias" de quase 90 anos de vida, risos contidos sempre que a atmosfera é brindada com algum termo em vernáculo linguajar, perdoem-se os excessos, já está a adolescência imunizada por este saudável convívio com as pedras. É hora de abalar, cumprido o culto da ancestralidade, renovem-se alianças, sorrisos se gerem, que a solidão também vai precisando de um abraço. A Casa do Careto é ao virar da esquina, deslize-se pelos paralelos que emolduram o solo gasto por ancestrais correrias desenfreadas. Selem-se amizades ou conhecimentos que o tempo não apagou, prossegue o desfilar de constelações em tonalidades de geada, uma ginginha para atenuar as agruras, dois dedos de conversa de recordações muitas por florestal casa. Entretanto, abotoam-se os casacos para amenizar a brisa cortante, aproximam-se as almas de improvisada fogueira, cuidado com as "falmegas q'inda racosim á'lbarda", e olha que já lá vai o cortejo. Aproxima-se o ajuntamento no terreiro defronte de lugar sagrado, vozes afinadas pelos excessos, ecoarão casamenteiros pregões pelo silêncio da noite, funis a postos, improvisações da memória dos tempos, dizem que vão casar a filha do padre, traições da língua, afinal era a irmã, irá desposar a Macedo ou a outro qualquer lugar de rimas feitas. Demoníacos pactos ou sátiras que ninguém leva a mal, seguem os foliões em inversa procissão, fotógrafos em algazarra para obter o melhor ângulo, domina a cerimónia de anos tantos, vozes substituídas pelos sons da terra, primazia à gaita-de-foles a encabeçar o desfile. Trajecto em sublimação dos sentidos, como se a noite, de repente, se metamorfoseasse em dia, e do tempo restassem apenas resquícios de passadas sucessões de vinte e quatro horas. Detêm-se os espíritos em comunhão de propósitos, chega processional cortejo ao destino, colectivo homicídio a fogo e luz, queime-se o Entrudo, pasmados olhares que irrompem do aglomerado, olhos postos em pirotécnicos efeitos, gargantas sedentas, anuncia-se a queimada, alcoólica "galdromada" de intensos aromas. Improvisa-se o "bailo", roda para aqui, encontrão para acolá, espíritos felizes e faces marcadas por uma estranha harmonia em época de recessão. É tempo de rumar ao outro lado da rua, penetre-se nos sons que a tenda suspira, ouçam-se acordes com sabor a terra, aqueçam-se extremidades com aplausos ou trôpegos passos de dança. É um regresso ao passado, emotivamente bem recebido, soltam-se as almas e renegam-se os maus espíritos. Cometem-se excessos, inigualável Paulo sempre na dianteira, correm-lhe máscaras de lata no sangue, a alma é-lhe tecida a fios de lã coloridos e a chocalhos sempre em alvoroço, incontornável figura sempre presente. Agora é tempo de aplacar os exageros, penitenciem-se as carnes, folguem os foliões, segue a vida ao compasso da Quaresma, hão-de esquecer-se as casulas e o butelo, aguçar-se-ão os sentidos pela aproximação da limpeza às teias dos fornos. Os folares serão já ao virar do calendário... Dizem que o Carnaval são três dias... Em Macedo e Podence são quatro...
     

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Feira da Caça e Turismo - Retornos à essência

Numa época de contenções, vorazes apetites e mordazes recomendações para "troikar" de pátria, semblantes carregados pelo imaterial património do destino, trinam invisíveis guitarras num prenúncio de morte não desejada, verga o costado dos fortes, triste sina esta a de marinheiros de seco mar pétreo... No entanto, rompe-se a inexpugnabilidade de inviolável cerca, da putrefacção se faz inebriante aroma, volatilização do antes, o após antecedendo o agora, contrastes do finar feito vida. A realização da efemeridade quebra até pretensas sagacidades, fumo na ausência de fogo, paciência, "que me botim na culpa de num ser do scontra ou q'ande d'a cabalo dó pa trás, que mai fai, daqui num alquino ou, agora que m'afize ó strafogueiro, à tchitcha tenrinha e ó scano"... Devaneios à parte, tem a vida composições destas, "bota-se-m'o curação pró pé das guelas e as manápulas dão-le bóze", quem sofre as agruras da penitência são as teclas, massacradas num compasso de "screbe e safa", sequência de "tchic-tchic-tchic, bolta pa tráze, tchega pra diante, tchamum-le o dilite ou o béque-speice, ou lá o que caralhitchas me dixo o home dus cumputadores". Mas começou a Feira da Caça e do Turismo 2012!!! E não há cheiro a terra que não me alivie as ânsias, que não amanse as angústias, que não aplaque a ira - mesmo que a ira não passe de uma conjunção de três letras para embelezar a prosa... Enfrenta-se a ameaça que paira da abóbada privada de estrelas, priva-se a descendência do conforto de quatro rodas, conforta-se a dita com a previsibilidade de um nocturno passeio sem a presença de abençoada chuva, ruma-se ao recinto da feira, sorridentes faces desvirginando o silêncio do "Prad'Cabaleiros", repetidas saudações à alva e imóvel Maria, intrépidos seres corruptores da calma da Praça Central, a das Eiras é quase ali, deslumbram-se os sentidos com luminosa fonte, comenta-se a fachada do hotel de passagem, ouvir-se-iam as moscas se tempo fosse delas, adiante, é já ali depois das recordações do escolar edifício que relembra a segregação dos sexos. É o fascínio de um regresso, anunciado há um par de anos, atravessa-se o recinto ornitológico, captam-se desconfiados olhares de rapina, apetece tocar, afagar as penas, acalmar os protestos em forma de estridência. Arregala-se o olhar, segue o trio em procissão de deslumbramento, excitam-se salivares glândulas com o desfilar de sabores a terra, alheiras e outros enchidos em exposição, cheira a queijo, diz a descendência, mas cheira a miscelânea de terra e gente, sente-se a volúpia dos sentidos, apetece desencadear um descontrolado ataque às guloseimas. Por fim, saudações muitas, circunstanciais conversas, troca-se "ua mãozada" aqui, um "tchi" acolá, soltam-se uns beijos "n'uas botchetchas" ali, detêm-se as almas para a degustação de uma ginginha, "dá-s'um cibo à língua", revêm-se velhos conhecidos e amigos, demora um pouco mais o intercâmbio quando surge o "mou Binhó", soberba irmandade desprovida de genética, imobiliza-se o cortejo quando os xísticos glóbulos se amotinam pela presença dos longínquos acordes da voz das raízes, familiar e arrepiante choro da gaita-de-foles. É inexplicável esta música que me petrifica, talvez sejam ancestrais genes a clamarem pela injustiça do ostracismo, talvez seja apenas este indisfarçável orgulho nas pedras que me deram vida. Ou seja o gosto pela essência que me consome a dança dos ponteiros. Amanhã sentirei o mesmo, agitar-se-á a alma neste estranho bailado de quietude, revivescências de um tempo que tempo foi em tempos idos. A verdade reside nas portas da memória que teimam em não se fechar, talvez me tenha esquecido do "carabelho", propositadamente me tenha esquecido, porque pretensão não tenho de "cerrar o cancelo até que me tchame o home da gadanha". Quiçá sofra da demência de uma "macedite" crónica ou, instância última, seja o sofrimento derivado de "trasmontanite" aguda. Ou tenha sido a excessiva exposição à monotonia - essa sim!, monotonia - de telas de betão adulteradas por monóxido de carbono ou, alternativas coloridas, corrompidas a grafitti, inúmeras vezes elo constituinte de automobilístico ofídeo, serpenteante VCI ou Segunda Circular decoradas a sucessão de intermitentes luzes encarnadas... Prefiro a pacatez do virtual abraço da imponência de uma árvore, vastos horizontes ondulantes que castram a noção de tempo. Prefiro as terras da Feira da Caça... Podia ser pior... Plagiando uma certa campanha publicitária: "TERRA DOCE, VENHA CÁ!"...          

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Sfouras d'algua proa...

Bai-se pur um strafogueiro, trai-s'ua gabela de guiços e ua pinha, tchisca-se-l'um dus lumes, amanha-se bem a cousa pra que num haija muntas falmegas, num bá o catantcho do diabo ingaliar-se co'as as côtras do tchupão... D'ás bezes bota-se-m'esta buntade d'infardar um cibo de lombo de reco d'adôbo, "desprezo dando ao evoluído lombo de porco em vinha de alhos". Puri, na companha d'um bô púcaro d'smalte tchêo de pinga, dasquéis azuis ou brumêlhos que já nim na feira dos bint'nobe se bendim e que ficum mêos smoucados se cairim ó tchão. Ua pinga que d'ás bezes anda à bulha co'as goelas, "adstringente a dizem", tirada dasquéis pipos que dromim no tchão ó lado da loije. Se calha, bem m'ou finto que num mim'augue, mim pirongo se m'assaiu o home, inda m'amarro ó pé do tchupão pra rilhar uas costelazinhas, imbuligo os dedos de guerdura pra depeis os limpar ó rodilho. Carai!, num se m'acalmum us pur dentros co'as bistas dus tchouriços imbarrados no fumeiro. Bô, inda m'astrebo a subir a um motcho co'a peliqueira e racoso ua alheira e ua linguiça... Que bos-jiu digo ou, stou-le c'ua sapeira ó caralhitchas dos lambiscos, pr'áli a mangarim das nhas bistinhas, q'inda l'infio ua lostra nas bentas qui us pintcho da bara sim les cortar o fio. Ma num sei se m'astrebo a cear, stou co'a pança mêa intchada das casulas e do butelo, e inda se m'assaim uas cousas dus pur dentros, d'home que stá mêo infastiado. Cmu quera, um copetcho d'augardente amanse a bulha... Bou puri á'cmudar a tenda, lebo-l'a bianda ós recos, um cibo de farelos às pitas e ós parrecos e um tantinho de nabal afermentado à ruça, a burrica que toquei há um cibo da lameira ó pé da corriça do Ti Tonho Mouco. Cmu quim num trabuca num manduca, já o dezia o mou abó, bou-me desabagar o lar e botar o natcho ó ar da neite, já se le sente o tcheiro do carambelo, miúda giada há-de star prós que madrugum. Bá, bou-me pur a samarra, im antes q'o lombo fique mêo ingaranhado, e já bânho pra scruber mais uas tchalotices... Bô, ele há cousas do catano, inda trás d'onte a Tchica do Ti Zé dos Poulos staba mêa imbutchinada pur u causa dos lapouços que se l'abancarum no scano a racoser-l'o presunto e ós queijos. Ou bem no dixo q'era milhor irmos a drumir, q'era hora, mas a companha quijo mais ua pinga... Depeis foi lubar c'o Ti Zé a ingaliar-se co'a a Tchica, ua lostra prá cá, ua tapona pra lá, apareciam-se cum deis cutchos danados, quase se m'abria a cabeça ó berde c'um testo que buou pró pé do scano. Lá acalmemos a bulha, que se debem ter intendido ó depeis nas palhas, q'um home e ua mulher lá têim as suas desabenças, mas deis pares de pés sim miótes lá s'amanhum ó quente... Digo ou... Mas num me bim imbora sim scurritchar o copo, q'a pinga do Ti Zé sbara bem pur as goelas... Mas botaba ou faladura pur u causa da Tchica... Lubaba ou a bianda ós recos e quase q'intropeçaba nos tchanatos da mulher. Ficou mêa spritada assim que me biu. Inda pensei que nim as buas neites me desse, mas o catano da mulher, q'é dada a uns bruxedos mêos descontchabados cá pró mou modo de ber as cousas, inda m'arreganhou os dentes de tão contcha pur me ber. Peis num é q'o diatcho da saieira quer que bá lá ciar na Sêsta? E fria-se no crutcho! Q'ou sou mim guitcho e zeconfiado! Bem m'ou finto que num me bote pra lá uns pruparados no caldeiro, puri uns ruquelhos dos benenosos, ou injaldre uns cibos de pós dasquéis que botum as gâmbias d'um home na companha de cajatas! Staba munto daimosa prós mous gostos, q'a mim num m'ingana! Já ua bêze um home me cuntou q'andou deis meses d'sfoura, queitadinho, à conta d'ua galdéria c'má Tchica. Ou bem no sei quim num bota outra bêze o sim-senhor no scano do Ti Zé dos Poulos!... E num é pur as nhas nalguinhas, que bus-jiu digo ou! Q'essas preferem dar um tchi-curação pur u causa d'uas carabunhas do que serim racusidas q'ua sfoura d'andar sempre a strumar o monte... Co estas cousas, já se m'apagou o lume, tânho q'ir pur um capão, q'inda fai uas brasecas, se l'afolar um cibo. Depeis inda me bou astreber a um copetcho, c'um carólo, um tantinho d'isco, e uas alcaparras q'inda tânho pr'áli amanhadas. Só pra num ir im augado prá deita... "Por vezes, orgulhos da alma, deixo-me encantar por este apreço no recurso uma ancestralidade moribunda. Posso não lhe tolher o destino, mas deixo-lhe registadas as causas. Tudo não passa de" sfouras d'algua proa...