Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



sábado, 7 de janeiro de 2012

Bombeiros, "baribis" e sirenes

Neste regabofe de Reis, surpresas de Janeiras cantadas, grupos de afinadas vozes em louvores ao Menino, deparo-me com a desafinação de penhoradas contas a uma corporação que, regressões feitas, faz parte de diversos capítulos de uma meninice pautada por deslumbramentos muitos por aquela valente gente que morava do outro lado do Toural. Esta incapacidade para perceber o imperceptível remete-me para um catatónico estado, involuntárias escolhas perante o abismo dos "Voluntários". Talvez entenda, ou talvez o entendimento se resuma à resignação da perplexidade, contas feitas, fica esta algia da alma sem analgésico que lhe valha. Serão os grupelhos, Senhores, serão estas estranhas competições para um nunca inventado "Guiness" de umbigos, mal amputados cordões, quiçá, ou a amálgama de volúpias da interioridade, que desprezo o juízo de valores em detrimento do dito de facto. E ouço as vozes, ou leio-as, estocada para acolá, retaliação para "acoli", e fica-me esta apetência para recordar os saudosos tempos do "Baribi". Morava à distância de uma estridência da sirene, esbugalhados sentidos em alerta pela difamação do silêncio. Se à noite fosse, despertavam-se os lençóis em algazarra de nocturno choro do verdugo da pacatez, calçava-se o que à mão estivesse, ou ao pé para mais correcto ser, atravessava-se o terreiro em direcção à casa dos padrinhos Venceslaus, percorria-se o bréu na companhia de exaltados vizinhos, só para saber onde era o motivo do alarde. Poderia a obscenidade do tempo decorar-se a desgraça lá para os lados dos familiares de Lamas, ou fosse uma daquelas raras partidas de quem gostava de massacrar o descanso alheio. Fosse o que fosse, lá estaria o Moutcho, o Tchico Noronha ou o Celeirós, e outros saudosos que a passagem do tempo se encarregou de apenas lhes recordar as agitadas faces. Mas estavam lá, os mesmos de sempre, os "Voluntários" à força da carolice de um inexplicável sentido de dever. Cheguei a sonhar fazer parte da corporação, mais não fosse integrando-me como manejador de bombos na fanfarra. Nunca cumpri o dever, para lá de umas noites em claro num Verão dos anos 80 a servir de receptáculo às comunicações de desgraças de um qualquer centro coordenador da região. Noites em que, na insistência da monotonia de cinco horas madrugada fora, a fanfarronice de "teenager" conduzia a alguns excessos comunicativos, irrompendo pela paz nocturna com alguns disparates via rádio. Havia alguns motoristas de ambulância que apreciavam a quebra do isolamento pelas deterioradas estradas de alcatrão deste recanto Nordeste. Outros havia que proferiam inenarráveis impropérios à audácia do imberbe que se aventurava a mobilizar a imaginação para obter um pouco mais de vida que a presença de inertes ambulâncias ou carros de combate a incêndios no quartel da Alexandre Herculano. Mesmo com o companheiro de turno que alternava as horas de sono numa cama mais desconfortável que os desconfortáveis assentos das viaturas, a solidão marcava o campasso das noites. De quando em vez, quebrava-se a pretensa privacidade de algumas comunicações em vernáculo linguajar, alertando os distantes comparsas com sonoridades de forçadas eructações, ou limitava-se o inusitado despertar a soltar umas sonoras gargalhadas com as anedóticas conversas que iam penetrando nos auditivos canais. Passou o tempo, mas não passou o respeito e a admiração pelos Homens que, um dia, repetidos alvoroços, se encarregaram de apagar os vómitos de chama que a chaminé lá de casa se resolveu a cuspir. Coisa de pouca monta, escassos foram os prejuízos, de contrário sentido ficou a perplexidade de ver aqueles valentes a treparam pelo telhado para abafar a infernal intempérie. Hoje, estão os heróis penhorados, espero que não entre o expirador de fumos da casa em erupção, dado sou a vertigens e herói não sou... Mas sou solidário, morra até a culpa solteira, desconhecedor que sou dos candidatos a João Ratão, que se amanhem em intestinas disputas enquanto definhando vai a Carochinha. Empurra para lá, puxa para cá, não se extingue esta chama de não me resignar a ver os "meus" Voluntários de pneus e combustíveis à avessas. Unam-se vontades, discórdias se desatem, amanhã poderá a rifa sair aos que se digladiam. De repente, foi a memória assaltada pelas fugas ao "Bomba", o "cão dos Bombeiros", imponente pastor alemão que aterrorizava, apenas pela sua presença, as peripécias de um bando de pardais à solta no Toural. Um dia, qual indomável trepador sem descendente sentido, apenas desci do tejadilho de uma camioneta quando o saudoso "Buja", incansável tratador e companheiro do "Bomba", conseguiu acalmar a animosidade daquela dentadura canina que, por pouco, não me constrangeu a "mejar-me pur as ciroulas abaixo"... Em jeito de compensação, fui bafejado um dia pela glória de entrar no revolucionário "Baribi"... Senti-me grande, sinto-me hoje pequeno... Salvem os Voluntários...  

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Contra-corrente

Seguisse a pança atulhada em rabanadas o normal processo digestivo e estariam as Cousas a regurgitar votos de próspero ano novo, pleno de felicidade, saúde e quejandos. Subitamente, o enternecedor crepitar da lenha que vai amansando as agruras da geada exterior relembra ao "Cousador" que ainda decorrerá mais um movimento de rotação, mesmo que o cu nada tenha a ver com as calças... Afinal, só amanhã termina o ano do "roubar, scut e tolhe"... Dadas as circunstâncias, não me apetece enveredar pela retrospectividade. Mais não seja, rima a coisa com idade e a cabeleira tingida aqui e acolá por alvos sinais faz questão de relembrar que a trintena do milénio já lá vai. Dê-se eufemística preferência à visão da alvura como apelo a uma subjectiva visão de charme... Adiante, que se interrompeu o dislate com precoces acordes de Cantares das Janeiras, grupo de venturosos resistentes à descida do mercúrio.
O aperitivo suplantou o tempero do voraz apetite de quem se aprestava para deglutir um azedo acompanhado por batatas e grelos. Agregada a fome com a vontade de comer, fustigada a presença com ramos de essência a terra, arrepiou-se a alma, certo é, que isto de revivescências tem que se lhe diga, e os lacrimais quase soltaram um grito húmido que se ficou pela lubrificação das pálpebras. De repente, esqueci-me da barragem do Tua, do helicóptero do INEM, da fantasmagórica imagem do "pouca-terra", das estações que definham, da saúde que não temos, do orçamento que - também - não temos. E senti o afago deste incomensurável abraço do Mar de Pedras que reprime as ténues saudades dos finais de tarde Atlânticos. Há retornos assim, manchados a inocuidade, talvez seja a demência em contraponto ao despovoamento, a crença na terra da oportunidade, onde gente vê as pedras em depauperação, impropérios do tempo, vêem os loucos a seiva da vida. E está o "bandulho" empanturrado a desejo, estava o azedo às portas da sublimação e os grelos de "cancelos" abertos à gula. O azeite, "tralhado" no seu repouso de Inverno, áureas gotas que perfumam os frutos da terra, uma pincelada de "binagre caseirinho" para enfeitar o gosto, e a excitação dos sentidos pelas coisas simples. É hora de descer as "scaleiras", a prole em alvoroço, talvez a "bila" esteja desperta para a última "bolta dos tristeze" do ano, luvas a postos, "garruços" a amansar o escalpe, "bota a samarra pur o lombo que t'ingaranhas"... No exterior o ar está impregnado a lareiras em erupção, gelam-se as extremidades olfactivas, sinto-me um alienígena em busca de vida acompanhado de um trio de resistentes, ao longe ainda ecoam as vozes dos Cantadores das Janeiras... E relembro tempos idos em que os forretas eram presenteados com "Estes barbas de farelos... Não têm nada pra nos dar... Só têm uma arquinha velha... Onde os ratos vão cagar"... Efeitos da contra-corrente...

sábado, 24 de dezembro de 2011

Boas Festas Macedenses


A suave angústia que precede a Consoada ganha contornos de Inverno adornado a estio quando as raízes se transfiguram em ramos e as folhas se fundem com o fruto, planta de vegetal reino saída, telúrica forma de arrepiar ficções de centrífugas viagens onde a densidade se fragiliza pela intervenção da fresca brisa com que o Adamastor de Bornes presenteia a chegada do Menino. Está quase, folga a tristeza, brinda o "tchupão" com a entrada do melhor "strafogueiro", "afola-se pra que pegue", choram os "butelos" por casamenteiros dias de casulas muitas. O resto da família está prestes a entrar neste mundo de renovados "ô, ô, ô!", anos de vénia à tradição, sorrisos distribuídos ao sabor da correnteza de dias que tomam o sabor da eternidade, num "déjà-vu" de sentidos abraços ou repenicados beijos, emoções tomadas de assalto por um qualquer arrepio a que chamam saudade, debita ao longe o "I wish you a Merry Christmas" do Tio Sam, ou expira a portugalidade - estranho conceito misturado a diáspora de trio de "éfes" - um bafo de "A todos um bom Natá...á...á...á...al". Entretanto, fustigam-se os indutores de triglicéridos e colesterol a inferno, excitam-se salivares glândulas com filhós regadas a pecado ou polvilhadas a elos de penitência, sonhos de irresistível volúpia, indomável aroma proporcionado por rabanadas. Ao longe espreita a aletria ou o arroz-doce, ou outro qualquer coisa doce que chamamento há-de ser para infusões de cidreira ou limonete... O nível de corrosão estomacal atinge insustentáveis picos, depenica-se aqui, surripia-se acolá, não sem ecoarem os protestos de sábias mãos da eternidade. Entretanto, fiel amigo chamado, alivia-se o torpor das brasas, simulações de espaciais naves sustentadas a tripé, "põe-l'o testo pra que ferba", tragam os "trontchos de coube" e os "rábinos", coloca o aurífero líquido na mesa, que as maçãs da terra direito têm ao aconchego. Há-de o repasto ser regado a "tantinha pinga", intercalada a rega com aspersões de histórias muitas, danem-se os controlos analíticos que hoje é Dia de Consoada... BOAS FESTAS!!!

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Ventos de mudança



O irrevogável apelo das pedras, de sempre sentido, retorno a materno ventre, afago do âmnio, como se necessitasse a alma  de permanente polimento. Talvez incremente o brilho ou seja a luz ocultada por escuro túnel, saberão os deuses descarnar o porvir... Rasguem-se folhas de anciã sapiência, já o afirmam os antigos, quem muda Deus ajuda... É um analgésico dos desconfortos da fadiga, cataplasma que aplaca as dores da distância, é o futuro já ali ao lado, ao virar de arredondadas esquinas do Marão. Trás-os-Montes entranha-se, paradoxos de ópio injectado sem prévia massagem, sente-se apenas a picada da essência, e gosta-se, gosta-se, gosta-se e gosta-se. Depois, bem... Depois fica a léxica destreza amputada, insondáveis dicionários que abarquem tamanho acervo de cousas sentidas. Este sentir não se decifra, sinonímia ausente, volatilização dos signos, ou, proezas tamanhas, talvez seja o inacabado retrato de universal linguajar, simultaneamente entendível e indecifrável. É uma doença sem desagradáveis sintomas para lá da saudade, terapêutica esboçada a divinização das pedras, a veneração do xisto, a endeusamento da terra. Trás-os-Montes é um santuário de altares muitos, fusões de céu e serra, fado entoado a estranhos acordes de parelhas da memória, algazarras do silêncio, paz soçobrada pelo encantamento dos sentidos. É o êxtase, se tal existe, peles vincadas a agrestia, faces enrugadas pelo estio, despudor do tempo, marcas de arados de gelo e neve, e o paraíso, meu Deus, o paraíso! Escondido atrás de montes, ocultado por detrás de giestal do esquecimento, arredado da ribalta das luzes, quase omisso de turísticos roteiros. Para alguns é o chamamento de pétro útero, sonata ao luar, composição de inaudíveis sons que adoçam os tímpanos, peças de um teatro dos sonhos. Há certos vícios que não se explicam, gritam-se, espalham-se através da brisa das coisas simples, navegações sem alísios ventos ao sabor das marés do orgulho. Não sei o que sentiria se fosse súbdito de outro Reino que não o Maravilhoso. Mas sei o que sinto por ser filho das pedras, enteado do Azibo, bastardo de Bornes. É a intransmissível genética do xisto, carregada numa qualquer translocação que constrangeu a orquestra a tocar uma afinada sinfonia de ventos de mudança. A menina dança?...        

domingo, 27 de novembro de 2011

O arroz da D. Joaquina - Volúpias de dominicais pretéritos

Despertava o franzino imberbe, alheado ainda de lipídicas acumulações, vulgar pau de virar tripas, atlético porém, sublinhe-se, envolto em estremunhado olhar, destro óculo dessintonizado com oposto sestro, e o quase irreprimível desejo de permanecer no aconchego do ninho, embrulhado em ásperos, mas reconfortantes, lençóis de flanela. A atmosfera tresandava a Inverno nessas dominicais alvoradas, o bafo pulmonar decorava o feixe de luz que o candeeiro irradiava, infantis jogos fantasmagóricos da ingenuidade. Do exterior chegavam rumores da agrestia de Bornes, galinácea algazarra omissa e os suídeos em inusitado silêncio. Estranheza pela ausência de animal azáfama, tomava o petiz de assalto a varanda, perscrutar de horizontes com a velhinha figueira vergada pelo peso dos anos e as oliveiras do "Patchalica" em ranger de dentes, amparando com invulgar estoicismo a fina película de "carambelo" que lhes enrugava o fruto. Fugaz arrepio da espinha, extremidades enregeladas, era Domingo! Era dia de enfarruscar o sossego do patriarca, camuflava-se o moço enquanto desatava em heróica correria direccionando a voracidade de mimos para o quarto no lado oposto. Invariavelmente, era recebido com incomparável sorriso, malícia de confronto com a progenitora, cúmplice abraço protector. De soslaio, emboscado no leito paterno, espreitava as figuras do "Comércio do Porto" ou do semanário "Tempo", enquanto o aparelho debitava aquela estridência de imaterialidade patrimonial da humanidade ou, alternativas outras, sentia uma náusea provocada por alienígenas musicalidades de não menos alienígenas autores - "Berdi", "Putchini", "Mozarte" ou "Betoben" - cujos nomes esquisitos não conseguira ainda decifrar. O desfilar orquestral feria uns tímpanos mais habituados ao "Atirei com o pau ao gato" ou, épocas obliquamente douradas, heroicizada era a conterraneidade do "Arrebita", do "Carimbó Português" ou do "Bate o pé"... Tempos outros em que o país parava para deglutir os "Festivais" da Tonicha, do Mendes, do Carvalho ou do Tordo... A matriarcal voz de comando interrompia o efémero éden, anunciando o "mata-bitcho" servido, inesquecíveis "carólos" de pão centeio atormentados pelas brasas, afagados pela textura de lácteo derivado que os amansava com gordurosa relíquia. Era hora de transferência para o vetusto "scano", pendente mesa do improviso, pratos recheados a inconfundíveis e eternos aromas a torrada, o café do pote de ferro a contribuir para aromática orgia. Dispensava o leite - ah pois!, dispensava o leite - até os protestos confundirem a irredutibilidade do rapaz. E, abono da verdade, a espessa camada que preenchia a superfície da leiteira era irresistível! Emoldurava-se o alvo líquido a pó de cacau, incessante rodopio de frustradas tentativas de provocar o desaparecimento da nata. Soava a estranha magia, talvez fossem efeitos de calor emanado pelo "strafogueiro", ou contivesse alguma druídica poção o "caldeiro da bianda" pendurado nos "lares". Viriam as pressas, afinal era Domingo, dia do Senhor. Empertigado em domingueiro traje, "proa" da mãe, botas aprumadas com a verticalidade dos plátanos que engalanavam o terreiro, duo em procissão, talvez ao cortejo aportassem a D. Marquinhas, a D. Deolinda, o Sr. Pinheiro, ou ocasional vulto de dominical romaria à Igreja de S. Pedro. Na serenidade da Avenida das Flautas - jocosa corrupção de idos tempos da toponimicamente intragável Alexandre Herculano - era o centro transposto, a farmácia do Dr. Bento Marques a um lado, a sapataria do "Fernandico" a outro, a tabacaria do "Maldonado" de seguida. Mentais trajectos, não sem antes cumprir o ritual de verificação do termómetro da "Singer", haveria de chegar a "Casa do Pobo", a "Albertina Mendonça", o "Armando Mendes" e a saudosa "Cobrinha", respeitável senhora de infatigáveis respostas a impropérios da miudagem. Pecaminosas composturas em compensação, seria medalha de bom comportamento acolitar o sacerdote, velhas batalhas de correrias outras, fita da meta cortada muito antes do incontornável "Litcha" se digladiar com os sinos. Talvez um dia o S. Pedro tenha em consideração as manifestações do "puto" em eucarísticas celebrações... Culto finalizado, cumprimentos de circunstância, geral debandada, estômagos em aflitivos acordes, retrocedia o passo por idênticos caminhos em inverso percurso. Algures, lá pelo centro, haveria de estar o patriarca em solene espera, que o homem era pouco dado a públicas manifestações. Traçados destinos, escalava-se o "Monte-Mel", inebriante atmosfera de culinários efeitos, haveria a mesa de adornada ser por inconfundíveis iguarias, irrepetível arroz como só a D. Joaquina sabia confeccionar. O "arroz da D. Joaquina"... A estupefacção de assistir à aspiração de suculentos grãos, "tchitcha" quase esquecida, o rapaz entrava em indómito processo de voraz apetite apenas na presença dos vapores emanados daquela travessa de arroz, o "arroz da D. Joaquina"... Alternativas outras a risco de culinárias monotonias, avesso era o "puto" às ditas, ficava por vezes o "Pica-Pau" com as graças, glândulas salivares em desalinho pelo aspecto do magnífico "Bife na Caçarola". E havia sempre uma incursão ao "Café Central", parietais pinturas irrepreensíveis, ficava o petiz deslumbrado pela recriação da lavoura, figuras que o tempo e a modernidade apagaram e a memória não obliterou. Depois, a cadência de futebolístico calendário o permitisse, chegaria a hora de rumar ao velhinho campo pelado. Era a euforia das correrias do "Manel Fininho" ou das defesas do "Pardal", das bolas que perdiam o tino e voavam para as casas dos juízes, do desfilar de insultos às mães dos jogadores adversários e ao árbitro, os incessantes gritos de "Macedo, Macedo"... E a inesquecível figura do "Sô Capela" sempre "en garde" com o seu inseparável guarda-chuva... Eram volúpias de dominicais pretéritos...

sábado, 19 de novembro de 2011

Francolino Gonçalves - Purificações de alma nordestina

Vão influindo os vitupérios à génese nesta singular forma de colocar os periscópios da alma a vasculhar o cromossoma das pedras, estranhos degraus de expiação dos pecados, paulatinos dias de vergastadas na crença, inexpugnabilidade de xísticas muralhas atrofiada. Dobra o costado do orgulho com ignominiosas afrontas dos que, fé na ingenuidade, deveriam ter a epiderme sulcada a arribas do Douro, a neve de Montesinho ou a estio do Tua. Onde residirá a aberração cromossómica? Constará do mapa genético a existência de um novo haplogrupo nunca anunciado? Terá tido o Sahelanthropus uma paralela evolução? Quase inadvertidamente "scamoutchei as fuças" contra esta opacidade infame de ver processos de "bentas a jogar ó rou-rou" onde os protagonistas são, tal como eu, descendentes do reino pétreo. E não me conformo com a resignação de ver o meu Nordeste afrontado por grotescas piadas da razão... «Entom, pareuce que os bãodidos som quaise tuodos da tua terra, carago!»... Lá vou dizendo que a degeneração se terá devido a uma qualquer distracção, um mergulho no Mar da Palha talvez, ou terão os corredores de al-Lixbûnâ estranhos efeitos na translocação genética de alguns... "Racosam-se" os anéis e fiquem os dedos, apetece-me panegiricar, soltar loas ao vento, glorificar a excelência abafando a mediocridade. Afinal, neste assalto às paredes do orgulho, parece que o indigenismo macedense permanece em imaculado estado, o berço de tentáculos de fiscais fraudes, traficadas influências ou alvos capitais lá mais para o setentrião, oriente e ocidente irmanados, ficam meridionais principados entregues à bastardia. Desvirginados nunca sejam os filhos do concelho em forma de bota... Honra ao Gonçalves de Macedo, ao Martins de Chacim, ao Campos Vergueiro, ao Rocha Cabral, ao Almeida Pessanha, ao Pereira do Lago, ao Moura Pegado, ao Valfredo Pires, ao Figueiredo Sarmento, ao Pimenta Rêgo. Honra a tantos outros, os vivos, nados por inestimável fecundação do xisto pela brisa de Bornes, Pires Cabral à cabeça. Nesta exaltação da proveniência, olhe-se com redobrado interesse para o prestígio que flutua neste mar de indignadas águas. De repente, a Academia Pedro Hispano lavrou o impensável, na curta existência da sua anual decisão de premiar a excelência de culturais figuras, impalpável geminação de Grijó e Corujas, par de consecutivos anos com a conterraneidade em destaque. No ano transacto foi Adriano Moreira o galardoado, ímpar figura que apresentações dispensa, Grijó no mapa, ocultem-se controversas posturas, desvalorizem-se discordâncias, menosprezem-se concordâncias também, em sinopse de filho da terra, bailem apenas os genes das pedras. Segue-se-lhe Frei Francolino José Gonçalves, Corujas em alta por filho seu, Homem de religiosas letras, incontornável figura de bíblicas interpretações, insigne exegeta da Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém, membro da Comissão Bíblica Pontifícia. Creia-se nos louváveis encómios da crítica, alvoroço dos genes, e o mundial perito-mor no Profeta Isaías é filho de fornada de macedense ascendência. E acabou de ser galardoado com invulgar reconhecimento pátrio... É pouco? É muito? A este filho da terra, também, nesta convulsão de errantes personagens que desvirtuam a essência, doce compensação para a amargura, irradiado orgulho com proveniência no centro de Nordestina Pátria-Mãe, fica esta desmesurada algazarra dos genes, estranho bailado este de passos trocados, imaginária gaita-de-foles a compassar a dança em ritmos da ancestralidade...

domingo, 13 de novembro de 2011

Fermento da essência

Estranhos pesadelos estes, profecias do tempo, sinopses do futuro, talvez a soberania ganhe características aladas e se evapore, voe para lá das cordilheiras e aterre por terras outrora de Francos e Germanos. Hoje, artificiais evoluções da espécie, lembram-me os coloridos atlas onde pontificavam Checoslováquias, Jugoslávias e URSS, apanágio de dissensões por quedas de muro contrariadas, estranho continente retalhado este, sinto a invasão de hordas de Francozis e Germerquelanos, fórmulas neotribais em silenciosas cavalgadas. É um sonho apenas, fruto de ficcionais convulsões, prossegue a fuga metamorfoseado em insecto, nuvens de entomófagas plantas em perseguição. Empunham apelativos cartazes, impunes sorrisos, arregalo o olhar em desmesurada angústia ao conseguir vislumbrar um gordo "WIR SPRECHEN DEUTSCH", acompanhado a letras miúdas com um "NOUS PARLERONS FRANÇAIS"... Procuro desenfreadamente algo lavrado em "aborto" ortográfico, e nem um signo sequer, soa-me a travessia do Rio Lethes, o Lima do esquecimento. Não fossem as quase imperceptíveis aglutinações francófonas, sentir-me-ia amputado do cordão que me ligava à herança latina. Quase a despenhar-me no abismo, sou despertado pelos genes de xisto, alvoroçados com o prenúncio. Acordo do torpor, verifico que ainda consigo articular fonemas em Português, tento vestir a linguagem a traje pátrio, vermífugo para intelectuais disenterias, orgulhoso da persistência em "faCtos", numa "reCta" que me "direCciona" a pirâmides da essência, muito para cá do "EgiPto"... Ufa!!!... Afinal, tudo não terá passado de efémera insónia de um dos hemisférios cerebrais... Regressado a este pedaço à beira-mar, parte da Callaecia de idos tempos, o vento a fustigar arbóreas franças, dia de alerta laranja em contrastes de céu a cinza pintado, nesta penumbra de sarcófago do planeta quase claustrofóbica. Mas sabe bem compensar a aparente melancolia com o ruído do troar exterior em contraponto ao sossego de uns cavacos a crepitar, melomania adornada a gosto pessoal, prazeres estomacais aconchegados a assado de forno emoldurado a "castanea sativa", regados a vínico néctar dos deuses, prazenteira companhia dos que fazem de paredes macedenses refúgio... Macedo, dos Cavaleiros o foi, terra maldita de contestatárias vozes - alicerçadas razões por vezes - terra bendita para quem o tutano lhe suga a cada tentativa de amputação da distância. Neste desvario de aromas a Atlântico com desejos de homónimos do Azibo, apaziguados ânimos de fugaz incursão a vales e montes, apetece-me enaltecer a essência, vangloriar os feitos, ainda que os feitos se resumam à obliteração de inacabados túneis por tribos dos conquistados de Olisipo. Talvez sejam efeitos de propalada supremacia étnico-cultural de Túrdulos em migração... Que seja, deturpe-se o ditado, que para lá do Marão deveria mandar a unicidade dos que lá estão, acrescido mandamento aos que "proa" sentem pelo desprezo da aculturação. Será tempo de desmistificar, enalteça-se o que enaltecimento parece não ter - ou fantasiosas crenças nos vendilhões do templo. Em verdade vos digo, sinto-me tão europeu como um turco. Nesta finisterra ocidental, excêntrico extremo de estranha gente de acoplados genes de invasões muitas, não fossem celtas reminiscências de exacerbados contactos, ou vestigiais aspectos no fenótipo de presumível ascendência em suevos súbditos de Teodomiro ou visigodos partidários de Vitiza, julgar-me-ia num oceânico enclave infinitamente omitido de ocidentais cartografias, extravagâncias de ilhéu nunca descoberto. Apenas porque sou de Trás-os-Montes Oriental, terra de encantos muitos, Nordeste o dizem, lá para os lados de inacessíveis terras de "trás-do-sol-posto". E, objectivamente, que se danem lusitanistas teses paridas no desconhecimento de clássicos autores, viva a Lusitânia, mas Lusitano não sou. E viva a Callaecia também, mas de Calaico apenas terei a afinidade de ocidentais fronteiras. Viva ainda a Asturia onde incluída foi esta nordestina terra encravada nas fronteiras do esquecimento por reordenamentos do povo do Lácio. Mas, acima de tudo, viva a diferenciação de diferente ser, filhos de encavalitadas pedras, netos de montes e vales, bisnetos de direitas margens do "Durius" e de Tua e Sabor afluentes. E vivam históricas falácias de renascentistas epopeias, esqueça-se a forma como incluídos fomos no reino, exacerbem-se artificiais fronteiras de séculos muitos. Contas feitas, serei tão europeu como lusitano serei, à lusa pátria do Douro para baixo não renego, que isto de Português ser tem que se lhe diga, mas... De separatista longe estou - venham acusações muitas - num resumo à moral genética de enaltecimento da diferença. Partidário sou da existência de muitos "Amadeu Ferreira", inexpugnáveis cavaleiros da luta pela identidade. Que me perdoem os infanções da globalização, mas continuarei a dar preferência à genuinidade de "ua ráineta ou ua brabo d'smolfe" em vez de um bastante apelativo "apfelstrudel". Não regatearei encómios a um "bô butelo com casulas secas", dispensando o "saucisson d'Auvergne". Não prescindirei de um "bô trontcho de penca" relegando o "chucrute" a mero acessório ocasional... E jamais presentearei gustativas papilas com alheira recheada a galinha e pato, substituinda-a por aquela em que ancestral saber manuseia "intchedeiras co a massa de pão imbuligada em cibos de tchitcha gorda e couro, pita e parreco". Prefiro indubitavelmente "ua selada de tchítcharos" à equivalente de feijão-frade. O bacalhau sabe incomparavelmente melhor com "erbanços" do que com grão-de-bico. E hei-de persistir nesta insana forma de ter apreço por "sbarar no carambelo" ou fazer "pintcha-carneiras", ficar fascinado sempre que vejo "alustrar" enquanto cai uma "scarabanada", comer um "carólo de bola sobada" com um "cibo de lambisco"... E alegrar-me com a aparência de rugas tristes e cansadas, de gente simples que me dá um mundo distinto sempre que a visito... « - Ó carbalho que ma racontracosa, atão o lapardeiro stá infastiado? Bota cá um copo pra buber ua pinga, bai ó pipo si'u queres. E trai o presunto que stá imbarrado ó pé dos galelos. Qués a carotcha ou um carólo de cabo a rabo? Bá, abonda di o catcho do toco do picheperne que já o amandemos pró carbalhtchas. E num qués um tantinho de caldo? Olha q'é de casulas secas, q'ou bem no sei que t'im augas todo por ele»... Há, realmente, coisas fantásticas e distintas nas raízes, "or sim"?...