Bai-se pur um strafogueiro, trai-s'ua gabela de guiços e ua pinha, tchisca-se-l'um dus lumes, amanha-se bem a cousa pra que num haija muntas falmegas, num bá o catantcho do diabo ingaliar-se co'as as côtras do tchupão... D'ás bezes bota-se-m'esta buntade d'infardar um cibo de lombo de reco d'adôbo, "desprezo dando ao evoluído lombo de porco em vinha de alhos". Puri, na companha d'um bô púcaro d'smalte tchêo de pinga, dasquéis azuis ou brumêlhos que já nim na feira dos bint'nobe se bendim e que ficum mêos smoucados se cairim ó tchão. Ua pinga que d'ás bezes anda à bulha co'as goelas, "adstringente a dizem", tirada dasquéis pipos que dromim no tchão ó lado da loije. Se calha, bem m'ou finto que num mim'augue, mim pirongo se m'assaiu o home, inda m'amarro ó pé do tchupão pra rilhar uas costelazinhas, imbuligo os dedos de guerdura pra depeis os limpar ó rodilho.
Carai!, num se m'acalmum us pur dentros co'as bistas dus tchouriços imbarrados no fumeiro. Bô, inda m'astrebo a subir a um motcho co'a peliqueira e racoso ua alheira e ua linguiça... Que bos-jiu digo ou, stou-le c'ua sapeira ó caralhitchas dos lambiscos, pr'áli a mangarim das nhas bistinhas, q'inda l'infio ua lostra nas bentas qui us pintcho da bara sim les cortar o fio. Ma num sei se m'astrebo a cear, stou co'a pança mêa intchada das casulas e do butelo, e inda se m'assaim uas cousas dus pur dentros, d'home que stá mêo infastiado. Cmu quera, um copetcho d'augardente amanse a bulha... Bou puri á'cmudar a tenda, lebo-l'a bianda ós recos, um cibo de farelos às pitas e ós parrecos e um tantinho de nabal afermentado à ruça, a burrica que toquei há um cibo da lameira ó pé da corriça do Ti Tonho Mouco. Cmu quim num trabuca num manduca, já o dezia o mou abó, bou-me desabagar o lar e botar o natcho ó ar da neite, já se le sente o tcheiro do carambelo, miúda giada há-de star prós que madrugum. Bá, bou-me pur a samarra, im antes q'o lombo fique mêo ingaranhado, e já bânho pra scruber mais uas tchalotices... Bô, ele há cousas do catano, inda trás d'onte a Tchica do Ti Zé dos Poulos staba mêa imbutchinada pur u causa dos lapouços que se l'abancarum no scano a racoser-l'o presunto e ós queijos. Ou bem no dixo q'era milhor irmos a drumir, q'era hora, mas a companha quijo mais ua pinga... Depeis foi lubar c'o Ti Zé a ingaliar-se co'a a Tchica, ua lostra prá cá, ua tapona pra lá, apareciam-se cum deis cutchos danados, quase se m'abria a cabeça ó berde c'um testo que buou pró pé do scano. Lá acalmemos a bulha, que se debem ter intendido ó depeis nas palhas, q'um home e ua mulher lá têim as suas desabenças, mas deis pares de pés sim miótes lá s'amanhum ó quente... Digo ou... Mas num me bim imbora sim scurritchar o copo, q'a pinga do Ti Zé sbara bem pur as goelas... Mas botaba ou faladura pur u causa da Tchica...
Lubaba ou a bianda ós recos e quase q'intropeçaba nos tchanatos da mulher. Ficou mêa spritada assim que me biu. Inda pensei que nim as buas neites me desse, mas o catano da mulher, q'é dada a uns bruxedos mêos descontchabados cá pró mou modo de ber as cousas, inda m'arreganhou os dentes de tão contcha pur me ber. Peis num é q'o diatcho da saieira quer que bá lá ciar na Sêsta? E fria-se no crutcho! Q'ou sou mim guitcho e zeconfiado! Bem m'ou finto que num me bote pra lá uns pruparados no caldeiro, puri uns ruquelhos dos benenosos, ou injaldre uns cibos de pós dasquéis que botum as gâmbias d'um home na companha de cajatas! Staba munto daimosa prós mous gostos, q'a mim num m'ingana! Já ua bêze um home me cuntou q'andou deis meses d'sfoura, queitadinho, à conta d'ua galdéria c'má Tchica. Ou bem no sei quim num bota outra bêze o sim-senhor no scano do Ti Zé dos Poulos!... E num é pur as nhas nalguinhas, que bus-jiu digo ou! Q'essas preferem dar um tchi-curação pur u causa d'uas carabunhas do que serim racusidas q'ua sfoura d'andar sempre a strumar o monte... Co estas cousas, já se m'apagou o lume, tânho q'ir pur um capão, q'inda fai uas brasecas, se l'afolar um cibo. Depeis inda me bou astreber a um copetcho, c'um carólo, um tantinho d'isco, e uas alcaparras q'inda tânho pr'áli amanhadas. Só pra num ir im augado prá deita... "Por vezes, orgulhos da alma, deixo-me encantar por este apreço no recurso uma ancestralidade moribunda. Posso não lhe tolher o destino, mas deixo-lhe registadas as causas. Tudo não passa de" sfouras d'algua proa...
Bem Vindo às Cousas
Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
sábado, 7 de janeiro de 2012
Bombeiros, "baribis" e sirenes
Neste regabofe de Reis, surpresas de Janeiras cantadas, grupos de afinadas vozes em louvores ao Menino, deparo-me com a desafinação de penhoradas contas a uma corporação que, regressões feitas, faz parte de diversos capítulos de uma meninice pautada por deslumbramentos muitos por aquela valente gente que morava do outro lado do Toural. Esta incapacidade para perceber o imperceptível remete-me para um catatónico estado, involuntárias escolhas perante o abismo dos "Voluntários". Talvez entenda, ou talvez o entendimento se resuma à resignação da perplexidade, contas feitas, fica esta algia da alma sem analgésico que lhe valha. Serão os grupelhos, Senhores, serão estas estranhas competições para um nunca inventado "Guiness" de umbigos, mal amputados cordões, quiçá, ou a amálgama de volúpias da interioridade, que desprezo o juízo de valores em detrimento do dito de facto. E ouço as vozes, ou leio-as, estocada para acolá, retaliação para "acoli", e fica-me esta apetência para recordar os saudosos tempos do "Baribi". Morava à distância de uma estridência da sirene, esbugalhados sentidos em alerta pela difamação do silêncio. Se à noite fosse, despertavam-se os lençóis em algazarra de nocturno choro do verdugo da pacatez, calçava-se o que à mão estivesse, ou ao pé para mais correcto ser, atravessava-se o terreiro em direcção à casa dos padrinhos Venceslaus, percorria-se o bréu na companhia de exaltados vizinhos, só para saber onde era o motivo do alarde. Poderia a obscenidade do tempo decorar-se a desgraça lá para os lados dos familiares de Lamas, ou fosse uma daquelas raras partidas de quem gostava de massacrar o descanso alheio. Fosse o que fosse, lá estaria o Moutcho, o Tchico Noronha ou o Celeirós, e outros saudosos que a passagem do tempo se encarregou de apenas lhes recordar as agitadas faces. Mas estavam lá, os mesmos de sempre, os "Voluntários" à força da carolice de um inexplicável sentido de dever. Cheguei a sonhar fazer parte da corporação, mais não fosse integrando-me como manejador de bombos na fanfarra. Nunca cumpri o dever, para lá de umas noites em claro num Verão dos anos 80 a servir de receptáculo às comunicações de desgraças de um qualquer centro coordenador da região. Noites em que, na insistência da monotonia de cinco horas madrugada fora, a fanfarronice de "teenager" conduzia a alguns excessos comunicativos, irrompendo pela paz nocturna com alguns disparates via rádio. Havia alguns motoristas de ambulância que apreciavam a quebra do isolamento pelas deterioradas estradas de alcatrão deste recanto Nordeste. Outros havia que proferiam inenarráveis impropérios à audácia do imberbe que se aventurava a mobilizar a imaginação para obter um pouco mais de vida que a presença de inertes ambulâncias ou carros de combate a incêndios no quartel da Alexandre Herculano. Mesmo com o companheiro de turno que alternava as horas de sono numa cama mais desconfortável que os desconfortáveis assentos das viaturas, a solidão marcava o campasso das noites. De quando em vez, quebrava-se a pretensa privacidade de algumas comunicações em vernáculo linguajar, alertando os distantes comparsas com sonoridades de forçadas eructações, ou limitava-se o inusitado despertar a soltar umas sonoras gargalhadas com as anedóticas conversas que iam penetrando nos auditivos canais. Passou o tempo, mas não passou o respeito e a admiração pelos Homens que, um dia, repetidos alvoroços, se encarregaram de apagar os vómitos de chama que a chaminé lá de casa se resolveu a cuspir. Coisa de pouca monta, escassos foram os prejuízos, de contrário sentido ficou a perplexidade de ver aqueles valentes a treparam pelo telhado para abafar a infernal intempérie. Hoje, estão os heróis penhorados, espero que não entre o expirador de fumos da casa em erupção, dado sou a vertigens e herói não sou... Mas sou solidário, morra até a culpa solteira, desconhecedor que sou dos candidatos a João Ratão, que se amanhem em intestinas disputas enquanto definhando vai a Carochinha. Empurra para lá, puxa para cá, não se extingue esta chama de não me resignar a ver os "meus" Voluntários de pneus e combustíveis à avessas. Unam-se vontades, discórdias se desatem, amanhã poderá a rifa sair aos que se digladiam. De repente, foi a memória assaltada pelas fugas ao "Bomba", o "cão dos Bombeiros", imponente pastor alemão que aterrorizava, apenas pela sua presença, as peripécias de um bando de pardais à solta no Toural. Um dia, qual indomável trepador sem descendente sentido, apenas desci do tejadilho de uma camioneta quando o saudoso "Buja", incansável tratador e companheiro do "Bomba", conseguiu acalmar a animosidade daquela dentadura canina que, por pouco, não me constrangeu a "mejar-me pur as ciroulas abaixo"... Em jeito de compensação, fui bafejado um dia pela glória de entrar no revolucionário "Baribi"... Senti-me grande, sinto-me hoje pequeno... Salvem os Voluntários...
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
Contra-corrente
Seguisse a pança atulhada em rabanadas o normal processo digestivo e estariam as Cousas a regurgitar votos de próspero ano novo, pleno de felicidade, saúde e quejandos. Subitamente, o enternecedor crepitar da lenha que vai amansando as agruras da geada exterior relembra ao "Cousador" que ainda decorrerá mais um movimento de rotação, mesmo que o cu nada tenha a ver com as calças... Afinal, só amanhã termina o ano do "roubar, scut e tolhe"... Dadas as circunstâncias, não me apetece enveredar pela retrospectividade. Mais não seja, rima a coisa com idade e a cabeleira tingida aqui e acolá por alvos sinais faz questão de relembrar que a trintena do milénio já lá vai. Dê-se eufemística preferência à visão da alvura como apelo a uma subjectiva visão de charme... Adiante, que se interrompeu o dislate com precoces acordes de Cantares das Janeiras, grupo de venturosos resistentes à descida do mercúrio.
O aperitivo suplantou o tempero do voraz apetite de quem se aprestava para deglutir um azedo acompanhado por batatas e grelos. Agregada a fome com a vontade de comer, fustigada a presença com ramos de essência a terra, arrepiou-se a alma, certo é, que isto de revivescências tem que se lhe diga, e os lacrimais quase soltaram um grito húmido que se ficou pela lubrificação das pálpebras. De repente, esqueci-me da barragem do Tua, do helicóptero do INEM, da fantasmagórica imagem do "pouca-terra", das estações que definham, da saúde que não temos, do orçamento que - também - não temos. E senti o afago deste incomensurável abraço do Mar de Pedras que reprime as ténues saudades dos finais de tarde Atlânticos. Há retornos assim, manchados a inocuidade, talvez seja a demência em contraponto ao despovoamento, a crença na terra da oportunidade, onde gente vê as pedras em depauperação, impropérios do tempo, vêem os loucos a seiva da vida. E está o "bandulho" empanturrado a desejo, estava o azedo às portas da sublimação e os grelos de "cancelos" abertos à gula. O azeite, "tralhado" no seu repouso de Inverno, áureas gotas que perfumam os frutos da terra, uma pincelada de "binagre caseirinho" para enfeitar o gosto, e a excitação dos sentidos pelas coisas simples. sábado, 24 de dezembro de 2011
Boas Festas Macedenses
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
Ventos de mudança
O irrevogável apelo das pedras, de sempre sentido, retorno a materno ventre, afago do âmnio, como se necessitasse a alma de permanente polimento. Talvez incremente o brilho ou seja a luz ocultada por escuro túnel, saberão os deuses descarnar o porvir... Rasguem-se folhas de anciã sapiência, já o afirmam os antigos, quem muda Deus ajuda... É um analgésico dos desconfortos da fadiga, cataplasma que aplaca as dores da distância, é o futuro já ali ao lado, ao virar de arredondadas esquinas do Marão. Trás-os-Montes entranha-se, paradoxos de ópio injectado sem prévia massagem, sente-se apenas a picada da essência, e gosta-se, gosta-se, gosta-se e gosta-se.
Depois, bem... Depois fica a léxica destreza amputada, insondáveis dicionários que abarquem tamanho acervo de cousas sentidas. Este sentir não se decifra, sinonímia ausente, volatilização dos signos, ou, proezas tamanhas, talvez seja o inacabado retrato de universal linguajar, simultaneamente entendível e indecifrável. É uma doença sem desagradáveis sintomas para lá da saudade, terapêutica esboçada a divinização das pedras, a veneração do xisto, a endeusamento da terra. Trás-os-Montes é um santuário de altares muitos, fusões de céu e serra, fado entoado a estranhos acordes de parelhas da memória, algazarras do silêncio, paz soçobrada pelo encantamento dos sentidos. É o êxtase, se tal existe, peles vincadas a agrestia, faces enrugadas pelo estio, despudor do tempo, marcas de arados de gelo e neve, e o paraíso, meu Deus, o paraíso! Escondido atrás de montes, ocultado por detrás de giestal do esquecimento, arredado da ribalta das luzes, quase omisso de turísticos roteiros. Para alguns é o chamamento de pétro útero, sonata ao luar, composição de inaudíveis sons que adoçam os tímpanos, peças de um teatro dos sonhos. Há certos vícios que não se explicam, gritam-se, espalham-se através da brisa das coisas simples, navegações sem alísios ventos ao sabor das marés do orgulho. Não sei o que sentiria se fosse súbdito de outro Reino que não o Maravilhoso. Mas sei o que sinto por ser filho das pedras, enteado do Azibo, bastardo de Bornes. É a intransmissível genética do xisto, carregada numa qualquer translocação que constrangeu a orquestra a tocar uma afinada sinfonia de ventos de mudança. A menina dança?...
domingo, 27 de novembro de 2011
O arroz da D. Joaquina - Volúpias de dominicais pretéritos
Despertava o franzino imberbe, alheado ainda de lipídicas acumulações, vulgar pau de virar tripas, atlético porém, sublinhe-se, envolto em estremunhado olhar, destro óculo dessintonizado com oposto sestro, e o quase irreprimível desejo de permanecer no aconchego do ninho, embrulhado em ásperos, mas reconfortantes, lençóis de flanela. A atmosfera tresandava a Inverno nessas dominicais alvoradas, o bafo pulmonar decorava o feixe de luz que o candeeiro irradiava, infantis jogos fantasmagóricos da ingenuidade. Do exterior chegavam rumores da agrestia de Bornes, galinácea algazarra omissa e os suídeos em inusitado silêncio. Estranheza pela ausência de animal azáfama, tomava o petiz de assalto a varanda, perscrutar de horizontes com a velhinha figueira vergada pelo peso dos anos e as oliveiras do "Patchalica" em ranger de dentes, amparando com invulgar estoicismo a fina película de "carambelo" que lhes enrugava o fruto.
Fugaz arrepio da espinha, extremidades enregeladas, era Domingo! Era dia de enfarruscar o sossego do patriarca, camuflava-se o moço enquanto desatava em heróica correria direccionando a voracidade de mimos para o quarto no lado oposto. Invariavelmente, era recebido com incomparável sorriso, malícia de confronto com a progenitora, cúmplice abraço protector. De soslaio, emboscado no leito paterno, espreitava as figuras do "Comércio do Porto" ou do semanário "Tempo", enquanto o aparelho debitava aquela estridência de imaterialidade patrimonial da humanidade ou, alternativas outras, sentia uma náusea provocada por alienígenas musicalidades de não menos alienígenas autores - "Berdi", "Putchini", "Mozarte" ou "Betoben" - cujos nomes esquisitos não conseguira ainda decifrar. O desfilar orquestral feria uns tímpanos mais habituados ao "Atirei com o pau ao gato" ou, épocas obliquamente douradas, heroicizada era a conterraneidade do "Arrebita", do "Carimbó Português" ou do "Bate o pé"...
Tempos outros em que o país parava para deglutir os "Festivais" da Tonicha, do Mendes, do Carvalho ou do Tordo... A matriarcal voz de comando interrompia o efémero éden, anunciando o "mata-bitcho" servido, inesquecíveis "carólos" de pão centeio atormentados pelas brasas, afagados pela textura de lácteo derivado que os amansava com gordurosa relíquia. Era hora de transferência para o vetusto "scano", pendente mesa do improviso, pratos recheados a inconfundíveis e eternos aromas a torrada, o café do pote de ferro a contribuir para aromática orgia. Dispensava o leite - ah pois!, dispensava o leite - até os protestos confundirem a irredutibilidade do rapaz. E, abono da verdade, a espessa camada que preenchia a superfície da leiteira era irresistível! Emoldurava-se o alvo líquido a pó de cacau, incessante rodopio de frustradas tentativas de provocar o desaparecimento da nata. Soava a estranha magia, talvez fossem efeitos de calor emanado pelo "strafogueiro", ou contivesse alguma druídica poção o "caldeiro da bianda" pendurado nos "lares".
Viriam as pressas, afinal era Domingo, dia do Senhor. Empertigado em domingueiro traje, "proa" da mãe, botas aprumadas com a verticalidade dos plátanos que engalanavam o terreiro, duo em procissão, talvez ao cortejo aportassem a D. Marquinhas, a D. Deolinda, o Sr. Pinheiro, ou ocasional vulto de dominical romaria à Igreja de S. Pedro. Na serenidade da Avenida das Flautas - jocosa corrupção de idos tempos da toponimicamente intragável Alexandre Herculano - era o centro transposto, a farmácia do Dr. Bento Marques a um lado, a sapataria do "Fernandico" a outro, a tabacaria do "Maldonado" de seguida. Mentais trajectos, não sem antes cumprir o ritual de verificação do termómetro da "Singer", haveria de chegar a "Casa do Pobo", a "Albertina Mendonça", o "Armando Mendes" e a saudosa "Cobrinha", respeitável senhora de infatigáveis respostas a impropérios da miudagem.
A estupefacção de assistir à aspiração de suculentos grãos, "tchitcha" quase esquecida, o rapaz entrava em indómito processo de voraz apetite apenas na presença dos vapores emanados daquela travessa de arroz, o "arroz da D. Joaquina"... Alternativas outras a risco de culinárias monotonias, avesso era o "puto" às ditas, ficava por vezes o "Pica-Pau" com as graças, glândulas salivares em desalinho pelo aspecto do magnífico "Bife na Caçarola". E havia sempre uma incursão ao "Café Central", parietais pinturas irrepreensíveis, ficava o petiz deslumbrado pela recriação da lavoura, figuras que o tempo e a modernidade apagaram e a memória não obliterou. Depois, a cadência de futebolístico calendário o permitisse, chegaria a hora de rumar ao velhinho campo pelado. Era a euforia das correrias do "Manel Fininho" ou das defesas do "Pardal", das bolas que perdiam o tino e voavam para as casas dos juízes, do desfilar de insultos às mães dos jogadores adversários e ao árbitro, os incessantes gritos de "Macedo, Macedo"... E a inesquecível figura do "Sô Capela" sempre "en garde" com o seu inseparável guarda-chuva... Eram volúpias de dominicais pretéritos...
sábado, 19 de novembro de 2011
Francolino Gonçalves - Purificações de alma nordestina
Vão influindo os vitupérios à génese nesta singular forma de colocar os periscópios da alma a vasculhar o cromossoma das pedras, estranhos degraus de expiação dos pecados, paulatinos dias de vergastadas na crença, inexpugnabilidade de xísticas muralhas atrofiada. Dobra o costado do orgulho com ignominiosas afrontas dos que, fé na ingenuidade, deveriam ter a epiderme sulcada a arribas do Douro, a neve de Montesinho ou a estio do Tua.
Onde residirá a aberração cromossómica? Constará do mapa genético a existência de um novo haplogrupo nunca anunciado? Terá tido o Sahelanthropus uma paralela evolução? Quase inadvertidamente "scamoutchei as fuças" contra esta opacidade infame de ver processos de "bentas a jogar ó rou-rou" onde os protagonistas são, tal como eu, descendentes do reino pétreo. E não me conformo com a resignação de ver o meu Nordeste afrontado por grotescas piadas da razão... «Entom, pareuce que os bãodidos som quaise tuodos da tua terra, carago!»... Lá vou dizendo que a degeneração se terá devido a uma qualquer distracção, um mergulho no Mar da Palha talvez, ou terão os corredores de al-Lixbûnâ estranhos efeitos na translocação genética de alguns... "Racosam-se" os anéis e fiquem os dedos, apetece-me panegiricar, soltar loas ao vento, glorificar a excelência abafando a mediocridade. Afinal, neste assalto às paredes do orgulho, parece que o indigenismo macedense permanece em imaculado estado, o berço de tentáculos de fiscais fraudes, traficadas influências ou alvos capitais lá mais para o setentrião, oriente e ocidente irmanados, ficam meridionais principados entregues à bastardia. Desvirginados nunca sejam os filhos do concelho em forma de bota...
Honra ao Gonçalves de Macedo, ao Martins de Chacim, ao Campos Vergueiro, ao Rocha Cabral, ao Almeida Pessanha, ao Pereira do Lago, ao Moura Pegado, ao Valfredo Pires, ao Figueiredo Sarmento, ao Pimenta Rêgo. Honra a tantos outros, os vivos, nados por inestimável fecundação do xisto pela brisa de Bornes, Pires Cabral à cabeça. Nesta exaltação da proveniência, olhe-se com redobrado interesse para o prestígio que flutua neste mar de indignadas águas. De repente, a Academia Pedro Hispano lavrou o impensável, na curta existência da sua anual decisão de premiar a excelência de culturais figuras, impalpável geminação de Grijó e Corujas, par de consecutivos anos com a conterraneidade em destaque.
No ano transacto foi Adriano Moreira o galardoado, ímpar figura que apresentações dispensa, Grijó no mapa, ocultem-se controversas posturas, desvalorizem-se discordâncias, menosprezem-se concordâncias também, em sinopse de filho da terra, bailem apenas os genes das pedras. Segue-se-lhe Frei Francolino José Gonçalves, Corujas em alta por filho seu, Homem de religiosas letras, incontornável figura de bíblicas interpretações, insigne exegeta da Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém, membro da Comissão Bíblica Pontifícia. Creia-se nos louváveis encómios da crítica, alvoroço dos genes, e o mundial perito-mor no Profeta Isaías é filho de fornada de macedense ascendência. E acabou de ser galardoado com invulgar reconhecimento pátrio... É pouco? É muito? A este filho da terra, também, nesta convulsão de errantes personagens que desvirtuam a essência, doce compensação para a amargura, irradiado orgulho com proveniência no centro de Nordestina Pátria-Mãe, fica esta desmesurada algazarra dos genes, estranho bailado este de passos trocados, imaginária gaita-de-foles a compassar a dança em ritmos da ancestralidade...
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