Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



terça-feira, 7 de junho de 2011

Legislativas à Macedense (Parte I)

Dissecar os resultados de umas Eleições Legislativas num âmbito concelhio poderá revelar-se enfadonha tarefa. Especialmente para todos os que, naturalmente, não nutrem particular apreço por números e, particularmente, por estatísticas e afins. O que não é o caso deste Cavaleiro Andante... Vale, essencialmente, pelas curiosidades... Para os interessados, e para uma mais detalhada informação, façam o favor de consultar http://www.legislativas2011.mj.pt/territorio-nacional.html#...

E, pois... Para não contrariar a corrente alaranjada saída destas eleições, o mapa concelhio ficou pintado a tonalidades de vitamina C. Sinais dos tempos, consequências históricas, hábitos... Hegemonia quebrada pelas pequenas, mas digníssimas, freguesias de Vilar do Monte e Santa Combinha. Se a primeira saiu pintalgada a rosa, a segunda, afinidades com a água da albufeira, ficou decorada a azul. Isolados resistentes que, por representarem apenas 1,45% do total de votantes, não beliscaram sequer a onda laranja. Mas fica-lhes o troféu da diferença... E por feita menção a total de votantes, uma reverenciada vénia aos 9.146 que "desalaparam a peidola" de casa para ir depositar a sua vontade em forma de cruzinha (ou em alternativas formas). Aos restantes 9.989 deixo o meu lamento pelo alheamento e por contribuirem para a magnífica taxa de abstenção de 52,20%, desconto feito aos abstencionistas virtuais, seja pelas contingências da ordem natural da vida, seja pela irresponsabilidade de quem deveria gerir os cadernos eleitorais de mais profícua forma. Mas adiante, que é longo o processional cortejo... Com um louvor especial para a Amendoeira, inquestionável vencedora dos direito e dever cívicos, medalha de ouro da luta anti-abstenção com uma magnífica performance de uns "míseros" 35,15% de abstencionistas (indo a prata para Vilar do Monte - 39,31% - e o bronze para Corujas com 42,53%). Nos antípodas, como já habitual vem sendo, a segunda maior freguesia do concelho em termos populacionais: Morais, com os seus inusitados 69,51% de "baldas" ao acto eleitoral. Efectivamente, este parece um fenómeno do Entroncamento, dada a persistência ao longo das últimas eleições. Senhores da Junta de Freguesia de Morais, ainda bem recentemente por aí andei às voltas e os únicos fantasmas que vi foram as pedras da igreja da Sra. do Monte. Ou talvez não... Mas, subjectivas avaliações dadas a conjecturas várias, discutíveis afinidades, divida-se o território concelhio em seis distintas regiões: o Noroeste (Lamalonga, Vilarinho de Agrochão, Arcas, Vilarinho do Monte e Ala); o Nordeste (Murçós, Espadanedo, Soutelo Mourisco, Ferreira, Edroso, Corujas, Lamas, Podence e Santa Combinha); a freguesia de Macedo; o Centro (Sesulfe, Amendoeira, Vale de Prados, Vale da Porca, Castelãos, Carrapatas e Cortiços); o Sudoeste (Burga, Bornes, Vale Benfeito, Grijó, Vilar do Monte, Olmos e Chacim); e, finalmente, o Sudeste (Salselas, Vinhas, Bagueixe, Talhinhas, Talhas, Morais, Lagoa, Lombo e Peredo). E deixem-se voar análises outras... Nada que surpreenda desmesuradamente, é nos extremos Leste (NE e SE) que o fenómeno do alheamento eleitoral é mais vincado, com taxas de abstenção que se situam entre os 57e os 58%. Já nos homólogos ocidentais, o intervalo é de 54 a 56%. É na área em redor da sede concelhia que se situam os mais baixos níveis de abstenção, com valores abaixo dos 50%, oscilando entre pouco mais de 46% na freguesia de Macedo e os quase 48% nas freguesias englobadas no apartado "Centro". Parece inegável que nas imediações do ambiente "urbano" a afluência às urnas é mais notória, cavando-se um fosso à medida que surge o afastamento da sede concelhia. Fenómeno normal da interioridade, parece ser. Mas regressemos à abstenção concelhia... Descontando o valor de "eleitores-fantasmas" que as estimativas apontam para um número a rondar os 10%, ainda assim ficar-se-ia com uma taxa de abstenção de cerca de 49,8%. Como justificar este desprezo de metade da população macedense votante por um direito conquistado pela democracia? Para lá do natural desencanto por sucessivos anos de "cauda da Europa", acrescido dos mediáticos escândalos de políticos e seus acólitos em vivência de desregrada impunidade, talvez o problema resida também nos fenómenos migratórios. Pessoalmente, conheço um grande grupo de dignos macedenses que, afastados há anos da sua terra-natal, nunca se sentiram motivados a proceder à alteração do seu recenseamento eleitoral. Serão justificante suficiente para esta rejeição democrática? Representarão uma fatia do todo, mas não de tal forma aberrante que justifiquem esse mesmo todo... Talvez seja apenas o "são todos iguais" ou um banal "a política não me interessa, eles é que se governam"... No entanto, pegando no recente platónico recurso de um amigo, «Uma das penalizações por nos recusarmos a participar na política é que acabamos por ser governados por outros piores do que nós». Porque o desinteresse pode ser manifestado por outras vias, democráticas de igual forma: os Brancos e os Nulos. Estas silenciosas formas de protesto (ou, cada vez menos, de iliteracia), não contrariando o expectável, resumem-se ao residual. Contudo, são as freguesias englobadas a Sudeste as que se destacam no bolo dos "Brancos" e dos "Nulos", superando consideravelmente a média concelhia (2,02% de votos em branco e 1,25% de votos nulos). Não é de espantar que sejam o Lombo e Lagoa a liderar o pelotão dos "Brancos" com 5,15% e 4,69% dos votos, respectivamente. Assim como não causa espanto que Talhinhas, com os seus 5,08% se destaque nos "Nulos". Maior surpresa, relativizada pela diminuta quantidade de votantes, é a notação de que o "Partido dos Votos Nulos" é a terceira força política em Soutelo Mourisco, com uns inusitados 10,26%!!! Realce ainda, pela excepção, para Ferreira e Santa Combinha, únicas freguesias onde os "Brancos" e os "Nulos" são ostracizados por completo. Como já vai a procissão longa, deixo para depois as restantes avaliações e curiosidades "coloridas"...

sexta-feira, 3 de junho de 2011

A. M. Pires Cabral, os "Esdras Harpix" e os "Tio Zé das Candeias"

Ocasionalmente, reacende-se esta vela parafinada a dinamite, rastilhos de incongruências muitas, nesta contumácia que me impele, desafortunadamente por vezes, a vociferar contra a resignada postura de auto-comiseração, como se as vergastadas no orgulho inflingissem dor naqueles que, à distância de um gabinete, abocanham sarcasticamente a destreza com que somos ludibriados a migalhas de betão e asfalto. Haverá coisa mais regeneradora que o "nacional-coitadismo" que se alcandorou ao patamar de corrente ideológica predominante neste oitavo canto? Talvez creia na bússula de António, mago de lavradas letras, diabolizados olhares de quem «vê oito direcções de mundo, oito métodos de estar. O oitavo é o Nordeste». É a metamorfose dos dias... Sinto-me acolitado por uma qualquer víbora-cornuda, druidismo militante de mágicas poções que desenvoltura dão a esta viperina língua que não se acomoda ao silêncio do rebanho. Profilaxia desta aparente precoce insanidade, o dirão os Esdras Harpix, apeteceu-me viajar até Sancirilo. «Esdras Harpix era [...] esperto mas talvez não inteligente; seguramente inculto e primário. [...] Ele era também [...] manhoso, obstinado, aventureiro, velhaco e destituído de escrúpulos - cinco qualidades [...] contra as quais a finura natural, a erudição, o lastro doutrinário e o poder de argumentação de Judas Ormin não pareciam ser infelizmente arma bastante». Paralelismos tantos de (ir)realidades muitas, náusea dos dias... "Mas atão quem me manda a mim botar serradura onde num se arramou guerdura"? Pontuais devaneios de quem vê com elevado orgulho o débito de um prémio mais ao "home de Grijó, o do sô doutôre da fermácia", nascido um dia, literal e literariamente, «Algures a Nordeste». Desta vez foi a Associação Portuguesa de Escritores que reparou no perturbador "O Porco de Erimanto" e, analgésico para esta perenidade de uma desencantada dor complexada a inverosímil inferioridade, o agraciou com o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco.
"Peis que bus-jiu digou ou, bem m'ou finto que num haija pr'aí uns inbijosos duns lapardeiros imbutchinados pur u causa disto. Pra eis era bem milhore albidarim-se de beze q'inda hai gente pur Trásdusmontes»... E, frustração dos omniscientes, no âmago de "aldeana" gente, esquecida e vilipendiada gente, há pedaços tocados a Midas, como se de uma inusitada revolução das pedras brotassem uivos da consciência, em estranhos bailados de rebeldia do ser, ornados a excelência de descendentes Zoelas, que de epopeizados Lusitanos pouco devemos carregar. Rememore-se o Tio Zé das Candeias, a singeleza em contraponto à altivez dos que tentam transfigurar o Reino Maravilhoso em Merdosa Coutada: «Carvalho, senhor Visconde! Há [...] anos com o rei na barriga, não lhe parece que já eram muito boas horas de o ter cagado?»... Não fina a excelência em António Pires Cabral, seguem-lhe trilhados caminhos os do clã, Rui e Miguel. Ornamente-se a aparência de ficção em pinturas de letras de Manuel Cardoso, Fernando Mascarenhas ou, mais recentemente, Carla Ferreira. Decore-se a tempero de fluidez poética de Virgínia do Carmo e obtém-se um literário folar agridoce com sabor a distinção. E remeto Adriano Moreira ou Raul Rego para outras andanças... "Sêmos bôs, or sim? Atão purque caralhtchas andemos sempre a spremer a lágrima pur us cantos, cmu se tibéssemus q'andar sempre ápaijar uas abantesmas?"... Sou um inconformado, certo é, nesta jornada, inglória por vezes, de elevar a essência trasmontana, macedense por inerência, a patamares onde deveria estar acolhida. Serei apodado de lírico, ingenuidade minha, roubam-me a comida os Esdras Harpix, mas não me tiram esta fome de elevação a Tio Zé das Candeias. E pode ser, viscerais resquícios de uma ancestralidade que não renego, que contágios haja a distraídas mentes. Talvez tudo não passe de um "tiro na bruma" em "tempos cruzados", ou "vertigem" do "ti manel xeringa"... Ou serei o próprio diabo... Mas não serei recordado como o que veio ao enterro. Ainda que more nesta inexpugnável chama do ventre pétreo onde moram calhaus parideiros, não soçobrando pela "proa" imensa na excelência da terra e da gente... Mesmo que a dita esteja urgentemente necessitada de cuidados paliativos, médicos os não direi. De repente, assombro de passagens outras, tomou-me de assalto a popular sabedoria do tio Águsto Cordeleiro: «Rapazes, a saúde está nisto: pés quentes, cabeça fria, cu aberto, boa urina, merda para a medicina»...

terça-feira, 31 de maio de 2011

Cousas de Morais

Não será incomum assistir ao despertar do interesse pelas raízes, sempre que delas fazemos parte. Aconteceu, recentemente, com gente de Morais... Dedico-lhes esta partilha do acumular de paixão pelo concelho que carrego nos genes... "Bem m'ou finto que num me paguim um copo, de torna-jeira, quando me der na catchimónia d'ir ber calhaus ó Monte de Morais outra bêze"! Mas adiante... Numa banalidade não chocante, será lícito começar qualquer história com "era uma vez"... A bem da retórica, não é de descartar que tudo tenha começado por ter sido uma vez, acrescida de tantas outras, e outras mais. Como tal, era uma vez um povoado, gémeo de tantos outros brotados da conquista de montes e vales, gerado provavelmente nas entranhas das tentativas de povoamento encetadas nos primórdios dos da dinastia de Borgonha. Remetam-se as lendas para o imaginário popular, ocultem-se Árabes que pouco devem ter respirado os ares do "umbigo do mundo" e avance-se no tempo, até aos Moraes, talvez, dizem-nos provindos de terras de "nuestros hermanos", Morales sendo. Dizem os nobiliários que o primeiro dos Moraes (Gonçalvus Roderici - ou Ruiz - de Moralis) vassalo foi do pai da nacionalidade (e do filho e do neto). Afirmam-no descendente dos Senhores de Soria, cidade espanhola que teve Fortún Lopez como seu primeiro Senhor. «E todo achesto confirmamos in Soria, delant el sennor Fortún López, e delant sua mullier donna Sancia, e delant sos fillos el archidiacon don García e donna Navarra e donna María». Vulgaridades muitas de medievais épocas, a "donna Maria" do documento transfigurou-se em D. Leonor Fortunes, de núpcias celebradas, mãe foi do 7º Mestre da Ordem de Calatrava, Rodrigo Garcez de seu nome, pretenso progenitor do nosso Gonçalo Rodrigues, epitetado de 1º Senhor de Morais. Porém, a História da Casa de Lara nos pinta como descendentes do dito Mestre de Calatrava, Gomez Ruiz, Fernan Ruiz, Garcia Ruiz e Leonor Ruiz, nada constando acerca da paternidade do nosso Gonçalvus Roderici (ainda que o Ruiz soe a familiar). Verdade é que não deve descartar-se uma qualquer bastardia, fenómeno banal à época. Mas o Mestre de Calatrava não circulou por estas bandas, detendo-se em incursões mais meridionais às "turras com a mouraria", bem como por terras do Reino de Aragão. Morais poderá efectivamente ter sido fundada por um descendente do Senhor de Soria. Ou talvez não... Ter-se-á passado o inverso, dando o fitotopónimo (terra de amoreiras) nomenclatura à família que o povoou? Subjectivamente, creio mais na segunda das hipóteses. O resto soa-me a histórias encantadas... Mas é inegável que os Morais assumiram algum protagonismo a partir de inícios do séc. XIII. Facto consumado pelos registos da assumpção do neto de Gonçalo Rodrigues, Ruy Martins de Moraes, ao posto de alcaide-mor de Bragança pelos finais do séc. XIII - inícios do XIV. A posição de destaque é-nos confirmada pelas Inquirições de D. Dinis, mostrando-nos o "Roy Martyns cavaleiro" como digno "filho d'algo" proprietário de duas quintas em "santandre de moraaes". E prossegue a saga do hábito de alcaidaria, já que o neto, o célebre João Afonso Pimentel, o tal que afinidades gerou com Castela e conduziu, por tal, o Mestre de Avis, o Condestável e o nosso Martim Gonçalves de Macedo a estacionamentos por terras de Castelãos, de igual forma o foi. Mas, estranhas leituras, por meados do séc. XIII, na nobilíssima freguesia de Morais parece ainda não ter sido adoptado o apóstolo André como padroeiro, constando a mesma como "parrochia sancte Marie de Moraes". Recuará a esta época a adoração à Senhora do Monte? Conjecturas, apenas... Conjectural não é observar que os donatários da excelsa paróquia nada teriam a ver com os Morais. Se acreditarmos piamente nos depoimentos dos moraenses "Michael ferndanj", "Menendus petri", "Petrus iohannis", "Andreas petri" e "Johanes martinj", a propriedade de "tota ipsa villa fuit de Petro ayrie milites et de suis germanis". Mais acrescentam que Morais era, ao tempo em que decorreu o inquérito, propriedade da descendência de Pedro Aires. Estranha esta peremptória afirmação quando, a ser verdade a proemimência dos Morais, a "villa" deveria ter como proprietários, ou o seu pretenso fundador, Gonçalo Rodrigues de Morais, ou o seu filho, Martim Gonçalves de Morais. Acresce que, para lá da família Aires, os detentores de direitos territoriais em Morais eram os Templários e os Hospitalários, por doação dos pais do conhecidíssimo Meirinho-mor de Portugal, Nuno Martins de Chacim. Por mencionar o primeiro verdadeiro "polícia do Reino", e para incrementar as dúvidas, o senhor "Andreas domingo" de Talhinhas diz-nos que metade da "villa de Moraes" era do dito meirinho-mor. Nada que espante, atentando nas usurpações territoriais do Senhor de Chacim... Coisas... Curiosidades outras, a quando remontará a fundação de Morais? Ficamos a saber, pela dita doação às Ordens do Templo e do Hospital, que Morais já teria existência segura desde o reinado de D. Afonso II (1211-1223). Mas, provavelmente, até já a teria de período anterior, pela referência, em duplicado, relativamente à igreja que "fuit facta de vetero", ou seja, já era antiga (não sendo possível, obviamente, estabelecer o quão antiga). Mas, se dúvidas houver relativamente à antiguidade, fica a saber-se que, por inícios do séc. XIV, Morais já deveria ter uma dimensão considerável para a época. Basta determo-nos na informação constante da listagem de contribuições para a guerra marítima à "mourama", por 1320: nas Igrejas correspondentes à Terra de Lampaças, a de "Santo André de Moraes" figura no terceiro lugar dessa mesma lista, apenas suplantada pela de Izeda e, tempos outros de magnificência outra, pela de Castro Roupal. Pense-se apenas que Morais foi taxada em cem libras e Macedo em trinta... E, já agora, será desta época a Igreja da Senhora do Monte? Impossível afirmá-lo, pelos dados disponíveis. Saber-se-á com segurança, pelos pouco elementos visíveis da sua configuração arquitectónica, que será um templo de características medievais-cristãs, presumivelmente construído na Baixa Idade Média. E sabe-se, ainda e provavelmente, que não lhe terá estado associado nenhum povoado, tal como é referido pela memória popular. Nas suas imediações não são visíveis quaisquer vestígios que para isso apontem, nomeadamente testemunhos de estruturas habitacionais ou resquícios de actividades associadas a um aglomerado populacional, nomeadamente cerâmicas. A hipótese interpretativa mais viável, atendendo aos paralelismos com outros povoados, residirá na implantação deste que poderá ter sido o templo principal de Morais numa área marginal ao povoado. Ao que tudo aponta, por finais do séc. XVII - inícios do XVIII, a área de culto ter-se-á deslocado para o interior do povoado. A última notícia efectiva relativa à existência de culto na Igreja da Senhora do Monte remonta a 1755, ainda que haja nota da sua existência como ermida nas Memórias Paroquiais de 1758. Mas desde o primeiro quartel do séc. XVIII se pode antever o seu progressivo abandono. Data de 1720 o aviso de um dos Visitadores, ameaçando o templo de demolição caso os mordomos não procedam às reparações devidas, colocando no seu lugar uma simples cruz para perpetuar a sua existência. É um facto que, poucos anos após lhe é dada a benesse de ser considerada um templo decente, sem necessidade de novo benzimento. No entanto, o presente é testemunha do prenúncio de morte... Falemos um pouco da actual igreja de Morais... Diz-me um notável moraense dos sete costados que nela consta a data de 1705. Nada mais normal, atentando na referência anteriormente feita de transladação do templo para o interior do povoado por finais do séc. XVII - inícios do XVIII. De facto, é ponto assente que o actual local de culto já existia, seguramente, em 1701. Creio, no entanto, que a sua fundação poderá recuar até ao último quartel do séc. XVII, pela referência a uma visita de verificação à igreja de Edroso levada a cabo em 1681 pelo Reitor de Santo André de Morais. No que respeita à data de 1705, a mesma deve referir-se, com toda a certeza à conclusão das obras necessárias no edifício, já que em 1703 é imposta aos fregueses de Morais a execução de um novo púlpito com escada em cantaria. Nesse mesmo ano o Bispo de Bragança, D. João Franco de Oliveira, efectua uma visita à igreja de Santo André (com o intuito de verificaçao das condições do templo). A configuração actual da igreja resultará das constantes alterações nela efectuadas, ao abrigo das anomalias descritas pelos diversos Visitadores da diocese. A título meramente exemplificativo, em 1716 é referido que as paredes e o tecto da capela-mor se encontram em ruínas... O resto são as memórias das pedras... E da gente... Acrescidos do particular desejo de um mecenas que ressuscite o magnífico templo ignorado pelo desprezo humano. Ouvi por lá as preces dos tetravós de Morais... Em sua memória perscrutei o solo, homenagem prestando aos resquícios plantados a pedaços de telha de meia cana que povoam as imediações da igreja da Senhora do Monte. Ou a sorte da detecção de um isolado e abençoado prego que deve ter servido de amparo a uma qualquer porta da Senhora do Monte... Guardo-os, religiosamente, para a posteridade... Partilhando-os, numa divina simbiose com as consequências da minha adorada ignorância...

sexta-feira, 27 de maio de 2011

A santidade das pedras

Repousam na execrabilidade da incúria, fustigados pela intempérie da rejeição. São pétreas árvores apodrecidas que um dia albergaram humanos frutos desenhados a alma, fontes de benta água que, diabolizada a antrópica essência, de oásis lhes resta a vegetação que oculta o deserto. Por vezes, penetrar nas entranhas deste maravilhoso reino equivale a verter secas lágrimas pelo odor a putrefacção das pedras, oco aroma a vazio do que preenchido foi. Talvez seja um asfáltico vírus potenciado a betoneiras, ou a selvajaria de um certo sonambulismo arbitrário, soporífera conexão de digestivos sistemas ao armazém do espírito, quiçá. Cosam-se os anéis, remendem-se os dedos, toque-se ao de leve a textura do abandono. Facultem-se óculos a dimensões muitas, veja-se um mundo de oculta densidade debruada a fantasia. Perscrute-se a seiva das pedras, ouça-se-lhes o silêncio, sensibilizem-se os ouvidos para o eterno gemido que paira numa ruminante tela de desprezo. Há fantasmas assim, ascetas de empilhados calhaus, teimosamente resistentes na sua periclitância de audaz verticalidade. Num passado não muito distante ouviram as preces da anónima gente de Morais ou Banreses, pagadores de promessas à Senhora do Monte ou a São Geraldo, círios acesos, corações ao alto, paramentos na exultação do divino. Um dia, humanas comodidades, ou microbianas tentações, volta-se as costas ao aconchego, fecham-se as portas, se as há, alteram-se votos, veneram-se santos outros. Talvez seja assim a espécie, ingrata, despudor dos tempos. Encerra-se um ciclo, choros de despedidas muitas, o suponho pelo secreto rumor do resistente xisto. Olho extenuado para o altivo campanário da igreja da Senhora do Monte, rosto de virtude perdida, orgulhoso do seu passsado apagado a chuva e vento, a agrestia de neve e geada, a sufoco de escaldante sol, em ténue equilíbrio de vilipendiada majestade, esquissada a patranhas de ignominiosa negligência de quem não sabe honrar os testemunhos da ancestralidade. Em Banreses saboreio, por breves instantes, o eco das orações de gente simples, talhada a campo, vergada a rugas do tempo, mãos calejadas pelo tormento de agrícola faina, domingueiros fatos de respeito ao culto. Na efemeridade de um devaneio, regresso à civilização, histórias tantas por desvendar, realidades do desrespeito por fantasmas que pacientemente aguardam por condigno féretro. Ou, ingénuos desejos de ressuscitação patrimonial, despertar um dia vassalagem prestando à musicalidade dos sinos de um indómito campanário de xisto, inexpugnável reduto de glorioso passado. Talvez me tenha ouvido a pretensa santidade das pedras...

Fugas no Reino das Pedras

Os dias embrulhado pelo afago das pedras são assim. Calmos, extirpada a canícula de final de Maio assemelhada à de Augusto mês. Sedentos, de inenarráveis amizades seladas a amenas cavaqueiras sob a protecção de um publicitário guarda-sol. Extenuantes, por indescritíveis incursões às profundezas deste mar pétreo, aparentemente esquecido pelo carácter protector da divindade... Será o olvido premeditada forma de preservar a essência, nada mais que a essência? Hoje senti-lhe o âmago... "Por mares nunca dantes navegados"... Há gente assim, que a troco de nada, insondáveis (ir)realidades da modernidade, nos presenteia com o calor de um singelo sorriso pela partilha do muito que sabe acerca das entranhas deste oceano de calhaus que me viu nascer. Talvez hoje a palavra deslumbramento seja ínfima para traduzir o encantamento dos sentidos pelo saborear da verdadeira natureza em estado virgem. Mas não só... Há disponibilidades que não se pagam, preços que existência não têm, moram apenas num estranho recanto onde vive gente que já não acreditamos existir. Mas existe... Hoje confrontei-me com essa clara evidência. Mas públicos encómios não são o meu timbre e saberão os destinatários dissecar a gratidão... Adiante, que o todo-o-terreno vociferando vai, esfaimado que está por deglutir as artérias trajadas a pó e pedra, ornadas a herbáceas testemunhas de ancestral calcorrear. Esventram-se os aromas, reduzindo-os à paixão de, paulatinos inícios, barrarem qualquer incómodo causado por desenfreados insectos arrancados à sua paz. Cheira a terra, a terra-mãe, inconfundível e inimitável perfil aromático. Repentinamente, uma espécie de orgia dos sentidos. É a raposa que, sorrateira mas curiosa, observa os invasores. São as aves de rapina que nos sobrevoam, num aéreo bailado que sabe a eternidade. É o espanto de uma cegonha que nos observa do seu altaneiro ninho. São os sons a nada, numa orquestra de silêncio quebrada a intenso chilrear de quem rasga céus e pousa, espantado, nas arbustivas formas que pintam as encostas a cores de encanto. Ou um zumbido aqui, outro acolá. E o canto da brisa a acariciar o escalpe, ou a melodia do ribeiro que corre indiferente ao cágado que nas suas águas repousa. Isto não se explica, não se mostra, não se escreve sequer. Sente-se, apenas. Sente-se quando nos damos permissão a fundirmo-nos com a terra, numa improvável fusão em que as pedras são participantes e do elenco fazem parte as silvas, os cactos, as giestas, as estevas e sei lá que mais espécies que tentam vedar-nos o passo. Sente-se quando nos embrenhamos no desconhecido, sabendo de antemão que ali está o útero onde repousámos, o ventre que há-de aconchegar-nos se perdermos o norte, a mãe-terra, a protectora, a suave ondulação que nos embala. Hoje sentei-me no regaço da mãe...

sábado, 14 de maio de 2011

Balada das rugas tristes

Gemem os velhos, de farrapos tratados, encostados a indistintas memórias de um refulgente passado, num "escano" carcomido pelos anos ou num "motcho" corroído nas articulações de que desprovido está. Sozinhos, preferencialmente sozinhos, no remanso de uma eterna solidão, esquecida gente que um dia gente foi. Vivem à sombra do tempo, abrigo possível no lento esganar, roendo a agonia em sepulcral silêncio, na rapidez de ponteiros que tardam na sua inexorável marcha. O futuro, o indesmentível futuro que a todos toca, servir-se-á em caminhos cravados a ervas daninhas, quem as limpe não há, haja quem sobreviva para as calcar a carpir de despedida última. Se gente sobrar de "companha" para derradeiras viagens... São os velhos, impiedosas rugas rasgadas a vida, dura e tormentosa vida, testemunhos de um pretérito sulcado a arados feitos de "candiólos", epiderme engelhada a "carambina", "scarabanadas" de trabalhos muitos, faces traçadas a pregas do estio. E merecem tanto carinho os velhos, os nossos velhos, odores de ancestralidade, aromas a genes de pedra. Mas são morbidamente apagados, absorvidos pela esponja de um atroz esquecimento, empurrados de encontro a paredes de xisto, também elas a aguardar um lento finar, verticalmente enfileiradas, quando calha, moribundo silêncio entrecortado pela brisa de uma estatística que lhe desperta o torpor. O "Retrato Territorial 2009" trouxe-me a evidência do que evidente já era: demograficamente, estamos a definhar de forma lenta e penosa. Em apenas uma década, tão somente um mísero par de lustros, diminuímos a densidade populacional, coisa pouca para o que pouco já era. Veja-se o decréscimo a linguajar trajado a política e descortinar-se-á o positivo: afinal, semelhante fenómeno é visível em cerca de 50% dos concelhos do território português, na sua grande maioria situados no lit... ops... interior. "Co mal dos outros bem m'ou bêjo"! Segue a procissão dos estatísticos indicadores, antes da chegada do "Censos 2011"... O concelho macedense, no período 2000-2009, viu a sua taxa de variação de crescimento natural enquadrada no fabuloso grupo dos que decresceram entre -10 e -4% (há piores)... Coisa medianamente compensada pela equivalente da componente migratória: situamo-nos no pelotão dos que cresceram entre 0 e 3,5%... A voracidade vai devorando os quadros e mapas, em busca de algo que atenue este triste sentir. Mas nada, nada de nada! A taxa de fecundidade diminuiu, o índice de envelhecimento incrementou... A proporção da população entre 0 e 14 anos teve uma variação negativa, em apenas 10 anos, situada no intervalo de -4,9 a -2,9%. Em contrapartida, a homóloga da população com idade superior a 65 anos teve uma variação positiva entre 2,6 e 4,8%. Oh inclemência dos deuses! Graves actos devem ter sido os desta humilde gente que, como todos, envelhece. Mas não assiste a rejuvenescimento, senta-se, apenas, aguardando na pacatez de uma soalheira tarde, ou amansando o tormento invernal na companhia de um "strafogueiro e uns guiços". Um dia, num não muito longínquo futuro, talvez surjam mais Banreses, frutos em bolorenta compota, vestígios de albergues de vida. Olhe-se, exemplo extremo, para os destemidos 60 habitantes que os "Censos 2001" apontavam para a excelsa freguesia de Soutelo Mourisco, "ajuntada" com Cabanas e Vilar d'Ouro. Sinta-se, na efemeridade de uma incursão vespertina, o pulsar do silêncio da serra, prenúncio de morte do qual um felino não consegue fazer-nos abstrair, pressintam-se os abutres a sobrevoar a carcaça. Estão lá, ao longe, em sádico sorriso de necrófago que aguarda pacientemente pelo concretizar da coutada... Entretanto, louvem-se os velhos, os nossos velhos, na sua silenciosa e ineficaz contestação do abandono... (Com uma enorme gratidão ao Paulo Patoleia e ao Valter Cavaleiro pela cedência dos magníficos registos fotográficos)

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Cousas de xisto

POR FAVOR, PREVIAMENTE AO VISIONAMENTO, RETIRE O SOM À "COUSAS RÁDIO"...


Há mundos que se entranham na alma...