Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



domingo, 2 de outubro de 2011

José - Pedradas no charco do 44º Bispo de Bragança-Miranda

Tenho um grande apreço por uma rara espécie a que as gentes de terras do Tio Sam convencionaram epitetar de "mavericks" - um conceito para o qual, ao que julgo saber, não existe vocábulo equivalente na língua que foi vilipendiada por um qualquer aborto ortográfico. Um "maverick" será alguém que se destaca por trilhar caminhos inusuais, que assume o risco de não seguir os padrões habituais, que aposta na independência de pensamentos, agindo de forma intrépida para o seu próprio bem sem desvirtuar a essência de palmilhar os terrenos que contribuam, em simultâneo, para o bem alheio. Poderia estar aqui horas a fio em descritivo processo que, ainda assim, não conseguiria abarcar todo o conceito inerente ao potencial neologismo - talvez sejam limitações inerentes à não aceitação do atrás mencionado vilipêndio... Mas consigo, de indubitável forma, tipificá-lo através de um exemplo. Não um exemplo qualquer, não um daqueles espécimes que, honrarias dixit, são adornados por uma intensa graxa de cores diversas apenas porque foram elevados ao patamar de supremo pastor do rebanho do extremo nordeste do meu Reino. Prefiro vê-lo como distinta peça do rebanho, Cordeiro o é afinal, "alma mater" em masculina versão de modernos tempos, potencial "pater noster" de pródigos espíritos, líder de um exército de paz que parece ter acabado de transpôr o Rubicão proferindo uma nova versão do "alea jacta est". Soa-me a estranho esta alusão, não por do rebanho não ser, fisicamente distante, certo é, mas por tresmalhada ovelha ser por vezes, "maverick" o diria, na aparência de empertigada extremidade nasal. São as fugas ao estabelecido, rompimentos do "status quo", afinidades com posturas do quadragésimo quarto, cumplicidades com o Bispo que apreço tem por chamar o rebanho com recurso ao mel desprezando o fel. Não irei ao beija-mão, a essência não despedeçarei contra públicas manifestações, da fogueira vaidades, perdoem-me inacabadas inquisições, vassalagens de prestações muitas. Remeto-me à infâmia de presumida ausência, anonimato de roucos louvores, exaltação da diferença, chegará o dia de homenagem ao pastor que culto presta ao terreno e banal prazer de uns chutos na bola, ou de tributo prestar ao homem que, efémeros momentos, troca a mitra por distinta insígnia de Baden-Powell. Venha de lá a "canhota", ou "Sempre Alerta"... E venham também mais cinco, ou mais muitos, nos quais assumo, provisoriamente em tendência para o definitivo, me incluo. Arrojo ao patamar de humilde "grão de amendoeira", renovações de caducos mundos, resposta ao chamamento, anuência a distinto apelo, visíveis já eram as ondas, brisas de cardeais pontos na colateralidade de Novo ou Gomes, Eduardo ou Júlio, prenúncios de vagas do rejuvenescimento. Alegremente regrido, epopeia a tempos de infância de inabaláveis crenças, folga o costado de emigrado da fé, anime-se a esperança de tempos outros. Tiro-te o chapéu, José, ou tiro-lhe o chapéu, D.José Cordeiro, vingue a esperança de ver o meu mundo olhado com o inusitado, da semente nova árvore ou, controladas ambições, ramagens que amparem o torpor e raízes que sustentem o alheamento. E, já agora, pedir muito não seja, que esta transcrição do "Blogue de Grão de Amendoeira" mantenha a validade, muito para lá da sua recente publicação: «Ultimamente, a Comissão de Arte Sacra, em parceria com a Associação Terras Quentes, tem estado a promover a inventariação do património móvel. A diocese de Bragança – Miranda, lidera, a nível do país, no campo da inventariação, com mais de 11 mil peças já registadas, mostrando o seu empenho e trabalho desenvolvido e certamente que, D. José Cordeiro, continuará a dar continuidade e atenção»... A Diocese, o Nordeste Trasmontano, mais que merecer um Bispo assim, talvez precise de Homens assim. De amplas visões...

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Tesouros de Arte Sacra, a alheira de Mirandela e o vinho do Porto...

... o poder do marketing ou a sua ausência... Um dia, numa dessas passagens em relação às quais apenas nos recordamos da sua ocorrência, sem precisar datas, horas ou locais, apenas sabemos que aconteceram, algures, talvez no séc. XX ou, quem sabe, provavelmente já no XXI... Um dia, como dizia, visitei uma Feira do Fumeiro, não o impingido com selos de qualidade industrial, mas o nascido do artesanal, proveniente do acumular de empirismo de sábias mãos. Para estarrecimento da minha ignorância, no sector dedicado às alheiras, honra mirandesa às tabafeias, os espécimes que se alcandoravam ao patamar do nem sempre apelativo "mais caros" não tinham a sua origem em Mirandela! Denotando atroz desconhecimento, percorri o chamariz dos sentidos, enquanto me interrogava sobre o aparente paradoxo: as alheiras mais caras eram provenientes de Macedo de Cavaleiros! Seguiam-se-lhes no pódio as de Bragança, sendo acometido de amnésia no que respeita às detentoras do bronze. Mas não eram, seguramente, as de Mirandela... Porque essas, recordo-me, não sendo as mais baratas, ocupavam um lugar nas cercanias da cauda do pelotão. Mas então, acessos de vulgarização, as melhores alheiras, as afamadas, as supremas, não eram as de Mirandela? Ou sê-lo-iam em processo análogo ao do melhor vinho do mundo - subjectiva opinião corroborada por muitos - conhecido como do Porto mas parido na agrestia xística da meridional paisagem trasmontano-duriense? Curiosidade espicaçada, voltem-se os olhos para buscas outras, livrescas e afins, salde-se a dívida da ignorância e, judaicas metáforas de confirmação pendentes, que os foragidos da Inquisição refugiados ficaram em nordestinas terras - mais para a raia, meus caros, mais para a raia - e, a terem adulterado linguiças e salpicões, provável é que as tripas tenham tido primordial enchimento de pão e aves lá para os lados do Mirandum e não para os que ficam na quase homónima atalaia pequena. Mas não só, mas não só... Século XIX quase a finar, inauguração tinha o que agora submerso vai ser: o troço de linha férrea entre Foz-Tua e Mirandela. Dizem os anais que as alheiras ganharam inusitada fama pelo Reino (ter-se-ão empanturrado D. Luis e comparsas de tão nobre petisco na inauguração do que finado agora está?)... Dizem os mesmos que, no decurso dos anos em que Mirandela era detentora da estação de caminho-de-ferro mais setentrional da província, aí afluiam os produtores da tão sublime alheira para que a mesma chegasse aos exigentes paladares das extremidades litorais do reino. Não tardou muito a associação do topónimo aos exemplares de fumeiro... Louve-se o empenho dos da Princesa do Tua, aplauda-se o marketing associado à elevação da alheira a maravilha gastronómica. E aplauda-se, em simultâneo, o salpicão de Vinhais, o folar de Valpaços, as amêndoas de Moncorvo, o cordeiro de Bragança, a castanha da Padrela, o azeite de Murça, a posta Mirandesa, as cerejas de Afândega, o vinho de Carrazeda, a batata de Chaves... Há, até, "alóctones" Confrarias do Butelo e das Casulas merecedoras de aplausos!!! "Chlap-chlap" ao "tudo que é doutro lado", DOP, IGP, IPP (e, porque não, PQP) e Macedo tendo, efectivamente não tem... Mas, já agora, à laia dos que pouco têm por onde escolher, eleve-se a ícone gastronómico macedense o Lúcio de Escabeche, sem indicação de PPAA, que a dita Paisagem Protegida, condicionalismos geoestratégicos, vai sendo conotada - marketing dixit - com a sede distrital (diga-se, em abono da verdade, que os glóbulos macedenses se "gumitum" ao invés de darem voz a náuseas)... Quedos e mudos não ficando, deveríamos, em contingentismo, aproveitar as lacunas de preenchimento gastronómico-geográfico e elevar, em conjunto com o supracitado Lúcio de Escabeche, a "tchouriça-doce" a património da Humanidade Macedense, criando em concomitância, a "Confraria dos Tchítcharos e dos Erbanços" com a homónima do "Tchouriço da Língua e da Butcheira". Mais não fosse, dignificar-se-iam os proscritos da gastronomia "strasmuntana"... E seriam proclamados os omissos tesouros... Por menção a tesouros fazer, infâmia da alma, lembrei-me do jornal Público (afianço aos que fazem da má-língua modo de vida que não auferi um cêntimo que seja pela gratuita publicidade). O acossar da mente pelo dito periódico surgiu apenas como reflexo do muito que temos e do pouco que fazemos por esse muito que temos (será isto um pleonasmo?). Diz a publicidade que encabeça esta "sfoura scrita" que haverá 100 Tesouros da Arte Sacra Nacional. "Atão, s'há 7 Marabilhas d'Intcher o Bandulho, pur u que caralhitchas - No'Snhor me perdô - num habia d'haber 100 d'Intcher a Alma"? Neste delapidar do orgulho que grassando vai ao abrigo sabe-se lá de que vilipêndios, o tesouro que teve honras de abertura da centúria só poderá ser uma "cousa" insignificante. Será que os responsáveis do Público e do SNBCI (Secretariado Nacional para os Bens Culturais da Igreja) ensandeceram de vez? Lá é forma de inaugurar o desfile jornalístico dos ditos 100 Tesouros com uma peça proveniente do concelho macedense??? Diz a separata do Público a 22-08-2011: «O P2 inicia hoje uma série dedicada aos Tesouros da Arte Sacra Nacional»... Legenda acompanhada de uma figura familiar: a de São Miguel Arcanjo, ímpar representação do séc. XIV proveniente da Igreja de São Martinho de Vilar do Monte! Como se a heresia bastante não fosse, a 13-09-2011 é repetida a graça de proveniência no concelho macedense: é publicada uma imagem de Santo António dos Pães, do séc. XVIII, originária de Travanca! Heresia por heresia, "spitarum-se-me" os meus hereges genes macedense-trasmontanos... Não porque tenha visto algum "bitcho do outro mundo", mas tão somente porque, estranheza para alguns, das 18 digníssimas entidades que participação têm neste desfilar de distinção, uma delas é a Diocese de Bragança-Miranda, representada através do labor do inventário histórico-artístico conduzido por uma entidade demonstrativa do que melhor se faz por Macedo de Cavaleiros: a Associação Terras Quentes. Quer dizer... Apresento as minhas mais sinceras, honestas e demais "eras" e "estas" desculpas aos contestatários da distinção do parido por terras elevadas a concelho há pouco mais de 15 décadas. Tive um breve, mas intenso, colapso da alma (se é que possuidor sou da dita)... Penitencio-me pela tentativa de elevação da terra detentora dos calhaus onde fui orgulhosamente parido. Se "de Espanha nem bom vento nem bom casamento" (ainda que nutra uma certa inveja por "nuestros hermanos"), parodie-se em alternativo léxico e parece que "de Macedo nem boa brisa nem boa boda, parece tudo uma f... coisa e tal que rima com roda"... "E que fai uns indêzes de bez'im quando que se botum mim contchos e tchêos de prôa só pur u causa de terim nacido nua bila que num é milhor q'as outras mas, carbalhos que m'a racontracosum, bem m'ou finto que seija pior do q'elas"!...

sábado, 27 de agosto de 2011

As partículas da impunidade

Ocasiões há que potenciam esta, pejorativa para uns, irreprimível vontade de imergir nas saudades do saudosismo, redundâncias da alma. Não é traje a nostalgia, trata-se apenas de uma desequilibrada balança de três pratos. Na incapacidade narrativa de desenhar o espécime, pelo esquisso da irrealidade me fico, flua o imaginário num esboço de regressão temporal. Tempos houve, idos tempos não muito recuados, de despertar a respeito, e a respeito adormecer. Era injectado à nascença, como se, independentemente do género, a prole tivesse o lóbulo auricular adornado a invisível pendente. Era uma inapagável marca dos dias, subtil sinalética, entre coisas outras, de humilde vénia ao que propriedade alheia era. As parcas viaturas que circulavam por, poierentas algumas, artérias da minha "vila", detentoras não eram de alarmes, supérfluos acessórios para a pacatez. Estacionava-se o veículo, de antemão sabendo que, arcaicas manivelas rodadas, os vidros abertos seriam apenas um convite à invasão de moscas, ou outros alados seres. Sairiam com o andamento... Invariavelmente, não havia o peso do porta-chaves a corroer a algibeira: a chave de casa incrustada ficava, em diurna permanência, à vista de todos, na respectiva fechadura. E raramente, mas muito raramente, os tímpanos eram obsequiados com novas de "amigos do alheio". Hoje, melancolia da inversão proporcional, "rest in peace" ao respeito, ou "sit tibi terra levis", louvores à impunidade ou, instância última, razão tinha Lavoisier. Omitiu o químico francês o parágrafo único ao seu princípio de conservação da matéria: aplicado a humana essência, sérios riscos corre de deturpação por envenenamento dos costumes. É a corrupção dos dias, importação de sabe-se lá o quê, ou saber-se-á, será a globalização, ou desmesurado incremento de egocêntricos umbigos? É o capitalismo! - vocifera uma ala! É a anarquia! - protesta outra. É a sociedade! - outra clamará... Entretanto, incriminem-se policiais forças... "- Atão o sacana do polícia infiou ua lostra no bandido"? PONHA-SE A FERROS O POLÍCIA!!! "- Bô, e o bandido o que fezu"? NADA, SEGURAMENTE, PARA LÁ DE SER VÍTIMA DA SOCIEDADE... "- Roubou-l'o ouro à Ti Maria Miquinhas, indrominou o Ti Tonho Mouco, racoseu-le a reforminha e inda le botou as manápulas às goelas, q'o home stá tchêo de maçaduras no p'zcoço. E pra mangar co a gente inda se pôsu a méjar no adro da igreja"... COISA POUCA... "- E já foi acaçado"? TALVEZ... "- Dixo-mo o mou q'era o Tchico Aldrúbias, queitado. Tamém, o que querium? O pai obrigabó a ir prá escola pra ber se se fazia home. Dás bezes inda le punha ua aixada nas mãos pra q'aprendesse a num andar à boa baiela. Munto sofreu o indêze. Era um bô rapaze, nunc'às minhas bistinhas o birum trabucar, morreu-l'o pai quando l'sbarou a carroça das burras pur'a ribanceira abaixo. Foi a sorte do Tchico! Depeis do enterro num boltou a alapar o sim-senhôre nos motchos da scola. A malbada da mãe ind'ó queria botar áprender ua arte... Queitadinho do Tchico, depeis d'ua bida álombar co d'zprezo da sociedade, ind'ó querim infiar nos Corrécios! Sim uas mines ou uas cigarradas, sequera! E aparecesse-me que nim têm trabisão, nim intrenet nos quartos"... Entretanto, nesta metamorfose dos dias, prostituição de costumes, os "Tchico Aldrúbias" têm consciência dos "queitadinhos" que são, vítimas da sociedade, despudor dos tempos que correm. Sabem que navegam em águas de impunidade. Por isso não espanta a sucessão de vandalismo que vai assolando o que um dia era terreno sagrado, inexpugnável, inatingível, respeitável. Desta vez foi o Santuário de Santo Ambrósio, profanado, vandalizado, assaltado. Amanhã será outro, o nosso próprio santuário, quem sabe... E num qualquer depois de amanhã, ou tarde será, ou "dixo-mo o mou bruxo q'inda boltemos ós tempos de cabeças abertas ó berde"...
(NOTA: Primeira foto, autoria de Paulo Patoleia (captada no recinto de Santo Ambrósio) ; Última foto, autoria de Vale da Porca Digital)

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Reticências de abafada grandeza

Pouco dado sou a públicas homenagens. Creio na voz dos actos, acredito na sonoridade das obras. Finjo, por vezes, alhear-me da proliferação de súbitos encantamentos emoldurados a momentânea falsidade. Mas quedo-me pelo limbo do fingimento, fragrâncias de névoa, cachimbo inerte, prolongamento de tabaco com aroma a carácter (não existe à venda em tabacarias - banido de comerciais circuitos)... De privadas manifestações a subtil exteriorização sem recurso a festival, decorativos efeitos ou musical banda em alvorada, retrocedo ao degredo de um prosélito pintalgado a anátema. Por vezes, porém, não me contenho e, de exaltação em exaltação, provimento dou a esta quase vulcânica forma de enaltecimento ao que parido é por terras que deverão, um dia, ter sido calcorreadas por desenfreados Zoelas, antepassados da essência elevados a relíquia do esquecimento... Cousas outras, o direi... Chamem-se-lhes os descendentes, ou seguidores de passos, lhes chamem, que de certezas não é o mundo feito. Ou será, conveniências de passagem na esquina dos proscritos, vingue a modéstia, drenagem de terrenos aparentemente desprovidos de humidade, ou secas gotas de um estranho composto liquefeito. Abençoada abominação ao desperdício da sublimação da diferença! Perdoem-me os destinatários desta afronta aos princípios de remetimento à sobriedade. Ventos da montanha, não me contenho! É o gosto pela diferença, controverso gosto talvez, o duvido porém, que a unanimidade vai decorando almas outras, e silenciar não faço a esta súbita vontade de publicidade dar às reticências de abafada grandeza. Tem nome, duplo nome, distintos seres emparelhados a arte, pura, divina, abençoada a terra, temperada a distinta agrestia, vales e montes assolados por aroma a Trás-os-Montes, genes enraizados em xísticos solos. Cousas de inimitável voz, Kamané se proclama, Carlos Baptista o é, tela de som, catálogo de infindável arrepio... E cousas de quadros pintados a pincel de dedicação, apontadas objectivas, cores da essência, Cavaleiro, andante também, mas de caminhos com trauteadas músicas com pegadas de Valter... A voz e a imagem... Únicas... "Made in Macedo de Cavaleiros city"... http://www.youtube.com/watch?v=HEVPaUjXwaE

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

"Bô era! Atão Macedo é ua merda?"...

Assemelha-se a um pesadelo da invariabilidade dos dias. Ou talvez tudo não passe de um contrapeso à eternidade de um sonho trajado a lirismo, ressuscite-se Freud, adrenalina se inocule em Jung, ou requisição civil se imponha aos Sigmund em parceria com os Carl. Não é trampa mas defecou-a o felino (sempre soa melhor que o mais vulgar "não é merda mas cagou-a o gato")... Será uma alucinação dos dias, derivações em pasta de papel numa amálgama de difusos eucaliptos sem raízes sequer. Definitivamente, algias da alma, se é que almas há, somos um povo triste, macambúzio o dizia Junqueiro, vergado às traulitadas de quem convencimento nos deu de que a imprecação é arma de arremesso da inutilidade. A minha "vila" tem vida, por vezes, vezes outras engalanada é a foguetório de insonoridade para lá dos bandos alados que se guerreiam pelas melhores vistas sobre a Maria da Fonte e o Jardim toponimicamente marcado a luta de classes, reclusões de tempos outros que preferência têm pela omissão dos seus heróis numa qualquer gaveta do olvido. Fantasmagórica ou pejada de vida, o meu apreço por Macedo não se dilui pela insistência na volatilização, pinturas de altaneiras vozes de profecias com tonalidades a desgraça. Sorrateiramente, deixo-me envolver pela atmosfera Macedense. Ouço daqui, ausculto dali, e não fosse esta incomensurável paixão pelas raízes de xisto, arriscar-me-ia a marcar-me com um sinete de desenraizado. Pondero seriamente na consulta a um qualquer discípulo do progenitor da psicanálise. Demente devo estar, seguramente, ou terá a demência sido epitetada a valores outros que inclusão não dão à insanidade. Começo a ofegar com esta constante peregrinação de apóstatas. A cada passo que dou, a cada cadeira onde me sento, a cada inspiração deste impoluto ar, deparo-me com uma incrementada classe constituída por gente colonizada pelos ares que vêm do litoral, ou doutro telúrico espaço qualquer, desde que a léguas do vetusto "Villar de Masaedo". Aprecio particularmente os risos adornados a sarcasmo sempre que regurgito este sublime conduto com sabor a orgulho trasmontano. Soa-me a altivez decorada a hastes bovídeas ou, frequente-se a diplomacia, a mais elaborados e presunçosos chifres cervídeos. Depurações do espírito, talvez sirvam para disfarçar a impotência ou, instância última, "ignis fatuus" de proclamado pedantismo em pedestal com epígrafe "Amicos pecuniae faciunt"... Não que verdade não seja, que os euros íman são para as amizades, para degraus outros, quiçá, folga o carácter enquanto transpira a hipocrisia. Amanhã substitui-se a palmada lombar por afiado gume, que "mai fai", entretanto agucem-se viperinas estocadas de ofídeos, descanse o ego pela exaltação de pretensa maldade alheia. Oculte-se a própria inépcia na simultaneidade da vociferação da imbecilidade dos ausentes, há-de chegar o dia de vassalagem prestar aos que presenteados são com desdém. Sintomas dos dias... Aprecio esta dissolução, perversão de costumes, critique-se apenas, que as soluções são apanágio dos inexpugnáveis. E amanhã, os que hoje me falam, retribuir-me-ão com a singeleza do silêncio, numa qualquer esplanada em que a falta de amor-próprio parece falar mais alto, ou seja o pretensiosismo de um sociedade adulterada pelo conceito de "nouveau-riche", unhas calcinadas pelo ardor de trabalhos muitos, subjugadas a verniz, limadas a escuridão do pretérito. Transcrevo algo que li na edição deste mês de um exemplar da imprensa local: «O que hoje pode ler-se, nitidamente, no tecido urbano de Macedo, sobre a história de amor à cidade pode resumir-se deste modo: até 1960 Macedo foi amada pelos seus habitantes; de 1960 a 1980 foi amada pelos visitantes; de 1980 para cá deixou de ser amada.» Não arriscaria tanto, porque de 1980 para cá, ou de 1990, ou desde a viragem de milénio, não prescindi do amor à minha "vila", cidade a dizem. Mas paulatinamente me apercebo do desprezo a que os Macedenses a vão votando, tratando-a como uma manta de retalhos que talvez seja, mirando-a com o lancinante olhar de filhos pródigos. Depois ainda há um outro colapso... Em renovado recurso ao mesmo exemplar jornalístico, subscrevo inteiramente nova passagem, de novo autor: «O exercício cultural, o saber considerar e apreciar um acto de cultura, é apanágio dos povos mais evoluídos e representa um cume civilizacional protagonizado pelo homem. Sem cultura não há sociedade que evolua, não há democracia que se aguente. Sem cultura há crise, de certeza.» Qual presságio da frontalidade, sinto-me contagiado, num estranho constrangimento pela ofuscação pela realidade. Somos detentores de muito, provando pouco. Remetemos o legado entulhando-o num poço sem fundo, destituimos as pedras da realeza colocando no trono "voitures et maisons", "haus und auto", "coches y casas"... Talvez o que venha de fora seja indubitavelmente bom... Mas o que vejo cá dentro é indubitavelmente óptimo. Daí a intragabilidade da compulsão de ouvir insistentemente que "Macedo é ua merda"... É uma permanente recusa na deglutição. Se Macedo é "ua merda", aconselho os dignos apologistas de tal a irem viver para "Vila Nova de Trás da Salada". Como é exterior a Macedo, será segura e inquestionavelmente melhor... Quanto a mim, permanecerei nesta demência de acreditar que os defeitos são o primeiro passo para enaltecer as qualidades. Talvez um dia esta compulsiva paixão tenha cura. Até lá, remeto-me à insignificância desta estranha adoração pela terra que me pariu, seja ela pintada a laranja, a rosa, ou a outra qualquer cor... Cousas... Ou distintas degustações...

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Lampejos de ansiedade por Trás-os-Montes

Há locais assim, entranham-se, provocam um permanente regurgitar de saudade. Por vezes fazemos deles lana-caprina, mas é só na aparência de um quotidiano emoldurado a afazeres outros, contingências de migrante, edições diárias de acumular de uma fome que ganha proporções de monstruosidade. "Stou tchêinho de saudades de Macedo e dus mous ares stransmuntanos, c'um caralhitchas"!!! Foi só um efémero desabafo em forma de gargarejo da alma... Alivia, por instantes, o quase insuportável peso da distância, mas acalmar não faz a ânsia. Permanece o verdugo, qual atroz cumprimento de pena, sentença contra esta pregada impunidade de ter "botado tchôros ó mundo no mêo dos calhaus". É ineficaz, sei-o, mas tenho um anormal apreço por este tormento do espírito sempre que se aproxima uma incursão mais ao Reino das Fragas, Principado do Nada, Condado do Tudo. Regenera os dias, rejuvenesce o xisto que carrego nos genes, talvez seja acossado por "algu'alma do outro mundo, fique mêo spritado e tanham puri que me fazer uas mezinhas. Se calha ind'é a Maria que se desalapou da Fonte. Cmu quera"... Num breve mas intenso cerrar de pálpebras, percorre-me este arrepiante estremecimento de ubiquidade, duplo corpo com a metade de mim sentada numa qualquer esplanada da Agostinho Valente, a gémea a penar, longe sentada, incontido desejo de olhar o ponteiro dos segundos em hipersónica velocidade. Valham-me as letras... E valha-me esta aversão ao crescimento, muralha contranatura, numa volúpia dos sentidos de eterno retorno a infância nunca perdida. "Já le sinto o tcheiro ó Azibo, já se m'arregalum nas bistas co a Serra de Montemé, já se me botum os pur dentros desinquietos co a merenda na baranda do Ti Inberno, peliqueira a postos pra mais um carólo e um cibo de tchithco, ua pinga pur as goelas, um tantinho de queijo queimão e uns intremóços, seladinha de tomatos e pupinos, e tchítcharos puri, ua talhada de melão pra desinfastiar"... São os sons da terra parideira, desafinações de encantos tantos, orquestra em sinfonia de jamais inventados acordes. "Depeis, dixo-mo a intrenete - ua maringância dos cuputadores - hai uas festas por Macedo e um passêo ó luar no Azibo. E im Bregança aparece-se-me q'uns homes e uas mulheres bão fazer um triatro qualquera da Idade Mediebal no castelo"... Aproveitarei a deixa para uma visita ao Museu Abade de Baçal, exposição da ancestralidade, Ordo Zoelarvm a dizem. Correrá o tempo, ao compasso das águas do Azibo, do Sabor, do Tuela ou do Macedo. Ou de uma ribeira qualquer... O céu nocturno cobrir-se-á de ímpar beleza, concertos de grilos e noctívagos seres, algures onde a pacatez é abraçada a Nogueira e Bornes, saciada a Azibo, regada a fornalha do estio, num distinto aconchego do âmago. Como se a ternura fosse provida de regaço, e nos sentássemos no amparo de braços amputados das pedras. Ser Macedense e Trasmontano... Não se entende, não se explica, julgo nem se sentir também. Porque é sentimento a aguardar invenção de nomenclatura... Ou talvez se resuma à grandeza de uma distinta pequenez... Amanhã darei voz aos arrepios da epiderme, assim fale o tecido...


domingo, 17 de julho de 2011

IP4 - A imolação dos inocentes

Um dia despertei de uma infundada letargia. Inquietei-me com esta estranha sobrevivência à aleatoriedade de uma roleta russa pintada a bréu, cor de asfalto, cheiro a tinta de morte. Troquei de peúgas, não fosse a sacanice disfarçar-se a putrefacção, sobrepujando-se aos aromas a vilipêndio, forjados encantos trajados a sanguíneas manchas. Chamem-se os bovídeos pela nomenclatura... O IP4 foi um abjecto render de guarda, adocicado presente adornado a embrulho de veneno, cicuta injectada em venosas saliências de gente habituada a sorrir com a solenidade de procissões de migalhas. A ilusão de um engodo na aparência de um anzol dissimulado a prenúncio de desfile de destroços, óbvias e nauseabundas profecias de vozes que repousam no incómodo de endeusados seres que projectaram a morte alheia. Na inconsciência de uma poupança que vidas não vem poupando... Incúria das gentes? Adrenalínicos excessos de gente acostumada ao ostracismo, pacata populaça cujas únicas vias de comunicação se resumiam ao parentesco com as rugas cravadas em faces rasgadas a arduidade dos dias? Cometer-se-ão etílicos excessos, o afirmam iluminadas mentes que se demitem do crime apelando à impunidade? Seremos uma cambada de irredutíveis seres esboçados a irresponsabilidade? Não creio, não creio, senhores doutores... O IP4 foi uma artimanha mal engendrada, pedaço de pouco a quem nada tinha. Hoje, mortes muitas, amputações tantas, é filho de pai incógnito e a mãe é uma anónima filha da rua, puta de esquina, descendente dos desvarios de uma mal sucedida prática coital entre comunitárias verbas e aversões ao porvir. Ou talvez tenha sido apenas uma artificial inseminação lavrada a obscuro futuro... Hábitos de país à bancarrota plantado... Hão-de vir novas Vera Cruz, ou Palops outros, CEEs outras haverá, talvez o Mercosul nos aceite, ou se descubra ouro negro nas Berlengas. Instância última, por espaços nunca dantes navegados, a lusofonia colonizará Marte até novo grito do Ipiranga em alienígena vocalização... Sonhos do desenrascanço, talvez o túnel avance... Ou cesse a penitência de circular Marão acima, alheias terras a desejada A4, esventradas a insanidade de quem alternativas não pensa. É o tormento dos dias, flagelo da espera, angústia da probabilidade. Talvez a amputação não me bata à porta, extensíveis desejos, di-lo a ansiedade de ver um Reino rasgado a quase impossibilidade de frontais choques. Até lá, reze-se ou creia-se, domine-se a arte de sentidos extra, olhos atentos a impróprias sinalizações, pasme a alma pelo confronto com necessários desvios decorados a sinalética terceiro-mundista, redobrem-se cuidados, sonhe-se com risonho futuro. Alternativamente, louvem-se os réus, doseiem-se os dias a paciência, gratidão muita a atrasadas justiças. Amargas trovas da injustiça, pelem-se os "coisos", haja quem fruta tenha para irrigar, ou pruridos muitos para coçar. Mantendo superiores extremidades em permanente simbiose com o volante, e periscópios da alma em focalização de oitavo sentido. Somos ludibriados em acordes de silêncio, resignações a pentagrama musical desprovido de claves, bemol ou sustenido, sem um gemido sequer, abafados protestos de aparente inexpugnabilidade. Ouve-se uma sonata de alheados instrumentos, escuta-se uma cantata de afónica voz, sentados na poltrona do "faz de conta", em estranha aquiescência do desbaratar do pouco que sobra. Entretanto, as rotativas vão-se preenchendo a imolação dos inocentes... E não encontra a culpa véu para o casamento...